4. O regresso dos emigrantes: a performance da invisibilidade e da magnitude
4.2 Na condição de imigrante ou no cativeiro dos sonhos
4.2.6 A viagem da volta
Segundo Menezes (1990), o fenômeno do regresso em massa durante os festejos juninos do sudeste para o nordeste, revela um vínculo muito forte dos migrantes com os traços culturais da localidade de origem. Em estudo realizado com migrantes, que seguem de ônibus de São Paulo e Rio de Janeiro para Campina Grande – PB verificou-se que, normalmente chegavam dois ônibus por dia e nas vésperas dos festejos juninos, chegavam nada menos que dez ônibus. Para a autora, as pessoas vinham atraídas pela fase de fartura das comemorações juninas, que seduzem muitos nordestinos a trabalho no sudeste do País. Eles priorizam esse período, entre outros motivos, no intuito de reencontrarem seus parentes, numa espécie de “colheita simbólica” em que amenizam a saudade e renovam as energias consumidas em trabalhos enfadonhos fora de sua terra natal.
Assim como fiz uma descrição da minha experiência da viagem de Esperança à rodoviária do Rio de Janeiro, vou brevemente descrever o retorno por transporte terrestre, via ônibus, entre a rodoviária da cidade do Rio de Janeiro a rodoviária de Campina Grande-PB, rota de retorno para quem pretende viajar em direção aos municípios do agreste paraibano. Viajei dia 19 de dezembro de 2008 no final da tarde. Os ônibus estavam saindo neste dia para Campina Grande no intervalo de uma hora, como era período que antecedia as festividades de
final de ano, havia uma grande demanda de pessoas retornando. Assim, como aponta Menezes (1990), o fluxo de emigrantes nordestinos retornando para as festividades neste período é muito intenso, mesmo que a autora tenha dado ênfase ao período junino, neste momento que correspondeu ao final de ano, o retorno também é muito intenso. O que observo entre os emigrantes de Esperança, que costumam retornar durante as festividades, pois pude constatar que esta é uma prática também comum a outros nordestinos de outros municípios paraibanos.
No percurso de viagem da Paraíba ao Rio de Janeiro, foi marcado pelas expectativas dos prováveis migrantes ao contexto da imigração. Nestes momentos as narrativas foram se construindo em direção as possibilidades diversas de trabalho, incertezas e sonhos
desconhecido para alguns, iam sendo debatidos durante o deslocamento. A saída do Rio de Janeiro (figura 19), não era marcada pelo choro, lágrimas de despedidas como o deslocamento em direção oposta. Neste momento do retorno, as comemorações já se iniciaram ali mesmo na rodoviária entre os migrantes que iam retornar para as festividades e seus parentes e amigos que não iriam naquela ocasião, mas ficavam aguardando até o momento de sua saída. Quando cheguei havia uma infinidade de pessoas para embarcar para Campina Grande. Fiquei numa fila organizada pelos funcionários da rodoviária, pois como os ônibus estavam partindo atrasados, foi necessário fazer uma fila para cada um deles para reduzir o tumulto e evitar que pessoas deixem de viajar ou entrem em outro ônibus que não o seu. Nesta fila, já fui
conversando com os colegas de viagem, a empolgação do retorno era muito latente, havia uma ansiedade despojada e menos tensa, do que o momento de saída de Esperança. Ao meu lado foi um rapaz que já entrou com uma latinha de cerveja e em boa parte das paradas, durante a viagem me chamava para acompanhá-lo na bebida, e eu quase sempre lhe
acompanhava, era um modo de descontração da viagem e de me integrar melhor. Ele era de uma pequena cidade, Fagundes-PB e com ele vinham mais pessoas do mesmo local, um grupo que moravam todos no bairro da Rocinha, na cidade do Rio de Janeiro. Pelo que ele me falou, há um grupo de pessoas da cidade de Fagundes morando no bairro da Rocinha, que também é conhecido entre os migrantes pela forte presença de emigrantes nordestinos.
Figura 19: Momento de partida do Rio de janeiro para Esperança. Fonte: Acervo do Pesquisador.
Nesta ocasião, não entrevistei particularmente os tripulantes como fiz na viagem anterior, apenas tive conversas informais com alguns deles e acompanhei algumas conversas no interior do ônibus. De todos os migrantes que conversei, todos eles estavam viajando em decorrência do período das festividades na localidade de origem, uma viagem que eles definem como de passeio e visita a família. Observei, também, as maiores referências nas conversas destes migrantes eram as festas nas cidades de origem, que atribuem muito fartas, ocasiões onde participaram de grandes comemorações regadas a muita bebida e uma culinária que atribui particular a sua localidade. Mencionaram pratos como a ‘galinha caipira’ feita na panela de barro, e ‘feijão verde’, ‘queijo de coalho na brasa’, a ‘buchada de bode’, entre outros pratos que esperam provar.
Diferente da viagem em direção ao Rio de Janeiro que as motivações se orientam para as oportunidades de trabalho e uma possível mudança de vida que possa proporcionar o contexto da grande cidade, tido por muitos como o local das oportunidades. O retorno às festividades, também, se monta de expectativas, mas elas se voltam para memória, se montam no reencontro com o passado e estes migrantes se preparam para este reencontro consigo mesmo (o que traz na memória) e como familiares, amigos e outros conterrâneos. Os
migrantes sempre falavam da excepcionalidade de suas localidades do que em lugar nenhum podia ser vivido, comido, experienciado da mesma forma da sua localidade de origem.
A seguir, vou continuar discutindo a experiências de retorno às festividades, mas particularmente voltados ou grupo que investigo, os emigrantes esperancenses na cidade de Esperança a partir a análise do paradigma da performance.