DO PRESBITERIANISMO NO BRASIL
3.4 A reforma da CI/IPB
A despeito de ter conservado traços pouco modernos e que pouco comunicam a quem não pertence à denominação religiosa e nem conhece seu capital simbólico, a logomarca da IPB foi alterada na gestão do Rev. Cunha. Não sem luta. Será que todos os outros assuntos e reformas obtiveram tratamento e resultados semelhantes aos da logomarca? Ou a vitória no caso da sarça, de importância diminuta, foi uma concessão consciente ou inconsciente para que outras reformas não viessem a acontecer? Mudar tudo de uma vez não é prática corrente de instituições tradicionais e conservadoras.
Outra vez o velho tema: reformar a constituição. Atualizar as leis da igreja para os no- vos tempos com novos desafios. Diferentemente das tentativas anteriores, a proposta contava com o apoio da CE/IPB eleita em 1994, especialmente representada pelos dois membros mais importantes na dinâmica legal do exercício do poder: o presidente e o secretário-executivo. Nunca é demais lembrar um dos pontos do então candidato Rev. Cunha:
REFORMA DO MANUAL PRESBITERIANO – CI, CD e Princípios de Liturgia – sem nenhuma idéia pré-concebida, sem imposições de quem quer que seja daremos liberdade ao povo presbiteriano através dos concílios para oferecer as propostas e sugestões que irão dar uma nova constituição para uma nova fase da Igreja (p. 6, maio 1994).
Coerente com o discurso da campanha, o presidente eleito encaminha a reforma e convoca a IPB à reflexão.
3.4.1 A primeira tentativa
Em outubro de 1994, ainda no primeiro semestre após a eleição, aproveitando o mês da Reforma Protestante, cujo nome traz inspiração ao caso, o secretário-executivo, Rev. Lopes resolve comentar o caso: "Meia centena de propostas chegaram para o SC na reunião ordinária de julho/94, propondo emendas e reformas. O plenário entendeu que, como estabelece a CI, em seu art. 141, cotejado com o art. 139, o processo de Reforma deve iniciar-se" (p. 3, out. 1994). Resolve mais: convocar a IPB a apoiar o processo, com agilidade na ação de seus con- cílios, por entender a urgência da necessidade de adaptação das leis às novas realidades da igreja. Na mesma página, lado a lado, escreve o presidente: "Mudar é preciso. Mudar para melhor. (...) Participar é preciso" (CUNHA,p. 3, out. 1994). Ainda no mesmo número do BP, pode ser lido: "Comissão de Reforma da Constituição dá seus primeiros passos" (SILVA, p. 6, out. 1994), cujo relator era o Rev. Roberto Brasileiro da Silva.
Nos dias 13 a 18 de março de 1995, a CE-SC/IPB reuniu-se ordinariamente nas depen- dências do Acampamento Cabuçu-Mackenzie, em Guarulhos-SP. Dentre suas decisões, o Doc. CXIII versa sobre a reforma do Manual Presbiteriano, no qual se fixou o dia 31 de janei- ro de 1996 como prazo definitivo para estudo do relatório por parte de todos os presbitérios no Brasil e para o encaminhamento de seu posicionamento quanto à convocação de Assembléia Constituinte. A CE-SC/IPB estabeleceu o início das discussões a respeito do assunto e tam- bém o período de sua duração.
No mês seguinte, na mensagem "Consolidando novos rumos", o Rev. Cunha escreve a respeito de muitos aspectos em que a igreja aos poucos mudava e melhorava, dentre os quais a possibilidade de reforma da CI/IPB:
(...) a acolhida à proposta de reforma da CI/IPB, CD/IPB, PL/IPB e legislação com- plementar. Esta proposta já está sendo remetida aos presbitérios para que estudem e emitam seus pareceres. Não é só dizer "sim" ou "não" é examinar e dar pareceres. É
tempo de participar. Queremos uma legislação que resulte da participação de todo nosso povo (p. 2, abr. 1995).
