4. O regresso dos emigrantes: a performance da invisibilidade e da magnitude
4.3 A performance dos migrantes durante as festividades na localidade de origem
4.3.3 Regressar e reunir os laços: performance e invisibilidade
Em conversas com um emigrante de Esperança em Vila São Luís, ele me falou de algumas memórias que ele trás da sua adolescência em Esperança. Segundo este migrante, durante sua adolescência, queria como qualquer outro rapaz da cidade, freqüentar as festas em um clube da cidade chamado Caobe que funcionava nos finais de semana. Contudo, por não ter recursos para pagar sua entrada, com a ajuda de outros colegas, chegou a pular o muro do clube. Em algumas destas ocasiões a pessoa responsável pela organização do ambiente, percebeu a entrada e o pós para fora do clube. Posteriormente, o organizador das festas, passou óleo, antes utilizado no motor de carros, o que chamou de “óleo queimado” no muro. Após este fato, durante uma festa no clube, ao fazer a peripécia de pular o muro, ao entrar no baile, deu conta que estava todo sujo de óleo, a roupa toda impregnada com um forte cheiro e rapidamente ele foi convidado a deixar o local. Ele falou que isto lhe marcou no clube, chegou a comprar em outro momento o bilhete de entrada, mas chegaram a lhe questionar se não havia também pulado o muro. O migrante falou destes fatos vividos, ressaltando sua impulsividade, sua personalidade destemida, usando a expressão “eu não era bicho de gente
não”, mas também ressaltou que estes fatos apenas fizeram parte de sua vida, pelo fato, de ser um jovem de uma família de baixa renda, que enfrentava dificuldades financeiras. Este mesmo migrante me falou que na atualidade senta à mesa com empresários da cidade, e é convidado para as festas das pessoas mais abastardas do local. Vejamos a transcrição da sua fala no tocante sua saída de Esperança e seu retorno:
Eu saí de lá, como se diz o ditado, puxando uma cachorra. Voltar bem pra cidade acho que é uma alegria para você né, eu me sinto bem chegar lá bem. Quando chego na cidade, que eu estou bem lá, pra mim eu me sinto um rei. Muitas vezes quando você vai pra lá você quer mostrar pra o povo, que eu mesmo eu sou um, gosto de mostrar que eu saí de lá e consegui as coisas, fora da cidade, de onde eu nasci. Quando eu chego à cidade, gatos e cachorros sabem que cheguei, em geral sabem, eles dizem fulano vai chegar tal dia. Então já é um comentário. Quando eu chego lá é o comentário da cidade, que eu cheguei e no dia que chego lá pareço até o presidente, todo mundo toca na minha mão, o cabra pensa até que eu sou o candidato a prefeito. (José, 37)7.
O migrante marca um momento anterior, onde ironicamente aponta as difíceis condições em que se encontrava. Momentos que antecedem sua emigração, em que usa a expressão “puxando uma cachorra” e o momento atual, que define como de alegria. No retorno as festividades, do qual como ele afirma “me sinto um rei”, sua satisfação é “mostrar para o povo” que “saí de lá e conseguir as coisas, fora da cidade de onde eu nasci”. Como coloquei anteriormente, o migrante em Vila São Luís que não retorna, ou não costuma retornar, é visto no interior do grupo, como aquele que “se anula” e o não retorno, como o caso do migrante que tinha problemas com a justiça, provocou o afastamento ou desligamento afetivo com familiares. Neste aspecto, retornar instaura uma postura do migrante diante de sua condição de imigrante, o que de algum modo não se anula, nem para sociedade de onde por motivos diversos saiu nem onde se encontra. O migrante aponta uma dívida da sociedade que partiu para consigo quando diz que, conseguiu fora da cidade. Deste modo, ele observa que foram as barreiras sociais e econômicas que motivaram sua partida, construindo as disposições para isto. Observo que é este embate, neste enfretamento, que se monta a performance de retorno do emigrante de Esperança.
Em 1989, a emissora de televisão Globo, exibiu uma de suas novelas de maior audiência, intitulada “Tieta”, escrita por Aguinaldo Silva, baseada numa obra literária do escritor Jorge Amado. A novela narra à história de uma jovem de nome Tieta que, ao contrariar os costumes, normas que se espera de uma moça na sua idade, é escorraçada da pequena cidade fictícia, Santana do Agreste. Após 25 anos de sua saída humilhante, retorna
de São Paulo. Seu retorno mexe com a cidade. Uma vez que, esta retorna uma mulher suntuosa, nada modesta, exibindo seu sucesso por meios de bens adquiridos, mas com um desejo que tudo aquilo seja percebido e desejado pelas pessoas que um dia a ignoraram, seu esforço em “se dar bem na vida” não fazia sentido sem o retorno, que assim como coloca a música “Coração do Agreste”, de Moacyr Luz e Aldir Blanc:
Coração do Agreste
Regressar é reunir dois lados À dor do dia de partir Com seus fios enredados Na alegria de sentir Que a velha mágoa É moça temporã
Seu belo noivo é o amanhã Eu voltei pra juntar pedaços De tanta coisa que passei Da infância abriu-se o laço Nas mãos do homem que eu amei O anzol dessa paixão me machucou Hoje sou peixe
E sou meu próprio pescador E eu voltei no curso Revi o meu percurso Me perdi no leste E a alma renasceu Com flores de algodão No coração do agreste Quando eu morava aqui Olhava o mar azul No afã de ir e vir Ah! Fiz de uma saudade A felicidade pra voltar aqui
No posfácio da obra, Tieta do agreste, de Jorge Amado, a antropóloga Lilia Schwartz (2009) comenta sobre a personagem Tieta e da sua localidade de origem, vejamos:
Ela é a um só tempo – e sempre - a mulher-dama, a piranha, mas também a redentora do Agreste [...]. (SCHWARTZ, 2009, p.633)
E, a autora ainda afirma, noutro trecho:
Ambivalência é o nome desta sociedade que recebe tão bem, como um dia foi capaz de expulsar. Nenhum drama acaba em tragédia: questões de política jamais levam a divisão séria; novas medidas tendem a ser neutralizadas pelo cotidiano pacato, amantes desatam relações sem que o mundo por isto acabe. (SCHWARTZ, 2009 p.635)
A narrativa da canção remonta o retorno do emigrante, e parece conter a estrutura do “drama social” do Turner, ou a estrutura processual da experiência. Tal como a narrativa
presente na letra da música descrita, de algum modo ela comunica sobre outras narrativas, de migrantes que na ambivalência se encontram e o regressar é reunir dois lados, compondo o evento performático.
