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3. A COOPERAÇÃO E O COOPERATIVISMO NO MST

4.3. Relações de propriedade e de troca e o cooperativismo

As cooperativas alternativas se distinguem das empresas capitalistas por terem entre seus princípios: a propriedade coletiva dos meios de produção, a gestão democrática e/ou autogestão e a cooperação entre os sócios da cooperativa para produzir mercadorias ou serviços que garantam a reprodução social de cada um e o desenvolvimento de forma coletiva.

96 Há ainda aquelas, mais contestatórias, que são utilizadas pelos seus sócios não só como instrumento de desenvolvimento socioeconômico, de resistência às ofensivas do capital, mas também como instrumento na luta por transformação social.

A partir de tais concepções, o movimento cooperativista defende e busca a unidade entre os trabalhadores e os meios de produção (propriedade coletiva), entre o trabalho manual e o intelectual (princípio da autogestão), e a determinação do valor de uso sobre o valor de troca.

Apesar disso, as cooperativas se encontram envoltas por contradições típicas da sociedade regida pelo capital, em que movimentos contestatórios surgem no seio e contra a exploração e o domínio da ordem vigente, sem romper com sua lógica hegemônica.

As cooperativas alternativas47 se mantêm numa relação contraditória e complexa com o sistema dominante. Pois, embora seja possível por meio da autogestão e da propriedade coletiva suprimir, ainda que internamente, as personificações do capital, a hierarquia – na figura do chefe, do patrão, de quem manda e decide –, a concorrência entre os indivíduos que produzem, bem como a apropriação privada dos bens produzidos, as cooperativas continuam reféns das leis de mercado, ou seja, da lógica do sistema do capital.

Enquanto produtoras de mercadorias48, as cooperativas estão subordinadas aos ditames do capital, já que, segundo Vieitez e Dal Ri (2001, p.20), “estão sujeitas, como qualquer outra empresa, às irracionalidades e oscilações econômicas dos mercados”. Têm também, entre outras consequências, o fato de “participar da competição econômica, cujas regras e parâmetros são estabelecidos pelas empresas capitalistas”, além de “seu funcionamento” encontrar-se, “em boa parte, determinado pelas leis de valorização do capital.”

As cooperativas de produção, em especial, apresentam, segundo Luxemburgo (1975), uma característica contraditória. Sobre isso, a referida autora afirma que (1975, p.52):

[...] são elas pela sua essência um ser híbrido dentro da economia capitalista: a pequena produção socializada dentro de uma troca capitalista. Mas, na economia capitalista, a troca domina a produção, fazendo da exploração impiedosa, isto é, da completa dominação do processo de produção pelos interesses do Capital, em face da concorrência, uma condição de existência da empresa. Praticamente, exprime-se isso pela necessidade de intensificar o trabalho o mais possível, de reduzir ou prolongar as horas de trabalho conforme a situação do mercado, de empregar a força

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Aqui, referimo-nos apenas às cooperativas de produção, não só por se tratar de nosso objeto de estudo principal, mas também por ser a forma de cooperativa que mais incide sobre as relações sociais de produção, por apresentar características distintas das que sustentam o sistema capitalista (a propriedade privada, a generalização do trabalho assalariado e a mais-valia).

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Pois não produzem apenas valor de uso, bens necessários à sua subsistência, mas também valores de troca, ou seja, mercadorias que serão comercializadas.

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de trabalho segundo as necessidades do mercado ou de atirá-la, na rua, em suma, de praticar todos os métodos muito conhecidos que permitem a uma empresa capitalista enfrentar a concorrência das outras.

As cooperativas apresentam contradições, pois, por estarem inseridas no sistema capitalista, o seu funcionamento tem de seguir a lógica dominante, que é a do capital, caso contrário, sucumbirão. Como as cooperativas surgem como uma alternativa que busca se contrapor ao sistema vigente, seus princípios e valores se chocam com as leis mercantis dominantes.

