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4 AJUSTANDO AS LENTES: A MÍDIA COMO DISPOSITIVO

4.2 RELAÇÕES DE PODER E GOVERNAMENTALIDADE: NOÇÕES

PARTIR DA MÍDIA

Como vimos, a mídia pode ser compreendida como um dispositivo de saber-poder: ela produz e veicula discursos dotados de autoridade, escolhe e aponta caminhos, influencia a vida das pessoas, constrói sujeitos e dita suas formas de existência, traduzindo representações sobre quem (ou o que) nós somos e o que devemos fazer. Logo, constitui “práticas sociais que ao forjarem sentidos ganham efeitos de verdade, instituem modos de viver, de ser, de compreender, de explicar a si mesmo e o mundo” (MEDEIROS; GUARESCHI, 2008, p. 88).

Operar sobre as produções midiáticas implica apreender seus enunciados, tomando-os como acontecimentos, que irrompem em determinado tempo e espaço, a partir de um exercício de análise que possibilite perscrutar seus textos e imagens. Os enunciados veiculados pela mídia remetem a discursos que, inseridos em jogos de verdade, produzem modos de ser e viver. É preciso compreendê-los como formações discursivas que se inserem dentro de um campo discursivo, o qual está sempre imerso e em relação com determinados campos de saber; logo o desenvolvimento de um trabalho sobre eles envolve compreender como o sujeito é proposto ali e quais os modos de viver que neles circulam.

Sabemos que cada sociedade estabelece seus regimes de verdade, ou seja, as formas socialmente aceitas de se produzir discursos por meio de determinadas estratégias de controle, seleção, organização e veiculação de seus enunciados, inclusive, de quem pode falar, em que situações e a partir de que condições (FOUCAULT, 1979/2011). Existem verdades regulamentadas (por meio de portarias, decretos, documentos legais, pareceres científicos, relatos médicos e psicológicos etc) que estabelecem relações de saber-poder nos/entre os sujeitos. Na nossa sociedade, os discursos sobre a saúde dos homens, área de interesse deste trabalho, se constituem em meio a regimes de verdade, que por sua vez estabelecem um conjunto de saberes e formam um determinado campo discursivo que tem efeitos de verdade e efeitos de poder, dentre eles a legitimação e naturalização de certas formas de masculinidade.

Assim, voltamos, aqui, nossa atenção para o que é visibilizado pela mídia oficial do Ministério da Saúde brasileiro enquanto “saúde do/s homem/ns” com vistas a questionar de que forma isto se coloca como estratégia biopolítica ou, como ela conforma estratégias para governar práticas sociais em uma determinada população. Isto porque, reconhecemos que os discursos produzidos pela mídia compõem uma arena de verdade e saber que atuam na constituição de sujeitos e compõem uma arte de governar (PRUINELLI; KRUSE, 2012).

Governar aqui remete à noção de “governamentalidade”, como trabalhada por Foucault (1979/2011), a ação de determinar o campo de ação dos outros. Com isto, o governo dos sujeitos não se realiza necessariamente, via ação direta e objetiva, pelo uso de técnicas de supressão de condutas, mas por processos de regulamentação e normalização que possibilitam transformar características desejáveis, em termos de direção da ação de governo, em naturais. No caso das políticas públicas de saúde no Brasil, as formas naturalizadas de práticas de cuidado se constituem na produção de sujeitos da saúde que possam desenvolver relações de autocuidado: como padrão/normal, as ações de governo na saúde visam sujeitos que possam desenvolver um autogerenciamento de si, da sua própria condição de saúde. Nesta perspectiva, podemos pensar a saúde do/s homem/ns como “um campo de produção de sujeitos, no qual se compreendem as formas de subjetivação como práticas que se instituem no cotidiano, as quais forjam determinados modos de relação” que os homens passam a/necessitam estabelecer consigo mesmos (MEDEIROS; GUARESCHI, 2008, p. 89).

Assim, reconhecemos que os materiais de mídia oficiais utilizam/produzem discursos que se prestam ao governo dos sujeitos, atuando como estratégias públicas de disciplina e regulamentação das subjetividades, a partir das quais as suas vidas são repetidamente rediscutidas e repensadas (PRUINELLI; KRUSE, 2012). Este tipo de mídia faz emergir condições de possibilidade que favorecem a constituição de sujeitos-homens e de modos de subjetivação masculinos, como alvos de uma política pública de saúde específica.