Conforme Turner (1982), a Antropologia da performance é uma parte importante da Antropologia da experiência. Dawsey (2005, p.164) aponta como Turner, a partir de Dilthey elabora essa relação, em cinco momentos que constrói a estrutura processual da experiência vivida: (1) a experiência parte de algo que acontece ao nível da percepção no plano de intensidade maior que os acontecimentos rotineiros; (2) as imagens das experiências do passado são evocadas e delineadas de forma perspicaz; (3) as emoções associadas aos eventos do passado são evidenciadas; (4) o passado articula-se ao presente numa “relação musical”, possibilitando a descoberta e a construção de novos significados; (5) deste modo, a
experiência se completa através de uma forma de “expressão”. O momento da expressão que completa uma experiência é chamado de performance. No caso do migrante antes
mencionado, é possível identificar este processo e seu desfecho que é o momento que retorno a cidade de origem, o cenário de sua performance.
O mesmo migrante assume uma atitude de enfrentamento, por meio dos seus atos performáticos. Para Schechener (2003), a maioria das pessoas enfrenta durante muitos momentos de suas vidas a tensão entre aceitação e rebelião. Deste modo, atos sociais e políticos de rebelião, protestos ou revoluções, são ações coletivas, que ocorrem objetivando manter o status quo ou para mudar o mundo. Observo que de algum modo, o emigrante a partir da performance do retorno, subverte a ordem social local, em decorrência do modo que ele volta a ser classificado nela. Neste caso em particular, o emigrante de Esperança, sai da cidade “puxando uma cachorra” e volta se sentindo “um rei”, podendo ser visto como uma pessoa de prestígio na cidade “o candidato a prefeito”.
Portanto, é possível inferir que a performance é a exposição por excelência da memória de um dado grupo social, que se apresenta no extra cotidiano, que ao se realizar expõe, de forma reflexiva, as particularidades e adversidades. Reinventam e atualizam o passado e suas tradições. Faz ressaltar os sentidos e repensar os vínculos de pertencimento no momento em que torna notória uma identidade pública. Para Turner (2005, p.179), “[...] as emoções de experiências passadas dão cor às imagens e esboços do revivido pelo choque do presente. Em seguida ocorre uma necessidade ansiosa de encontrar significados naquilo que se apresentou de modo desconcertante [...]”.
Nas festividades de São João no ano de 2011, um amigo de infância, um dos
emigrantes investigados, retornou a Esperança. E resolveu realizar um churrasco na casa de seus familiares e eu, como amigo de infância, fui também convidado. A comemoração
ocorreu no quintal de casa de sua família, foi regada a muitas bebidas e petiscos, bem mais do que as pessoas que estavam presentes pudessem consumir. Havia nesta ocasião, também, um pequeno grupo de músicos não profissionais. A relação que o migrante estabelece nesta ocasião é de empoderamento, que é marcada na forma de se vestir, na expressão vocal, como se pronuncia e narra suas estórias. Falamos de muitos fatos legais que nossa infância nos proporcionou, tivemos trajetórias diferentes, mas éramos dois migrantes retornando as festividades. Em um determinado momento da comemoração, o migrante que promoveu a festa, o anfitrião, passa a ter o controle do microfone. Ou seja, começa a cantar. Mesmo não sendo a sua maior habilidade, o canto, porém o que menos importava naquele momento, não era a ordem dos versos das músicas por ele cantada, mas poder cantar fora da ordem. Neste momento, fui convidado a cantar também, e com ele, cantamos fora da ordem. Em alguns momentos o migrante de forma irônica falou: “se fui pobre não me lembro” e, eu cheguei a brincar também com ele sobre sua frase dizendo: isto vai parar minha tese. Porém, acredito que, neste momento, mais de que em outro, o fato de ser de um grupo social, que viveu algumas limitações, do ponto de vista econômico, faz muita diferença. E, dizer que não se lembra é outra forma de pontuar a envergadura que une passado e presente.
A noção de performance em Turner (1982) se torna uma estratégia analítica importante para se desvencilhar de uma noção de cultura, como resposta as normas de
conduta preestabelecidas pela estrutura social. O autor passa a privilegiar uma perspectiva de caráter construtivista, que venha a considerar a agência dos indivíduos, a historicidade das práticas sociais e as descontinuidades, as interrupções e elementos liminares na elaboração do conhecimento científico, mediante as intersubjetividades em campo.