As famílias Brito e Gaudêncio como objetos historiográficos nos ajudam a compreender as estratégias políticas, não somente em relação ao município, mas entre as diversas camadas administrativas e sociais. Para entendermos estas estratégias será necessário desbravarmos as fronteiras entre as relações de poder exercidas pelos membros das famílias, e a construção do espaço de atuação destas, denominado de “campo social” de acordo com a teoria de Pierre Bourdieu (2010).
Concordamos com Júlio Aróstegui (2006. p.24) quando este afirma que o historiador não deve apenas escrever a história, mas teorizar sobre ela, “descobrir fundamentos gerais a respeito da natureza do histórico” e “sobre o alcance explicativo de seu trabalho”. A historiografia, como disciplina do conhecimento histórico possui um papel utilitário para a sociedade, e não meramente descritivo. Pensar historicamente é refletir sobre as condições sociais do homem perante o tempo histórico. A história como objeto do conhecimento historiográfico atua no campo do social e tem como objeto, a análise do temporal.
Nosso campo social se restringe a composição política familiar dos Cariris Velhos que possuem suas próprias características. Já o tempo histórico retoma a um período da história do Brasil, do qual o Estado como poder instituído, estava a se consolidar. Assim, temos uma constelação temática que se preocupa com três eixos: história local, história política e relações de poder. Sobre o arcabouço teórico deste eixo, a família entra como objeto historiográfico.
Apesar de que, a partir de uma abordagem de escala, a Paraíba passa a ser “história local” perante a história do Brasil, os Cariris Velhos e especificamente o Cariri Ocidental tem muita história para contar, sobre a efervescência política que passou a Paraíba, durante o período de 1930 a1960. A “Revolução” de 1930 abriu um novo leque de possibilidades para a efetivação do Estado como poder instituído, e a Paraíba participou de corpo e alma neste movimento político, pois a Revolta de Princesa - consequência da política de moralização da máquina pública por parte do então presidente João Pessoa e consequentemente a morte do presidente do Estado - fez eclodir o movimento “revolucionário”. Da Paraíba ao Brasil, o Estado ganhou força a partir do autoritarismo característico do Presidente Getúlio Vargas.
As famílias Brito e Gaudêncio foram coadjuvantes do Movimento de 1930 e demonstraram estratégias e peripécias no campo da política, que não são perceptíveis na ótica da história do Brasil. No embate entre José Américo de Almeida, Argemiro de Figueiredo e Ruy Carneiro, os Cariris Velhos atuaram como foco das divergências políticas entre as famílias.
Uma questão relevante, que nos é perceptível pela história da Paraíba, de modo geral, é o continuísmo das oligarquias. Há um consenso em que o presidente João Pessoa eliminou as oligarquias do Estado, ao trocar o comando dos chefes políticos. Enquanto, ao deslumbrarmos este movimento numa ótica mais concreta, percebemos que as atividades do então presidente foram contraditórias. Ele não só retirou os Gaudêncios do poder como deu este aos Britos: não foi “o fim” das oligarquias, mas uma substituição de oligarcas. Estas e outras minúcias só são possíveis perceber a partir da aproximação dos argumentos da história local.
Assim, podemos colocar a história local como duas ferramentas metodológicas: o paradigma indiciário e a construção da identidade social, esta com caráter mais político. Para Ginzburg (1990, p. 157) “o historiador é comparável a um médico, que utiliza os quadros nosográficos para analisar o mal específico de cada doente. E, como o do médico, o conhecimento histórico é indireto, indiciário, conjetural”. São nas minúcias que o historiador percebe as causas de “doenças” que não são perceptíveis à “olho nu”. O fato de Serra Branca e São João do Cariri terem participado de diversos tiroteios entre famílias demonstra problemas na vida política e particularidades na História da Paraíba, e consequentemente, na História do Brasil. O paradigma indiciário estudado por Ginzburg valoriza a hegemonia do detalhe em detrimento do todo. Assim, a narrativa “detetivesca” do local nos faz refletir sobre práticas incomuns, particulares. Não pretendemos colocar “o local” como espaço de leis generalizantes, mas demonstrar que nem toda lei é generalizante. O caso dos Cariris Velhos é uma exceção se colocada em relações a outros municípios.
Para Silveira (1996, p.18), a história local traz com si novas abordagens ao conhecimento histórico tal como “as coletividades como objeto, às histórias de vida dos sujeitos; as utopias, a falta de sentido na história; a explicação, à versão do fato”. O conhecimento histórico do local demonstra exemplos de casos que não são comuns à macro história. Não queremos afirmar que o caso das lutas familiares no Cariri paraibano é uma regra geral que a história global descartou, mas sim que, o local demonstra particularidades que podem ser utilizadas como construção de identidades
que levam a autonomia política. No âmbito local é perceptível a análise de rupturas e continuidades, de espaços de experiências e horizontes de expectativas.
