UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ CURSO DE TECNOLOGIA EM DESIGN DE MODA
JEFFERSON DUQUE CARVALHO
A PERFORMANCE ART NA CONSTRUÇÃO PLÁSTICA DA MODA
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO
APUCARANA 2016
JEFFERSON DUQUE CARVALHO
A PERFORMANCE ART NA CONSTRUÇÃO PLÁSTICA DA MODA
Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação, apresentado à disciplina de Trabalho de conclusão de Curso II, do Curso de Tecnologia em Design de Moda, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR, campus Apucarana, como requisito parcial na aprovação da disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso II.
Orientador: Prof. Dr. Marcelo Capre Dias.
APUCARANA 2016
Ministério da Educação
Universidade Tecnológica Federal do Paraná Câmpus Apucarana
CODEM – Coordenação do Curso Superior de Tecnologia em Design de Moda
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
PR
TERMO DE APROVAÇÃO
Título do Trabalho de Conclusão de Curso Nº 199 A performance art na construção plástica da moda
por
JEFFERSON DUQUE CARVALHO
Este Trabalho de Conclusão de Curso foi apresentado aos vinte e três dias do mês de junho do ano de dois mil e dezesseis, às dezenove horas, como requisito parcial para a obtenção do título de Tecnólogo em Design de Moda, linha de pesquisa Processo de Desenvolvimento de Produto, do Curso Superior em Tecnologia em Design de Moda da UTFPR – Universidade Tecnológica Federal do Paraná. O candidato foi arguido pela banca examinadora composta pelos professores abaixo assinados. Após deliberação, a banca examinadora considerou o trabalho aprovado.
______________________________________________________________ PROFESSOR(A) MARCELO CAPRE DIAS– ORIENTADOR(A)
______________________________________________________________ PROFESSOR(A) BRUNA VILAS BOAS DA SILVA PONTARA – EXAMINADOR(A)
______________________________________________________________ PROFESSOR(A) NÉLIO PINHEIRO – EXAMINADOR(A)
AGRADECIMENTOS
Fazer o uso de palavras nesse momento, talvez não externe o quão intenso foi desenvolver meu intelecto através desta graduação e minhas vivências enquanto ser social. Expresso o meu muito obrigado aos meus orientadores, professores, servidores, familiares e amigos, que cultivei, estes fizeram com que o aprendizado e respeito entre as relações humanas ocorressem de forma reciproca, movimentando as atividades que fomentam os laços de amor com o outro.
Externo também a os agradecimentos ao SEMAF Secretaria da Mulher e Assuntos da Família – Rede de mulheres Solidárias, e a artista visual Flávia Gagliardi, e Jesus com seu amor incondicional me direcionou aos lugares onde o amor e a luz reinam.
“não é importante o que você está fazendo e sim qual o estado da mente em que você está quando está fazendo o quê está fazendo (…), o estado da mente é tudo” Marina Abramovic (2012)
RESUMO
CARVALHO, Jefferson Duque. A performance art na construção plástica da
moda através da arte. 2015. 90f. Trabalho de Conclusão de Curso de Tecnologia
em Design de Moda – universidade Tecnológica Federal do Paraná. Apucarana, 2015
Este trabalho tem como processo, estudar e buscar compreender a relação da arte e moda e como está relação pode ser favorável para a completude de ambas. Na busca de alcançar, o estudo utilizou a metodologia bibliográfica e pesquisa de campo/ entrevista composta por cinco perguntas. Na história da arte apresentar-se-á por meio de autores um panorama, no campo da performance art1 será descrito como este ocorre e como se da sua relação com a indumentária apresentando a ligação do corpo , da roupa com a arte e como se da e indumentária, mostrando a relação do corpo com a roupa com a arte, por fim, será descrito a performance na atualidade, exemplificando designers, estilistas e artistas que fazem dessa arte seu objeto de estudo.
Palavras – chave: Performance. Arte. Moda.
1
A performance, num sentido estritamente ontológico, é não reprodutiva. E é essa singularidade que faz da performance uma das artes contemporâneas mais instigantes” (PHELAN, 1997, p.173).
ABSTRACT
CARVALHO, Jefferson Duque. The artistic performance in plastic building
fashion through art. 2015. 90f. Trabalho de Conclusão de Curso de Tecnologia em
Design de Moda – universidade Tecnológica Federal do Paraná. Apucarana, 2015.
This work has as objective to study and understand the relationship of art and fashion and how this relationship can be favorable to the completeness of both. In seeking to achieve it, the study used the bibliographic and field/interview research methods. In the history of art will present through authors a brief history, in the field of performance art ¹ This will be described how this occurs as one of the various aspects of art; as the relationships between performance and dress code, showing the relationship of the body with the clothes and art, finally, will be described the performance at the present time, exemplifying designers, designers and artists who make art as their object of study.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 Marcel Duchamp como Rrose Sélavy. 1921 .. Erro! Indicador não definido. Figura 2 Peças designer japonês Issey Miyake , Centro Nacional de Arte em Tóquio
... 22
Figura 3 Designers Viktor e Rolf ... 22
Figura 4 Viktor & Rolf coleção outono/inverno 2016 ... 23
Figura 5 Coleção A Poem of Cloth and Stone, 1963, Issey Miyake ... 24
Figura 6 Wellsworth Kelly ... 25
Figura 7 Marcel Duchamp como Rrose Sélavy. 1920 ... 26
Figura 8 Tonsure, Marcel Duchamp, 1890–1976 ... 26
Figura 9 Jackson Pollock. Action Painting, 1947 ... 27
Figura 10 Antropometries” de Yves Klein, 1960 ... 27
Figura 11 Escultura Viva” de Piero Manzoni, 1961 ... 28
Figura 12 Follow Piece,Vito Acconci, 1969 ... 29
Figura 13 The Chief - Fluxus Chant, Copenhagen, 1963 ... 31
Figura 14 Performance Banquete, 2014 ... 31
Figura 15 Marco Paulo Rolla Performance Confortável 1998 ... 32
Figura 16 Marina Abramovic & Ulay. Rest Energy, 1980 ... 34
Figura 17 Ulay com Marina Abramovic, peformance The Artist is Present, 2010... 35
Figura 18 Viktor & Rolf coleção outono/inverno 2016 ... 37
Figura 19 Coleção Givenchy primavera/verão 2016, NYFW ... 38
Figura 20 Coleção Ronaldo Fraga, outono/inverno 2016 ... 39
Figura 21 Modelos deitadas nas camas. Coleção Ronaldo Fraga, outono/inverno 2016 ... 39
Figura 22 Coleção Hussein Chalayan, primavera/verão 2016. ... 40
Figura 23 Logomarca ... 46
Figura 24 Logomarca escolhida ... 47
Figura 25 Desfile outono/ inverno 2014, Lino Villaventura ... 48
Figura 26 Desfile outono/ inverno 2014, Sonia Pinto ... 49
Figura 27 Artista Flávia Gagliardi ... 50
Figura 28 Fachada da loja e atelier. Interior da loja Sonia Pinto ... 52
Figura 29 Embalagens- sacola e caixa de papel ... 53
Figura 30 Embalagem – Sacola de plástico transparente ... 54
Figura 31 Cartão de Visita ... 54
