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Mapa da tese

Mapa 4 Região do Morro Alto em mapa sem data (detalhe)

         21 Fonte: http://maps.google.com.br/ 22

Fonte: AHRS, Conceição do Arroio – Móvel 5 – Gaveta 3 – Envelope 445 s/d Planta da cidade. 1: 358:000. Neste mapa o morro encontra-se superdimensionado e ocupa o lugar da Lagoa Negra e da Lagoa do Ramalhete, e de parte do Faxinal do Morro Alto, como se pode perceber o comparando com a fotografia de satélite.

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Pós-Abolição no meio rural: uma revisão bibliográfica

Quando se discute os itinerários negros no pós-Abolição, existe uma leitura bastante arraigada socialmente no que tange à mobilidade espacial dos ex-escravos e descendentes entre o meio rural e o meio urbano no pós-Abolição. Na obra “Escravidão nunca mais!” o jurista Nelson Câmara sintetizou aquilo que acredito ser um senso comum quando se pensa na questão. Segundo o autor, a Abolição da escravidão esteve na gênese das favelas e aglomerados miseráveis no meio urbano, sendo esse o destino dos libertos:

o modo cruel como foi feita a Abolição, colocando na rua da amargura milhões de almas escravizadas, sem terra e sem perspectiva alguma, resultou nas primeiras aglomerações nas periferias dos maiores centros urbanos, formando-se favelas e palafitas, e depois, em fase subsequente, os cortiços. (Câmara, 2009, p. 354)

O texto do qual foi extraído o excerto merece discussão, na medida em que se propõe a oferecer subsídios à aplicação da lei 11.645/2008, que torna obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas. A citação destacada traduz aquilo que comumente se pensa a respeito dos itinerários dos antigos escravos no Brasil, e possivelmente servirá para a formação de professores dos ensinos médio e fundamental.23 Tal visão arraigada encontra-se criticada em trabalhos mais recentes, embora se fundamente em autores como Fernandes e Bastide (1971, ver adiante). Ainda assim, generaliza-se para o conjunto do país conclusões tomadas a partir de estudos específicos e descontextualiza-se o momento historiográfico em que foram escritos.

Há que destacar que não procede a afirmação de que a origem dos cortiços é subsequente à Abolição da escravidão. Chalhoub (1990) e Moreira (2003), por exemplo, apontaram eloquentes exemplos de espacialidades negras nos meios urbanos, respectivamente, do Rio de Janeiro e de Porto Alegre, durante o século XIX. Ainda assim, cabe discutir o afluxo de ex-escravos para as cidades no pós-Abolição.

Mais do que um escritor pioneiro acerca do assunto, Nina Rodrigues (2006, originais de 1896 e 1897, 1977, original de 1906) foi um contemporâneo que testemunhou o processo social que descrevia no imediato pós-Abolição. Embora       

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Nascimento (2005) aponta a presença desse senso comum em livros didáticos e salas de aula do ensino médio, amparado em obras como a de Fernandes (1965, ver adiante), desconectadas do contexto historiográfico em que foram produzidas. O autor alerta, ainda para os efeitos de bullying entre alunos negros da associação de seus antepassados como “‘marginais’, ‘prostitutas’, ‘ladrões’, ‘assassinos’, ‘bêbados’, ‘miseráveis’ entre outros” (Nascimento, 2005 p. 12).

19 interessado especificamente em aspectos culturais dos africanos que julgava destinados a desaparecer e em suas “sobrevivências” – particularmente linguísticas e religiosas –, e não em processos macrossociais da população negra como um todo, o autor opinou – talvez como forma de justificar seu recorte geográfico – que a maior parte dos africanos na Bahia dirigiu-se a Salvador, poucos permanecendo em cidades de médio porte e menos ainda em antigos engenhos. A maior parte ter-se-ia dedicado ao pequeno comércio e alguns teriam trabalhado como lavradores nos arrabaldes soteropolitanos (Rodrigues, 1977 p. 101).24

Nina Rodrigues fez escola, e Ramos (1940, 1942, 1979) e Carneiro (1978) deram continuidade a sua obra. Embora despidos do caráter racialista tão presente na obra de Rodrigues, mantiveram seus interesses sobre aspectos culturais como culinária e religiosidade – o candomblé da Bahia. Ao menos no primeiro caso, o autor insistiu também na ideia do iminente desparecimento das culturas negras no Novo Mundo, ao manejar os conceitos de “sincretismo”, “sobrevivências” e “aculturação”.