O local também constrói identidades. Durante o período estudado houve uma clara distinção entre a identidade de São João do Cariri e de Serra Branca. As famílias do poder criaram espaços distintos para sua atuação, os “currais eleitorais” foram construídos a partir de uma luta política. Dificilmente conseguimos separar “o local” da atuação política social. Referente às relações sociais entre a população28 e as elites, ou, a partir de uma ótica da história social, a conclusão de Jean Blondel (1994, p.12) é bastante convincente:
No campo, por muito tempo, o agricultor foi mantido a parte dos problemas gerais, em virtude das dificuldades de comunicação que se opunham ao desenvolvimento do sentimento nacional. Seu voto não tinha significação política e as ideologias não chegavam até ele. Contentava-se em manifestar sua simpatia por aquele que, na localidade, era o chefe, quer fosse o proprietário da sua terra, quer fosse simplesmente aquele que, em virtude da sua cultura ou riqueza, o auxiliava ou protegia.
A vida política se limitava ao “universo” de vivência da população. Para eles, política era a liderança de seu “chefe”, assim como as artimanhas que estes usavam para continuar no poder. Logo, podemos afirmar que havia uma relação identitária entre a população e as duas famílias. O povo de Serra Branca se identificava mais com os Gaudêncios enquanto os de São João do Cariri com os Britos.
Apesar da dependência política que o “cidadão” tinha em relação com seu chefe, havia manifestações de apoio a causas que protegiam as cidades. Exemplo disto foi a disputa pela mudança da Comarca de São João para Serra Branca em 1947, em que o povo de Serra Branca defendia a família Gaudêncio porque, acima de tudo, esta defendia a cidade, a mesma coisa pode-se dizer de São João do Cariri em relação aos Britos.
O conhecimento histórico, ao tratar da história local, já traz com si, um arcabouço político riquíssimo, que retorna como movimento que modifica o próprio local29. A construção da identidade social, seja a partir das famílias ou a partir da
28Principalmente a população rural.
29O papel do historiador seria o de elo entre a população e sua história. A partir da metodologia e da atuação do historiador no campo, o conhecimento produzido por este retornaria para a população, por sua vez, a população terá uma maior participação política e social em seu município (BARBOSA, 2005, p.10).
população, é uma construção política30 (NEVES, 1997, 26). É essa construção política que elabora o local, tanto a partir da administração como a partir dos discursos. Assim, temos o local como objeto historiográfico e como instrumento de consolidação política e identitária. Neste aspecto, a história local casa com a história política, fato que enriquece o retorno do “político” como estudo da história.
A história política entrou em ostracismo a partir da crítica dos Annales. A política era tida por estes como a história dos acontecimentos, que valorizava a particularidade e a parcialidade, ignorando as massas e a consciência social (JULLIARD, 1976, p130). A partir das décadas de 1970 e 1980 a história política passou por renovações teóricas e metodológicas. A sociedade passou a fazer parte do vocabulário do político. Assim, outros agentes históricos passaram a ser visualizados. Para René Remond (1996, p. 26) a história política ganhou diversidade ao confluir com outras disciplinas e ao levantar novos problemas. Partidos, eleições, biografias, a mídia entre outras categorias fizeram com que a história política fosse mais democrática. Assim, a política deixou de ser apenas uma narrativa de eventualidades para ser um mecanismo de discussão sobre a vida e a organização política na sociedade.
Comparado a esta história das eventualidades, a produção do conhecimento histórico nos municípios paraibanos encontra-se nas mãos de médicos, professores, bacharéis, padres, letrados, em geral. É uma história que narra as gestões dos prefeitos e que coloca as massas, quando as coloca, como problema a ser resolvido. A população local engole a sua própria história como a história dos governantes. Daí a necessidade de buscar uma história local com a participação da própria população.
A Nova História Política trouxe consigo o conceito de cultura política. Originado pela Ciência Política na década de 1950, a “cultura” utilizada em seu conceito tinha sentido de erudição. Eles dividiram a cultura política em três níveis: a cultura política paroquial, cultura política da sujeição e cultura política participativa. A partir da década de 1990, a historiografia se apropriou deste conceito como ferramenta de trabalho. Para Rodrigo Patto Sá Motta (2009, p.21), cultura política é o:
Conjunto de valores, tradições, práticas e representações políticas partilhado por determinado grupo humano, que expressa uma identidade coletiva e fornece leituras comuns do passado, assim como fornece inspiração para projetos políticos direcionados para o futuro.
