Quando se problematiza a relação da performance art com a indumentária, diversas são as questões a se pensar. Lurie, descreve sobre a existência de uma roupa que ela denomina como mágica: “Peças de roupa também podem ser tratadas como se tivessem mana, força sobrenatural, impessoal que tende a se concentrar nos objetos” (LURIE, 1997, p. 45). Para a autora, certos trajes são como um talismã
ou mesmo possuem algum poder sobre aquele que o veste como por exemplo, o figurino para o ator que se prepara para entrar em cena. Este ritual de vestir um traje de cena é crucial para os performers, sendo vista como uma etapa de preparação - o próprio vestir é então, um ritual de transformação.
Baena (2015) complementa a colocação de Lurie afirmando que “acredita-se que o vestuário é elemento importante na composição dessas cenas peculiares, o que gera uma reflexão acerca da performance dos corpos que dela participam, na medida em que funcionam como fatores determinantes nas atitudes, nas práticas e nos comportamentos espetaculares” (BAENA, 2015, p. 103).
Cruz (2008) estende ainda esta relação, para os desfiles de moda através de uma analogia a moda está para o teatro, como o desfile está para o espetáculo:
Forçando um pouco, podemos ver o ator de teatro antes do espetáculo, como pessoas quaisquer, que podem ou não ser ricas, ter cultura ou formação, que pagam impostos, comem, têm relações sexuais, etc., e que, depois de um momento de transição nos camarins, nas coxias, enfim, nos bastidores, reaparecem para a sociedade no novo status de atores em cena. Também assim são os moldes antes do desfile, os reencontramos com seus corpos exibindo figurinos específicos depois de um momento de transição nos bastidores de um desfile (CRUZ, 2008, p. 3).
Do extenso grupo de pensadores e artistas que tomaram esse gênero como expressão, tem-se em performance, produções voltadas para a exploração dos limites do corpo físico, psicológico e social como podemos observar em sua performance Rest Energy, 1980 (Figura 15), sendo Marina Abramovic, representante máxima feminina dessa arte. Nascida em Belgrado, em 1946, a mesma se denomina a avó da performance arte. Para Abramovic, esta arte é um experimento constante, um espaço de investigação dos limites e das possibilidades do corpo.
Figura 15 – Marina Abramovic & Ulay. Rest Energy, 1980 Fonte: Raveneuse, (2012).
Em entrevista Marina revela que no começo do seu trabalho, ser feminina era como uma fraqueza, pois sempre teve que ser forte e masculina, inclusive na aparência. A ruptura tanto artística quanto de relacionamento com o seu então companheiro e também artista performático alemão Ulay, foi como uma enorme libertação, ser aceito pelo que realmente é e não se envergonhar disso, sem tentar formar uma composição com o elemento masculino. (ASSOCIAÇÃO CULTURAL VIDEOBRASIL, 2005, p.133).
Segundo Kathia Castilho (2001), “design de moda tem sido assunto de grandes discussões, inovações e experimentações nos últimos anos”. Para uma maior compreensão da arte de Marina Abramovic que está exposta em seu constante consumir do corpo e firmar sua grande importância para a moda, Castilho mostra que:
O sujeito faz descobertas a fim de manipular seu corpo como uma manifestação textual de ser, explorando seus limites físicos e biológicos, além de manipular a criação de diferentes estruturas que possuem se adequar ao seu corpo (CASTILHO, 2001, p. 96).
Nessa vertente, Castilho (2001) nos mostra que na ocorrência de determinados fatos na história da moda o adornamento do corpo está diretamente ligado sobre a pele sendo o corpo parte integrante do tecido, uma vez que este encontra-se na condição de parte e pertencimento do corpo, segundo as diversas possibilidades que o mundo oferece. Desta forma, é possível afirmar que a
indumentária possuiu papel fundamental na transformação do trabalho de Abramovic, auxiliando-a em sua transição para um estilo mais livre, pessoal e feminino, que fez dela, aos poucos, conhecer e descobrir a sua estreita relação que a moda viria a ter em seu trabalho e como esse processo vem construindo um novo olhar sobre as possibilidades de se pensar moda e arte como agente inovador para se compreender novas perspectivas.
