2. Reforma do TEDH: O Tribunal como “Criatura Viva”
2.1 As reformas implementadas no sistema da Convenção
2.1.2 Reformas e outras práticas internas relevantes
Para além da reforma levada a cabo pelo Protocolo n.º 14, e das medidas que foram debatidas e que vieram a traduzir-se nos Protocolos n.º 15 e 16 (vide 2.1.4. infra), o Tribunal tem vindo a introduzir, de mote próprio, medidas que se traduzem em alterações no procedimento para apreciação das queixas, bem como outras práticas para fazer face aos problemas identificados. Estas iniciativas são também essencialmente motivadas por uma lógica de produtividade para alcançar os objectivos delineados. Não
179 Cf. par. 8. 180
Para mais estatísticas relativamente aos resultados produzidos pela introdução desta formação judicial, vide os documentos “Interlaken process and the Court” preparados pelo Tribunal, sobre os impactos das reformas, referentes aos anos de 2012 a 2016, disponíveis na página do Tribunal através do link http://www.echr.coe.int/Pages/home.aspx?p=basictexts/reform&c=#newComponent_1346159600649_poi nter , sob a epígrafe “Note on the Reform Work”. No que concerne aos resultados produzidos pela adopção da formação de Juiz Singular, vide também Erik FRIBERGH e Roderick LIDELL, “From Protocol
n.º 11 to 2025 — a Court in constant change”, in AAVV, El Tribunal Europeo de Derechos Humanos: Una visión desde dentro — En homenaje al Juez Josep Casadevall, Tirant lo Blanch, 2015, p. 503. 181
Vide, neste sentido, “Interlaken Process and the Court” de 2015, p. 3. 182 Ver, em maior pormenor, o Relatório Explicativo do Protocolo n.º 14, par. 73.
59 obstante algumas destas medidas serem, posteriormente, cristalizadas no Regulamento, como são oficiosamente adoptadas, furtam-se a um debate mais alargado que inclua os vários Estados Parte183.
De entre estas medidas avulta o procedimento dos acórdãos-piloto. Este procedimento, concebido pelo próprio Tribunal com o apoio do Comité de Ministros, constitui um meio para lidar com grupos de casos que suscitam uma questão idêntica e que, assim, revelam a existência de um problema estrutural. O procedimento pode ser iniciado pelo Tribunal quando se depara com um significativo número de queixas contra determinado Estado Membro derivadas da mesma causa184. Neste contexto, o Tribunal selecciona uma (ou mais) queixa(s) para apreciação — e adia o exame de todas as queixas relevando do mesmo problema —, e, quanto a essa(s), (i) determina a existência ou não de violação da Convenção, (ii) procede à identificação do problema estrutural ou sistémico detectado, bem como (iii) do tipo de medidas adequadas para o solucionar. Este será, portanto, o acórdão-piloto185 que poderá depois ser aplicado a todos os outros casos que suscitam a mesma questão186.
O procedimento serve, assim, um duplo propósito: por um lado, o de auxiliar os Estados Parte na identificação e resolução de um problema sistémico através da indicação de soluções de carácter genérico (o que pode implicar uma alteração legislativa); por outro, e em consequência do primeiro, resolver de forma célere um grande número de queixas repetitivas.
Note-se que este procedimento foi primeiramente adoptado pelo Tribunal de forma ad hoc, com base numa interpretação extensiva do artigo 46.º da CEDH. O procedimento dos acórdãos-piloto foi formalmente adoptado através da resolução do Comité de Ministros em 2004 Res(2004)3, relativa a decisões reveladoras de problemas
183
Vide, Andrew TICKELL, “More ‘efficient’ justice at the…”, op. cit., p. 206.
184 Nos termos do artigo 62.º, n.º 2, al. b), do Regulamento, o procedimento pode também ser iniciado a pedido das partes.
185 Para uma reflexão sobre as características deste tipo de acórdãos, vide Antoine B
UYSE, “Flying or
landing? The pilot judgment procedure in the changing European human rights architecture”, in AAVV, Shifting Centres of Gravity in Human Rights Protection: Rethinking Relations between the ECHR, EU, and National Legal Orders, Routledge, 2016, p. 105 e ss.
186 Para mais informações relativamente a este procedimento, ver a Factsheet emitida pela Press Unit do Tribunal relativa ao Procedimento dos Acórdãos-Piloto, disponível na página do Tribunal através do link http://www.echr.coe.int/Pages/home.aspx?p=press/factsheets&c=#n1347890855564_pointer .
60 sistémicos subjacentes187, mas veio a ser formalmente previsto no Regulamento apenas em 2011 (em 21 de Fevereiro), com a introdução do artigo 61.º188.