Figura 32 Tag padrão ... 55
Figura 33 Tag coleção ... 56
Figura 34 Público-alvo ... 56
Figura 35 Painel estilo de vida ... 57
Figura 37 Microtendência ... 59
Figura 38 Painel de referências ... 61
Figura 39 Cores coleção ... 62
Figura 40 Shapes da Coleção ... 63
Figura 41 Mix de produto ... 64
Figura 42 Painel Semântico ... 65
Figura 43 Cartela de cores ... 66
Figura 44 Cartela de Materiais ... 67
Figura 45 LOOK 01 ... 68 Figura 46 LOOK 02 ... 69 Figura 47 LOOK 03 ... 70 Figura 48 LOOK 04 ... 71 Figura 49 LOOK 05 ... 72 Figura 50 LOOK 06 ... 73 Figura 51 LOOK 07 ... 74 Figura 52 LOOK 08 ... 75 Figura 53 LOOK 09 ... 76 Figura 54 LOOK 10 ... 77 Figura 55LOOK 11 ... 78 Figura 56 LOOK 12 ... 79 Figura 57 LOOK 13 ... 80 Figura 58 LOOK 14 ... 81 Figura 59 LOOK 15 ... 82 Figura 60 LOOK 16 ... 83 Figura 61 LOOK 17 ... 84 Figura 62 LOOK 18 ... 85 Figura 63 LOOK 19 ... 86 Figura 64 LOOK 20 ... 87 Figura 65 LOOK 21 ... 88 Figura 66 LOOK 22 ... 89 Figura 67 LOOK 23 ... 90 Figura 68 LOOK 24 ... 91 Figura 69 LOOK 25 ... 92
Figura 70 Look 01 – Alternativa Justificada ... 93
Figura 71 Look 02 – Alternativa Justificada ... 94
Figura 72 Look 03 – Alternativa Justificada ... 95
Figura 73 Look 04 – Alternativa Justificada ... 96
Figura 74 Look 05 – Alternativa Justificada ... 97
Figura 75 Look 06 – Alternativa Justificada ... 98
Figura 76 Look 07 – Alternativa Justificada ... 99
Figura 78 Look 09 – Alternativa Justificada ... 101
Figura 79 Look 10 – Alternativa Justificada ... 102
Figura 80 Look 11 – Alternativa Justificada ... 103
Figura 81 Look 12 – Alternativa Justificada ... 104
Figura 82 Ficha Técnica 1 – Frente e Costas... 105
Figura 83 Ficha Técnica 1 – Materiais ... 106
Figura 84 Ficha Técnica 1 – Sequência operacional ... 107
Figura 85 Ficha Técnica 2 – Frente e Costas... 108
Figura 86 Ficha Técnica 2 – Materiais ... 109
Figura 87 Ficha Técnica 2 – Sequência operacional ... 110
Figura 88 Ficha Técnica 3 – Frente e Costas... 111
Figura 89 Ficha Técnica 3 – Materiais ... 112
Figura 90 Ficha Técnica 3 – Sequência operacional ... 113
Figura 91 Ficha Técnica 4 – Frente e Costas... 114
Figura 92 Ficha Técnica 4 – Materiais ... 115
Figura 93 Ficha Técnica 4 – Sequência operacional ... 116
Figura 94 Ficha Técnica 5 – Frente e Costas... 117
Figura 95 Ficha Técnica 5 – Materiais ... 118
Figura 96 Ficha Técnica 5 – Sequência operacional ... 119
Figura 97 Ficha Técnica 6 – Frente e Costas... 120
Figura 98 Ficha Técnica 6 – Materiais ... 121
Figura 99 Ficha Técnica 6 – Sequência operacional ... 122
Figura 100 Ficha Técnica 7 – Frente e Costas... 123
Figura 101 Ficha Técnica 7 – Materiais ... 124
Figura 102 Ficha Técnica 7 – Sequência operacional ... 125
Figura 103 Ficha Técnica 8 – Frente e Costas... 126
Figura 104 Ficha Técnica 8 – Materiais ... 127
Figura 105 Ficha Técnica 8 – Sequência operacional ... 128
Figura 106 Prancha 1 – croqui e desenho técnico ... 129
Figura 107 Prancha 2 – croqui e desenho técnico ... 130
Figura 108 Prancha 3 – croqui e desenho técnico ... 131
Figura 109 Prancha 4 – croqui e desenho técnico ... 132
Figura 110 Prancha 5 – croqui e desenho técnico ... 133
Figura 111 Prancha 6 – croqui e desenho técnico ... 134
Figura 112 Prancha 7 – croqui e desenho técnico ... 135
Figura 113 Prancha 8 – croqui e desenho técnico ... 136
Figura 114 1 Look ... 137
Figura 115 2 Look ... 137
Figura 116 3 Look ... 138
Figura 117 4 Look ... 138
Figura 119 6 Look ... 139
Figura 120 7 Look ... 140
Figura 121 8 Look ... 140
Figura 122 Abertura do site ... 141
Figura 123 Estilo ... 141
Figura 124 Acessórios e Performance Art ... 142
Figura 125 Produto ... 142 Figura 126 Capa 1 ... 145 Figura 127 Catálogo 2 ... 146 Figura 128 Catálogo 3 ... 146 Figura 129 Catálogo 4 ... 147 Figura 130 Catálogo 5 ... 148 Figura 131 Catálogo 6 ... 148 Figura 132 Catálogo 7 ... 149 Figura 133 Catálogo 8 ... 149 Figura 134 Catálogo 9 ... 150 Figura 135 Catálogo 10 ... 150 Figura 136 Catálogo 11 ... 151 Figura 137 Catálogo 12 ... 151 Figura 138 Catálogo 13 ... 152 Figura 139 Catálogo 14 ... 152 Figura 140 Catálogo 15 ... 153 Figura 141 Catálogo 16 ... 153 Figura 142 Catálogo 17 ... 154 Figura 143 Catálogo 18 ... 154 Figura 144 Catálogo 19 ... 155 Figura 145 Catálogo 20 ... 155 Figura 146 Catálogo 21 ... 156 Figura 147 Catálogo 22 ... 156 Figura 148 Catálogo 23 ... 157
Figura 149 Cabelo e Maquiagem ... 158
Figura 150 This Mortal Coil - Song to the siren ... 159
Figura 151 Tradução Song to the siren ... 159
SUMÁRIO
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ ...13
CURSO DE TECNOLOGIA EM DESIGN DE MODA ...13
A PERFORMANCE ART NA CONSTRUÇÃO PLÁSTICA DA MODA ...13
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO...13
APUCARANA ...13
A PERFORMANCE ART NA CONSTRUÇÃO PLÁSTICA DA MODA ...14
APUCARANA ...14 RESUMO...18 ABSTRACT ...19 LISTA DE FIGURAS ...20 1.1PROBLEMA ...14 1.2OBJETIVO ...14 1.2.1Objetivo geral ...14 1.2.2Objetivos específicos ...14 1.3JUSTIFICATIVA ...14 2.1ESCOPO HISTÓRICO ...16 2.2MODA E ARTE ...19 2.3PERFORMANCE ART ...25
2.3.1RELAÇÕES ENTRE A PERFORMANCE E A INDUMENTÁRIA ...32
3.1TIPOS DE PESQUISA ...41
3.2COLETA DE DADOS ...42
3.3DELIMITAÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO ...43
3.4ANÁLISE DOS RESULTADOS ...43
4.1DUQUE ...45 4.3MARCA ...46 4.4 MARKETING ...49 4.4.5Promoção ...51 4.5PLANEJAMENTO VISUAL ...51 4.6IDENTIDADE DE MARCA ...52 4.6.1 Desenvolvimento de Embalagem ...52
4.6.2 Desenvolvimento cartão de vista ...54
4.6.3 Desenvolvimento de Tag ...55
4.7PÚBLICO-ALVO ...56
4.7.2 Perfil de Público Alvo ...57
4.8PESQUISA DE TENDÊNCIAS ...58
4.8.1 Macrotendências ...58
4.8.2 Microtendências ...59
5.DESENVOLVIMENTO DO PROJETO...60
5.1DELIMITAÇÃO PROJETUAL ...60
5.2 ESPECFICAÇÕES DO PROJETO ...60 5.2.1 Conceito da Coleção ...60 5.2.3 Nome da Coleção ...61 5.2.4 Referência da coleção ...61 5.2.5 Cores ...62 5.2.6 Materiais ...62 5.2.7 Formas e Estruturas ...62 5.2.8 Tecnologias ...63 5.2.8 Mix da Coleção ...64 6. PAINEL SEMÂNTICO ...65 7. CARTELA DE CORES ...66 8. CARTELA DE MATERIAIS ...67 9.GERAÇÃO DE ALTERNATIVAS ...68
10.ANÁLISE E SELEÇÃO JUSTIFICADA DAS ALTERNATIVAS ...93
11.FICHA TÉCNICA ...105
12.PRANCHA DOS LOOKS ...129
13.LOOKS CONFECCIONADOS ...137
14.DOSSIÊ ELETRÔNICO...141
14.1 CATÁLOGO ...145
15.DESFILE ...158
15.1 PLANEJAMENTO DE CABELO E MAQUIAGEM ...158
15.2 TRILHA SONORA DO DESFILE ...159
15.3 SEQUÊNCIA DE ENTRADA DOS MODELOS NA PASSARELA ...160
1. INTRODUÇÃO
Como premissa busca-se apresentar de forma coesa através de métodos bibliográficos a relação do corpo através da performance art e moda, e como estes interligados possibilitam maiores compreensões do todo, com os objetivos que o corpo, arte e moda se unam para sua completude, oferecendo ensinamentos singulares de cada uma, possibilitando e resultando em uma compreensão do aprendizado transdisciplinar.
