3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.3 REGENERAÇÃO ABAIXO DOS POLEIROS E PARCELAS
Nas parcelas, abaixo dos poleiros e controle, foram quantificados 416 indivíduos regenerantes, sendo que nos poleiros com a colocação de galharia observaram o maior número de recrutamentos, totalizando 54,81% dos indivíduos (tabela 5).
Tabela 5. Regeneração abaixo dos poleiros com galhadas (PCG) e poleiros sem galhadas (PSG) e parcelas sem poleiros (SP), na área de estudo em Belém de São Francisco (PE).
Família Espécies PCG PSG SP N FV SD
Fabaceae Prosopis juliflora (SW) DC 203 90 40 333 ARB Zoo
Poaceae Indeterminada sp2 7 8 24 39 HER Zoo
Poaceae Cenchrus ciliaris L. 3 9 12 HER Ane
Poaceae Chloris barbata (L.) SW. 5 4 9 HER Ane Boraginaceae Heliotropium indicum L. 4 3 7 HER Zoo Molluginaceae Mollugo verticillata L. 4 4 HER Aut Malvaceae Herissantia crispa (L.) Brizick 3 3 SUB Ane Malvaceae Mikania cordifolia (L.f.) Willd. 1 2 3 LI Ane Aizoaceae Trianthema portulacastrum L. 2 2 HER Zoo Cucurbitaceae Cayaponia podantha Cong. 1 1 LI Zoo
(Continuação)
Família Espécies PCG PSG SP N FV SD
Fabaceae Indigofera sp 1 1 SUB Aut
Capparaceae Cynophalla flexuosa (L.) J. Presl
1 1 ARB Zoo
Total geral 228 106 82 416
Em que: N – Número total de indivíduos regenerantes; FV – Forma de Vida: ARB – Arbórea, HER – Herbácea, SUB – Subarbustiva, LI – Liana; SD – Síndrome de Dispersão: Zoo – Zoocórica, Ane – Anemocórica, Aut – Autocórica e ID – Indeterminada. Fonte: Gomes (2017).
As diferenças observadas entre o recrutamento de indivíduos regenerantes debaixo de poleiros com galharia e sem galharia (χ²=26,377; p<0,01), poleiros com galharia e nas parcelas controle (χ²=59,075; p<0,01) e entre os poleiros sem galharia e controle (χ²=45,054; p<0,01) foram significativas (Apêndice 7). Os dados observados evidenciam que, os poleiros e a colocação da galharia favoreceram a germinação e estabelecimento das sementes em campo (Figura 10). De acordo com Bechara (2006), a colocação de palhada, restos de folhas (mulching) sobre o solo abaixo dos poleiros facilitou a germinação e estabelecimento das espécies, corroborando com os resultados encontrados neste estudo. Zanini; Ganade (2005), em Floresta com Araucária, também observaram nos locais com poleiros artificiais apresentaram maior abundância e riqueza de plântulas do que nas áreas sem poleiros.
Figura 10. Galharia enleirada abaixo de poleiro seco, na área de restauração em Belém de São Francisco – PE.
Em que: a) momento inicial de instalação, e b) após dois anos com regeneração e espécies herbáceas entre o material. Fonte: Gomes (2017).
A riqueza de espécies regenerantes foi inferior a observada na chuva de sementes nos coletores debaixo dos poleiros, sendo para a regeneração contabilizada 13 espécies, o que gerou índice de diversidade de Shannon (H’=1,23) e de equitabilidade (J’=0,33) baixos. Devido a maior abundância de indivíduos regenerantes de Algaroba houve uma má distribuição dos indivíduos por espécie, que refletiu no baixo índice de equitabilidade. A similaridade entre a florística da chuva de sementes e a regeneração debaixo dos poleiros foi baixa, com 11,27% de semelhança entre as espécies observadas.
As espécies registradas, com maior abundância de regenerantes frutificaram ao longo dos meses de observação, na área de estudo. Também pode ser possível que, muitas destas sementes que germinaram debaixo dos poleiros estivessem no banco de sementes do solo, pois muitas espécies identificadas constituem banco de sementes persistente. Espécie com essa estratégia, de formar banco de sementes persistente, tem sementes dormentes que permanecem viáveis no solo por mais de um ano (GARWOOD, 1989). De acordo com Webb; Peart (2001), a diversidade de plântulas de um local está fortemente relacionada com a diversidade de dispersores em atividade nesta área, e não somente com as espécies adultas autóctones. Dessa forma, acredita-se que a baixa riqueza de aves dispersores de sementes visitando os poleiros, influenciou na riqueza de espécies regenerantes, na área de estudo.
Entre as espécies regenerantes abaixo dos poleiros, 61,54% destas também tiveram sementes identificadas na chuva de sementes, nos coletores debaixo dos poleiros. As espécies foram Cayaponia podantha, Cynophalla flexuosa, Herissantia crispa, Prosopis juliflora, Cenchrus ciliaris, Chloris barbata, Mollugo verticillata e Heliotropium indicum. Holl (1999), considera as baixas taxas de aporte de sementes como o principal fator limitante da regeneração de áreas degradadas. Para muitas das espécies nativas presentes na chuva de sementes, da área de estudo, foram registradas baixas densidade de sementes.
