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2. ESTADO, POLÍTICAS PÚBLICAS E TURISMO

2.4. Políticas Públicas de Turismo

2.4.2. Relação do Estado e Importância do Poder Privado e do Terceiro

Na América Latina a relação entre Estado e o setor privado sempre foi muito estreita, embora tenha sofrido transformações ao longo dos anos (BIRLE, 1995). Contribuíram para estas mudanças as diferentes formas de industrialização. No Brasil, o setor industrial foi criado e se desenvolveu sob a proteção do Estado. Inicialmente, os empresários eram um grupo fraco e dependente do Estado. Até passarem a influenciar na vida política, este setor era controlado politicamente por um “monopólio corporativista” (BIRLE, 1995). Kaufmann (1977) assegura que, salvo alguns empresários isolados, as associações representantes não tinham o poder de influenciar as decisões políticas.

A iniciativa privada, assegura Lamounier (1991), podia contar com a proteção estatal também durante a ditadura militar. Aclara ainda que este regime não impediu o surgimento das associações. Apesar das associações de empresários independentes terem surgido nos anos 1960, a politização do setor se iniciou somente na década seguinte ganhado força a partir dos anos 1980. Neste momento, os empresários lutavam publicamente por reforma da economia de mercado e pela democracia. Porém, Boschi (1992) explica que isto não significou que o setor privado deixou de defender seus interesses e preservou suas relações com autoridades oficiais para assegurar sua influência e controle do Estado. Birle (1995) explica que passaram a agir mais ativamente ao propor candidatura para as eleições, tentando melhorar sua relação com os sindicatos e rompendo com estratégias específicas e de curto prazo.

Este mesmo autor esclarece que na democracia no que se refere a decisão e solução de conflitos, a economia privada é permeada por uma certa insegurança com relação aos seus interesses, mesmo quando se trata de decisões tomadas por governos democraticamente eleitos. Porém, os setores neoliberais defendem que este tipo de situação pode ser contornado por uma postura mais competitiva, inovadora e produtiva das empresas. Meyer-Stamer (1991) alega que, talvez, por esta razão, a característica da relação entre o Estado e a iniciativa privada possa ser considerada ambígua. Ora, o empresariado pede a desestatização, ora, pede proteção do Estado.

Esperar um comportamento mais independente e ousado da iniciativa privada somente seria possível se mudassem as condições em que estão inseridas. Na América Latina, de regra, sempre se exigiu muito pouco do setor para que promovessem sistematicamente um comportamento empresarial competitivo. De repente, constataram que o mercado mundial é mais competitivo sendo, assim, difícil modificar aquilo que era praticado durante tanto tempo, reforça Birle (1995).

Neste sentido, Araújo e Taschner (2012) trazem a questão da participação cidadã da iniciativa privada, das administrações regionais e locais no processo de planejamento e elaboração de políticas públicas. Em geral, é recente e ainda pequena, em específico no turismo. A participação de novos atores nos fóruns deve ser ativa, mais ainda, deve ser apta e capacitada para exposição e defesa das respectivas demandas para evitar somente continuidade às antigas práticas.

[...] a crescente conscientização sobre a função social do capital (econômico) transforma o próprio empresário ou o executivo da empresa privada em agente de políticas públicas, sobretudo por força de sua responsabilidade social e da necessária produtividade dos recursos e dos sistemas produtivos que privativamente administra. Quando está em jogo a própria sustentabilidade do meio ambiente natural, a postura do empresário torna-se ainda mais crítica, pois não faz sentido algum que os ganhos do processo econômico ponham a perder a própria base de sustentação da empresa e da sociedade [...] Elas têm um papel legítimo na sociedade e devem ser coerentes com ele (HEIDEMANN e SALM, 2010, P. 32).

Neste contexto, Dias (2008) evidencia que as organizações não governamentais também passaram a fazer parte recentemente no cenário nacional de participação e constituem uma cidadania organizada podendo ser parceiras no processo de planejamento, porém intervêm de forma pontual e específica. Estas são entidades de características híbridas de movimentos sociais e instituições burocráticas. Integram o “terceiro setor”, pois se distanciam do mercado, no qual os agentes são privados e têm fins privados, e do Estado que é um ator público com fins públicos. São, portanto, entidades privadas com fins públicos.

Por não se identificarem organizacionalmente, nem com o mercado nem com o Estado, apresentam maior legitimidade para colaborar na implementação de políticas públicas e na transformação da comunidade por

representarem as necessidades gerais envolvendo os interessados e promovendo a participação da população (DIAS, 2008). Além disso, as ONGs “apresentam um domínio de aspectos das políticas públicas que podem contribuir para resultados mais efetivos na ação governamental” (DIAS, 2008, p.126). Este processo também deve contemplar a participação da sociedade, pois ela é a que melhor conhece a realidade em que está inserida.

Dias (2008) esclarece que estas organizações executam diversas ações para questões pontuais ou grupos sociais específicos e chegam a, inclusive, complementar a atuação do Estado.

A perspectiva de política pública vai além da perspectiva de políticas governamentais, na medida em que o governo, com sua estrutura administrativa, não é a única instituição a servir a comunidades política, isto é, a promover “políticas públicas”. Uma associação de moradores, por exemplo, pode perfeitamente realizar um “serviço público local”, movida por seu senso de bem comum e sem contar com o auxílio de uma instância governamental superior ou distante. Outras entidades, como as organizações não governamentais, as empresas concessionárias e as associações diversas da sociedade também se incluem entre os agentes de políticas públicas, em toda parte. (HEIDEMANN e SALM, 2010, p.31).

Aquelas que visam o desenvolvimento social desempenham um papel intermediador entre as demandas da sociedade, Estado, os partidos políticos e o mercado, influenciando a tomada de decisões. Dessa forma, “uma de suas finalidades mais importantes pode ser a de preencher lacunas nos serviços e programas estatais” (DIAS, 2008, p.118) por meio da mobilização social e sensibilização em nível de planejamento e implementação de projetos. As ONGs “(...) acabam fortalecendo o aspecto da eficácia em detrimento de práticas administrativas tradicionais” (DIAS, 2008, p.116):

A ação das ONGs insere-se no contexto de um aumento da participação do cidadão, e articulam-se de tal forma, que, ao mesmo tempo, suprem deficiências do Estado no cumprimento de sua ação social, constituem-se cada vez mais como grupo de pressão importante e que de forma eficaz fazem o Poder Público cumprir de algum modo seus objetivos em áreas específicas (DIAS, 2008, p.117).

Sobre esse assunto, Beni (2006) alega que as ONGs permitem muito além da participação da comunidade, possibilitando o empoderamento, que na visão do autor é uma participação crítica e ativa, não a simples presença dos atores nos momentos de decisão. Assim, as ONGs podem ter um papel

catalisador, inovador, flexível e adequado aos indivíduos, grupos e comunidades. Porém, Beni ressalva que o sucesso de ações conjuntas a estes organismos dependem de iniciarem e se manterem pequenas e próximas do grupo. Este tipo de interação tem gerado experiências positivas, até em termos metodológicos.

2.4.3 Participação da Comunidade no Processo de Políticas Públicas de