A dimensão imagética do ser social foi refletida por Maffesoli (1996), que designou a contemporaneidade como mundo imagético, em razão da força das manifestações imaginárias, simbólicas, aparentes, instituindo a teatralidade como modo de vida. E qual o lugar primeiro dessa teatralidade senão o próprio corpo, que produz uma autoimagem, conferindo ao sujeito a possibilidade de afirmar quem é, poderíamos dizer de anunciar-se.
E para tanto se busca compreender o objetivo real desse, traduzido para uma marca de moda utilizando conceitos da arte performática. Assim com a hipótese é inserida com o intuito de fornecer os anseios da marca, de criar uma linha conceitual que tem como intuito atender artistas em suas performances e a partir dessa, surgir uma linha comercial para o público consumidor que possua afinidade com o tema abordado.
1.1 PROBLEMA
Como desenvolver um produto de vestuário que tenha elementos híbridos entre a moda e a arte em sua formatação e que atenda seu público tanto em momentos cotidianos com no desenvolvimento da arte performance?
1.2 OBJETIVO
1.2.1 Objetivo geral
Desenvolver uma marca de moda usando dos conceitos da arte performance.
1.2.2 Objetivos específicos
Estudar arte performance;
Buscar através de pesquisa compreender a relação de arte e moda;
Discutir as relações do corpo com a vestimenta enquanto segunda pele e enquanto suporte para a arte;
Desenvolver indumentária de cunho conceitual para atender artistas de performances em suas apresentações;
Desenvolver peças comerciais que vão atender pessoas que presam por produtos de design com características da arte e da performance.
1.3 JUSTIFICATIVA
Esse estudo tem como premissa lançar olhares amistosos sobre a arte e moda, visando contribuir para uma real completude que ambas podem alcançar com essa proposta. Ao passar dos dias, a sociedade caminha por um momento de multidisciplinaridade de pensamentos e ações, que vão ao encontro desse entrelaçamento, este elo que estilistas e designers fazem entre a moda e a arte. Não somente busca-se alcançar um produto de excelência, mas também a valorização da arte e a contemplação do belo que ela pode oferecer ao público consumidor.
Pode-se também citar diversos estilistas que têm em seus trabalhos uma preocupação em incluir a arte, bem como a performance como Jean Charles de Castelbajac, Thierry Mugler, Kenzo, Jean Paul Gautier, Claude Montana, Hussein Chalayan, Alexander McQueen, Jum Nakao entre outros.
Outro aspecto a ser observado neste trabalho é a relação do corpo com a roupa e com a arte, que é substancialmente suporte intrínseco para que ocorra a materialização do ato através da expressão imaterial que a arte e a moda possui. Celant (1999) amplia a discussão entre a relação primeira e segunda pele, mostrando que a indumentária é elemento de contato entre corpo e ambiente, lugar virtual, sistema de semelhança e diferenciação com o ambiente sócio-cultural. Destacando nessa vertente o trabalho de Ellsworth Kelly, que em 1952, procurava estabelecer vínculos entre o corpo e a cidade, por meio da simplicidade das formas que ele representava em suas obras.
Existe, portanto, uma relação a ser explorada, pois a roupa veste o corpo, que por sua vez oferece vida à roupa que se torna arte com o corpo, por meio da arte performática.
Para uma maior compreensão Celant (1999) menciona duas correntes artísticas:
Uns que se interessam pela pura visibilidade e outros pela comunicação de massa – artistas como Getúlio Alviani, Paolo Scheggi, Max Bill e Gabriele De Vechide de um lado e; e o neodadaísmo e os representantes do Pop, de outro, através de figuras como Andy Warhol, Robert Rauschenberg, Arman e Daniel Spoerri, Kusama e Christo. Como observa Celant, ambos estão conscientes do fluxo ocasional da vida e dos acontecimentos, mas os primeiros pensam que é possível controlá-lo e sistematizá-lo, os outros, aceitá-lo e integrá-lo, buscando o encontro da arte como contexto de massas, do objeto de consumo e da publicidade. (CELANT, 1999, p. 89)
Como forma de conter uma maior completude para desenvolvimento do projeto, com a pretensão trabalhar com as vertentes apresentadas por Celant, utilizando da pura visibilidade e a comunicação generalizada, na busca de fazer o encontro da arte ao contexto generalista, do objeto de consumo e publicidade.
Esta pesquisa pretende resultar em uma marca/coleção que para atender aos seus preceitos, deverão conter fortes características atemporais e conceituais em suas peças. Elevar estas duas características a status midiático faz-se crer na necessidade perene de disseminar nas pessoas a importância da oferta de roupas
mais duradouras tanto como conceito quanto qualidade de produto e como suporte para reafirmar a importância do diálogo entre moda e arte.
Tendo isso pretende-se desenvolver produtos que chamem a atenção do usuário, através de sua essência por conter elementos que contam uma história, mantendo um diálogo com o individuo e ao seu potencial consumidor.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 ESCOPO HISTÓRICO
Como menciona Gombrich (2009), pesquisadores como os antropólogos, arqueólogos, historiadores, filósofos, linguistas e outros tantos estudam, há séculos, a humanidade. Independente das conclusões dessas pesquisas, uma coisa permanece como fato: o aparecimento do ser social está diretamente associado ao surgimento das formas simbólicas, isto é, da religião, da língua e da arte.
Para Gombrich (2009), a história dessas formas simbólicas, bem como a história da arte, compreende em um conjunto de pesquisas sobre a própria origem e evolução do ser humano, ambas estão interligadas. Tendo essa premissa, a história da arte usualmente é organizada em períodos que acompanham o caminhar das civilizações. Nesse liame, as pinturas rupestres, encontradas em sítios arqueológicos, constituem as primeiras formas de expressão artística do homem pré-histórico. Ao lado das pinturas rupestres, certos tipos de esculturas primitivas também depõem sobre o modo como esses homens compreendiam o cosmos, a natureza e as relações estabelecidas entre o grupo.
Junto a esses movimentos também pode-se citar a dança e o teatro que formam parte desses primeiros vestígios de manifestações artísticas que permeiam a sociedade. No campo da dança, segundo Moreira; Oliveira (2009), dançar é aprofundar o sentimento e o conhecimento da vida do corpo retratada por expressões sensoriais, imagéticas, emotivas, empregadas do saber dos sabores. Sensações que nascem do contato com efeitos ou emanações do sujeito e objeto as que dizem respeito.
A dança faz o corpo físico um instrumento para a manifestação de culturas como expressões de estados emocionais e de conceitos espirituais de tal
intensidade que devem se manifestar através de instrumentalidade do corpo físico. Ela expressa a vida interna em seu corpo físico, a sua consciência, o seu coração, seus sonhos, temores, amores, desvios, aspirações e entendimentos. Viver não é simplesmente se mover através do tempo de colocação do espaço, é mover-se através da evolução de um ponto ao outro da consciência. Dançar significa identificar seu ser com movimentos cósmicos, que é a ação alquímica da vida, por meio de sequências rítmicas de posições corpóreas.
Assim a dança ocupa um papel essencial na vida do se humano, pois está voltada para transmitir sentimentos, expressar movimentos do corpo e se tornando a consciência do ser. Contudo até a natureza usa a dança como forma de interagir com o mundo, com as pessoas formando todo um único conjunto. Segundo Portiereari (1995) a dança surge da necessidade do ser humano se identificar com forças criativas.
A dança é especialmente identificada como jogo por conta de característica de ser fundamentalmente ação de serem apreciados enquanto a ação que se repete. Executados diante de um público caracterizam-se naquele instante, agindo sobre o espaço e o tempo, em permanente alteração, se tornando uma linguagem artística que é simutalmente musical, porque tem movimento e ritmo. (HUIZINGA 1996, p.189).
No teatro sua origem pode ser remontada desde as primeiras sociedades primitivas, em que se acreditava no uso de danças imitativas como propiciadores de poderes sobrenaturais que controlavam todos os fatos necessários à sobrevivência (fertilidade da terra, casa, sucesso nas batalhas), ainda possuindo também caráter de exorcização dos maus espíritos. Portanto, o teatro, em suas origens, possuía um caráter ritualístico.