Neste sentido, nos propomos a entender como os discursos produzidos e veiculados atravessam os sujeitos e os instituem como sujeitos de cuidado à saúde. No caso, na PNAISH, como tais discursos possibilitam incitar determinados sujeitos a realizarem uma dobra sobre si constituindo-os a partir de dois movimentos destacados por Foucault (1995): enquanto sujeitos apreendidos por técnicas de governo, por meio de processos de assujeitamento; e, enquanto sujeitos anexados a si próprios, capturando suas subjetividades em torno de um investimento de si sobre si, na busca de construí-los como sujeitos que precisam desenvolver práticas de autocuidado à saúde. Assim, como sujeitos que precisam realizar determinadas técnicas sobre seus corpos, pensamentos e comportamentos, na perspectiva de constituírem-se como sujeitos saudáveis. Investimos, portanto, na identificação dos meios pelos quais os materiais de mídia oficiais da CNSH/MS proporcionam um trabalho destes sujeitos sobre si.

Feitas estas considerações, cabe, neste momento, situar melhor o norte teórico- epistemológico que utilizamos para basear as reflexões trazidas nesta tese: as contribuições de Foucault, tomadas como ferramentas conceituais para problematizar as maneiras pelas quais determinadas construções midiáticas atuam na produção de sujeitos e modos de subjetivação.

Grosso modo, pode-se pensar que Foucault buscou problematizar o sujeito em três momentos (ou fases) distintos: buscando compreender como o ser humano pode se constituir como objeto e sujeito do conhecimento (Arqueologia do Saber); como o sujeito se funda por meio do exercício do poder, como um de seus efeitos (Genealogia do Poder); e as formas pelas quais o sujeito busca seus modos de ser, pelas relações intersubjetivas e o exercício de sua liberdade (Ética dos Cuidados de Si). Aqui, nos situamos particularmente no seu “projeto” Genealógico, destacando as noções de poder e de governamentalidade como matrizes de inteligibilidade para analisar as formas como a saúde dos homens vai sendo constituída, no Brasil, por estratégias específicas de saber-poder que inscrevem modos de ser.

De maneira especial, destacamos outras leituras, também deste autor, sobre os modos de subjetivação que emergem nessa dinâmica do poder, possibilitando compreender como determinados homens são tornados inteligíveis pela política de saúde dos homens, a partir de processos de inscrição de masculinidades tornadas legítimas (e/ou ilegítimas) neste contexto.

A questão do poder (ou melhor, das relações de poder) é posta como um dos principais instrumentos (e objetos) de análise de Foucault. Para ele, para que possamos compreender determinados fenômenos, processos históricos da humanidade, é necessário estarmos atentos aos regimes de poder que se (re)produzem no interior dos contextos singulares. Ou seja, precisamos observar o modo como ele opera. Ao propor uma genealogia do poder, Foucault busca refletir sobre os modos como vão se estruturando as relações humanas no interior das sociedades, ao longo da história, produzindo verdades, saberes e práticas. É preciso que nos remetamos à análise do seu funcionamento diário, “ao nível das micropráticas, das tecnologias políticas onde nossas práticas se formam” (FOUCAULT, 1979/2011, p, 203)

A noção de poder apresentada por Foucault (1979/2011) se distancia de uma perspectiva totalizante e reificante, por meio da qual busca desconstruir a ideia de que se trata de algo que se possui ou que se pode apreender, como uma materialidade. Também não é algo que possui uma essência, uma natureza específica é, antes, “uma prática social e, como tal, constituída historicamente” (MACHADO, 2011).

Para Foucault (1979/2011), o poder não é algo que se adquire, que se possa ter e compartilhar, ele se exerce de diferentes maneiras e em meio a relações desiguais e sujeitas a variações; logo, não existe uma oposição definitiva entre dominantes e dominados, mas uma múltipla correlação de forças que atravessam e constituem o corpo social. Também não é algo que parte, exclusivamente, do aparato estatal, como um tipo de força que provém de instâncias hierárquicas e/ou de controle, de cima a baixo, do centro para a periferia; pelo contrário, ele é capilar, emana de todos os lados, atravessa todo o corpo social, atua no local,

no aspecto microfísico. E a partir desta condição, possibilita ser analisado por meio das tecnologias que atuam sobre os indivíduos, técnicas que visam controlá-lo (YAZBEK, 2013).