No mesmo número do jornal, o Rev. Wilson Emerick de Souza, filho do secretário- executivo da CE/IPB e presidente do Presbitério de Campinas (PCPN), dá a tônica da discus- são posterior. Defensor de ampla reforma da CI/IPB, ele propõe a possibilidade de uma cons- tituição democrática com maior participação e rodízio de pessoas diferentes no oficialato, in- cluindo as mulheres: "(...) quais as igrejas presbiterianas no mundo e evangélicas no Brasil que ainda não possuem mulheres ordenadas para os ministérios da Igreja?" (SOUZA, p.3, abr. 1995).19
A comparação com outras igrejas presbiterianas no mundo serve mais para enfraquecer o argumento pró-ordenação feminina do que para reforçá-lo, uma vez que as forças conserva- doras e mantenedoras do status quo são também avessas ao diálogo intra-religioso e ao inter- religioso quando se tratam de religiões irmãs que se afastaram das assim chamadas sã doutrina e ética puritana. O espírito de gueto, reforçado pelo recurso a expressões tais como família, pequeno povo, arraial, rebanho, é um dado da realidade a serviço daqueles que se apresentam como pais, líderes, pastores, provedores.
Em junho, o presidente faz um apelo: "Reformar é preciso", para explicar a necessida- de urgente de reforma da constituição e o procedimento legal exigido pela própria CI/IPB em vigência para a convocação da Constituinte. Seu texto tem por objetivo esclarecer que a con- vocação da Constituinte não significa a adoção imediata de nenhum anteprojeto preparado pelas comissões, mas a discussão dos relatórios, seguida ou não de aprovação. O que ele pede é uma chance à discussão, haja vista a eterna estratégia da oposição de desqualificar o proces- so apelando a uma possibilidade de enfraquecimento das tradições e de perda da identidade confessional.
19
A comissão nomeada para elaboração do anteprojeto de reforma do Manual Presbiteriano era formada em sua maioria por pastores e presbíteros que nunca fizeram questão de esconder suas posições em defesa da manuten- ção do status quo. O que revela no mínimo duas possibilidades: (1) a IPB pretendia uma reforma sem reforma, ou seja, alterações mínimas no texto constitucional para sossegar a ala descontente com as leis de 1950, inclusive a pessoa do presidente; (2) os nomes conservadores foram escolhidos e nomeados para garantir que o anteprojeto fosse levado adiante, até à convocação da Constituinte. Se a segunda possibilidade fizer sentido, faz sentido também que a comissão não tenha mexido em pontos cruciais do texto, apostando que as discussões seriam leva- das diretamente aos trabalhos das comissões e ao plenário da Assembléia Constituinte. Quanto aos ofícios e mi- nistérios da igreja, ficou assim a redação sem mudança substancial do Art. 24, § 2o do anteprojeto: "Para o ofício de presbítero ou de diácono serão eleitos homens maiores de 21 anos e civilmente capazes" (ANTEPROJETO de reforma do Manual Presbiteriano: apresentação, jul. 1995, p. 2) – o que valia também para o caso de pastores ou presbíteros docentes.
O presidente do Supremo Concílio de sua Igreja, que tem por função ser Moderador, está pedindo que você, meu colega, meu presbítero, vote com liberdade de consciên- cia sem acompanhar insinuações de quem quer que seja. Ao receber a carta-voto do Senhor Secretário-Executivo você deverá votar favorável ou não, em princípio, à re- forma. Os pareceres sobre o anteprojeto serão objeto de apreciação em uma outra e- tapa. Desta vez vamos, com a graça de Deus. Até a Constituinte, se Deus quiser (CUNHA, p. 3, jun. 1995).
Estão claros o desejo e o projeto do presidente do SC/IPB (moderador, como ele prefe- ria ser chamado): possibilitar a reforma da CI/IPB e contribuir historicamente para seu desen- volvimento, fincando um marco nos anais eclesiásticos da denominação. O que resta destacar do pronunciamento acima é o fato de estar recheado de citações de princípios da igreja refor- mada, sua teologia e ética, a fim de evidenciar que uma reforma de constituição não significa, nem pode significar, abandono da identidade reformada.
O texto é ilustrado com uma fotografia de João Calvino, aparentemente sem razão de ser no contexto da discussão pretendida, a não ser como a invocar a bênção do pai sobre a decisão da filha. Ao mesmo tempo em que revela, o artigo es-
conde: "sem acompanhar insinuações de quem quer que seja". Até o mês de junho de 1995, as insinuações, que percorriam as veias da igreja nacional, ainda não tinham aparecido no jornal oficial, órgão de imprensa comprometido com os ideais da cama- da dirigente da denominação, qualquer que seja ela. Em poucos meses de mandato, a oposição ao Rev. Cunha começava a mos- trar as caras e propostas.