Com o desenvolvimento do domínio e conhecimento do homem em relação aos fenômenos naturais, o teatro vai deixando suas características ritualistas, dando lugar às características mais educacionais. Ainda num estágio de maior desenvolvimento, o teatro passou a ser o lugar de representação de lendas relacionadas aos deuses e heróis. Na Grécia antiga, os festivais anuais em honra ao deus Dionísio (Baco, para os latinos) compreendiam, entre seus eventos, a representação de tragédias e comédias. As primeiras formas dramáticas na Grécia surgiram neste contexto, inicialmente com as canções dionisíacas.
Passando para o momento das grandes civilizações da Antiguidade, na Europa, Médio-Oriente, África, Ásia Menor ou no Extremo Oriente, para Gombrich
(2009), a arte teve um desenvolvimento formal, de apuração técnica de grande relevância. Cada um desses povos expressava a organicidade da forma artística com a cultura daqueles que os antecederam, citando alguns como os mesopotâmicos, egípcios e os gregos. A representação de formas humanas em perfil era uma singularidade egípcia, enquanto as esculturas em pedra feitas com precisão formal e anatômica visando à construção do que para eles era a representação do belo, são particularidades greco-romanas (GOMBRICH, 2009, p.164).
O autor segue como ponto de partida a Idade Média, sendo a Europa ocidental referência materna para a nossa cultura. Com a riqueza cultural vindas de muçulmanos, cristãos, germânicos e outros povos, a arte neste território se desenvolveu em muitos aspectos, desde a tapeçaria persa até as catedrais e pinturas góticas, pinturas bizantinas e pelas mesquitas islâmicas. No momento de transição da Idade Média para a Idade Moderna, entre os séculos XIV e XV, houve mudanças de renovação artística que culminou na Arte Renascentista, cujo apogeu ocorreu na Itália do século XVI (GOMBRICH, 2009, p.157).
Os estilos artísticos que posteriormente ocorrem, como à Arte Renascentista, o Rococó e o Barroco, também produziram obras-primas permanentes. E a esses se seguiram outras escolas, como o Esteticismo, Impressionismo, Romantismo, Realismo e o Expressionismo, que estiveram presentes até o fim do século XIX. As primeiras décadas do século XX foram fortemente marcadas pelas vanguardas artísticas, cuja inspiração advinham de culturas primitivas, estudadas por antropólogos da época e de teorias referentes à mente humana, como a Psicanálise (GOMBRICH, 2009).
O surrealismo, o dadaísmo, o cubismo e a Arte Moderna, cujos reflexos são percebidos até hoje, foram frequentes na arte do século XX que trouxe grande importância e relevância para a arte e consequentemente para a sociedade. Artistas como Salvador Dalí, Marcel Duchamp, Pablo Picasso e Andy Warhol foram alguns dos representantes quase que como normatizadores para mudanças significativas de novas compreensões da arte e sociedade (GOMBRICH, 2009).
2.2 MODA E ARTE
Segundo Köhler (2001), o vestuário sempre esteve presente na história da civilização humana como referência de comportamento, comunicação e proteção. Não se pode deixar de firmar que a história da arte assim como a história da moda é influenciada pelo comportamento da sociedade e as relações de classe que permeiam os acontecimentos históricos. Durante toda a sua história, a indumentária manteve diálogos diretos quando relacionada a um grupo com suas características.
Uma das questões mais efervescentes quando se trata do estudo da indumentária é entender quando surgiu o conceito de moda. Assim Malcolm Barnard afirma “[...] a moda e a indumentária podem ser as formas mais significativas pelas quais são construídas, experimentadas e compreendidas as relações sociais entre as pessoas” (BARNARD, 2003, p. 24).
Köhler (2001) afirma que o modo de se vestir de todas as sociedades, sejam elas antigas ou contemporâneas, sempre foi conduzida por um gosto sui generis2, por fatores geográficos, econômicos, religiosos, políticos, de idade e de gênero. A função do vestuário teve diversas interpretações em determinadas épocas, serviu como proteção, em outro momento pelas questões de pudor e impudor, por expressão individual, para o cumprimento de um papel social e seu status, importância econômica, símbolo político, condição mágico-religiosa, lazer e ritos sociais, pode ser o de um ator em uma peça teatral ou do próprio corpo como suporte de arte.
Considerar a vestimenta como um verbo, como maneira de vestir o corpo, se torna somente um, oferecendo contribuições para uma possível completude utiliza-se dos estudos de Köhler (2001), que essa maneira de vestir, o homem utiliza-se relaciona ao pertencimento de um grupo social ou cultural, como também marca uma identidade e individualidade. Interpreta-se isto como um paradoxo entre ser sociável e buscar a própria individualidade através do conceito das roupas.
2
O termo, sui generes, é utilizado para remeter a algo ou alguém que é diferente, especial, peculiar.
Para a humanidade, o vestir-se é pleno de um profundo significado, pois o espírito humano não apenas constrói seu próprio corpo como também cria as roupas que o vestem, ainda que, na maior parte dos casos, a criação e confecção das roupas fiquem a cargo de outros. Homens e mulheres vestem-se de acordo com os preceitos desse grande desconhecido, o Espírito do Tempo (KÖHLER, 2001, p. 57, 58).
Buscando vislumbrar impressões diferentes das apresentadas por Köhler, procura-se mencionar a visão de George Sproles (1979) que segundo Jones (2005) em relação às quatro funções práticas que a roupa exerce: utilidade, decência, indecência e ornamentação, Sproles acrescenta mais quatro funções, que são elas diferenciação simbólica, filiação social, auto-aprimoramento psicológico e modernismo.
Segundo Sproles (1979), ela expõe como as que se seguem: diferenciação simbólica, os indivíduos usam as roupas para diferenciação e reconhecimento de como, por exemplo, profissões, níveis sociais religião; filiação social, as pessoas se vestem de modo igual para se sentirem pertencentes a um determinado grupo; auto aprimoramento psicológico, onde apesar da pressão social para a filiação a um grupo; modernismo, as roupas podem expressar sinônimo de atualidade, informado.
Atualmente a sociedade capitalista exerce um constante fetichismo sobre a indumentária e a moda. Fetiche esse pode ser figurado através da ideia de que moda e beleza caminham juntas, como afirma Pires, “É por meio dela que o indivíduo visivelmente se faz belo, se modifica conforme seu desejo se torna único, se sente parte de uma cultura” (PIRES, 2005, p.38).
A moda e a arte são formas de cultura material que expressam uma ampla gama de significados, cuja decodificação em geral constitui um desafio. Tanto a moda como a arte são criadas em mundos de cultura, isto é, comunidades urbanas compostas de criadores culturais vendedores, compradores e públicos, que contribuem de diversos modos para a criação, a avaliação, a disseminação e a recepção desses tipos de cultura (CRANE, 2011, p. 13).
Como forma de compreensão da arte o corpo se torna questão como suporte, moda e beleza conversam com a arte, assim cabe o conceito performance, como sendo o espetáculo, ação cênica, justaposição e colagens, interatividade entre o artista e o público, a escolha da linguagem, artes plásticas, arte cênicas depende do artista e sua formação e intenção.
Por sua vez o happening3 que ao invés de ser espetáculo é ritual, baseado nas colagens de Max Ernest e o live art4 um movimento que traz a arte para o dia-a-dia, coisas cotidianas ganham o título de arte, são definidos por Pires (2005). Pires assim afirma: “os estilistas, rompendo com a forma tradicional da alta-costura, realizam desfiles em locais e com performances cada vez mais inusitados.” (PIRES, 2005, p. 72, 73). Também é possível citar o figurino como uma das formas de aproximação da arte e da indumentária, por meio do corpo semântico que dialoga em cena através da roupa.
O figurino apresenta características sugestivas indispensáveis para manter o clima plástico que os outros elementos cênicos instauram no palco. O teatro não vive sem referencias; sobretudo históricas e culturais. Recorro com frequência à história da indumentária como fonte de inspiração histórico-temporal (ABRANTES, 2001, p. 9).
