Conforme estudado anteriormente, a multiparentalidade consiste na situação pela qual um indivíduo possui mais de um pai e/ou mais de uma mãe, uma de origem biológica e outra socioafetiva, simultaneamente, em que são produzidos efeitos jurídicos em relação a todos eles.63
Após o reconhecimento pelo mundo jurídico de que esta situação fática existe, o registro de nascimento do indivíduo será alterado, para que passe a constar todos seus pais/mães, bem como seus avôs e avós.
Maurício Cavallazzi Póvoas sustenta que apenas o reconhecimento judicial da multiparentalidade, sem a inclusão de todos os pais no registro de nascimento da criança, cria mais um problema do que uma solução.64
Nesse sentido, serão analisados na presente sessão alguns dos efeitos jurídicos, gerados a partir do estabelecimento e reconhecimento da pluriparentalidade, com ênfase naqueles da esfera do Direito de Família, uma vez que os efeitos produzidos no âmbito do Direito Sucessório serão abordados em capítulo específico.
Pois bem, é sabido que a parentalidade, independentemente da origem, produz efeitos jurídicos, tanto para os filhos, quanto para os pais e aos demais familiares que compõem o núcleo familiar.
Não poderia ser diferente nos casos em que há o reconhecimento da multiparentalidade, uma vez que a árvore genealógica sofrerá alteração e dará ao filho novos ascendentes e colaterais.65
De início, pode ser destacado o registro dos dois pais ou mães na certidão de nascimento, primeiro efeito decorrente do reconhecimento da multiparentalidade, a ser requerida em ação declaratória, nos termos do art. 97 da Lei de Registros Públicos.66
O registro de um novo pai ou mãe, sem que ocorra a exclusão dos genitores, primeiramente deve obedecer a comando sentencial, não podendo ser feito de ofício pelo Cartório.67
63
GAGLIANO, Pablo Stolze; FILHO, Rodolfo Pamplona. Novo Curso de Direito Civil: Direito de Família. 7. ed. rev. São Paulo: Saraiva, 2017. v. 6. p. 749.
64
PÓVOAS, Maurício Cavallazzi. Multiparentalidade: A possibilidade de múltipla filiação registral e seus
efeitos. 1ª ed. Florianópolis: Conceito Editorial, 2012. p. 89.
65 CASSETTARI, Christiano. Multiparentalidade e Parentalidade Socioafetiva: Efeitos Jurídicos. 2. ed. São
Paulo: Atlas, 2017. p. 113.
66
BRASIL. Lei n. 6.015. Brasília, DF: Senado Federal, 1973. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6015compilada.htm>. Acesso em 02 set. 2020.
Com isso, outro dispositivo legal a ser seguido é o art. 10 do Código Civil, que dispõe que a “averbação em registro público será feita (inciso I) das sentenças que decretarem a nulidade ou anulação do casamento, o divórcio, a separação judicial e o restabelecimento da sociedade conjugal; ou (inciso II) dos atos judiciais ou extrajudiciais que declararem ou reconhecerem a filiação”.68
Mais um fundamento seria o Provimento n. 269, e o Provimento n. 370, ambos de 2009, criados pelo Conselho Nacional de Justiça, os quais padronizaram os modelos de documentos da certidão de nascimento, de óbito e de casamento em todo território nacional.
Tais regulamentos, entretanto, ao tratar do campo de filiação nas certidões de nascimento, fez com que fosse obrigatório, porém não limitou o número de pessoas que lá poderiam figurar, tornando possível o registro de mais de um pai ou mãe.71
A partir da averbação do reconhecimento de um novo pai ou uma nova mãe, a certidão deverá conter também o registro de todos os avós e avôs daquela criança ou adolescente, uma vez que, ao ser inserida numa nova família, passa a adquirir parentesco com os irmãos, tios, primos, bisavôs e etc. daquele núcleo familiar.
Nesse sentido, caso haja a inserção de um pai/mãe socioafetivo no registro, o filho socioafetivo será obrigado a cumprir as determinações quanto aos impedimentos legais ao casamento, presentes no art. 1.521 a 1.524 do Código Civil.72
Em relação à obrigação de prestar alimentos, na multiparentalidade não se vislumbra a necessidade de alguma alteração ao que já se aplica no que diz respeito a alimentos em relações biológicas, de acordo com o art. 1.696 do Código Civil. De acordo com o dispositivo legal, o direito à prestação de alimentos é recíproco entre pais e filhos, sendo extensivo a todos os ascendentes.73
67
PARANHOS, Vinícius Lucas; MARES, Flávio Miranda. Multiparentalidade e seus efeitos na sucessão. DIREITO & JUSTIÇA: A revista da Escola de Direito da PUCRS, Porto Alegre, v. 42, n. 01, p. 52-87, jan-jun 2016. ID 21991. p. 67.
