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A REGULAÇÃO AO LONGO DA HISTÓRIA: O ESTADO CONCILIADOR DE CONFLITOS

2. REVISÃO TEÓRICA

2.1. A REGULAÇÃO AO LONGO DA HISTÓRIA: O ESTADO CONCILIADOR DE CONFLITOS

Ao longo da história da humanidade, com o aumento populacional, ultrapassando no início deste milênio os 6 bilhões de habitantes, na convivência entre os diferentes, o estabelecimento de regras e a normatização das relações tornam-se cada vez mais indispensáveis. Os grupos sociais definem seus espaços territoriais e os recortes do contingente total da população. Criam jurisprudência com direção política, formas de alteração das leis, execução das normas e punição para os transgressores. Este complexo de constituição política tem o seu poder unificador no Estado. O Estado, portanto, formata o modo de convivência entre as pessoas, visando aceitação das diferenças e das resoluções dos conflitos, por meio de regras que, buscam consensos ou são arbitrárias com caráter coercitivo.

Desde o Egito, passando pela Grécia, por Roma, da Idade Média aos tempos modernos existem registros de diferentes formas de organização política do Estado, de acordo com o historiador Petit (1983). Platão, na sua obra República, idealizou uma sociedade perfeita sem o conflito entre o público e o privado. Nesta República platônica todos viveriam em harmonia, por meio de uma regulação que supriria todas as necessidades e atenderia a todos os interesses. Seria a constituição de um quase estado natural do ser humano ou também uma sociedade igualitária.

A democracia ateniense representava a tentativa de convivência harmônica entre os cidadãos, mas também já expressava a sua característica central: a conflitividade, cuja intermediação usava a Ágora como espaço e fórum de deliberação.

Os exemplos de regramento ou de regulação têm no império romano um de seus ápices, como foi destacado por Petit (1983). A jurisprudência romana, com o estabelecimento da constituição de normas rígidas, definia os direitos e os deveres dos cidadãos, que tinham no Estado – em sua função religioso ou civil, ideológica ou policial – o seu guardião.

A era cristã foi fecunda em contribuições para regrar a convivência entre os católicos. Houve um longo período do teocentrismo, em que as normas sociais com poder de Estado sobre os indivíduos eram ditadas pela lei divina. Ramos (2005, p. 43), fazendo referência à Igreja Medieval, diz que ela cumpriu o papel de regulação. As práticas normativas e jurídicas eram supridas pela burocracia da igreja e por instituições universais.

Não havia nenhuma organização acima da cristandade e caso a economia fracassasse, a igreja prontamente interviria.

A contradição central foi a busca de uma sociedade justa para a humanidade que, se não obtivesse êxito com métodos persuasivos, apelava para fórmulas coercitivas e ditatoriais para impor seu modelo de vida, inclusive, para o mundo externo do cristianismo. A concepção da vida cristã tinha no sobrenatural a sua justificativa, portanto, quando houvesse necessidade de garantir a regulação econômica ou social e não houvesse argumentos racionais convincentes, apelava-se para a vontade de Deus para impor a regulamentação requerida.

Os impérios antigos, segundo relatos de Petit (1983), como os Indús, os Finícios, os Egípcios na Ásia ou os próprios Astecas e Incas na América, são exemplos que a história registra como organização social nos quais o regramento político ao lado da regulamentação econômica garantiu a unidade dos povos, constituindo um Estado forte. Destaca ainda que a invasão dos Bárbaros foi um exemplo histórico, cujo acontecimento se explicitava que o “mundo civilizado” não aceitava a insubordinação à regulamentação econômica e social existente e rechaçava estas invasões em nome de suas normas e leis, defendendo o território, a propriedade e a população. Estas reações, de acordo com esse autor, foram coordenadas por comandos centralizados no Estado.

Na América do Sul foi implantado um Estado religioso pelos Jesuítas com governo centralizado nos preceitos cristãos desta ordem religiosa. A implantação deste ideal ficou materializado na obra conhecida como a República Comunista Cristã dos Guaranis (Lugon, 1968), que não obedecia os limites territoriais dos Estados existentes, pois estabelecia reduções no Paraguai, Brasil e Argentina e desenvolvia ações no Uruguai e no Peru. A regulação da ordem econômica partia do pressuposto da existência apenas de propriedade coletiva social. Não havia ferramentas e meios de produção particulares. As classes foram abolidas. A economia era planificada com a repartição dos produtos. A disciplina do trabalho e dos cultos era rígida, mas assumida com liberdade, segundo relato de Lugon (1968) que pesquisou a República Jesuítica dos Guaranis. Esta forma de organização social teve um período – 1610 até 1768 – de relativa autonomia, sendo suas prováveis causas o florescimento econômico e o disciplinamento da população guarani a uma determinada regulação, conveniente aos países em questão.

Quando começa a decair a legitimidade da lei divina do sistema feudal, a definição de Estado passa a estar ligada ao próprio capitalismo. De acordo com Carnoy (1986), há autores que datam esta concepção de Estado a partir da acumulação do capital, quando os preços dos cereais aumentaram por longo período no século XVI (Wallerstein);

outros (Foucault, Weber) argumentam que foi um novo conceito de homem ou uma nova racionalidade na condução da economia e política; outros afirmam que foi a integração dos mercados nacionais; e, outros ainda (Marx) afirmam que foi a emancipação do trabalho forçado da terra. Ressalta-se que entre os séculos XVI e XVII ocorreram relevantes transformações na velha ordem social. Embora a lei divina ainda tivesse importância fundamental até o século XVII, a igreja se partiu em pedaços devido às guerras religiosas, que refletiam o declínio econômico da aristocracia, como classe dominante que sustentava o enorme poder econômico e político da igreja.