Segundo Nery (2004), “a indumentária sempre foi um reflexo do gosto contemporâneo, retratando de certa forma o desenvolvimento econômico, cultural e político”. Nesse mesmo raciocínio não se pode desprezar o conceito de figurino que se encontra atrelado à indumentária e arte, bem explicitado por Samuel Abrantes, (2001) no livro “Heróis e bufões – o figurino encena” em que afirma: o figurino concede forma a uma personagem que antes tinha a forma de outro indivíduo, o ator.
Destaque para alguns estilistas que fazem com muita maestria, inserção de execução dos seus desfiles um espetáculo, se achegar a moda da arte, dando assim à criação de suntuosas instalações que se assemelham as criadas para exposições em grandes museus como, por exemplo, Issey Miyake que como cita Cidreira (2005) foi precursor, organizando exposições em museus de arte contemporânea oferecendo as suas criações status de objeto de arte (Figura 1).
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O espetáculo dramático inusitado, em geral artisticamente concebido como uma série de acontecimentos sem continuidade, em que o imprevisto e o espontâneo têm papel essencial, envolvendo a participação da plateia. (ITAÚ CULTURAL, 2016).
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Termo utilizado para definir um movimento que traz a arte para o dia-a-dia, coisas cotidianas ganham o título de arte (PIRES, 2005).
Figura 1 – Peças designer japonês Issey Miyake , Centro Nacional de Arte em Tóquio Foto: Shizuo Kambayashi
Fonte: Wowway, (2016).
Outros designers da atualidade e com forte representação dessa conversa íntima entre moda e arte, é o trabalho desenvolvido pela dupla, Viktor & Rolf (Figura 2) que faz desde o início de sua carreira a elevação de uma moda totalmente atrelada à arte.
Figura 2 – Designers Viktor e Rolf Rolf Snoeren, Viktor Horsting Fonte: Wowway, (2015).
Pode-se citar como exemplo, um de suas mais recentes apresentações/performances no desfile de Haute Couture outono/inverno 2015 da semana de moda “Paris Fashion Week” (Figura 3), e assim dizer pelo fato de que em
seus desfiles eles participaram ativamente do espetáculo, onde as modelos desfilavam os looks e os designers retiravam a peça e afixava na parede, tornando um quadro, reafirmando assim de forma literal que a roupa pode sim chegar às sagradas paredes do museu.
Figura 3 – Viktor & Rolf coleção outono/inverno 2016 Fonte: Moment Change your life, (2015).
Alguns fenômenos nos auxiliam a compreender a relação entre esses dois campos: o surgimento do prêt-à-porter, com a ampliação dos desfiles, transformados em grandes espetáculos; a proliferação das mídias e das novas tecnologias na sua aproximação/investigação do corpo e da imagem, da visibilidade; a estetização generalizada da cultura; e o próprio surgimento da performance enquanto movimento artístico e, posteriormente, corrente de pesquisa acadêmica, os Performances Theories (CIDREIRA 2015, p.2).
Como relata Florence Muller (2007), um dos primeiros estilistas, Issey Miyake, apresentou em 1963 em seu espetáculo “A Poem of Cloth and Stone” (Figura 4) que o vestuário pode se definir como criação visual e ferramenta funcional. Sendo um passo decisivo que dá a possibilidade de pensar a moda como um campo artístico, argumentativo que antes de tudo a moda é algo de ordem funcional para envolver corpos distintos (2007 apud CIDREIRA, p. 79, 2006).
Figura 4 – Coleção A Poem of Cloth and Stone, 1963, Issey Miyake Fonte: Tipografos, 2005.
Estilistas no alvorecer de seus trabalhos começam uma moda que busca ares de um grande espetáculo, transformando os desfiles em grandes e elaboradas cenas. Criadores como Charles de Castelbajac, Thierry Mugler, Kenzo, Jean-Paul Gaultier, Claude Montana e tantos outros, são impelidos a realizarem pesquisas cada vez mais profundas. Issey Miyake como precursor desse novo olhar, começa a organizar exposições em museus de arte contemporânea, oferecendo as suas produções posição de objeto de museu. (CIDREIRA, p. 81).
Com o surgimento da alta costura a moda atinge seu ápice enquanto expressão de uma certa imagem ideal, sobretudo, de mulher. Seu pai fundador, Charles Frederick Worth, comparava-se sem complexos a Delacroix e Ingres, evocando suas fontes de inspiração que habitavam as paredes de museus de arte. Paul Poiret, por sua vez, costumava associar a moda a pintura avant-garde, e o surgimento d’art nouveau vai contribuir para aproximar os dois domínios; o fauvisme também vai influenciar bastante o trabalho de Poiret, através de referências como Picasso e Matisse (CIDREIRA, p. 78 e 79).
De ordem relevante a discussão entre a primeira e segunda pele a vestimenta é elemento de contato entre corpo e ambiente, lugar virtual, sistema de semelhança e diferenciação de grupos e/ ou sociedades. Com esse pensamento percebe-se a criação de indumentárias que procuram esclarecer esse diálogo, destacando o trabalho de Ellsworth Kelly (Figura 5) que, em 1952, busca-se
estabelecer elo entre o corpo e cidade, inserindo o vestuário no universo de elementos puros e primários.
Figura 5 – Wellsworth Kelly Fonte: StyleCarrot, (2008).
Superfície magnética que atrai para si, (...) coisas e sinais, marcas e objetos, ilustrações e citações extraídas da iconografia cotidiana da publicidade e da televisão, dos quadrinhos e do cinema: a roupa torna-se o sudário laico da idolatria de massa, reduz o ídolo a um vestígio opaco e neutro a ser vestido com ironia (CIDREIRA, p. 89).
Para Celant (1999) as indagações e diferenciação entre arte e moda tende a desaparecer, uma vez que o questionamento hoje não mais se sustenta se moda é arte, sendo a única questão plausível talvez, a de quando e como moda é arte?
2.3 PERFORMANCE ART
Faça-se um breve histórico para maior compreensão do que é performance. No período da década de 1920, Marcel Duchamp já mostrava os primeiros ares de uma possível performance da body art5, onde o mesmo era fotografado com seu consentimento, como a personagem Rrose Sélavy (Figura 6), que era composta por se travestir de uma figura feminina onde Duchamp, através da atuação se tornava de corpo e alma sua personagem.
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Termo utilizado para compreender as práticas que artistas utilizam diferentes linguagens artístico, como as artes visuais, o teatro, a música, a dança, o cinema, para a produção de um “experimento radical” (ROSELEE GOLDBERG, 2006).
Figura 6 – Marcel Duchamp como Rrose Sélavy. 1920 Foto: Man Ray
Fonte: MINK, (2000).
Este pode ter sido um de seus mais relevantes trabalhos de arte fazendo do seu corpo suporte para o feito mais próximo da performance se comparado à produção de body art “Tonsure” (1919), que foram registros de cortes de cabelo caracterizado como obra (Figura 7). As marchas dos surrealistas são apontadas e legitimadas pelos estudiosos da história da arte como as primeiras manifestações da arte da performance. (GLUSBERGUE, 1987, p.)
Figura 7 – Tonsure, Marcel Duchamp, 1890–1976 Foto: Man Ray
A arte da performance também é fruto de uma série de manifestações e situações artísticas ocorridas entre as décadas de 1940 e 1960, como, por exemplo da “Action painting” de Jackson Pollock (Figura 8), “primeiro pintor a abandonar toda e qualquer convenção temática central e a derramar tinta em vez de usar pincel e paleta” (BECKETT, 1994, p.369); das “Antropometries” de Yves Klein (1960) (Figura 9).
Figura 8 – Jackson Pollock. Action Painting, 1947 Fonte: Atelier Jung, (2009).
Figura 9 – Antropometries” de Yves Klein, 1960 Fonte: Yveskleinarchives, (2005).
Dentre as diversas formas de performance existentes, a bodyart foi escolhida como maior referência para esta pesquisa. Essa é primariamente pessoal e privada, seu conteúdo é autobiográfico e o corpo é usado como o suporte próprio de uma pessoa particular e não como uma entidade abstrata ou desempenhando um papel. Os artistas, eles mesmos são objetos de arte. “A performance, num sentido
estritamente ontológico, é não reprodutiva. E é essa singularidade que faz da performance uma das artes contemporâneas mais instigantes” (PHELAN, 1997, p.173). (Figura 10); (da “Escultura Viva” de Piero Manzoni (1961) (Figura 11);) (de ações como “Street works IV” (1969) de Vito Acconci (Figura 11); das atividades dos Situacionistas).