68
BRASIL, Código Civil. Brasília, DF: Senado Federal, 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm>. Acesso em 03 set. 2020.
69
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Provimento n. 2 de 27/04/2009. Disponível em: <https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/atos-normativos?documento=1311>. Acesso em: 03 set. 2020.
70
_____. Provimento n. 3 de 17/11/2009. Disponível em: <https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/atos- normativos?documento=1310>. Acesso em: 03 set. 2020.
71
PARANHOS, Vinícius Lucas; MARES, Flávio Miranda. Multiparentalidade e seus efeitos na sucessão. DIREITO & JUSTIÇA: A revista da Escola de Direito da PUCRS, Porto Alegre, v. 42, n. 01, p. 52-87, jan-jun 2016. ID 21991. p. 68.
72 BRASIL, Código Civil. Brasília, DF: Senado Federal, 2002. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm>. Acesso em 03 set. 2020.
73
_____. Brasília, DF: Senado Federal, 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm>.
Assim, na pluriparentalidade o filho terá direito a requerer alimentos de qualquer um dos pais, ou até dos avós, sejam eles biológicos ou socioafetivos. Sendo correto afirmar também que caso o pai ou mãe socioafetiva ou ascendentes em geral venham a necessitar de uma obrigação alimentar, poderá vir a pleitear ao seu filho socioafetivo.
Nesse sentido, em relação aos alimentos em favor do idoso, o art. 12 do Estatuto do Idoso dispõe que “a obrigação alimentar é solidária, podendo o idoso optar entre os prestadores”.74
Importante ressaltar a observância do binômio necessidade/possibilidade quando se trata de requerimento de prestação alimentícia. Nesse viés, destaca-se o entendimento de Cassettari sobre a discussão:
Ademais, podemos utilizar também o argumento de que o art. 1.698 do Código Civil determina que, sendo várias pessoas obrigadas a prestar alimentos, todas devem concorrer na proporção dos respectivos recursos, ou seja, se um dos pais pode suportar sozinho a pensão, deverá fazê-lo, pois para o alimentado é ruim fracionar a sua necessidade entre várias pessoas, o que aumenta o risco de inadimplemento. Para a parte final desse artigo, que estabelece a possibilidade de o réu, nesse caso, chamar as outras pessoas também obrigadas a integrar a lide, deve haver prova de que ele, genitor escolhido, não tem condições de arcar, sozinho, com o pagamento da pensão, o que justifica a divisão.75
Por fim, insta salientar que a tese de obrigação alimentar devida pelos ascendentes socioafetivos é aceita pelo Conselho da Justiça Federal, o qual editou o Enunciado 341, que dispõe que “para os fins do art. 1.696, a relação socioafetiva pode ser elemento gerador de obrigação alimentar”.76
Outro efeito jurídico gerado é o direito de guarda e regulamentação de visitas do infante, causado pelo reconhecimento da pluralidade de vínculos filiais. Acerca da guarda, o Código Civil77 afirma que a mesma é um dos atributos do poder familiar.
Quando ocorre a definição de como será a guarda e as visitas do infante, deve ser levado em consideração primordialmente seu melhor interesse, sempre tentando-se estabelecer uma convivência harmônica com as famílias daquele menor, para que os laços de afetividade sejam mantidos.78
74
BRASIL. Estatuto do Idoso. Brasília, DF: Senado Federal, 2003. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.741.htm>. Acesso em 03 set. 2020.
75
CASSETTARI, Christiano. Multiparentalidade e Parentalidade Socioafetiva: Efeitos Jurídicos. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2017. p. 222.
76
CONSELHO DA JUSTIÇA FEDERAL. Enunciado 341. Disponível em: <https://www.cjf.jus.br/enunciados/enunciado/383>. Acesso em: 03 set. 2020.
77 BRASIL, Código Civil. Brasília, DF: Senado Federal, 2002. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm>. Acesso em 03 set. 2020.
78
DIAS, Maria Berenice. Manual de Direito das Famílias. 10. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. p. 525.
A Lei n 13.05879 de 2014 modificou alguns artigos do Código Civil, passando a determinar a guarda compartilhada como regra a ser aplicada, e não mais a unilateral como anteriormente.
Nesse sentido, Dias80 afirma que ao compartilhar-se a guarda do filho, será garantido de fato que esse filho terá pais igualmente engajados aos deveres e poderes os quais derivam do poder familiar.
Assim, existindo a pluralidade de filiações, a todos os pais/mães serão atribuídas as funções acima expostas, para que o infante se desenvolva conforme seu melhor interesse, fazendo-se com que o mesmo conviva da melhor maneira com seus familiares, sejam eles socioafetivos ou biológicos.
2.3 Repercussão Geral n. 622 do Supremo Tribunal Federal e alguns