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6 ANÁLISE DOS PROCESSOS DE HIBRIDIZAÇÃO CULTURAL EM “CORDEL

6.2 A ANÁLISE DAS INTER-RELAÇÕES DOS PERSONAGENS

6.2.1 Rei Augusto e Capitão Herculano: o embate de “realezas”

Figura 4 - AS INTER-RELAÇÕES DOS PERSONAGENS ANALISADOS

6.2.1 Rei Augusto e Capitão Herculano: o embate de “realezas”

Rei Augusto, amado pelo povo de Seráfia do Norte, é viúvo da rainha Cristina e pai da princesa Aurora. É bonito, alegre e muito ativo, mas, depois da morte da

mulher e do desaparecimento da filha, descuida-se e perde seu espírito aventureiro.

Só volta a se animar quando descobre que sua filha pode estar viva no Brasil, para onde se muda com a corte de Seráfia. Seu senso de justiça conquista a simpatia dos moradores de Brogodó e o coração de Maria Cesária, com quem termina a novela.

De início, é contra o noivado de Aurora/Açucena com Jesuíno, pois precisa cumprir a promessa de unir sua filha ao príncipe Felipe, de Seráfia do Sul. Mas, no decorrer da novela, reconhece o amor de Jesuíno por sua filha. Rei Augusto é filho da Rainha-mãe Efigênia e irmão de Duque Petrus.

Já o Capitão Herculano, o cangaceiro mais famoso do sertão de Brogodó, é um verdadeiro mito, temido e respeitado. Nunca desistiu da ideia de se reaproximar de Jesuíno e introduzi-lo no cangaço. Quando o filho era pequeno, decidiu deixá-lo na fazenda do Coronel Januário, onde o menino se cria, acompanhado da mãe, Benvinda, sem saber de suas origens. O cangaceiro temia pela segurança de sua família. No seu bando, além dos companheiros, ele conta a presença da mãe Dona Cândida (Ilva Niño), que também luta ao seu lado no cangaço.

O personagem Rei Augusto (Carmo Dalla Vecchia) é uma das figuras de maior importância na trama: além de pai da protagonista, ele representa (no contexto do quadrilátero melodramático ampliado) a função de um Justiceiro e, como tal, sua personalidade o descreve bem, ou seja, um homem condolente, bondoso, de voz calma, transparente quanto à suas ações e um governante que pensa no bem coletivo antes de pensar em si.

O personagem Capitão Herculano já é mais ambíguo e não possui uma personalidade ou atos que o caracterize somente como um arquétipo ou outro: ele é ao mesmo tempo um Justiceiro (pelo ideal de ajudar o filho e os mais pobres do sertão em seus roubos) e um Traidor (pelas relações um pouco escusas com a vilã Duquesa Úrsula e por um caráter no qual os valores morais não são os mais exaltados). Todavia, esta dualidade é justificada pela própria figura dos cangaceiros em suas múltiplas representações sociais: acusados por uns de realizarem ataques às pequenas fazendas e cidades, de roubo de gado, sequestros, assassinatos, torturas, mutilações, estupros e saques; por outros eram tidos como uma releitura de Robin Hood no sertão brasileiro, já que roubavam de fazendeiros, políticos e coronéis para dar aos pobres miseráveis que passavam fome e lutavam para sustentar suas famílias.

A cena47 selecionada (QUADRO 6) para análise apresenta a primeira inter-relação direta entre os dois personagens. É neste momento que os dois universos (o da cultura nobre e da cultura popular) entram em confronto produzindo não apenas formas claras e apreensíveis dos processos de hibridização cultural, como transformando o local onde estes processos são analisados: Brogodó torna-se, assim, o universo do choque, isto é, o “terceiro local” que não é a Seráfia conhecida pela corte e nem a Brogodó dos cangaceiros sem a presença da realeza, mas um espaço onde personagens de ambos os lugares se encontram e passam a compartilhar suas diferenças e relações em comum.

Dessa forma, na dimensão estética visual e verbal o cenário é a praça pública (a ser mais aprofundada na dimensão espaço-temporal): é neste espaço o primeiro choque dos universos entre Seráfia e Brogodó. As mulheres da corte vestem roupas pomposas e se adornam com joias, já os homens usam medalhas, condecorações e espadas. Os cangaceiros trajam roupas rústicas de couro, com o chapéu de aba lateral, botas, rabicho, alpercatas e outros paramentos, empunhando grandes armas de fogo, facas e facões.

As carruagens luxuosas e carros da corte “confrontam” os toscos cavalos dos cangaceiros numa clara alusão ao que se poderia ler na dualidade “população civilizada” versus “população atrasada”. Já os planos de conjunto e plano americano são predominantes, todavia, o uso do contra-plongée evidencia a autoridade do cangaço frente à autoridade da realeza (destacando o duelo entre as duas

“realezas”).