Figura 10 – Escultura Viva” de Piero Manzoni, 1961 Fonte: Revista GQ, (2013).
Figura 11 – Follow Piece,Vito Acconci, 1969 Fonte: Portlandart, (2008).
O termo performance art sugere ações realizadas por artistas, no âmbito artístico, no bojo das experiências vanguardistas europeias. No cotidiano do homem comum, o termo performance é utilizado de maneira generalizada para descrever as séries de exercícios nas academias de ginástica; o test drive do automóvel do ano; o desempenho sexual do parceiro ou parceira em testes propostos por revistas de comportamento; e até mesmo para denominar produtos da indústria alimentícia como a bebida láctea Performance.
RoseLee Goldberg (2006), pioneira no estudo da arte da performance, em entrevista concedida a Regina Hackett, revela que prefere o termo live art no lugar de performance ou body art, uma vez que os artistas utilizam diferentes linguagens artísticas, como as artes visuais, o teatro, a música, a dança, o cinema, para a produção de um “experimento radical”. Além disso, ela afirma que o conceito de live art expressa uma maior aproximação entre arte e vida nas produções desses artistas.
Richard Schechner (2003), um dos pesquisadores e professores do departamento de Performance Studies, da New York University, associação filiada aos estudos da arte da performance, apresenta oito tipos de situações em que essa linguagem artística ocorre: na vida diária, cozinhando, socializando-se, apenas vivendo; nas artes; nos esportes e outros entretenimentos populares; nos negócios; na tecnologia; no sexo; nos rituais – sagrados e seculares; na brincadeira.
Schechner (2003), também atribui sete funções para a performance: “entreter; fazer alguma coisa que é bela; marcar ou mudar a identidade; fazer ou estimular uma comunidade; curar; ensinar, persuadir ou convencer; lidar com o sagrado e com o demoníaco”. Por fim, afirma que “qualquer comportamento, evento, ação ou coisa pode ser estudado como se fosse performance e analisado em termos de ação, comportamento, exibição” (SCHECHNER, 2003, p.39).
Apesar de sua característica anárquica e de, na sua própria razão de ser, procurar escapar de rótulos e definições, a performance é antes de tudo uma expressão cênica: um quadro sendo exibido para uma plateia não caracteriza uma performance; alguém pintando esse quadro, ao vivo, já poderia caracterizá-la (COHEN, R., 2002, p.28).
Devido à efemeridade e a característica de arte híbrida dessa linguagem, definir, conceituar ou classificar performance é para muitos teóricos uma tarefa árdua e até mesmo impossível. Sabe-se que “tentar escrever sobre o evento indocumentável da performance é invocar as regras do documento escrito e, logo, alterar o evento em si mesmo” (PHELAN, 1997, p.173).
As performances concebidas por Beuys6 - que o mesmo prefere dirigir pelo nome de ações, evitando os nomes happening ou performance - na Alemanha, se particulariza pelas conexões que estabelece com um universo mitológico, mágico e espiritual. Nelas chama atenção o uso frequente de animais - por exemplo, as lebres emThe Chief - Fluxus Chant, Copenhagen, 1963 (Figura 12) a ênfase nas ações que conferem sentidos aos objetos e o uso de sons e ruídos de todos os tipos, num apelo às experiências anteriores à linguagem articulada e ao reino dos instintos, que os animais representam. É possível lembrar performances realizadas nos anos 1960, por Yves Klein, na França, e, na trilha da arte povera italiana, os nomes de Jannis Kounellis e Vettor Pisani. No Japão, os happenings adquirem soluções novas com o Grupo Gutai de Osaka, que entre 1954 a 1972 reúne Jiro Yoshihara e mais quinze artistas.
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Joseph Beuys é considerado o artista plástico alemão mais importante depois da Segunda Guerra Mundial. Partindo das oposições razão-intuição, frio-calor, ele trabalhou para o restabelecimento da unidade entre cultura, civilização e vida natural, revolucionando as ideias tradicionais sobre a escultura. (UOL EDUCAÇÃO, 2012).
Figura 12 – The Chief - Fluxus Chant, Copenhagen, 1963 Fonte: Dazest, (2009).
Segundo Marco Paulo Rolla (Enciclopédia Itaú Cultural, 2014), as performances lidam com a mesma temática. Diz que, as possibilidades expressivas da performance são muito maiores do que as de outras artes e são mais adequadas à crítica do mundo capitalista das novas tecnologias, pois trazem de volta a memória do corpo. Segundo o site Cargo Collective em sua performance Banquete, Marco Paulo Rolla cria (Figura 13), uma autêntica refeição servida ao público e a alguns performers, a volúpia está presente nos corpos nus e nos alimentos, e a morte, nos pães em forma de braços e pernas humanos e na galinha viva, sacrificada e devorada crua.
Figura 13 – Performance Banquete, 2014 Fonte: Cargo Collective, (2015).
Marco Paulo Rolla em Confortável (Figura 14), outra performance de grande importância para o artista, os móveis como camas e sofás estão em lugares improváveis, como paredes e tetos, é o esforço do equilíbrio do artista, numa crítica ao conforto burguês (CARGO COLLECTIVE 2015).
Figura 14 – Marco Paulo Rolla Performance Confortável 1998 Fonte: Cargo Collective, (2008).
No entanto, o que mais importa para muitos artistas performáticos não são as definições, os conceitos, muito menos as classificações e teorias relacionadas à arte da performance. A ação é o mais importante, o ato de elaborar exibir e sempre que possível e a necessidade de performar.
2.3.1 RELAÇÕES ENTRE A PERFORMANCE E A INDUMENTÁRIA
Quando se problematiza a relação da performance art com a indumentária, diversas são as questões a se pensar. Lurie, descreve sobre a existência de uma roupa que ela denomina como mágica: “Peças de roupa também podem ser tratadas como se tivessem mana, força sobrenatural, impessoal que tende a se concentrar nos objetos” (LURIE, 1997, p. 45). Para a autora, certos trajes são como um talismã
ou mesmo possuem algum poder sobre aquele que o veste como por exemplo, o figurino para o ator que se prepara para entrar em cena. Este ritual de vestir um traje de cena é crucial para os performers, sendo vista como uma etapa de preparação - o próprio vestir é então, um ritual de transformação.
Baena (2015) complementa a colocação de Lurie afirmando que “acredita-se que o vestuário é elemento importante na composição dessas cenas peculiares, o que gera uma reflexão acerca da performance dos corpos que dela participam, na medida em que funcionam como fatores determinantes nas atitudes, nas práticas e nos comportamentos espetaculares” (BAENA, 2015, p. 103).
Cruz (2008) estende ainda esta relação, para os desfiles de moda através de uma analogia a moda está para o teatro, como o desfile está para o espetáculo:
Forçando um pouco, podemos ver o ator de teatro antes do espetáculo, como pessoas quaisquer, que podem ou não ser ricas, ter cultura ou formação, que pagam impostos, comem, têm relações sexuais, etc., e que, depois de um momento de transição nos camarins, nas coxias, enfim, nos bastidores, reaparecem para a sociedade no novo status de atores em cena. Também assim são os moldes antes do desfile, os reencontramos com seus corpos exibindo figurinos específicos depois de um momento de transição nos bastidores de um desfile (CRUZ, 2008, p. 3).
Do extenso grupo de pensadores e artistas que tomaram esse gênero como expressão, tem-se em performance, produções voltadas para a exploração dos limites do corpo físico, psicológico e social como podemos observar em sua performance Rest Energy, 1980 (Figura 15), sendo Marina Abramovic, representante máxima feminina dessa arte. Nascida em Belgrado, em 1946, a mesma se denomina a avó da performance arte. Para Abramovic, esta arte é um experimento constante, um espaço de investigação dos limites e das possibilidades do corpo.
Figura 15 – Marina Abramovic & Ulay. Rest Energy, 1980 Fonte: Raveneuse, (2012).
Em entrevista Marina revela que no começo do seu trabalho, ser feminina era como uma fraqueza, pois sempre teve que ser forte e masculina, inclusive na aparência. A ruptura tanto artística quanto de relacionamento com o seu então companheiro e também artista performático alemão Ulay, foi como uma enorme libertação, ser aceito pelo que realmente é e não se envergonhar disso, sem tentar formar uma composição com o elemento masculino. (ASSOCIAÇÃO CULTURAL VIDEOBRASIL, 2005, p.133).