As três espécies de capins regenerantes (Cenchrus ciliaris, Chloris barbata e Eragrostis sp) no período das chuvas recobrem boa parte da área, trazendo um benefício direto de cobertura do solo, diminuindo as chances de erosão do solo. Todavia, as espécies de capins também podem exercer efeitos negativos de competição com a regeneração de espécies arbustivo-arbóreas nativas da mata ciliar (HOLL, 1998; MARTINS, 2012).
Das 13 espécies que germinaram debaixo dos poleiros, somente duas apresentaram hábito arbóreo, sendo Cynophalla flexuosa, espécie nativa da flora local, com sementes zoocóricas. Observou-se muitas espécies de aves alimentando- se de suas sementes. Porém, essa espécie não recrutou muitos regenerantes debaixo dos poleiros, podendo ter relação com a recalcitrância e predação de suas sementes, o que dificulta sua germinação em áreas de caatinga (FABRICANTE et al., 2009; SILVA et al., 2013).
Este resultado, com baixo recrutamento de indivíduos regenerantes abaixo de poleiros artificiais tem sido apontado como uma limitação ao bom desenvolvimento da técnica em outros estudos (TOMAZI et al., 2010; DIAS et al., 2014). De acordo com Tomazi et al. (2010), parte das espécies que chegam na chuva de sementes abaixo dos poleiros não são recrutadas, em funções de barreiras limitantes a sua germinação e estabelecimento. Entre estes possíveis filtros ecológicos que, poderiam limitar o recrutamento debaixo dos poleiros, estão a competição com gramíneas (Capins), a predação de sementes, as condições físicas e nutricionais do solo abaixo dos poleiros (ZIMMERMAN et al., 2000; TOMAZI et al., 2010). As condições climáticas desfavoráveis (baixa precipitação e alta temperatura), principalmente nas regiões secas, como na área da presente pesquisa, também afetam a germinação.
Silveira et al. (2015), estudaram o uso de poleiros artificiais e o enleiramento de galhada na restauração de área degradada na caatinga da Paraíba. Estes autores concluíram que o uso conjunto de poleiros artificiais e de enleiramento de galhadas incrementou a chuva de sementes e aumentou o conteúdo de matéria orgânica do solo. Condição que favoreceu a sucessão natural, com a chegada de novas espécies da flora e fauna. Nas leiras feitas com galhadas observou a germinação de espécies nativas, como a espécie Cnidosculus quercifolius (Faveleira) que regenerou no interior das galhadas. Como também, serviu de abrigo e ninho para espécies de aves.
Vale reforçar que, no período destes dois anos de desenvolvimento da pesquisa, a região de estudo passou por uma das maiores secas dos últimos anos, com grande déficit hídrico (APAC, 2016). Como também, a avaliação da regeneração foi realizada no mês de novembro de 2016, coincidindo com o período seco, o que dificulta a germinação das sementes e o seu estabelecimento abaixo dos poleiros.
A espécie Algaroba (Prosopis juliflora), arbórea exótica invasora de matas ciliares degradadas na região semiárida, demonstra a sua resistência e adaptação à região, que mesmo em condições climáticas desfavoráveis neste período de estudo,
manteve se presente na chuva de sementes e na regeneração (figura 11). O uso de indivíduos desta espécie como poleiros vivos não é recomendado, uma vez que esta tem alta produção de sementes e regenera ao longo do ano, mantendo a invasão biológica da área. Pode-se matar os indivíduos de algarobeira em pé, por meio de anelamento e aplicação de herbicida, e utilizá-los como poleiros secos, evitando a pressão de propágulos e a regeneração desta espécie na área. Spindola et al. (2005), enfatizaram o cuidado que deve-se ter com o uso de espécies arbóreas exóticas como poleiros vivos, recomendando também a morte dos indivíduos nas áreas em restauração, para evitar a expansão da invasão por estas espécies.
Figura 11. Indivíduos regenerantes de Algaroba em parcela de poleiro secos, dois anos após a implantação dos poleiros. Belém de São Francisco - PE.
Fonte: Gomes (2017)
A técnica nucleadora de restauração, por meio do uso de poleiros secos e vivos na área desta pesquisa na região do Sertão de Pernambuco, incrementou a chegada de sementes. Entretano, não viabilizou o estabelecimento de novas espécies
arbustivo-árboreas aloctones na área. Parte desta ineficiência vem das sementes mais abundantes, presentes na chuva de sementes da área, ser de espécies exóticas e terem ocorrido poucos indivíduos regenerantes da flora local abaixo dos poleiros. Contudo, pela oferta de sítios de pousos atrativos para a avifauna, que poderá incrementar a chuva de sementes com espécies alóctones, e pelo baixo custo de implantação desta técnica, recomenda-se o uso de poleiros na restauração.
Os poleiros deverão ser construídos com o uso de galharias, mais altas possível, e preservando as pontas dos galhos, que são sítios preferencias de pouso. Debaixo dos poleiros, para facilitar a germinação das sementes dispersas pela avifauna, limpar o solo com a retirada de plantas exóticas invasoras e colocar material orgânico de cobertura, como galharias ou folhas.