No plano verbal nota-se que as inter-relações dos personagens se dão pelo diálogo da fala coloquial dos cangaceiros em contraposição à fala rebuscada dos nobres. A trilha sonora exerce o papel de transição no melodrama entre as situações de crise e ao mesmo tempo riso (como o saqueamento que a corte sofre pelo cangaço). São muito bem demarcadas as marcas linguísticas do Rei e Duquesa (com fala impostada e termos não muito usuais). Já o Capitão, com sotaque forte, demonstra a braveza do líder do bando. Posteriormente, essas marcas não se fazem tão evidentes (ocorrem apropriações por parte da corte frente à fala dos nativos).

Os processos de hibridização cultural vistos na inter-relação destes dois personagens ocorrem na dimensão dos sistemas culturais quando Duas distintas

47 Capítulo 6 , Disco 1, Duração aproximada: 5min. (GLOBO/SOM LIVRE, 2013).

culturas entram em embate: a cultura erudita da nobreza de Seráfia com a cultura popular dos sertanejos cangaceiros de Brogodó. Na inter-relação dos personagens é possível perceber que Rei Augusto se dirige ao Capitão produzindo o primeiro contato, depois de anos, frente aos dois exemplos de autoridade (um pelo título e outro pela força) num contexto atípico à realeza.

O mesmo processo pode ser analisado na dimensão das matrizes culturais.

Vinda do imaginário dos contos de fada universalmente compartilhados pelo mundo, a figura do Rei, Rainha, Príncipes e membros da nobreza faz-se presente na trama.

Além da pompa com a qual é sempre retratada, há também elementos como a relação conflituosa entre nobres e plebeus (especialmente pela ascensão social pelo casamento entre as duas “castas”), as relações de interesse na tomada do trono e a busca de tesouros reais perdidos. Estes elementos são retratados no início, meio e fim da trama, deixando para o núcleo da corte características que vão desde a bondade à perversidade e, também, dos dramas familiares ao alívio cômico.

Junto destas figuras também aparecem outros elementos oriundos do imaginário popular brasileiro na representação do Capitão, do bando de cangaceiros e seus feitos. O interessante destas duas matrizes é que elas são objetos constantemente retratados na literatura de cordel (esta outra matriz cultural fortemente influenciada pela cultura da oralidade, mas apresentada materialmente pela escritura). A interdependência dos personagens ressalta estas matrizes.

A literatura de cordel se apresenta como uma fonte de informação riquíssima acerca da vivência cultural de um determinado povo. Embora algumas características desses folhetins sejam gerais, cada lugar marca a sua obra de acordo com a sua realidade e seus conhecimentos. Nesse contexto, o arquétipo inspirador do personagem é Lampião: ele é visto como herói, mas também como um homem violento, tornando-se imortal no imaginário como é típico de um herói.

Proença (1982) afirma que é nessa perspectiva heroica da ambiguidade que os feitos memoráveis dos homens do cangaço são agregados ao cordel.

As inter-relações dos personagens na dimensão espaço-temporal destaca o elemento da praça, um dos maiores símbolos da carnavalização, como um lugar privilegiado da ação dramática. É na praça que a interdependência dos personagens ganha maior dimensão com os seus núcleos: é este o espaço da diferença que, de forma indissociável, também evoca a trama épica e a coexistência de contrários.

Esta característica, pautada na carnavalização, deixa entrever o confronto entre as

hierarquias da nobreza e do cangaço, o “rico” e o “pobre”, o “sagrado” e o “profano”

(já que o bando se esconde na igreja para atacar a corte) e a presença da comicidade e deboche (que, por sua vez, também demarca o alívio dramático do melodrama).

Como elementos tidos como “atemporais”, os dois universos criam um tempo próprio na trama criando uma inter-relação dos personagens que permite que a diferença provoque sentimentos de alteridade tanto no Rei (que procura a filha perdida que, inicialmente, irá rejeitá-lo) quanto no Capitão (que sofre de um drama similar: o filho não vive ao seu lado e não se agrada dos feitos do pai no cangaço).

Uma situação de igual importância na compreensão da lógica carnavalesca presente na história é a recepção da corte pelo cangaço ser um desencontro de comunicação. No telegrama enviado por Rei Augusto, falando sobre a visita, havia uma parte manchada. Prefeito Patácio, por não conseguir ler, acaba achando que a realeza chegaria pela Estação de Trem de Formosura, mas não é o que acontece.

Devido à confusão, enquanto os moradores estranham o suposto atraso do rei, a comitiva real está parada em frente ao Palácio da Prefeitura.

O elemento de riso é um escape na situação já que os moradores da cidade esperam ansiosos pela comitiva da corte, mas, em meio a bandeirinhas, música e fogos de artifício, todos começam a ouvir berros de animais e ficam decepcionados:

um rebanho de bodes chega pela Estação ao invés da corte. O humor antecede a tensão dramática e provoca a inter-relação dos personagens na praça pública não escondendo suas diferenças, mas realçando-as num primeiro contato e destacando também suas relações em comum (como o símbolo da autoridade que cada personagem exerce em seus contextos de origem).

QUADRO 6 – A CHEGADA DO REI E A RECEPÇÃO DO CANGAÇO

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