30Neste sentido temos a palavra política no seu sentido clássico dado por Aristóteles (2006). Para este, a política é a busca da felicidade e do bem comum.
Nesta perspectiva, a cultura política é essencial para a pesquisa sobre história local. As famílias tradicionais que detêm o poder administrativo e, que escrevem “a história” dos municípios, não são os únicos agentes históricos. Pois, ao tratar o local como “grupo humano”, o conceito de cultura política incluiu outros agentes sociais. Nenhuma família conseguiu chegar à “Chefia Suprema” sem a participação destes agentes históricos. A cultura política, como conceito, sofistica as relações de dominação. Ela demonstra que pode haver negociação entre dominantes e dominados, o que não exclui a exploração de classes. Os dominados passam a ser sujeitos da própria história (GOMES, 2005, p.24). A experiência vivida pelos grupos cria espaços de expectativas que configuram a identidade social dos municípios.
Uma história local, escrita na perspectiva da cultura política, ajuda-nos a refletir sobre as deficiências da participação política por parte dos cidadãos. Pois ela demonstra que a população tem poder, baseado na experiência, de agir politicamente. A partir da análise biográfica e governamental de seus governantes, a população deve construir um discurso crítico das famílias que comandam seus locais. Assim, eles se identificam como agentes históricos.
Além disto, o conceito de cultura política nos remete à explicação dos fundamentos do poder por parte das famílias. Para entender a biografia de um governante ou sobre o seu perfil governamental, devemos partir para o local, pois é do local que um determinado sujeito constitui sua cultura política. Assim fez Cittadino (2006, p.41-113) ao escrever a trajetória política da família Maia no município de Catolé do Rocha. A vivência de João Agripino na briga entre as famílias Maia e Suassuna fez parte de sua formação política. Logo, para entender o governo de Agripino Maia entre 1965 e 1971, será necessário buscar sua forma de governo em suas raízes políticas, ou seja, no local.
Como categoria da cultura política, a cultura histórica nos ajuda a compreender os alicerces da identidade local. Pois é a partir das experiências do passado e das expectativas de futuro que a população, assim como as famílias, forjam sua cultura. A relação entre cultura política e cultura histórica fica mais explícita na obra Cultura
política e leituras do passado: historiografia e ensino de história organizado por
Martha Abreu, Rachel Soihet e Rebeca Gontijo. Neste livro há também um artigo de Ângela de Castro Gomes (2007, p.48) que coloca a cultura política como:
Um sistema de representações, complexo e heterogêneo, mas capaz de permitir a compreensão dos sentidos que um determinado grupo (cujo trabalho pode variar) atribui a uma dada realidade social, em determinado momento e lugar.
Rodrigo Patto usa “leituras do passado” na sua conceituação de cultura política. Ângela de Castro Gomes sofisticou mais o conceito devido ao seu estudo sobre o trabalhismo no Estado Novo. A partir de políticas públicas, o Estado buscou construir uma identidade para o país, daí foi necessário construir um passado do qual a cultura histórica passou a ser uma “dimensão constitutiva e também estratégica da cultura política” (GOMES, 2007, p. 49).
O conceito de cultura histórica é necessário para entendermos como se constituiu a identidade social de Serra Branca e São João do Cariri. A cultura política da região era singular, mas a cultura histórica era plural. Além disso, como observaremos nos próximos capítulos, a cultura histórica de Serra Branca começou a divergir da de São João do Cariri a partir da década de 1930: Serra Branca era a cidade do progresso (expectativas) enquanto São João do Cariri era a cidade secular, tradicional (experiência).
Assim, inserido no conceito de cultura política, a cultura história enquadra uma série de fatores que colabora com a formação da identidade política de determinada sociedade. Como afirma Sergei Berstein (1998, p. 362-363).
Factor de comunhão de seus membros, ela [cultura política] fá-los tomar parte colectivamente numa visão comum do mundo, numa leitura partilhada no passado, numa perspectiva idêntica de futuro, em normas, crenças, valores, que constituem um património indiviso, fornecendo-lhes, para exprimir tudo isto, um vocabulário, símbolos, gestos, até canções que constituem um verdadeiro ritual.
A partir desta ideia de cultura política, temos este conceito como prioritário para se entender a formação identitária dos municípios aqui estudados. As famílias do poder pegaram carona com a cultura política mandonista e se readaptaram no cenário político a partir de um “patrimônio indiviso”.
Como afirma Koselleck (2006, p.308):
(...) experiência e expectativa são duas categorias adequadas para nos ocuparmos com o tempo histórico, pois elas entrelaçam passado e futuro. São adequadas também para se tentar descobrir o tempo histórico, pois enriquecidas em seu conteúdo, elas dirigem as ações concretas no movimento social e político.