Carnoy (1986) analisa o período entre os séculos XVI e XVII como de mudanças drásticas na história da Europa, em função do desenvolvimento de novas formas de governo, além de novos conceitos de como os governos deveriam ser. É também por volta do século XVII que aparecem a redefinição do estado de natureza (condição natural do homem) e a formulação sistemática final dos direitos individuais, substituindo a lei divina como o fundamento das hierarquias políticas.

A partir de 18401 eclodem movimentos de insurreição, pelos quais os direitos civis e políticos ganharam dimensão. De acordo com Teixeira (2002), os socialistas utópicos, como Saint Simon, Charles Fourier2 e Robert Owen, que, de certa forma deram fundamento ao cooperativismo, pensaram a constituição da sociedade com características socialistas, descartando processos revolucionários, imaginando-a, a partir de um processo educativo, como auto-regulada. Os processos de insurreição, como de François Babeuf, no século XVIII, e de Karl Marx, no século XIX, expressavam um conflito agudo de regulação da sociedade moderna, pois se indispunham contra uma forma de regulação social existente a partir do Estado burguês e propunham, após a tomada do poder, uma nova forma de regulação social, baseada no Estado proletário.

A regulação econômica e social, sob forma de leis, de normas ou de convenções, e a garantia de seu cumprimento, como condição de convivência harmônica entre os cidadãos, foi uma das finalidades dos Estados em diferentes trajetórias históricas. O Estado moderno, por exemplo, já coloca em prática ações que poderiam ser chamadas como regulações sociais a partir do Tratado de Westphália (1648) que formula a configuração dos Estados modernos, definindo limites geográficos e territoriais com populações fixas. Este Estado, analisa Carnoy (1986) emerge a partir da formalização de um contexto estruturado na igualdade jurídico-legal entre os diversos grupos de Estados. Constroem-se políticas de proteção comercial (espécie de

1 Em 1844 surge o Cooperativismo; em 1848 é assinado o Manifesto comunista.

2 Fourier comprou uma área de terra em Joinville, SC, ao tempo do império de Dom Pedro II e desenvolveu um

práticas intervencionistas), estruturas burocrático-administrativas, critérios para tributação de taxas e cobrança de impostos.

O Estado-nação, com legitimidade institucional pelo voto, surge no século XVIII, proporcionando autonomia própria para cada Estado. As ações intervencionistas e algumas reguladoras se seguiram à constituição dos Estados nacionais: nacionalização de ferrovias, seguridade social, seguridade obrigatória de proteção ao trabalhador fabril e a busca do bem estar da população como base de sua legitimidade.

O conceito básico de democracia representativa existia na Inglaterra desde o século XIII e considera-se que estava presente nos protestos dos nobres por seus direitos feudais, contra as tentativas de centralização do poder nas mãos de um rei. No entanto, este conceito teve a prática de sua difusão e a institucionalização identificadas com o crescimento do capitalismo e do poder econômico e político burguês, de acordo com Carnoy (1986).

Com a entrada em cena das atividades comerciais, de uma nova concepção cultural e de urbanização industrial – características do nascente capitalismo – novas necessidades foram se colocando: a segurança, um novo desenho jurídico institucional e uma sistematização da política econômica. A concepção de Estado e a sua intervenção na ordem econômica, política e social3 com leis, legitimidade, burocracia e autoridade pública, passaram a ser condições para a convivência nesta sociedade urbano-industrial.

Na abordagem cultural de análise dos mercados, mais recentemente, Polanyi (1994, in: Peixoto e Marques, 2003) cunha o termo enraizamento (traduzido de

embeddedness) como sendo a circulação dos bens que satisfazem as necessidades sociais o

que supõe uma estrutura institucional, qualquer que seja a sociedade. O autor refere-se às normas, convenções e leis, às quais, constituídas socialmente, toda sociedade deve obediência. A idéia de enraizamento acentua que as relações econômicas estão inseridas nas relações sociais e vice-versa. Apresenta que a expansão dos mercados foi um fenômeno não somente econômico, mas também cultural. Em outras palavras, mercados e empresas são construções sociais: a cultura de mercado como conjunto de significados surge para dar conta da emergência da economia de mercado, para tornar o mercado inteligível, aceitável e controlável; o mercado como disfarce cultural - a ideologia liberal esconde a sobrevivência de relações e valores sociais na esfera econômica; as empresas orientam-se por ‘modelos organizacionais’ difundidos por consultores (cf. concepções de controle de Fligstein); rotinas

3 A origem da palavra Estado tem sua raiz ligada a Status (estado de coisas); o Estado torna-se como “situação

comportamentais contém regras que permitem, ao mesmo tempo em que constrangem, a inovação adaptativa.

Assim, as referências sobre o Estado em diversos autores – desde concepções que partem das análises dos interesses econômicos até concepções de princípio cultural do mercado como construção social – confirmam que o regramento ou a regulação social são indispensáveis para a convivência em grupo.