Segundo Kathia Castilho (2001), “design de moda tem sido assunto de grandes discussões, inovações e experimentações nos últimos anos”. Para uma maior compreensão da arte de Marina Abramovic que está exposta em seu constante consumir do corpo e firmar sua grande importância para a moda, Castilho mostra que:
O sujeito faz descobertas a fim de manipular seu corpo como uma manifestação textual de ser, explorando seus limites físicos e biológicos, além de manipular a criação de diferentes estruturas que possuem se adequar ao seu corpo (CASTILHO, 2001, p. 96).
Nessa vertente, Castilho (2001) nos mostra que na ocorrência de determinados fatos na história da moda o adornamento do corpo está diretamente ligado sobre a pele sendo o corpo parte integrante do tecido, uma vez que este encontra-se na condição de parte e pertencimento do corpo, segundo as diversas possibilidades que o mundo oferece. Desta forma, é possível afirmar que a
indumentária possuiu papel fundamental na transformação do trabalho de Abramovic, auxiliando-a em sua transição para um estilo mais livre, pessoal e feminino, que fez dela, aos poucos, conhecer e descobrir a sua estreita relação que a moda viria a ter em seu trabalho e como esse processo vem construindo um novo olhar sobre as possibilidades de se pensar moda e arte como agente inovador para se compreender novas perspectivas.
Segundo o site Complex, Marina Abramovic, em uma constante conexão com a moda, para a sua mais recente performance em uma gigantesca retrospectiva no MOMA “Museum of Modern Art” em Nova York, 2010 (Figura 16) ela convidou a figurinista e alfaiate Stina Gunnarsson para colaborar com sua visão na criação de três vestidos para seu desempenho que consistia em ficar em silêncio, sentada e imóvel em uma cadeira com uma mesa de frente com pessoas que sentavam em outra cadeira de frente para ela. O resultado dessa parceria foi um vestido com características de um robe com uma calda prolongada e fluida que recebeu grande atenção. O traje foi reproduzido em três cores para os três meses de exposição: vermelho para março, azul em abril e branco para maio.
Para a concepção dessa performance a artista Marina Abramovic, buscou desenvolver uma obra única, que proporcionava ao espectador uma experiência inédita, a artista leva seu corpo e mente ao limite, assim, segundo ela, conseguindo alcançar um estado especial de espírito que será transmitido para a audiência o que ela chama de energy diologue.
Figura 16 – Ulay com Marina Abramovic, peformance The Artist is Present, 2010 Fonte: Do autor, (2010).
Nessa mesma vertente, Bardin diz que os objetos da nossa vida cotidiana funcionam como linguagem e que o vestuário é um conjunto de textos projetados e articulados de modo a relacionar elementos característicos do contemporâneo,
portanto, um interesse de mercado mesmo porquê tomado por diversos conhecimentos
como uma das análises de conteúdo possíveis no estudo no âmbito da moda (BARDIN, 1997, p. 55)
Como forma de trazer para a performance “The Artist is Presente”, uma projeção de conjuntos textuais articulados, que se comuniquem com a artista e o público que ali passavam para visitar a exposição. Os três vestidos nas cores vermelho, azul e branco, em três momentos diferentes um em cada mês de apresentação, transpunham elementos simbólicos que a artista desejava transmitir junto a sua performance.
2.3.2 MODA E PERFORMANCE NA ATUALIDADE
Como forma de mostrar a construção atual da performance na moda e como arte/performance e moda se comunicam através dos olhares reluzentes dos estilistas e designers de moda. A arte performance, é elemento que faz parte do que compreendemos sobre moda. As performances nos desfiles de moda são manifestações voltadas a um público específico e que transmitem uma mensagem simbólica específica. A moda e o desfile utilizam-se do corpo como propagador de informação.
Para ilustrar citam-se alguns trabalhos recentes de criadores, como Viktor & Rolf, Hussein Chalayan, Givenchy e como representante nacional, Ronaldo Fraga, Jun Nakao que estes fazem atualmente dos seus desfiles um espetáculo, transformando-os em gigantescas e suntuosas apresentações performáticas como muito bem descreve Renata Pitombo Cidreira (CIDREIRA, 2005. P. 81).
Segundo Lilian Pacce (2015), no desfile da Semana de moda Paris Fashion Week, outono-inverno 2010/11 (Figura 17), a dupla Viktor & Rolf, apresentou sua coleção em um palco giratório e uma passarela inspirado na Revolução Industrial, com ilustrações industriais, com chaves, parafusos, escadas e chaminés. Os Estilistas estiveram em cena durante todo o espetáculo que começou com a entrada da modelo Kristen McMenamy, que após ascenderem às luzes, os que ali estavam presentes puderam ver uma silhueta gigante como abertura do desfile. Eram camadas e mais camadas de casacos pesados, que ao decorrer do desfile eram
colocados pelos os estilistas em outras modelos, transformando novos looks, a performance continuou por todo o desfile.
Figura 17 – Viktor & Rolf coleção outono/inverno 2010/11 Fonte: Do artor, (2015).
No caso da marca Givenchy, a performance toma rumos mais densos em sua apresentação de primavera/verão 2016 (Figura 18), onde segundo o site Lilian Pacce (2015), o diretor criativo da marca e amigo de Marina Abramovic, a convida para ser diretora artística do evento, onde em uma fala para a marca ela diz que:
O desfile de moda não é apenas um evento para vestir roupas ou criar um novo estilo, mas ele também é uma espécie de transformação espiritual, e eu estava em busca por algo artístico que me direcionasse a construir um outro 10 método desenvolvido por Marina Abramovic, quero fazer algo diferente tão importante que nós tenhamos a música para representar todas as religiões para que as pessoas recebam, convidamos 5 pessoas de países diferentes para contribuir com o projeto (ABRAMOVIC, Marina. 2015).
Figura 18 – Coleção Givenchy primavera/verão 2016, NYFW Fonte: Do autor, (2015).
Outro exemplo de performance e moda é o desfile do estilista brasileiro Ronaldo Fraga apresentado na Semana de Moda, São Paulo Fashion Week, como mencionado o site Lilian Pacce (2015), o estilista apresenta sua coleção de outono/inverno 2016 (Figura 19) com o tema “Dores do Amor”.
E de forma quase que surreal ele remonta em metáforas as aflições de amores através de peças que narram um verdadeiro conto de um livro através de performances encenado por modelos onde no início do desfile entra dois modelos um homem e uma mulher contracenando como um casal que se despe e mostra sua vergonhas com um ar de comédia e ironia por meio de uma roupa intima que se encontra desenhada na parte frontal os órgãos genitais de ambos, em uma forma de mostrar a possibilidade de mutação do vestuário eles trocam de roupas cada um vestindo a roupa do outro e saem de mão dadas com uma sensação de que cumpriram seu papel de transmitir uma mensagem aos que ali estavam.
Figura 19 – Coleção Ronaldo Fraga, outono/inverno 2016 Fonte: Do autor, (2015).
Obstante da beleza do desfile do estilista Ronaldo Fraga, oferece com uma performance de casal e a instalação criada para o desfile, onde o local era composto por diversas camas de casal, que remetia ao um quarto de um casal, ao final do espetáculo os modelos entram e com um ímpeto repouso profundo, deitam (Figura 20) sobre as camas que ali se faziam presença e iam um a um se acomodando no conforto da áurea criada para aquele momento.
Figura 20 – Modelos deitadas nas camas. Coleção Ronaldo Fraga, outono/inverno 2016
Fonte: Ego, (2015).
Para o designer Hussein Chalayan, em seu desfile de primavera/verão 2016 (Figura 21) na Semana de Moda de Paris, segundo o site Lilian Pacce (2015), ele
apresenta mais uma vez através de uma performance altamente tecnológica, com tema de sua coleção Cuba.
E como cenário para o espetáculo foi produzido um ambiente em que duas modelos vestidas de branco, ficavam paradas no meio da passarela e em um momento do desfile uma ducha é acionada sobre a cabeça das modelos que permanecem inertes recebendo um banho, e para surpresa dos que ali se encontravam as roupas de papel branco se desfizeram, mostrando por baixo daquele que não mais se fazia presença, vestidos bordados com cristais Swarovski que estavam em segundo plano, ao cair dos vestidos de papel as modelos desfilam com elegância seus vestidos na passarela como não se estivera sido molhada minutos antes.