Gilberto Freyre, muito embora tenha celebrado a ascensão social de mulatos e mestiços e tenha sublinhado o caso de ex-escravos bem-sucedidos, os últimos apareciam em um caráter de exceção. No geral o quadro delineado para os descendentes de escravos no pós-Abolição era sombrio:

A liberdade não era bastante para dar melhor sabor, pelo menos físico, à vida dos negros fugidos que simplesmente conseguiam passar por livres nas cidades. Dissolvendo-se no proletariado de mocambo e de cortiço, seus padrões de vida e de alimentação muitas vezes baixaram. Seus meios de subsistência tornaram-se irregulares e precários. Os de habitação às vezes degradaram-se. Muito ex-escravo, assim degradado pela liberdade e pelas condições de vida do meio urbano, tornou-se malandro de cais, capoeira, ladrão, prostituta e até assassino. O terror da burguesia dos sobrados (Freyre, 2006 [original de 1936], p. 297).

Se para Freyre a liberdade cumpriu um papel degradante, os estudos de Florestan Fernandes atribuíam ao cativeiro uma herança nefasta sobre os libertos, na medida em que a ética de trabalho e o estado de “anomia” herdados do cativeiro ter-lhes-ia tornado inábeis “psicossocialmente” para competir com a mão-de-obra imigrante no mercado de trabalho paulista (Fernandes, 1965 p. 39-69). Em que pese todas suas divergências com Freyre, o caráter degradante da liberdade ou do cativeiro constituía um espelho entre os

      

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Câmara (2009, p. 354) menciona o mesmo trecho de Rodrigues, porém o atribuindo a Wissenbach (1998b p. 113), sem o referir como uma citação. Dessa forma, passa a impressão de que a autora compartilha de tal afirmação, o que não coaduna com sua abordagem (ver adiante).

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dois autores. Como já assinalaram Rios e Mattos (2005), ambos convergiam na interpretação do pós-Abolição como um período incapacitante para os egressos do cativeiro. A antropóloga Daisy Barcellos assinalou que os trabalhos da Escola Sociológica Paulista “pecam por reduzir o papel do negro a um plano de passividade incompatível com o grau de participação na formação do Brasil e do Rio Grande do Sul” (Barcellos, 1996).

Vale destacar que o estudo de Florestan privilegiou o meio urbano paulista do século XX, e esse recorte não parece inocente; pelo contrário, ele ajudou a sustentar seu viés teórico segundo o qual negros originários do campo encontravam-se desestruturados socialmente na grande cidade; e também resultou de uma leitura acrítica dos queixumes senhoriais que afirmavam haver uma evasão de mão-de-obra das lavouras no pós-13 de maio.25

No entanto, a escolha de São Paulo como foco da análise de Fernandes26 não encontra sustentação nos próprios dados empíricos do autor, já que ele demonstrou que entre 1886 e 1893 a população negra e mulata cresceu, naquele centro urbano, em uma proporção inferior à população de brancos nacionais e brancos estrangeiros. Ainda assim, o autor insistiu no êxodo rural direcionado a São Paulo e Santos (Fernandes, 1965 p. 41-42), não contemplando em sua análise aqueles que permaneceram no meio rural. Observo que não há nenhum problema em realizar um estudo de caso no meio urbano de São Paulo, mas não se pode generalizar suas conclusões para o meio rural27 ou para o conjunto do Brasil.

O estudo de Andrews (1998), a exemplo do de Fernandes (1965), centra-se no município de São Paulo, muito embora tire conclusões precipitadas para o conjunto da província, inclusive seu meio rural, como bem criticou Marques (2009 p. 32-33). Segundo esse autor, Andrews manteve de Fernandes a ideia de marginalização, porém a retirou do despreparo dos negros e a atribuiu ao racismo dos brancos. De qualquer maneira, procurou explicar uma realidade social complexa somente a partir de dados quantitativos e da variável mercado de trabalho.

Embora leve em conta a existência de libertos que permaneceram nas fazendas onde haviam sido escravos, ou vizinhas, a par daqueles que migraram para as cidades, a       

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Para leituras críticas dessas fontes, ver, por exemplo, Mattos, 1998 cap. 14, Fraga Filho, 2006 cap. 6, Weimer, 2008a cap. 1, Weimer, 2010a.

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O trabalho de Bastide e Fernandes (1971 p. 60) também privilegia São Paulo e afirma que a “maioria [dos libertos], porém, abandonava os trabalhos agrícolas e procurava as cidades”.