Segundo o site Complex, Marina Abramovic, em uma constante conexão com a moda, para a sua mais recente performance em uma gigantesca retrospectiva no MOMA “Museum of Modern Art” em Nova York, 2010 (Figura 16) ela convidou a figurinista e alfaiate Stina Gunnarsson para colaborar com sua visão na criação de três vestidos para seu desempenho que consistia em ficar em silêncio, sentada e imóvel em uma cadeira com uma mesa de frente com pessoas que sentavam em outra cadeira de frente para ela. O resultado dessa parceria foi um vestido com características de um robe com uma calda prolongada e fluida que recebeu grande atenção. O traje foi reproduzido em três cores para os três meses de exposição: vermelho para março, azul em abril e branco para maio.
Para a concepção dessa performance a artista Marina Abramovic, buscou desenvolver uma obra única, que proporcionava ao espectador uma experiência inédita, a artista leva seu corpo e mente ao limite, assim, segundo ela, conseguindo alcançar um estado especial de espírito que será transmitido para a audiência o que ela chama de energy diologue.
Figura 16 – Ulay com Marina Abramovic, peformance The Artist is Present, 2010 Fonte: Do autor, (2010).
Nessa mesma vertente, Bardin diz que os objetos da nossa vida cotidiana funcionam como linguagem e que o vestuário é um conjunto de textos projetados e articulados de modo a relacionar elementos característicos do contemporâneo,
portanto, um interesse de mercado mesmo porquê tomado por diversos conhecimentos
como uma das análises de conteúdo possíveis no estudo no âmbito da moda (BARDIN, 1997, p. 55)
Como forma de trazer para a performance “The Artist is Presente”, uma projeção de conjuntos textuais articulados, que se comuniquem com a artista e o público que ali passavam para visitar a exposição. Os três vestidos nas cores vermelho, azul e branco, em três momentos diferentes um em cada mês de apresentação, transpunham elementos simbólicos que a artista desejava transmitir junto a sua performance.
2.3.2 MODA E PERFORMANCE NA ATUALIDADE
Como forma de mostrar a construção atual da performance na moda e como arte/performance e moda se comunicam através dos olhares reluzentes dos estilistas e designers de moda. A arte performance, é elemento que faz parte do que compreendemos sobre moda. As performances nos desfiles de moda são manifestações voltadas a um público específico e que transmitem uma mensagem simbólica específica. A moda e o desfile utilizam-se do corpo como propagador de informação.
Para ilustrar citam-se alguns trabalhos recentes de criadores, como Viktor & Rolf, Hussein Chalayan, Givenchy e como representante nacional, Ronaldo Fraga, Jun Nakao que estes fazem atualmente dos seus desfiles um espetáculo, transformando-os em gigantescas e suntuosas apresentações performáticas como muito bem descreve Renata Pitombo Cidreira (CIDREIRA, 2005. P. 81).
Segundo Lilian Pacce (2015), no desfile da Semana de moda Paris Fashion Week, outono-inverno 2010/11 (Figura 17), a dupla Viktor & Rolf, apresentou sua coleção em um palco giratório e uma passarela inspirado na Revolução Industrial, com ilustrações industriais, com chaves, parafusos, escadas e chaminés. Os Estilistas estiveram em cena durante todo o espetáculo que começou com a entrada da modelo Kristen McMenamy, que após ascenderem às luzes, os que ali estavam presentes puderam ver uma silhueta gigante como abertura do desfile. Eram camadas e mais camadas de casacos pesados, que ao decorrer do desfile eram
colocados pelos os estilistas em outras modelos, transformando novos looks, a performance continuou por todo o desfile.