Até a decisão última sobre o caso da reforma da CI/IPB, o BP trazia a cada mês um fó- rum de debates sobre os temas mais pungentes. Destacam-se em seguida alguns dos mais sig- nificativos e emblemáticos: a favor e contra a reforma. Por exemplo, o artigo "Reforma da CI/IPB? De novo?" do Rev. Fernando Luís Andrade de Freitas, que é favorável à reforma, apesar do título parecer um posicionamento contrária a ela.
Novamente estamos às voltas com a possibilidade de termos convocada uma Assem- bléia Constituinte para a reforma da nossa CI/IPB. Será a terceira oportunidade em 6 anos. Em julho de 1988, nos reunimos em Lavras e, infelizmente, todo o trabalho de uma semana foi em vão. Em janeiro de 1992 ficou praticamente empatado o número de Presbitérios que queriam a reforma com os contrários a ela (infelizmente a cam- panha contra a reforma, àquela altura, foi enorme, trazendo grande confusão quanto à interpretação dos princípios constitucionais que regem tais reformas), com um a- gravante: um grupo enorme de Presbitérios simplesmente se omitiu de dar sua opini- ão (triste, porém verdade), o que inviabilizou o propósito.
Agora, tendo saído uma nova proposta de convocação da Assembléia Constituinte no plenário do SC/IPB, em julho passado [Art. 141 "a" CI/IPB], formou-se uma comis-
são especial para a elaboração de um Anteprojeto de Constituição [Art.141 "b" CI/IPB], cujo Anteprojeto foi apresentado à CE/SC/IPB em sua última reunião (mar- ço/95). Esta, o tendo recebido, resolveu encaminhá-lo aos Presbitérios a fim de que estudem o Anteprojeto e enviem seus pareceres até 31 de janeiro de 1996, impreteri- velmente, à CE/SC/IPB, via SE/SC [Art.141 "c" CI/IPB] (p. 3, set. 1995).
Após os parágrafos iniciais, todo o esforço do articulista volta-se para explicar que os presbitérios não podem se calar: os pareceres devem ser enviados. O sentimento de urgência está presente no texto. Os esclarecimentos também se fazem notar: dizer sim à reforma não significa aprovar o anteprojeto, mas possibilitar a convocação da Constituinte. O Rev. Freitas termina o artigo literalmente apelando:
(...) faço um apelo aos irmãos membros dos vários Presbitérios da nossa amada IPB: não percamos esta oportunidade. Tenhamos coragem de dar o nosso consentimento, como Presbitérios, à convocação da Assembléia Constituinte e também em dar nos- sas indispensáveis contribuições à reforma da CI/IPB. O tempo é este. Agarremo-nos a ele como se fosse o único, para que de novo não voltemos a jogar dinheiro da Igre- ja ralo abaixo (p. 3, set. 1995).
Apesar dos textos contrários à reforma publicados pelo BP e da oposição enfrentada pelo presidente Rev. Cunha, que não chegava às páginas do jornal, em entrevista ao BP ele surge com a expressão "sinto um espírito novo no ar".
GC – [O primeiro ano] Passou muito rápido. Não vi o tempo passar. Vejo sinais muito positivos de despertamento na Igreja. Estamos percebendo que há uma visão de trabalho: o desafio de crescimento integral e de expansão missionária, dentro e fora do Brasil. A Conferência Missionária. As lições de discipulado. O processo de Reforma do Manual. A escolha inteligente de uma das logomarcas. E muitas outras coisas. Sinto um espírito novo no ar.
BP – Mas há vozes dissonantes, não há? Tem gente contra a Reforma e tem gente
pensando que é o senhor quem quer trocar a Sarça Ardente. E agora, como é que fica?
GC – Bom, a democracia tem o seu preço. Alguém já disse que a democracia é cara e é lenta; ainda assim, eu prefiro ficar com a democracia, com a liberdade de pensa- mento e de opinião. Respeito as vozes discordantes e não os encaro como inimigos, mas como adversários, ou seja, aqueles que têm o direito de pensar diferente. Edu- cadamente. A República tem os seus "malvadezas". Espero que na Igreja Presbiteri- ana o Brasil não exista uma caricatura deles. A Mesa não está "defendendo" a Re- forma do Manual nem o anteprojeto. Está confiando na iluminação do Espírito Santo e respeitando o direito que têm os presbitérios de examinar e, de uma forma lúcida, livre e consciente, votar. Nós confiamos nos representantes dos presbitérios, muitos são mais jovens, mas a eles compete, conosco, pensar a Igreja.