E para compreender toda essa cena tem uma elucidação, como uma metáfora de Chalayan para Cuba, que está em um momento de profundas transformações.
Figura 21 – Coleção Hussein Chalayan, primavera/verão 2016. Fonte: do autor, (2015).
3. METODOLOGIA
3.1 TIPOS DE PESQUISA
Este trabalho se utiliza da transdisciplinaridade para a construção de um aprendizado contemporâneo quando se é abordado diversos conceitos tais como vestimenta, indumentária, figurino, moda e corpo como suporte para a arte. Em tempos de conectividade mundial tem-se que estar dispostos e a postos para a compreensão do todo e ao mesmo analisar cada parte desse complexo emaranhado de perguntas.
Sobre Transdisciplinaridade, Santos (2004) confirma:
Transdisciplinaridade diz respeito à dinâmica dos diferentes níveis de realidade. Para conhecê-la é preciso o conhecimento disciplinar, o que quer dizer que a própria pesquisa transdisciplinar se apoia na pesquisa disciplinar. No entanto, enfocada a partir da unidade do conhecimento. Portanto conhecimentos disciplinares e transdisciplinares não são antagônicos, são complementares. (SANTOS, 2004 p.111)
Buscando acrescer esses conhecimentos múltiplos, esta pesquisa tem cunho de levantamento bibliográfico ao tratar do corpo como instrumento performático, da arte e do design, buscando relacioná-los e da pesquisa de campo/ entrevista, que se pretende buscar por meio de entrevistas in loco com mulheres que se interessam por um produto de moda com elementos da arte, para ouvi-las e entender qual a visão das mesmas em relação à simbologia da indumentária na performance artística e como ela pode ser um agente facilitador para a vestimenta como forma de expressão e diálogo com o corpo espaço.
Gil (2009, p. 17) enfatiza que a pesquisa é um processo racional e sistemático que responde aos problemas propostos. A precariedade de informações suficientes para responder os problemas ou a desordem das pesquisas já expostas faz com que nasça nos indivíduos a necessidade uma nova proposta de pesquisa incitando novos olhares sobre um único problema.
Para maior exatidão e compreensão desse estudo, caminhará amparado por conceitos de pesquisadores. Segundo Gil (2010, p. 29 e 30), entende-se por pesquisa bibliográfica a elaboração através de pesquisa com base em material já publicado, constituído principalmente de livros, revistas, jornais, teses, dissertações, devido diversas modificações estruturais da sociedade em suas formas de
comunicar, atualmente são incluídas outros tipos de fontes, como discos, fitas magnéticas, CDs, e matérias da Internet.
Na busca de desenvolver uma fundamentação teórica de qualidade desenvolverá o período de pesquisa bibliográfica, através de diversos autores do campo da arte, performances, estudo do corpo, teatro, dança.
Segundo Gil (2009), para não deixar cair em um dos pontos fracos dessa pesquisa: o de repetir os mesmos erros que podem conter em algumas fontes secundárias que apresentam dados coletados ou processados de forma equivocada. Fazendo assim que o estudo de mais autores em uma mesma temática torne o trabalho menos propenso aos erros passados.
Para Gil (2008), a pesquisa na modalidade de estudo de Campo/ Entrevista busca o aprofundamento de uma realidade específica. É desenvolvida por meio da observação direta das atividades do grupo estudado e de entrevistas com pessoas do grupo para captar as explicações e interpretações que circundam sua realidade.
3.2 COLETA DE DADOS
O instrumento utilizado como coleta de dados foi à aplicação de uma entrevista com cinco perguntas abertas de clara compreensão, para que não houvesse dúvidas no momento da resposta, com questões voltadas ao projeto, para melhor construção da marca e desenvolvimento da coleção, essa foi aplicada com 15 mulheres na cidade de São Paulo - SP e Londrina - PR. Com esse, busca-se visualizar as necessidades em relação ao vestuário proposto neste projeto, para maior compreensão do público alvo estudado, que são mulheres da faixa etária 25 a 35, que apreciam arte, gostam de usar seus momentos de lazer para visitar museus, galerias, parques, assistir a apresentações de performances, ir a peças teatrais, cinema, festivais culturais, viagens, ler e gostam de estar sempre em contato com os amigos e a família.
3.3 DELIMITAÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO
Para que a análise dos resultados da pesquisa fosse mais eficaz, aplicou-se uma entrevista com perguntas abertas que permeiam assuntos que nortearam a marca na compreensão do público alvo, (APÊNDICE A).
Foi feito entrevista com mulheres da cidade de São Paulo que frequentam galerias de arte, museus, e gostam da arte e suas diversas formas de representação e com acadêmicas e professoras do CECA - Centro de Educação, Comunicação e Artes da Universidade Estadual de Londrina.
3.4 ANÁLISE DOS RESULTADOS
Através desta pesquisa foi possível observar que para muitas das entrevistadas, há a necessidade de transmitir informações que vão além das características visuais da roupa e do conceito da roupa ou marca que está vestindo. Para elas, o vestuário comunica valores e mensagens simbólicas que necessitam da linguagem da arte para se fizer compreender e para emocionar.
Assim a moda e performance funcionam com a transdiciplinaridade necessária para que uma área possa enriquecer a outra e também para que leve à reflexão e a novas definições do que são e para que servem os desfiles, assim como do que é (ou pode ser) a moda e a arte.
Na primeira questão foi perguntado se a entrevistada busca se expressar através das suas roupas com elementos artísticos?
Uma das entrevistadas respondeu que sim e costuma ter um olhar despreocupado para as combinações e uma valorização da mistura de texturas e cores, como de pensar criativamente e otimista sobre suas relações com as pessoas e coisas, situações, estado de espirito e formas de pensar. Assim como a desconstrução da silhueta corporal que não se encaixa na maioria das formas de roupas convencionais, cultura, peso, curvas e falta delas fazem a diferença na hora de vestir. “Portando tive que inventar uma forma de me vestir identificando meu comportamento, meu corpo e até o derreter ou diluição do feminino, adaptações com peças masculinas se encaixam melhor em meu jeito de pensar, brincar com formas
e tamanhos”. A seguinte relata que também utiliza de elementos artísticos para se expressar, criando looks diferentes adequados a sua personalidade. Outra entrevistada menciona que como é uma artista costuma misturar elementos de figurino com roupas básicas, bolsas, sapatos e brincos de peças que ele mesmo confeccionou.
Na segunda questão, foi perguntado se a entrevistada sentia falta de produtos de moda que possuem características de elementos de arte. Uma das mulheres diz que sente falta de as pessoas usarem o que gostam, falta confiança e sobra medo do ridículo, portanto, a mesma acha interessante essa maneira de usar a roupa, como ela fosse algo além, abstrato, que transpasse a racionalidade levando aqueles que vestem a outras atmosferas.
Nesta mesma questão foi respondido que sente falta de que em lojas de departamento, as opções são escassas de produtos conceituais, outra entrevistada sente falta de produtos inovadores na forma e na produção. Foi mencionado também que no mercado de moda, hoje em dia, há anseio por qualidade e que contenha elementos do mundo artístico.
Na terceira questão perguntou, se a entrevistada conhece alguma marca que ofereça um produto que contenha conceitos e estética de moda e arte juntas. Uma das entrevistadas diz “a única que conheço e gosto é Ronaldo Fraga, ele consegue fazer essa transição de forma divertida e sensorial, trazendo para quem usa ou quem vê momentos e lembranças”. Foi mencionado em outro momento que a marca masculina João Pimenta, “é referencia digna, pois agrega uma poética pessoal com o mercado e seu trabalho e acessível economicamente”. Marcas brasileiras como, Samuel Cirnansck, La Tigresse e foram descritas juntamente com conhecimento de marcas internacionais, mas que devido ao custo não chegam ao consumidor.
A questão quatro perguntou onde as entrevistadas gostam ou costumam adquirir peças para compor seus looks, muitas delas responderam que adquirem suas roupas em shopping e brechó. Uma especificamente, ganha muitas roupas de amigos, mas a maioria vem de brechó, um dos fatores segundo ela é o valor, qualidade e diversidade, ela ainda diz: “roupas atemporais, formatos e tamanhos que não encontramos normalmente em shopping e quando encontro algo que me chama muito atenção mesmo que seja em qualquer loja.”