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21 tônica da análise de Carvalho (2008 p. 52-53) é de crítica em relação à inserção marginal de afro-descendentes em uma República que percebe como excludente. Eles teriam oscilado entre a ausência de empregos fixos ou “os mais brutos e mais mal pagos”. Ao sublinhar a cidadania negada aos descendentes de escravos, no entanto, o autor não percebeu a importância da busca de cidadania por parte dos mesmos.28

Os estudos mais recentes a respeito da presença negra no meio urbano destoam dos trabalhos precedentes, uma vez que não procuram no passado escravo elementos “anômicos” explicativos de uma suposta desestruturação do negro na sociedade capitalista. Pelo contrário, investigam a contribuição da experiência social de sujeitos que passaram pelo cativeiro para a formação da classe operária (Loner, 2001; Mattos, 2008; Chalhoub e Silva, 2009).

Um olhar mais sistemático dos estudos acadêmicos para os itinerários negros no meio rural foi dirigido a partir da década de 1990. Em grande parte tributário das novas abordagens e estudos acerca da escravidão desenvolvidos na década de 1980 (para uma revisão, ver Schwartz, 2001), a exemplo desses, via-se os (ex)-escravos como sujeitos ativos em busca de seus próprios interesses e com experiências culturais e sociais que não se resumiam à vitimização imposta pelo cativeiro. Em paralelo a essa renovação historiográfica, percebe-se, nessa década, a emergência no cenário político de comunidades negras rurais, que exigem a concretização de direitos fundiários com base na Constituição Federal de 1988 e sob a identidade de “remanescentes de quilombos”. Inicialmente tais grupos atraíram mais o interesse de antropólogos do que de historiadores (ver Leite, 1996, O’Dwyer, 2002 e Arruti, 2006).

Da parte de historiadores, três trabalhos foram pioneiros a respeito da temática.29 Rios (1990) ressaltou a importância da família e do acesso à terra como condições de sobrevivência e ideais de trabalho almejados. Machado (1994) destacou a formação de uma economia camponesa à margem das grandes propriedades cafeicultoras, dando ênfase a doações de terras efetuadas por antigos senhores e sublinhando as dificuldades

      

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Na esteira de José Murilo de Carvalho, Müller (2006, p. 55-59) percebeu a população negra como vítima passiva da negação de direitos civis. Mattos (2000), em uma abordagem distinta, demonstrou como os libertos, como sujeitos históricos ativos que foram, procuraram lutar, ao longo do século XIX, pelos direitos civis almejados.

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No ano de 1990, Hebe Mattos, Sheila Faria e Ana Rios publicaram um “Caderno do ICHF”, da Universidade Federal Fluminense, com estudos acerca de trabalho familiar e escravidão (Mattos de Castro, Faria e Rios, 1990). Trata-se de um exemplo indicativo do interesse pela temática no Rio de Janeiro naquela conjuntura historiográfica.

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para sua legalização. Observou, ainda, a formação de um conceito de liberdade contrastivo em relação às relações sociais vividas sob o cativeiro.

O terceiro estudo é o de Mattos (1998 [tese de 1993, primeira edição de 1995]). A autora apresentou uma versão aprofundada dessa abordagem, ao discutir os esforços dos cafeicultores fluminenses, no pós-13 de maio, em manter e atrair uma mão-de-obra ora agraciada pela possibilidade de mobilidade espacial, na qual acabou por prevalecer os deslocamentos dos libertos. Ela demonstrou os intrincados mecanismos de negociação, nem sempre bem-sucedidos, dos fazendeiros para utilização da mão-de- obra ora livre, e ressaltou que as expectativas dos libertos em relação à liberdade, forjadas sob a vigência da escravidão, foram elementos decisivos nessas negociações. Seu estudo ainda discute a vinculação, na leitura senhorial, entre a ideia de “vadiagem” e mobilidade espacial dos libertos, aspecto que veio a ser explorado em estudos posteriores, e a interpretação de um mercado de trabalho desfavorável como “indolência” e “despreparo” por parte dos fazendeiros.

Alaniz (1997), Papali (2003) e Guimarães (2006) versaram sobre a tutela de órfãos nos primeiros anos da República, nos municípios de Campinas, Taubaté e Juiz de Fora. A primeira autora destacou que oferecer filhos em tutela podia ser, em situações de pobreza e necessidade extrema, uma possibilidade de viabilizar a sobrevivência familiar e da criança (Alaniz, 1997 p. 73). Tais estudos, ao inclinar-se sobre a tutela de órfãos reafirmaram aspecto ressaltado pela historiografia a respeito do tema: a importância dos vínculos familiares nos anos posteriores à Abolição da escravidão.