É nesta direção que se pode reconhecer a positividade da noção de poder situada na genealogia de Foucault, tomada como uma das suas principais proposições. Para ele não se deve apreender o poder tomando-o por seus aspectos negativos, com a atuação de forças que visam excluir, repreender, proibir, controlar, privar os indivíduos, mas em seu caráter de produção: “o poder produz realidade, produz campos de objetos e rituais da verdade. O indivíduo e o conhecimento que dele se pode ter se originam nessa produção” (YAZBEK, 2013, p. 94). Neste sentido, os sujeitos são efeitos da ação do poder: o poder funda os sujeitos.

É pela atuação das tecnologias do poder que o sujeito se constitui, tecnologias que visam os corpos individuais não para reprimi-los e mutilá-los, mas para incitá-los, induzir neles comportamentos e condutas que possibilitem seu adestramento (FOUCAULT, 1975/2013). Nesta dinâmica, é preciso reconhecer, o poder não adquire uma perspectiva avassaladora, do qual não se pode escapar, pelo contrário, pois onde há poder, há resistência.

As resistências são analisadas por Foucault a partir da sua atuação contra as diferentes formas de ação do poder. Elas podem ser tomadas como recusas às investidas de forças que tentam subjugar o indivíduo, tornando-o “sujeito a” (FOUCAULT, 1995). Assim, as resistências incidem contra a submissão da subjetividade. Falar em resistência, implica em reconhecer a noção de liberdade subjacente às relações de poder, uma vez que, como o próprio autor relembra, o poder só pode se exercer sobre sujeitos livres

A preocupação de Foucault em estudar o poder e seu modo de funcionamento não consistiu em uma tentativa de formular uma teoria do poder, mas pelo seu reconhecimento enquanto um operador que possibilitava a compreensão de como os indivíduos se subjetivam. Nestes termos, se pode entender que a questão do sujeito/da subjetivação sempre esteve em suas preocupações, sendo um fio que percorre e articula as suas produções ao longo do tempo. Assim, embora muitos pesquisadores entendam processos de ruptura entre suas elaborações, especialmente em seus últimos trabalhos, é importante retomar Foucault em suas palavras:

Eu gostaria de dizer, antes de mais nada, qual foi o objetivo do meu trabalho nos últimos vinte anos. Não foi analisar o fenômeno do poder nem elaborar os fundamentos de tal análise. Meu objetivo, ao contrário foi criar uma história dos diferentes modos pelos quais, em nossa cultura, os seres humanos tornaram-se sujeitos (FOUCAULT, p. 1995, p. 231).

Logo, o sujeito esteve sempre ali como marca de seus trabalhos, como objeto de problematização, situado nos diferentes processos históricos que marcaram a constituição de diferentes formas de sujeito, imersos em jogos de verdade, relações de poder e modos de

subjetivação. Como ele mais à frente enfatiza: “não é o poder, mas o sujeito, que constitui o tema geral de minha pesquisa” (idem, p. 232).

No entendimento de Deleuze (1991), o pensamento de Foucault foi/é marcado por crises que irrompem em meio a determinados acontecimentos fazendo-o realizar deslocamentos em suas elaborações. Neste sentido, recorre à noção de “dobra” para definir como as teorizações de Foucault não são lineares e vão adquirindo novos contornos à medida que se envergam em direção a outros horizontes. A dobra diz respeito à necessidade de mudar de direção, à medida que se reconhece que é preciso tomar um outro lado para continuar elaborando: experimentar a diferença, sair do mesmo.

Neste sentido, a reorientação do trabalho de Foucault de uma perspectiva genealógica a um investimento sobre a ética dos cuidados se si, constitui uma dobra, e não uma ruptura. É como se o autor se desse conta, em determinado momento, que somente as relações de poder (e saber) não eram suficientes para o entendimento da “questão do sujeito”, sendo necessário direcionar o seu olhar para outro foco. Assim como foi preciso entender que saber e poder precisavam ser tomados como dois lados de um mesmo processo (enquanto dobra), e deslocar-se para o domínio da ética constituiria um movimento necessário, que o possibilitaria (re)situar o seu trabalho (SALES, 2008).