Figura 17 – Viktor & Rolf coleção outono/inverno 2010/11 Fonte: Do artor, (2015).
No caso da marca Givenchy, a performance toma rumos mais densos em sua apresentação de primavera/verão 2016 (Figura 18), onde segundo o site Lilian Pacce (2015), o diretor criativo da marca e amigo de Marina Abramovic, a convida para ser diretora artística do evento, onde em uma fala para a marca ela diz que:
O desfile de moda não é apenas um evento para vestir roupas ou criar um novo estilo, mas ele também é uma espécie de transformação espiritual, e eu estava em busca por algo artístico que me direcionasse a construir um outro 10 método desenvolvido por Marina Abramovic, quero fazer algo diferente tão importante que nós tenhamos a música para representar todas as religiões para que as pessoas recebam, convidamos 5 pessoas de países diferentes para contribuir com o projeto (ABRAMOVIC, Marina. 2015).
Figura 18 – Coleção Givenchy primavera/verão 2016, NYFW Fonte: Do autor, (2015).
Outro exemplo de performance e moda é o desfile do estilista brasileiro Ronaldo Fraga apresentado na Semana de Moda, São Paulo Fashion Week, como mencionado o site Lilian Pacce (2015), o estilista apresenta sua coleção de outono/inverno 2016 (Figura 19) com o tema “Dores do Amor”.
E de forma quase que surreal ele remonta em metáforas as aflições de amores através de peças que narram um verdadeiro conto de um livro através de performances encenado por modelos onde no início do desfile entra dois modelos um homem e uma mulher contracenando como um casal que se despe e mostra sua vergonhas com um ar de comédia e ironia por meio de uma roupa intima que se encontra desenhada na parte frontal os órgãos genitais de ambos, em uma forma de mostrar a possibilidade de mutação do vestuário eles trocam de roupas cada um vestindo a roupa do outro e saem de mão dadas com uma sensação de que cumpriram seu papel de transmitir uma mensagem aos que ali estavam.
Figura 19 – Coleção Ronaldo Fraga, outono/inverno 2016 Fonte: Do autor, (2015).
Obstante da beleza do desfile do estilista Ronaldo Fraga, oferece com uma performance de casal e a instalação criada para o desfile, onde o local era composto por diversas camas de casal, que remetia ao um quarto de um casal, ao final do espetáculo os modelos entram e com um ímpeto repouso profundo, deitam (Figura 20) sobre as camas que ali se faziam presença e iam um a um se acomodando no conforto da áurea criada para aquele momento.
Figura 20 – Modelos deitadas nas camas. Coleção Ronaldo Fraga, outono/inverno 2016
Fonte: Ego, (2015).
Para o designer Hussein Chalayan, em seu desfile de primavera/verão 2016 (Figura 21) na Semana de Moda de Paris, segundo o site Lilian Pacce (2015), ele
apresenta mais uma vez através de uma performance altamente tecnológica, com tema de sua coleção Cuba.
E como cenário para o espetáculo foi produzido um ambiente em que duas modelos vestidas de branco, ficavam paradas no meio da passarela e em um momento do desfile uma ducha é acionada sobre a cabeça das modelos que permanecem inertes recebendo um banho, e para surpresa dos que ali se encontravam as roupas de papel branco se desfizeram, mostrando por baixo daquele que não mais se fazia presença, vestidos bordados com cristais Swarovski que estavam em segundo plano, ao cair dos vestidos de papel as modelos desfilam com elegância seus vestidos na passarela como não se estivera sido molhada minutos antes.
E para compreender toda essa cena tem uma elucidação, como uma metáfora de Chalayan para Cuba, que está em um momento de profundas transformações.
Figura 21 – Coleção Hussein Chalayan, primavera/verão 2016. Fonte: do autor, (2015).
3. METODOLOGIA