A cultura histórica - trabalhada como “leituras do passado” e “como projetos políticos direcionados para o futuro” – casa com os conceitos de experiência e expectativa. O passado como experiência demonstra as recordações e o poder invisível (simbólico) que prolifera na vida da população perante o sistema político vigente. Já o futuro como expectativa guarda as esperanças de mudanças, que leva a população a buscar novos mecanismos para revisar sua cultura política.
A história local e a história política seriam insignificantes neste trabalho sem uma abordagem sobre as relações de poder e, principalmente sobre a manutenção do poder utilizado pelas duas famílias. Daí estarem inseridas duas categorias de grande relevância para este trabalho: Poder simbólico e Campo Social, ambos analisados pelo sociólogo Pierre Bourdieu.
Podemos fazer uma referência do campo social como espaço construído por relações de força que confluem em habitus31 e poderes simbólicos. Por poder simbólico entende-se:
Uma espécie de círculo cujo centro está em toda parte e em parte alguma – é necessário saber descobri-lo onde ele se deixa ver menos, onde ele é mais completamente ignorado, portanto, reconhecido: o poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem. (BOURDIEU, 2010, p.7-8) Assim, a região que se estende pela Comarca de São João do Cariri, entre 1930 e 1960, é formado por este poder invisível que é aceito, mesmo sem saber, pela população local. As duas famílias buscavam a partir de práticas discursivas e de estratégias de lutas simbólicas dominarem o campo político. As próprias famílias agiam a partir deste poder invisível, pois não haveria o jogo sem a crença no jogo, não era algo inventado, a crença era algo que já vinha no seio das famílias no tempo e na história.
Esta maneira de buscar o real como relacional, ou seja, o real como espaço de relações derivados do poder econômico e simbólico, faz-nos pensar o conceito de região como objeto de lutas de representação. Ao estender a ideia de região, não só como o local (como é o caso do nosso trabalho), mas como determinado por uma mesma cultura
31O conceito de habitus em Bourdieu (2010, p.61) seria “a espécie de sentido do jogo que não tem necessidade de relacionar para se orientar e se situar de maneira racional no espaço.” O habitus, a partir da crença de todos que vivem em determinado espaço, não possui origens, ele é simplesmente. A mentalidade política, as práticas discursivas e a disputa pelo poder passam a ser naturais no espaço a partir da crença do mesmo exercício do poder.
política, pode-se observar que a região não é pura invenção discursiva consciente: ela se baseia no concreto que cria um discurso inconsciente, invisível e simbólico.
A região pode ser estudada e até mesmo delimitada a partir do campo de luta das classes sociais onde o coração da disputa encontra-se no seio das classes dominantes, ou seja, aqueles que a partir de discursos, legitimam hierarquias. O que detêm maior poder simbólico logo passa a ser o mais reconhecido. Os fundamentos deste poder não se desligam das formas de produção da sociedade: não é por acaso que as famílias Brito e Gaudêncio detinham tal poder ao mesmo tempo em que eram donos de vastas propriedades. Como afirma Bourdieu (2010, p.12), “as facções dominantes, cujo poder assenta no capital econômico, tem por vista impor a legitimidade da sua dominação”. O poder de mando começa com a hierarquia nas relações de trabalho, imposta esta hierarquia, chega a hora de legitimá-la. Cria-se assim o capital simbólico. O nome32, o partido político, os causos, os títulos, os apadrinhamentos formam o capital simbólico das famílias. Assim, a própria região se identifica com o poder exercido pelas famílias: a identidade de um membro da região liga-se primeiro ao seu chefe político para depois se adequar à mesma. O chefe político é aquele que possui capital econômico e capital simbólico significativo. Foi assim que São João do Cariri, a partir de 1947, ficou reconhecido como reduto dos Britos e Serra Branca dos Gaudêncios.
A partir desta análise da luta pelo poder33 formador de regiões34, conclui-se que cabe aos dominados apenas a aceitação a partir do poder simbólico imposto pelos dominantes (BOURDIEU, 2010, p.124). O vaqueiro ou o agricultor são influenciados a terem a sua identidade forjada pela classe dominante, a sua vontade política passa a ser a vontade de seu dominador. Isso, relativo ao poder político dentro do sistema simbólico. A par deste, os dominados conseguem tirar proveito da oposição e da situação no sistema eleitoral, como almoçar na casa dos Gaudêncios e jantar na casa dos Britos. Apesar de haverem bricolagens e estratégias de defesa dos dominados, estes acabam absorvendo os discursos dos dominantes, e se identificam com as causas destes. Daí “fulano” votar no “coroné” devido ao fato deste ser mais “douto” ou mais inteligente, discurso este criado pelo próprio coronel. Para esta estrutura ter fim, seria