É importante salientar que abordar a questão do sujeito a partir da obra de Foucault, significa falar de subjetivação. Ou melhor, implica falar de sujeitos, de subjetividades e de processos de subjetivação. Segundo Judith Revel (2005, p. 82), o termo subjetivação, diz respeito a um processo pelo qual se obtém a constituição de um sujeito, ou, mais exatamente, de uma subjetividade”. Para ela,

[...] os ‘modos de subjetivação’ ou ‘processos de subjetivação’ do ser humano correspondem, na realidade, a dois tipos de análise: de um lado, os modos de objetivação que transformam os seres humanos em sujeitos – o que significa que há somente sujeitos objetivados e que os modos de subjetivação são, nesse sentido, práticas de objetivação; de outro lado, a maneira pela qual a relação consigo, por meio de um certo número de técnicas, permite constituir-se como sujeito de sua própria existência (idem, ibidem)

A perspectiva de Foucault sobre a questão do sujeito se coloca contrária a uma concepção universalista e essencialista, como se o sujeito já estivesse desde sempre aí. Para ele, o sujeito precisa ser tomado em sua constituição histórica, marcado por jogos de verdade e pela ação de diversificados procedimentos de inscrição pelos quais as verdades são instituídas e desinstituídas por meio de suas práticas. Assim, o sujeito é produzido pela história de si mesmo e pela história que o permeia, em termos destes jogos de verdade que variam no espaço e no tempo (MURAD, 2010).

Para Foucault, o sujeito pode ser tomado em dois sentidos: um sujeito marcado pelo investimento das estratégias de poder sobre o corpo que buscam controlá-lo e normalizá-lo, produto de processos de assujeitamento; e o sujeito preso a si mesmo, por um autoconhecimento, num trabalho de si sobre si (HENNIGEN; GUARESCHI, 2006). Assim, no exercício de problematização do sujeito, Foucault vai se referir a dispositivos de sujeição e a práticas de subjetivação. Nossas reflexões vão se situar na linha tênue que pode ser desenhada entre estes dois processos, considerando as formas como os indivíduos vão se constituindo como sujeitos (ou subjetividades) no campo da saúde pública, especialmente a partir de práticas específicas de governo adotadas para a condução de uma política pública.

Na leitura de Henrique Nardi e Rosane Silva (2004), Foucault considera três formas de organização social para realizar uma análise das maneiras como vão se produzir os processos de subjetivação, em uma perspectiva histórica (ou genealógica): as sociedades soberanas, as sociedades disciplinares e as sociedades de controle. Cada uma vai apresentar e desenvolver maneiras particulares de atualização de estratégias de poder e das técnicas de subjetivação.

Na aula de 17 de março de 1976 do curso “Em defesa da sociedade”, Foucault aborda a passagem do Poder Soberano para o poder sobre a vida, caracterizado por ele como Biopolítica. O poder da soberania na época clássica poderia ser expresso com os termos “fazer morrer” e “deixar viver”, já que, na soberania, o direito da vida e de morte era um dos atributos fundamentais: o soberano podia decidir pela vida e/ou pela morte. No século XIX, vai ocorrer uma mudança, que não exclui a forma da soberania, mas a modifica, provocando uma inversão nestes: “fazer viver” e “deixar morrer”, transformação que se situa no nível dos mecanismos e das tecnologias do poder (FOUCAULT, 1976/2005).

Trata-se, portanto, de uma das transformações que vai ocorrer no direito político deste século, processo que se iniciou em momentos anteriores, a partir das tecnologias disciplinares. Em uma leitura histórica, Foucault aborda que entre os séculos XVII e XVIII, começaram a ser estruturadas técnicas de poder que tinham como principal objeto de atuação o corpo. Tais técnicas visavam o corpo individual, por meio da disciplina, utilizando procedimentos que asseguravam a distribuição espacial dos indivíduos, um esquadrinhamento.