Os estudos recentes a respeito do pós-Abolição tendem a ressaltar a diversidade regional e as diferentes situações vividas pelos libertos, em lugar de propor uma leitura generalizante e unívoca. Wissenbach aponta que a adequação à condição de livre foi condicionada por fatores como:

particularidades regionais e conjunturas econômicas diversas, proporcionalidade do elemento negro no cômputo das populações de cada parte do país, presença de outros segmentos na disputa do mercado de trabalho e de agrupamentos negros já consolidados (...) (Wissenbach, 1998b p. 51-52)

A própria autora, no artigo em questão, contemplou a presença negra nos espaços rurais e urbanos do Estado de São Paulo, abordando aspectos como práticas de cura, sociabilidade, religiosidade e condições de moradia no campo, assim como a

23 residência dos que se instalaram nas cidades durante o ímpeto europeizante e higienizador das elites brancas na Primeira República.

Existem, contudo, estudos que, embora contemplem o período pós-Abolição em seu recorte cronológico, e façam um esforço para quebrar a visão do 13 de maio de 1888 como um demarcador estanque de períodos históricos, não discutem senão poucos exemplos posteriores a 1888. Eles ressentem-se de uma reflexão sobre o período pós- emancipação em sua especificidade histórica (Guimarães, 2006, Guimarães, 2009).

Se a marca dos novos estudos é a diversidade, conta-se hoje com artigos e monografias regionais apuradas, a respeito de Pernambuco (Santos, 2010); do Recôncavo Baiano (Fraga Filho, 2006); da região serrana do Rio de Janeiro (Dezemone, 2004); da área rural do Rio de Janeiro (Rios e Mattos, 2007); da cidade do Rio de Janeiro (Silva, 2009); de Juiz de Fora (Souza, 2003, Guimarães, 2006, Guimarães, 2009); da província de São Paulo (Silva, 2008); da província do Paraná (Silva, 2005), Curitiba e entorno (Marques, 2009); de Desterro (Lima, 2005); e da região serrana do Rio Grande do Sul (Weimer, 2008a). Tais estudos compõem um mosaico de experiências de vida, ocupações e atividades desempenhadas pelos antigos escravos no pós-Abolição, contemplando tanto aqueles que permaneceram no meio rural, na fazenda onde foram escravos ou não, quanto aqueles que se direcionaram para as cidades.

Certamente a profusão de estudos enriqueceu enormemente os conhecimentos existentes sobre o pós-Abolição no espaço rural brasileiro. No entanto, creio que ao ressaltarem a pluralidade de possibilidades disponíveis aos libertos – o que é absolutamente necessário –, deixaram de especificar de forma mais minuciosa os mecanismos e dinâmicas através dos quais essas possibilidades adquiriram concretude. Em outros termos, mais do que apontar os diferentes caminhos disponíveis para os libertos, resta investigar em que situações e condições as pessoas os seguiram. Creio ser o grande desafio para a historiografia sobre o pós-Abolição atingir avanços ainda maiores do que os já alcançados. Quatro autores, no meu entendimento, apontam possibilidades investigativas nesse sentido.

Marques (2009) verificou que, dos ex-escravos por ele estudados, alguns permaneceram na localidade onde foram cativos, outros migraram para Curitiba, e outros seguiram para Ponta Grossa. Até aí, nada além da já constatada diversidade de destinos assinalada pelos demais estudos. Porém, no último caso, o autor conseguiu verificar empiricamente que o que motivou a migração intraprovincial foi o esforço por

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reconstituir laços familiares quebrados pelo comércio interno de escravos, o que parece ser uma diretriz de pesquisa bastante fértil para estudos similares.

Monsma (2004, 2005) abordou a população negra no oeste paulista, a partir do estudo de inquéritos policiais e processos criminais, sob um viés relacional desse segmento populacional com imigrantes europeus.30 Ao trazer a discussão para o campo da interação entre negros e brancos, o autor dá margem à abordagem de solidariedades e colaboração entre esses grupos, mas também ao conflito interétnico e à violência simbólica. Ao fazer da relação com outros segmentos sociais o seu enfoque, Monsma apresenta uma contribuição na medida em que traz a análise da população negra no pós- Abolição para o terreno das relações interétnicas.

Costa (2008) colocou em discussão a variável geracional na discussão da migração rural-urbana.31 O autor, que analisou os migrantes do Vale do Paraíba que se dirigiram a Nova Iguaçu, constatou que a geração que partiu de forma massiva foi a segunda nascida após a Abolição, e não a primeira. Levar em conta as gerações nos deslocamentos populacionais é importante para historicizar os processos migratórios e relacioná-los a processos políticos e econômicos, em lugar de discuti-los em abstrato. O autor ainda situou (Souza, 2003 também fez isso) os processos migratórios na dinâmica interna da economia camponesa, na qual a expulsão de contingente populacional faz parte dos mecanismos necessários para impedir a fragmentação da propriedade e, em última análise, para a sobrevivência, quer da unidade econômica camponesa que se deixa, quer do jovem migrante que parte em busca de novas oportunidades.

