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2. BASE TEÓRICO-EMPÍRICA

2.6. RELAÇÕES DE PODER

2.6.2. Relações de poder e estruturas institucionais

O poder diferencial entre atores está relacionado às diferenças das posições destes atores na rede de relações. Atores que em redes de troca são com menos freqüência excluídos possuem mais poder sobre aqueles atores que são mais freqüentemente excluídos das relações (Skvoretz e Willer, 1993).

São apontados por Powell (1991, p. 191), quatro caminhos para a reprodução institucional: “(1) o exercício do poder, (2) interdependências complexas, (3) suposições tidas como adequadas, (4) desenvolvimento de processos de dependência”. O poder está relacionado com a preservação histórica de padrões de valores. A intervenção das elites também pode ser fundamental na formação institucional, na qual se procura manter as práticas, procedimentos e valores que dão sustentação às convenções das elites. Quanto à interdependência, acontece a partir de relações hierárquicas, partindo de organizações centrais, nas quais as práticas resistem aos esforços para a mudança. Quanto aos padrões sociais, providenciam definições morais de intenções e regulações acerca da vida social.

Quanto ao quarto fator, alega que as práticas e procedimentos têm efeitos externos positivos, conseqüentemente, as escolhas feitas por uma organização são bastante influenciadas pelas escolhas de outras. Os modelos de trajetória de dependência sugerem que os arranjos institucionais não são flexíveis, não podem mudar rapidamente em resposta às perturbações do ambiente. Os mecanismos de feedback de auto-reforço dificultam as organizações na exploração de opções alternativas.

As organizações, sob a ótica de Fligstein (1991) operam em três contextos que podem ser denominados de esferas institucionais: a existência de estratégia e estrutura da organização, um grupo de organizações compreendendo um campo organizacional e o Estado. Estas são arenas onde as regras são criadas, ações significativas ocorrem, relações de poder são formadas, bem como onde concretas formas de organização social são estabelecidas. A habilidade para implantar regras está diretamente associada ao poder dos atores dentro e entre as organizações, estas, dotadas de estruturas e estratégias que limitam e permitem ações, refletem sistemas de poder.

Segundo Fligstein (1991), turbulências nos campos organizacionais podem ser provocadas pelos interesses de atores que, sustentados nas posições podem articular novas estratégias bem como ter poder para implementá-las. Expõe Fligstein (1991, p. 312) que “a teoria institucional tem superestimado o papel das normas na construção dos campos

organizacionais e subestimado o relativo poder dos atores nas organizações”. Brint e Karabel (1991) corroboram com a crítica, afirmando que as análises institucionais requerem primeiramente uma análise dos centros de poder que operam dentro dos campos organizacionais, geralmente concentrado nas grandes organizações e nos corpos governamentais. Os atores, que estão no poder, agem então de forma a preservar estas posições (Fligstein, 1991).

Esse autor afirma que as organizações podem controlar campos com base em dois princípios. O primeiro, está relacionado ao tamanho da organização, conferindo poder aos atores dentro do campo. O segundo se refere ao grau em que todos os membros se beneficiam com a formação de regras estáveis e ações legitimadas no campo onde a cooperação é esperada. Uma das grandes causas da estabilidade, ou inércia, conceito da ecologia organizacional, é o interesse do conjunto de atores em manter determinada distribuição de poder e dos recursos. O campo organizacional aqui assume uma característica que incorpora tanto as normas compartilhadas, quanto a construção de poderosas organizações assentadas em interesses comuns. Significa aceitar que a interpretação dos atores envolvidos está estruturada também nos seus interesses, os quais refletem as suas posições na estrutura social, bem como a habilidade dos atores em articular uma visão coerente do mundo, fundamentada nas respectivas posições (Fligstein;

Brint e Karabel, 1991).

Friedland e Alford (1991, p. 244) alegam que “os limites, os instrumentos e a estrutura de poder variam institucionalmente, e nem a incerteza nem o poder são suficientes para explicar as transformações institucionais". Estas transformações são simultaneamente materiais e simbólicas, envolvem não apenas mudanças na estrutura de poder e interesses, mas na definição do poder e interesse.

Para Fligstein (1995, p. 502), “uma sociologia econômica deve ser institucional e histórica”. Para esse autor, as versões sobre redes e o comportamento das organizações têm ignorado três elementos: o Estado, a política e o efeito das leis sobre a definição das instituições na sociedade. A constituição das elites capitalistas através das sociedades e os papéis das famílias e dirigentes refletem a interação histórica e institucional entre elites, firmas e Estado. Outro ponto levantado por Fligstein (1995) está relacionado à estrutura cultural da ação. Um exemplo é a concepção de finanças de uma organização, que pode ser utilizada para entender e caracterizar ações em diferentes sociedades. Se atores utilizam estruturas, estas são dispositivos úteis para predizer o comportamento e a periodização de

formas dominantes de interações entre Estado e firmas. Significa que as estruturas podem variar de contexto e de padrões de relação.

A compreensão de que o poder não é uma propriedade de alguém ou de um grupo, mas um aspecto da real ou potencial interação entre dois ou mais atores sociais também é compartilhada por Knoke (1994). Esta definição de poder assume uma dimensão relacional assimétrica. Dado o fato de o poder ser inerentemente situacional, ele tem a possibilidade de ser dinâmico. A força, a violência, a coerção ou a voluntária obediência podem flutuar através do tempo.