Em “Vigiar e Punir”, este autor aborda a disciplina a partir de um conjunto de mecanismos que atuam sobre o corpo dos homens de modo a docilizá-los. O poder disciplinar, em suas palavras, é “um poder que em vez de se apropriar e de retirar, tem como função maior ‘adestrar’; ou sem dúvida adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor” (FOUCAULT, 1975/2013, p.164). A disciplina “fabrica, assim, corpos submissos e exercitados” (idem, p. 133), com o objetivo de, através do controle, da vigilância e do

exercício, otimizá-los, torná-los, cada vez mais, úteis. O “corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe” (idem, ibidem).

Segundo Foucault (1975/2013), a disciplina produz o sujeito. Através de mecanismos sutis que investem no detalhe, faz do indivíduo objeto e instrumento de seu exercício, utilizando, para isto, procedimentos bastante característicos: a vigilância hierárquica, a sansão normalizadora e o exame. Com o poder disciplinar, surge certa capilaridade nos mecanismos do poder, que agora não mais se situa nas mãos do soberano, e passam a atuar no corpo social por meio de instituições disciplinares: “o poder da soberania é substituído gradativamente pelo poder disciplinar e, por conseguinte, as monarquias soberanas se convertem aos poucos em verdadeiras sociedades disciplinares” (POGREBINSCHI, 2004, p.190).

Nardi e Silva (2004) vão nos lembrar que um dos principais objetivos do modelo disciplinar é o de forjar a ideia de um indivíduo. Em sua leitura, em “Vigiar e Punir”, Foucault (1975/2013) vai apresentar uma lógica de proteção do indivíduo em razão das investidas massificantes do capitalismo, o que resultará numa necessidade de construir o lugar ocupado por ele no âmbito do sistema produtivo. A ação das disciplinas, por meio de técnicas de esquadrinhamento, controle e classificação vai favorecer a constituição de uma ideia de subjetividade privatizada, modelada às exigências do capitalismo (NARDI; SILVA, 2004).

Uma mudança se observa após a primeira metade do século XVIII: com o progressivo processo de industrialização, o controle sobre os indivíduos vai adquirir novos contornos, mediante o aprimoramento de suas técnicas. Neste momento, era necessário que este controle se desenvolvesse de maneira mais imaterial, “não permanecendo apenas ao visível; era preciso atingir o próprio modo de existência dos indivíduos, modelando seus desejos mais íntimos, tornando-os inofensivos e submissos às novas regras do capital” (NARDI; SILVA, 2004, p. 191). Assim, agora, o foco não se situa apenas sobre o corpo, mas sobre a vida.

Neste cenário, surge uma tecnologia de poder que vai modificar o poder disciplinar (não ocorre uma supressão, pois não há uma substituição nesses processos históricos), ainda fazendo uso da trajetória de controle da técnica disciplinar de regência dos corpos em um nível individual, mas direcionando-a de estratégias de poder individualizantes para o poder massificante. Começam a operar processos que objetivam a regência da vida através de mecanismos sutis, com o intuito de atuar sobre a população (FOUCAULT, 1976/2005).

Dessa forma, da passagem das sociedades de soberania, às sociedades disciplinares e às sociedades de controle vai haver uma intensa modificação nos modos de exercício do poder, em direção progressiva a formas de poder em que se tornam cada vez mais visíveis a atuação e existência de objetos individualizantes, com o “desenvolvimento de técnicas de

poder orientadas para os indivíduos e destinadas a governá-los de maneira contínua e permanente” (FOUCAULT, 1981/1990, p. 98). O panóptico, por exemplo, tomado de análise por Foucault a partir de Bentham, vai funcionar como um dispositivo importante para marcar a transição das sociedades disciplinares às sociedades de controle.

Para Deleuze (1991), o panoptismo opera em duas direções: 1) a partir do modelo arquitetônico definido por Bentham, atua como máquina concreta que permite “ver sem ser visto”, e; 2) como máquina abstrata se dissemina por todo o corpo social com a finalidade de impor condutas a uma totalidade de seres humanos distintos. É na articulação destas maquinarias que se marca o apogeu do modelo disciplinar e, em consequência, o surgimento de um novo modelo de sociedade em que a disciplina e o controle não se restringiriam apenas às instituições e aos espaços de confinamento, mas se fariam presentes de diferentes maneiras, e de forma bastante sutil, por toda a sociedade, a partir da criação de processos mais flexíveis de controle (NARDI; SILVA, 2004).

Na perspectiva destes autores, o que muda são as formas de atualização do poder que