Rios (2005a), por seu turno, tentou sistematizar a diversidade de itinerários por ela constatada no pós-Abolição na região estudada, isto é, o Sudeste cafeeiro. As trajetórias de vida agrupadas como “campesinato itinerante”, “pacto paternalista” e “terras de preto” demarcam experiências sociais diversas, no que tange a “conduta, trabalho e socialização”. O primeiro caso engloba aqueles que tiveram dificuldades de manter um acesso estável à terra, e assim, tiveram no deslocamento espacial a tônica de suas narrativas. O segundo refere-se àqueles que permaneceram orbitando no mesmo espaço geográfico em que seus ancestrais foram escravos, e não relataram maiores privações decorrentes do deslocamento espacial ou dificuldades para obtenção de roças.       

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Cleber da Silva Maciel (1997), mesmo que me pareça manter uma relação ambígua com a perspectiva de Bastide e Fernandes (1971) – ora a criticando, ora apresentando um viés similar –, escreveu importante estudo sobre a temática, enfatizando conflitos entre brancos e negros sob o viés do racismo.

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A temática da migração no pós-Abolição também vem sendo abordada nos trabalhos de Lucia Helena Oliveira Silva (2005, 2008, 2009, 2011).

25 O último exemplo constitui comunidades negras rurais, em parte caracterizadas pelo isolamento, originárias de doações ou aquisições de terrenos descapitalizados. Essa caracterização mais precisa das possibilidades do campesinato negro da região permitiu à autora discutir melhor os contratos de trabalho no pós-Abolição, bem como verificar a existência de diferentes margens de tolerância e flexibilidade, por parte de fazendeiros, em relação a variadas parcelas da população (Rios, 2005b).

Os últimos exemplos discutidos permitem vislumbrar possibilidades de substancialização da discussão sobre o campesinato negro no pós-Abolição, melhor caracterizando e qualificando suas experiências sociais, para além de elencar o leque de possibilidades disponíveis. Embora todos os trabalhos referidos apresentem contribuições substantivas ao estudo do período pós-Abolição, manifesto minha dívida em relação às inspiradoras abordagens de Costa (2008) – no que toca ao recorte geracional e à preocupação com as migrações – e de Rios (2005b) – no que diz respeito ao enfoque na diversidade de trajetórias do campesinato negro no pós-Abolição. Ainda que meu estudo verse sobre a a memória, tais trabalhos permitiram-me uma compreensão melhor dos assuntos recordados.

Não obstante as contribuições dos novos estudos, suas abordagens e aproximações não chegaram a trabalhos de síntese a respeito da história do Brasil, seja genéricos ou específicos do período republicano. A exemplo da “História Geral da Civilização Brasileira” organizada por Sérgio Buarque de Hollanda (1978), da “História Geral do Brasil”, organizada por Maria Yedda Linhares (1990), e de “Uma História do Brasil” de Thomas Skidmore (1998), as recentes sínteses organizadas por Ferreira e Delgado (2008), Priore e Venâncio (2010),Ferreira (2011), e de autoria de Bastos e Fonseca (2012) não contemplaram, no período posterior à Abolição, uma apreciação aprofundada sobre a história social da população egressa do cativeiro.

O ambiente rural é frequentemente tido como espaço de estagnação e de reação frente à modernização (Carvalho, 1998, p. 112). Na obra clássica de Victor Nunes Leal, os trabalhadores rurais encontrar-se-iam em uma situação de submissão política e resumidos, mesmo, a uma condição “sub-humana” (Leal, 1975, p. 56). Ana Rios (2007), porém, assinalou que essa abordagem menospreza a necessidade de estabelecer estratégias visando a captura do trabalho e a lealdade dos trabalhadores rurais, dentre os quais ex-escravos e descendentes. Em suma, a autora coloca a ênfase nas negociações

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contratuais implícitas às relações sociais no meio rural, demonstrando que a lealdade não é dada.

Em termos mais gerais, porém, vê-se um lapso, por um lado, entre uma narrativa de história social sobre o processo de desagregação do escravismo e, por outro, uma análise sobre a Primeira República que privilegia aspectos políticos, econômicos e institucionais e uma reflexão sobre as engrenagens de um sistema coronelista de relações de poder. Há, no máximo, uma história social do movimento operário, mas não da população no meio rural, a não ser quando abordada sob o viés da imigração ou dos movimentos messiânicos.32 A população oriunda do cativeiro, porém, não chegou a ser