Nos termos do número 6 desse artigo, o procedimento permite agrupar todas as queixas às quais subjaz o mesmo problema sistémico ou estrutural e adiar a sua apreciação pelo Tribunal até que o Estado adopte as medidas necessárias para o solucionar e, nessa base, resolver os casos pendentes por acordo. São também previstas algumas garantias processuais dos requerentes que vêem o processo de apreciação da sua queixa suspenso, a saber: a informação que se impõe disponibilizar aos requerentes, ao abrigo da alínea b) do número 6; a cláusula de salvaguarda prevista, ainda que em termos vagos, na alínea c)); e ainda a norma do número 2, al. c), que prevê o tratamento prioritário do caso piloto. Não se prevê, contudo, um prazo para a prolação do acórdão- piloto, de modo a que os requerentes não fiquem demasiado tempo à espera da apreciação do seu caso189.
Este procedimento acarreta, de um lado, uma valia considerável para descongestionar o trabalho do TEDH, contribuindo para a diminuição do volume de queixas pendentes, bem como, em princípio, para uma mais célere resolução dos casos individuais. Assegura ainda, quanto à questão subjacente, a coerência da jurisprudência do Tribunal dado que esse entendimento é replicado para os casos semelhantes. No entanto, tal resultado é conseguido à custa da justiça individual traduzida na apreciação concreta e individualizada das queixas trazidas até Estrasburgo190.
O artigo 41.º do Regulamento estabelece uma directiva relativamente à ordem de
apreciação das queixas apresentadas. Até 2009, as queixas eram apreciadas e julgadas
seguindo, essencialmente, uma ordem cronológica. Nesse ano, contudo, alterou-se o preceito para passar a incluir a referência à “importância” das questões e a critérios que seriam definidos pelo próprio Tribunal. O Tribunal procedeu então a uma categorização interna de casos que passou a determinar a prioridade conferida à apreciação de cada queixa, independentemente do momento da sua recepção. Segundo o Tribunal, o
187 A proposta de adopção do procedimento dos acórdãos-piloto havia já sido discutida aquando da preparação do Protocolo n.º 14 — Cf. par. 16 do Relatório Explicativo.
188 Antoine B
UYSE refere que, como a Resolução não estabelecia o procedimento subjacente à preparação e prolação de um acórdão-piloto, o desenvolvimento desta prática foi feito através de “tentativa e erro” — “Flying or landing?...”, op. cit., p. 109 e ss.; Para alguns exemplos de acórdãos-piloto, vide Ireneu CABRAL BARRETO, A Convenção Europeia…, op. cit., p. 339.
189
A este propósito, o Grupo de Sábios propôs a introdução de prazos. — Cf. Relatório do Grupo de Sábios de 2006, par. 105.
190 Na formulação de Antoine B
UYSE, “the pilot judgment has always been in danger of losing in depth
(individual justice) what it gains in scope (dealing with larger numbers of situations).” — “Flying or landing?...”, op. cit., p. 114.
61 objectivo subjacente a esta prioritização é que os casos mais graves ou que revelem a existência de problemas de grande escala e tendentes a gerar um grande número de queixas sejam resolvidos mais rapidamente191.
No plano formal, têm sido também adoptadas regras ou medidas que pretendem aumentar a eficiência do Tribunal e acelerar a apreciação das queixas.
A 1 de Janeiro de 2014, entrou em vigor o artigo 47.º do Regulamento do Tribunal que introduziu regras formais mais rígidas para apresentar uma queixa. De acordo com esta regra, o formulário de queixa do qual não constem todas as informações elencadas no número 1, expostas de forma pertinente e suficiente, de acordo com o disposto no número 2, e acompanhada dos documentos enumerados no número 3, é rejeitado liminarmente pelo Tribunal, sem apreciação judicial (nos termos do número 5). Assim, entende-se que uma queixa estará apenas completa se cumpridos todos esses requisitos. O número 5.1 do artigo prevê uma cláusula de salvaguarda, permitindo, nos casos aí previstos, que uma queixa seja apreciada pelo Tribunal ainda que não cumpra os requisitos referidos.
Quanto ao prazo para apresentar a queixa, passou agora a prever o número 6 que, para efeitos de interrupção do prazo de seis meses, releva como data de introdução da queixa, a data de expedição do formulário de queixa, cumprindo com os requisitos descritos. A nova redacção deste artigo do Regulamento é da maior importância pois vem alterar radicalmente aquela que era a prática do TEDH até então192. Com efeito, anteriormente considerava-se bastante para interromper o prazo a introdução da queixa ainda que incompleta ou apresentando apenas de forma sumária a questão subjacente ou mesmo de uma “simples carta a manifestar a intenção de apresentar uma queixa”193. A alínea b) do número 6 permite, no entanto, alguma flexibilização na aplicação da regra e, assim, que o Tribunal considere outra data de forma a salvaguardar resultados injustos da aplicação estrita da regra.
191 Cf. Política de prioritização do Tribunal, disponível na página do Tribunal através do link http://www.echr.coe.int/sites/search_eng/pages/search.aspx#{"fulltext":["priority%20policy"]}.
Segundo Ireneu CABRAL BARRETO, será conferida prioridade essencialmente aos casos em que esteja em causa a liberdade, integridade física e a vida dos requerentes, considerados como violações mais graves da Convenção e que correspondem a “três direitos nucleares e fundamentais numa sociedade democrática”. — Entrevista, em Boletim da Ordem dos Advogados, op. cit., p. 24.
