2. BASE TEÓRICO-EMPÍRICA
2.6. RELAÇÕES DE PODER
2.6.1. Relações de poder e discurso
Autores, como Dryzek (1996) atestam que as instituições estão muito atreladas aos discursos, ou seja, as regras, procedimentos, normas, padrões são comparadas ao hardware, enquanto o discurso em torno do que é tido como adequado seria o software.
Para esse autor, o desenho institucional é em grande parte uma questão de redesenhar a constelação de discursos dominantes na sociedade, bem como o que os suporta e para o quê/quem é válido. O discurso sobre o que é adequado acontece subjetivamente, mas é solidificado na ação, objetivamente.
Knights (1992) aponta que as instituições e os discursos em torno delas freqüentemente emergem de fora, de uma série de acidentes e eventos localizados arbitrários ou superficiais. A prática social e a sua formação discursiva são independentes daquela que discursa. Para Foucault (1987), a disciplina e as instituições exercem poder através da normatização de procedimentos e da constante vigilância.
Para Knights (1992), o discurso que se espalha pelas organizações, bem como na literatura é de que uma organização é como um conjunto de representações que estão diretamente voltadas para uma proposta objetivada de vantagem competitiva. Para Knights (1992), pesquisadores, quando compartilham dessa visão, exploram o efeito desse poder em sustentar e modernizar regimes particulares de administração pelos mecanismos da disciplina e da vigilância. Entre as necessidades ditadas para as organizações como a exigência de apresentação de demonstrações e racionalizações para credores e acionistas, o desenvolvimento de companhias multidivisionais e multinacionais, o crescimento da
educação gerencial gerando novas disciplinas, o incremento da importância do mercado e consumo nas economias do ocidente além de outras tantas, fazem parte do discurso espalhado pelo mundo organizacional (Knights, 1992).
De acordo com Foucault (1980, p. 154), “o poder é exercido em virtude das coisas sendo conhecidas e as pessoas sendo vistas”, ou seja, não é possível para o poder ser exercido sem conhecimento, também é impossível para o conhecimento não gerar poder. O conhecimento é a operação da disciplina, provendo bases para ação (Townley, 1993). O foco é saber como as práticas disciplinares, a lógica e a racionalidade operam para criar ordem, conhecimento e propriedades de poder, transferíveis em diferentes domínios. A disciplina assume a condição de caracterizar, classificar e especializar com o apoio de normas e hierarquias quais atores ocupam que posições em escalas, o que pode qualificá-los ou desqualificá-qualificá-los. As estruturas normativas e regulativas servem também como base para as relações de poder que se instituem no campo organizacional e espaço social em análise, na medida em que apontam os parâmetros adequados de ação.
A prática do poder pode ser caracterizada por uma legitimação, um discurso, por lei, mas também por uma estreita grade de ligações de coerções disciplinares com o propósito de assegurar a coesão de um corpo social (Foulcault, 1980). Para esse autor, não há possibilidade de existir liberdade num espaço sem relações de poder, pois a libertação da opressão, das relações de poder é uma ilusão, porque o poder não é exclusivamente repressiv; é capilar e difuso. É impossível escapar das relações de poder, mas para que o poder seja exercido, deve haver entre os dois lados uma certa forma de liberdade.
Segundo Rutherford (1999), a visão foulcauldiana de poder lida com questões de dominação e disciplina, como algo que não somente constrange atores, mas também produz diferentes modos de subjetividade a possíveis relações sociais num dado contexto, enfatizando que as práticas e instituições devem ocupar o lugar central nas análises da sociedade. Habermas (1987) aponta para a necessidade de se considerar o poder para além das questões materiais e econômicas e abranger as razões comunicativas necessárias à reprodução simbólica. A linguagem é instrumento de poder simbólico, definido em e por uma relação que desenvolve a crença na legitimidade das palavras e do agente que o profere, uma relação de poder via discurso.
Os procedimentos disciplinares podem obviamente definir parâmetros de comportamentos aceitáveis e não aceitáveis; cabe aos atores identificar o válido do inválido, processos encaminhados pela inculcação de hábitos requeridos, regras e
definições de normas e comportamentos socialmente construídos; o ator (indivíduo) tende a estar perdido em meio a estes processos (Townley, 1993). A autora sugere que as pesquisas deveriam examinar as políticas de como as ocupações começam a ser definidas e como essas definições se tornam institucionalizadas, disseminadas e reforçadas através do tempo nas estruturas.
Para Bourdieu e Wacquant (1992, p. 100), as fronteiras de um campo podem somente ser determinadas por investigação empírica e são sempre marcadas por “barreiras de entrada mais ou menos institucionalizadas”. Então os limites de um campo organizacional estão situados no ponto onde os efeitos do campo cessam.
Concorde Bourdieu e Wacquant (1992), uma análise em termos de campo envolve três momentos necessários e internamente conectados. Primeiro, análise da posição do campo vis-à-vis do campo de poder, pois o campo é contido dentro de um campo de poder.
Segundo, mapear a estrutura objetiva das relações entre posições ocupadas pelos atores que competem por legitimadas formas de autoridade específica do qual o campo está inserido.
E terceiro, analisar o hábito dos agentes, os diferentes sistemas de disposições que eles têm adquirido pela internalização de um determinado tipo de condição social e econômica.
Mann (1997) aponta para a permeabilidade dos espaços, afirmando que as sociedades não são unitárias nem totalitárias, porque não será encontrada uma sociedade simplesmente delimitada num espaço geográfico ou social. Uma consideração geral das sociedades, suas estruturas e sua história podem ser dadas em termos de inter-relações entre quatro fontes de poder social, que são as relações ideológica, econômica, militar e política. A emergência das relações de poder tem sido atreladas a vontade dos atores em atingir determinados objetivos. Como há muitos interesses e metas, as formas de relação social vão surgindo como redes de relações.
O poder ideológico deriva de três recursos: do conceito de significados impostos sobre as percepções; das normas compartilhadas, que advertem sobre como os atores devem agir nas suas relações com os outros; o terceiro recurso consiste nas práticas rituais.
Quanto ao poder econômico, deriva da satisfação das necessidades através da organização social em torno da extração, transformação, distribuição e consumo dos objetos. Detêm então poder aqueles que monopolizam estes processos. O poder militar deriva da necessidade de se organizar a defesa física dentro de espaços que são essencialmente concentrados e coercivos. Sobre o poder político, Mann (1997) afirma ser derivado de uso centralizado, institucionalizado, da regulação territorializada de muitos aspectos das
relações sociais, o poder do Estado, embora o poder político transcenda estes limites, sendo necessariamente centralizado e territorial.