É no mínimo deselegante alguém fazer campanha contra. Pode até ter um efeito con- trário ao desejado (p. 3, out. 1995).
1996 começa com aparência de descomprometimento com causas políticas evidencia- do pelo menos no discurso oficial mensal do presidente Rev. Cunha em seu texto no BP. Na edição de janeiro ele apresenta ao povo presbiteriano um texto exótico, estranho em relação a
tudo o que se vê saindo da pena de pastores para as igrejas, "Mensagem retrospectiva e pros- pectiva para o Ano Novo" dividida em 13 formas para fazer o tempo render, com conselhos práticos para cada pessoa obter resultados positivos na vida, aproveitar melhor o tempo, mu- dar hábitos, inclusive alimentares, e outros afins (CUNHA,p. 3, jan. 1996).
A figura do presidente comprometido com transformações e preocupado com os rumos da IPB para o novo milênio que se avizinhava aparece novamente na edição de fevereiro, su- perando aquela anterior do pastor conselheiro:
No Plano de Ação da IPB, a Reforma do Manual Presbiteriano é apenas um item, e não é necessariamente o mais importante. Faz parte de um contexto que poderá a- bençoar muito a Igreja Presbiteriana do Brasil. Você é o agente dessa Reforma. O Plenário do Supremo Concílio, reunido no Instituto Mackenzie, em São Paulo, em julho de 1994, recebeu mais de 50 propostas procedentes de Presbitérios de diversas regiões do país, indicando a necessidade e a urgência de uma reforma. Chegou-se a pensar em emendas, mas as mudanças pretendidas eram tão profundas que, na since- ridade do processo histórico, só poderiam ser realizadas através de uma reforma. Os trâmites foram os constitucionais. A Mesa da CE-SC/IPB houve por bem não fazer campanha a favor nem contra, mas respeitar a consciência democrática do povo presbiteriano. O debate é salutar. A campanha escrita ou verbal é tendenciosa. Fazer campanha é querer ser a consciência do outro e pensar por ele. Os líderes presbiteri- anos são conscientes de suas responsabilidades e competentes para expressar o que suas comunidades pensam, sentem e aspiram. São suficientemente fiéis a Jesus Cris- to para optarem pelo que julguem ser o melhor para a Igreja. A Igreja precisa da i- luminação e da direção constante do Espírito Santo. Ela quer poder dizer sempre: "Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós" (Atos 15.25) (CUNHA,p. 3, fev. 1996).
Em março, o resultado: o secretário-executivo do SC/IPB já tinha em mãos os votos de todos os presbitérios que responderam à consulta. O relatório seria encaminhado à reunião ordinária CE/SC/IPB. Primeira página do BP, matéria em posição central de destaque:
[Reforma da Constituição: 88 SIM X 51 NÃO] Os 88 votos favoráveis não foram su- ficientes para permitir as mudanças. Por não alcançar o quorum mínimo fixado pela legislação – 75%, acabou prevalecendo a vontade dos 55 (sic) presbitérios que vota- ram contra a reforma da Constituição, do Código de Disciplina e dos Princípios de Liturgia da IPB (REFORMA da Constituição, p. 1, mar. 1996).20
Sem citação direta ao caso, o comentário genérico do presidente: "Tudo o que Deus faz obedece seu plano eterno" (CUNHA, p. 3, mar. 1996). Opinião do jornal, na mesma edição de março posterior à consulta aos presbitérios:
Assim é a democracia, onde o direito das minorias – quando respeitadas – tem mais peso que a vontade da maioria. É o que acaba de acontecer como resultado do pro- cesso conduzido, com serenidade, sem "parti pris", pela atual administração da Igre- ja. Dos 187 presbitérios, 88 votaram "sim" à reforma que incluiria a Constituição e, por extensão, o Código de Disciplina e os Princípios de Liturgia. Mas o artigo 141
20
A edição de abril do jornal Brasil Presbiteriano traz a relação de presbitérios com votos sobre a Constituinte (VEJA o voto do seu presbitério, p.3, abr. 1996).