Neste caso, as cooperativas para sobreviver têm de se subsumir à lógica do capital, agindo muitas vezes como empresas capitalistas ou, do contrário, se quiserem manter-se fiéis aos princípios que as sustentam teoricamente, serão aniquiladas pelo mercado ou pelos próprios cooperados. Conforme Luxemburgo (1975, p.52-53):

Resulta daí, por conseguinte, para a cooperativa de produção, verem-se os operários na necessidade contraditória de governar-se a si mesmos com todo o absolutismo necessário e desempenhar entre eles mesmos o papel do patrão capitalista. É desta contradição que morre a cooperativa de produção, quer pela volta à empresa capitalista, quer, no caso de serem mais fortes os interesses dos operários pela dissolução. São esses fatos que o próprio Bernstein constata, mas que evidentemente não compreende quando, com a Sra. Potter-Webb, vê na falta de “disciplina” a causa do fracasso das cooperativas de produção na Inglaterra. O que aqui se qualifica vulgar e superficialmente de “disciplina” outra coisa não é senão o regime absoluto natural do Capital, e que evidentemente os operários não podem empregar contra si mesmos.

Embora os sócios tenham a propriedade coletiva, exerçam o trabalho cooperado e a autogestão da produção e da cooperativa, detendo o controle do que produzem, não podem controlar a lógica de mercado, ou seja, o intercâmbio social de mercadorias49.

Ainda que os sócios das cooperativas, a partir do princípio da autogestão, consigam suprimir internamente a cisão entre quem produz e quem controla/decide, ou seja, entre trabalho manual e trabalho intelectual (na empresa capitalista, o primeiro se encontra nas mãos da força de trabalho e o segundo em poder da gerência, ambos, porém sob controle do capital), as cooperativas precisam, para se manter no mercado, produzir valores de troca, e não só, mas também valor que valoriza o capital.

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Sobre essa questão ver mais em: “Os meios que se perderam dos fins: cooperativas fabris e autogestão dos trabalhadores.” Paniago, Maria Cristina S. In: Revista do Instituto de Estudos Socialistas, nº 17, 2008. E em “Os fios (in)visíveis da produção capitalista”, de Tavares, Maria Augusta. Ed. Cortez, 2007.

98 Neste sentido, encontramos mais uma das contradições e um dos limites da cooperativa para a emancipação humana, conforme Marx:

A necessidade de transformar o produto ou a atividade dos indivíduos em valores de troca, em dinheiro, e de que apenas sob esta forma de coisa adquiram e manifestem seu poder social, demonstra duas coisas diferentes: 1) que os indivíduos seguem produzindo apenas para a sociedade e na sociedade; 2) que sua produção não é imediatamente social, não é fruto de uma associação, que reparte o trabalho em seu interior. Os indivíduos estão subordinados à produção social que pesa sobre eles como uma fatalidade; mas a produção social não está subordinada aos indivíduos e controlada por eles como um patrimônio comum. Por conseguinte, nada é mais falso e absurdo que pressupor, sobre a base do valor de troca, do dinheiro, o controle dos indivíduos associados sobre sua produção global [...]. O intercâmbio privado de todos os produtos do trabalho, das capacidades e das atividades, está em antítese tanto com a distribuição fundada nas relações de dominação e de sujeição (naturais ou políticas) (sejam elas de caráter patriarcal, antigo ou feudal) dos indivíduos entre si [...] como com o livre intercâmbio entre indivíduos associados sobre a base da apropriação e do controle comum dos meios de produção.

Mesmo que as cooperativas em seu funcionamento interno se distingam das empresas capitalistas, ao suprimirem a concorrência, a hierarquia autoritária, a apropriação privada e a cisão entre quem produz e quem controla, elas não conseguem suprimir a cisão entre as diferentes esferas (produção, distribuição e consumo) das relações sociais de produção, tornando-se reféns das leis de mercado, ou seja, da quebra de unidade dessas esferas, sob a égide do capital.

Tal aspecto, que trataremos a seguir, é de fundamental importância para entendermos o limite do cooperativismo para a superação da sociedade do capital.