192
Cf. “Report on the implementation of the revised rule on the lodging of new applications”, p. 2, pto. C disponível na página do Tribunal através do link: http://www.echr.coe.int/sites/search_eng/pages/search.aspx#{"fulltext":["report%20on%20the%20imple mentation"]}.
193 Ireneu C
62 Assim, diferentemente do que acontecia anteriormente, os advogados deverão ter em atenção, não só que o prazo de seis meses corre a partir da prolação da última decisão relevante (e não do trânsito em julgado — vide 1.2.2.(A)(ii)), como o formulário da queixa completo deverá ser enviado, na íntegra, ao Tribunal, antes do termo desse prazo (ainda que possa chegar depois). Deverá ainda acautelar-se a possibilidade de a queixa estar incompleta e, caso sejam notificados de que não cumpre os requisitos do artigo 47.º do Regulamento, o tempo necessário para a reformular. De outro modo, a queixa poderá esbarrar com o decurso do prazo para a sua apresentação (que, aliás, com a entrada em vigor do Protocolo n.º 15 passará a ser de quatro meses apenas — vide 2.1.4.(A) infra), precludindo-se, assim, a possibilidade de ser submetida ao crivo do TEDH.
Pretende-se com esta nova formulação do artigo adoptar uma abordagem mais restrita e formal quanto à admissão liminar de queixas no Tribunal, de modo a facilitar o trabalho do Secretariado ao nível da admissibilidade e, nessa medida, poupar tempo e esforços. De acordo com o Tribunal, esta nova formulação do artigo será também “a
way of requiring individual applicants to accept their share of responsibility for the efficient functioning of the Court.”194. Os juristas do Tribunal têm, regra geral, adoptado uma interpretação restritiva, aplicando o preceituado no artigo 47.º à letra. Em resultado, registou-se uma rejeição significativa de queixas que não cumpriam estes apertados requisitos195.
Em 2012 foi aditado ao Regulamento o artigo 62.º-A referente às declarações
unilaterais dos Estados. Nos termos deste artigo, nos casos em que o requerente rejeita
uma proposta de acordo amigável, o Estado Parte pode apresentar ao Tribunal um pedido de arquivamento acompanhado de declaração unilateral mediante a qual reconhece a existência de violação e o compromisso de fornecer reparação adequada e das medidas correctivas necessárias. Caso o Tribunal considere que a declaração apresentada pelo Estado Parte oferece garantias suficientes no que concerne ao respeito pelos direitos do requerente, pode arquivá-la, sem que o requerente a isso se possa opor. Refira-se ainda as seguintes práticas internas do Tribunal que nos parecem dignas de nota: o (i) agrupamento de casos repetitivos, as (ii) decisões de princípio e as (iii)
194 Cf. “Interlaken process and the Court” de 2013, par. 14. Igualmente, o Report on the implementation of the revised rule on the lodging of new applications, p. 1.
195 Vide, neste sentido, os documentos “Interlaken process and the Court” referentes aos anos de 2014 e seguintes. Segundo o Tribunal, houve um esforço grande de divulgação da nova redacção da norma e dos requisitos mais apertados aí previstos. Os números, no entanto, parecem demonstrar uma falta de conhecimento ou incompreensão relativamente a estes requisitos e que dificultam o acesso ao Tribunal.
63
resoluções amigáveis “de rotina”. Quanto às primeiras, o Tribunal, aproveitando as
potencialidades da competência conferida aos Comités, passou a agrupar casos com um “background” semelhante em termos factuais e jurídicos e a decidi-los por referência aos casos WECL, exonerando-se, portanto, de apreciar as particularidades de cada uma das queixas. Quanto às segundas, o Tribunal profere uma decisão de princípio, isto é, uma decisão relativamente a uma questão da Convenção de uma forma que permita aplicar essa mesma decisão a outros casos semelhantes pendentes contra outros Estados Parte196. O objetivo é, portanto, que esses outros Estados adoptem políticas em conformidade com a decisão de princípio de modo a que o Tribunal possa arquivar os casos pendentes que suscitam essa mesma questão. Por fim, — e neste consiste o terceiro grupo de práticas internas identificadas neste parágrafo —, aplica-se este procedimento relativamente a queixas que suscitam questões de jurisprudência bem fixada. Nestes casos, o Tribunal limita-se a enviar às partes um modelo de resolução amigável, incluindo já o montante proposto de compensação, obviando, assim, à fase de negociação entre as partes197.
Por fim, note-se que, em 2011, começou a operar uma secção de filtragem (“filtering section”), que inicialmente incluía a Rússia, a Turquia, a Roménia, a Ucrânia, e a Polónia, à data responsáveis por mais de metade dos casos pendentes. Esta secção é composta por juristas que se dedicam em exclusivo à triagem das queixas admissíveis alocando-as à formação judicial competente. Esta secção foi sendo alargada para incluir outros Estados Parte (Portugal não está incluído).
2.1.3 O longo caminho de Interlaken até Bruxelas: a “reforma da reforma da