Knoke (1994) sustenta o seu conceito de poder a partir da combinação de duas dimensões: a influência e a dominação. A influência é uma dimensão relacional do poder, tendo em vista que os canais de comunicação devem existir entre o influente e influenciado. É nesta compreensão que mora o aspecto intersubjetivo da influência. Quanto à dominação, é uma relação em que um ator controla o comportamento de outro via oferta ou retenção de benefícios, ou seja pelas sanções - recompensas ou punições. A estabilidade de estruturas sociais permite que elas sejam analisadas enquanto estruturas de relações de poder entre os atores componentes distribuídos nas diversas posições da rede. E tanto as formas, quanto o conteúdo destas relações têm conseqüências significativas para a formação das atitudes políticas e o comportamento dos atores (Knoke, 1994). Da mesma forma que as relações entre os atores são envolvidas por conflitos, competição e relações de poder, a cooperação também é um componente importante, principalmente num campo organizacional, onde atores partilham valores, categorias de interpretação, dificuldades entre outros elementos.

2.7. COOPERAÇÃO

De acordo com Faerman, McCaffrey e Slyke (2001), existem quatro fatores que estão presentes nos processos de cooperação entre organizações, os quais podem influenciar de forma a colaborar ou arruinar os processos de cooperação: (1) disposição inicial para a cooperação: as pessoas estariam mais dispostas a cooperar quando esperam que seu gentil comportamento seja recompensado com o gentil comportamento dos outros;

(2) existência de incentivos: a cooperação se dá pela ênfase nas necessidades pragmáticas presentes nas relações econômicas, tecnológicas e sociais; (3) liderança: a forma de atuação das lideranças destas relações são importantes na medida em que legitimam certas formas de atuar no interior do grupo e; (4) o número e variedade de organizações

envolvidas: a cooperação é desenvolvida mais facilmente quando os membros são semelhantes e quando o número de integrantes é suficiente para que todos possam comunicar-se e negociar com resultados razoáveis. Para Faerman, McCaffrey e Slyke (2001), a probabilidade de fracasso cresce em proporções geométricas ao tamanho do grupo. Apesar dos fatores aí levantados salienta-se a importância da compreensão de como os elementos das relações interorganizacionais se combinam dentro de um contexto particular, bem como as relações interpessoais entre os dirigentes de cada organização.

Sobre as questões relacionadas à visão de ambiente, contribui Maillet (1996, p.72) quando expõe o conceito de milieu: “uma entidade geográfica aberta para o lado exterior do mundo” é ligado a um grupo de atores e contém recursos específicos humanos e materiais que interage permanentemente com as fronteiras. É essencial nos processos de mudança, embora existam padrões, regras e valores que governam a maneira pela qual atores se comportam e se relacionam, princípios de reciprocidade, cooperação/competição, solidariedade e mútua assistência. Esse grupo de atores divide certa interdependência na formulação e escolha de estratégias, fazendo uso de recursos humanos e materiais disponíveis no milieu. Para Maillet (1996) um milieu inovador pode ser visto como o cérebro de um sistema produtivo, se visto como o lugar onde as faculdades cognitivas dos atores estão concentradas, onde são desenvolvidas as vantagens competitivas do sistema de produção local.

A teoria econômica assume que organizações são compostas de coalizões com diferentes interesses e capacidades para influenciar e adotam estruturas que suportam sua coalizão de poder dominante (Pfeffer, 1982). Coalizões competindo por poder no nível interorganizacional incluem vários grupos de domínio.

Para Smith, Carroll e Ashford (1995), muitas definições de cooperação se focam sobre processos pelos quais atores, grupos se unem, interagem e formam relações para ganhos ou benefícios mútuos. Ring e Van de Ven (1994) definem a cooperação de forma mais dinâmica, incluindo a disposição dos atores em continuar as relações cooperativas.

Para esses autores as relações de cooperação são mecanismos socialmente construídos para a ação coletiva, que é continuamente reestruturada por ações e interpretações simbólicas das partes envolvidas (1994, p. 96).

Para Pfeffer (1982), a teoria do poder e conflito é útil para predizer as dinâmicas das relações cooperativas. Teorias da estrutura social explicam que a emergência de relações cooperativas podem desencadear-se de características estruturais como

heterogeneidade e homogeneidade, distância, história e poder, ou seja foca-se para dimensões externas à relação (Smith, Carroll e Ashford, 1995).

Elucidados alguns fenômenos desencadeados nas relações interorganizacionais, pode-se afirmar que o estudo carece de suporte metodológico e teórico que considere as estruturas das relações do campo organizacional, que é um sistema social. Atribui-se a um sistema social uma série de padrões estruturais e de relação, desenvolvidos a partir da interação entre os atores organizacionais. Pode-se afirmar que a rede é atualmente a imagem que mais se aproxima do desenho das relações organizacionais. Embora reconhecendo que uma estrutura de relações organizacionais pode ter uma infinidade de relações, permeáveis aos níveis local, regional, nacional e internacional, o presente estudo delimita as fronteiras no espaço local. A próxima apresentação teórica aponta algumas assertivas importantes à compreensão das relações interorganizacionais.