3. A COOPERAÇÃO E O COOPERATIVISMO NO MST
3.1. A luta pela terra no Brasil e a formação do MST
3.2.2. O Sistema Cooperativista dos Assentados do MST: características e
3.2.2.2. A relação entre propriedade da terra, trabalho e cooperação para o MST
Para os sem-terra, a luta pela terra, contra o latifúndio e o monopólio de terras é contraditoriamente a luta pela posse da terra. Ainda que essa posse seja baseada na agricultura familiar (trabalho familiar e não assalariado), na produção de alimentos para atender às necessidades humanas e na pequena propriedade.
Conforme o documento Um novo impulso para a organização dos assentamentos e da
cooperação, 2006, “Os atuais Sem Terra, sejam eles camponeses ou assalariados urbanos de
origem camponesa, ao lutarem pela terra trazem em seu horizonte, a posse da terra individual familiar, como a melhor maneira de superar sua condição de exploração e de privação.”
Tal concepção tem como consequência, para o Movimento, o fato de que as famílias durante o processo de ocupação da terra e de acampamento estabelecem relações de cooperação, de ajuda mútua, porém com o assentamento das famílias, tais relações são dissolvidas, e o individualismo, a competição e a autonomia voltam a ser estabelecidos entre elas. De acordo com o referido documento: “[...] Estes trabalhadores, entendem que sua libertação passa pelo acesso à propriedade privada da terra, para poderem dispor pela primeira vez em suas vidas de forma plena e livre o seu destino e gerirem autonomamente as suas vidas.”
O lote40 se transforma na propriedade de cada indivíduo – mesmo tendo sido fruto da luta coletiva, da cooperação de muitos –, como um espaço seu, regido por suas próprias leis e vontades. Pois (Um novo... , 2006):
[...] Este ser não possui apenas o lote, mas estabelece sobre ele o seu próprio governo, com leis próprias, com a organização do trabalho a partir de sua vontade e desejo, com planos de produção, relações de trabalho e de comercialização próprios e ninguém poderá intervir, a não ser nos aspectos em que ele decide contribuir.
Desse modo, as relações que se estabelecem com estruturas como as cooperativas, as associações, os grupos coletivos etc. são relações de troca, de interesses, e não de cooperação.
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Com a posse da terra (latifúndio), esta é dividida em lotes, que são pedaços de terra apropriados por cada indivíduo-família que é contemplado a se estabelecer naquele assentamento.
82 Reconhecendo os limites e a problemática que a posse pela terra traz para a luta social dos trabalhadores, o Movimento expressa o seu intuito de romper com lógica da propriedade privada da terra, quando afirma que (Um novo..., 2006):
[...] todo esforço será necessário para evitarmos a propriedade privada da terra, pois com ela trataremos um conjunto de fatores objetivos que reforçaram na consciência social dos assentados, os aspectos conservadores e retrógrados da consciência burguesa, aproximando-os desta classe.
Para isso, propõe algumas medidas, como o trabalho coletivo e a cooperação agrícola. Deste modo (Um novo..., 2006), “A cooperação agrícola torna-se em nossas linhas políticas, um elemento estratégico, justamente, por criar condições para o melhor desenvolvimento do trabalho social, indo além do trabalho familiar individual e da propriedade privada.”
O MST tem como referencial uma forma de cooperação que busca combater a propriedade privada e a produção individual, substituindo-as pela propriedade e produção coletivas. E para isso defende, de acordo com Portes (em entrevista ao Jornal Sem Terra, 2006, p.02), “Um novo projeto de assentamento que nega a propriedade privada dos meios de produção e também a produção individual.”
O Movimento apregoa que é preciso “mudar a existência para mudar a consciência” (Um novo..., 2006), e para isso aposta na mudança estrutural41 dos assentamentos como uma medida que irá impulsionar a cooperação e combater a lógica dominante da propriedade privada nesses espaços.
Concretamente, o que se tem após a conquista da terra é o título da propriedade de forma individual, porém, por meio da cooperação de produção agrícola, busca-se o controle, o uso da terra de forma coletiva, em que apenas uma parte é destinada para uso individual- familiar.
Convém frisar que a resolução desta problemática no MST apresenta, entre outros limites, o fato de que (como já mencionamos) não há uma eliminação da propriedade, mas sua substituição pela propriedade coletiva.
Quanto às formas de trabalho desenvolvidas no MST, encontramos desde as mais simples às mais complexas. No processo de ocupação e acampamento, o trabalho é realizado pelas famílias de forma cooperada, a partir da divisão de tarefas e voluntariamente. Ou seja, as pessoas se prontificam a assumir tal tarefa por se identificarem com elas, sem receber salários ou bens em troca, apenas partindo da compreensão de que é essa a única forma de
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83 manter a organização do acampamento e/ou o processo de luta (ocupação da terra, marchas, ocupações de prédios públicos para reivindicações etc.).
Com o assentamento das famílias, que passam a ter a posse da terra, o acesso à infraestrutura e ao crédito agrícola, o trabalho pode se dar de duas formas: como trabalho individual, em que cada família produz de acordo com seu interesse e vontade; e como trabalho coletivo, que se dá em associações, nos grupos coletivos e semi-coletivos, na cooperação das famílias que passam a produzir e/ou comprar os bens necessários à produção de forma conjunta.
Nessas formas de organização do trabalho, há uma limitada divisão do trabalho, já que parte da produção é desenvolvida de forma coletiva. A outra parte do tempo é dedicada à produção individual, ou seja, cada família realiza o trabalho em seu próprio lote.
Com a implantação de cooperativas de produção agrícola (CPA) nos assentamentos, a divisão social do trabalho é introduzida e intensificada, a que exige uma maior especialização de cada associado na linha de produção. Assim (CADERNO DE COOPERAÇÃO AGRÍCOLA Nº 5, 1997, p.71), “A CPA organiza o trabalho em setores, a partir da divisão do trabalho, na lógica de ‘postos de trabalho’, que são determinados pela atividade econômica desenvolvida e pela capacitação técnica dos associados-trabalhadores.”
Já com a implantação de cooperativas de produção e de prestação de serviços, a organização do trabalho se dá de duas formas: por meio do trabalho coletivo, no qual é disponibilizada pelos núcleos de famílias a força de trabalho suficiente para as linhas de produção; e pelo trabalho assalariado, por meio do qual é incorporado “um associado para cada posto de trabalho necessário para viabilizar a produção, conforme os critérios estabelecidos.” (CADERNO DE COOPERAÇÃO AGRÍCOLA Nº 5, 1997, p.69).
O que se percebe é que a partir da implantação de cooperativas ou de formas de cooperativismo há um predomínio do trabalho cooperado e coletivo, no entanto, não se extingue a forma de trabalho assalariado. Tal forma de trabalho está presente não só entre os associados, mas também como um meio de contratação de profissionais liberais para trabalharem assalariadamente na cooperativa.
Quanto à divisão social do trabalho, ela se faz cada vez mais presente com o desenvolvimento das cooperativas agropecuárias, que passam a exigir pessoas especializadas para assumirem as tarefas mais complexas, que surgem a partir de uma divisão técnica cada vez maior para a produção de artigos em um menor espaço de tempo e com mais qualidade, para atender às demandas do mercado. O que a diferencia da divisão capitalista é que não há
84 uma divisão entre quem decide e quem executa, pois todos os associados decidem coletivamente as medidas que devem ser executadas na cooperativa.