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GERAÇÕES NA

DANÇA E NA

EDUCAÇÃO: A

COEDUCAÇÃO

EM MEMORIAL

DOS OSSOS

Kathya Maria Ayres de Godoy (UEP, BR) Renata Fernandes dos Santos (UEP, BR)

Retomando aspectos apresentados na dissertação de mestrado que leva o nome deste artigo (Fernandes, 2016) realizada no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (São Paulo - Brasil) sob orientação da Prof.ª Dr.ª Kathya Godoy entre 2014 e 2016, temos como objetivo refletir sobre alguns aspectos da coeducação entre gerações observados a partir da participação de Renata Fernandes como pesquisadora e agente colaboradora no processo de criação de Memorial dos ossos ou o que existe de inter-

resistente em mim (2014)1. O trabalho, dirigido

por Daniela Dini e Daraína Pregnolatto, é uma ação em dança, performance e comunidade. O processo de criação, que levou cerca de 5 meses, aconteceu por ciclos de oficinas de criação ministrados pelas diretoras e artistas convidadas, e resultou em intervenções de dança em diversos pontos da cidade de Pirenópolis (Goiás, Brasil), onde o processo se desenvolveu. Dele fizeram parte 44 pessoas de 4 a 98 anos, a maior parte delas moradores da comunidade do Alto do Bonfim, um bairro periférico dessa cidade turística do cerrado brasileiro. O ambiente, o tempo, as ações e os agentes da educação não-formal compõem o território e o lugar deste estudo. Em termos metodológicos, trata-se de uma pesquisa empírica com abordagem qualitativa em que foram utilizados os instrumentos de coleta de dados: observação participante, diário de bordo, registros audiovisuais e coleta de depoimentos.

Memorial dos Ossos teve o intuito de dar formas

cênicas às memórias do elenco envolvido em sua criação, participantes e convidados da Flor de Pequi – brincadeiras e ritos populares2. Os

compartilhamentos destas memórias foram,

desde o início, acentuados pelo fato de ser uma premissa à Flor de Pequi e sua direção que o material de base ao processo emergisse do encontro entre as gerações e ao que deles reverberasse.

A reflexão decorrida desta experiência visa responder às perguntas centrais: o que a coeducação entre gerações proporcionou ao processo de criação de Memorial dos Ossos? Quando e de que maneira a coeducação se apresenta? A partir disto apresentamos em 5 tópicos aspectos significativos na prática artística em comunidades que envolvam a coeducação entre gerações, revelados pela nossa pesquisa: a importância da permanência no tempo, a construção de uma ética no encontro entre gerações, a tessitura do grupo em camadas de fragmentos familiares e intergeracionais, a necessidade de abertura ao estrangeiro culminando em uma existência comunitária educativa. Deste modo, acreditamos colaborar metodológica e conceitualmente com quem atua no campo da arte e educação em comunidades, uma vez que eles apontam para o fortalecimento e continuidade das coletividades, bem como ajudam a definir maneiras e caminhos de atuação de quem orienta e integra este tipo de ação.

1 Doravante no texto a obra será nomeada

apenas Memorial dos Ossos.

2 Flor de Pequi - Brincadeiras e Ritos

Populares é um grupo de arte e educação de Pirenópolis (GO) que reúne crianças, jovens, adultos e idosos em intervenções de danças, músicas e brincadeiras populares, sob coordenação da Daraína Pregnolatto. Doravante o nome da instituição aparecerá como Flor de Pequi apenas.

1.

Permanência

no tempo

2. A ética do

encontro

entre

gerações

Ao acompanharmos o nascimento de Memorial

dos Ossos percebemos que um ambiente e uma

paisagem o sustentam, permitem-lhe existir. O ambiente é o da ONG Quintal da Aldeia, sede que recebe as ações do grupo Flor de Pequi no bairro do Alto do Bonfim, em Pirenópolis, paisagem que sustenta este processo. Ferrigno, ao explicitar os parâmetros de seleção das pessoas que integram sua pesquisa sobre coeducação, nos aponta um dado fundamental que também orienta a definição de nosso olhar para o objeto desta pesquisa: “(...) O principal critério para a escolha dessas pessoas foi o longo convívio que elas mantêm (...) pois a efetiva coeducação pressupõe suficiente convivência” (2010: 113).

Destacamos, portanto os 15 anos de existência do grupo Flor de Pequi e da ONG Quintal da Aldeia que permitem o fortalecimento dos laços entre os moradores do bairro. Para Daraína Pregnolatto, sua coordenadora, é o convívio contínuo e cotidiano em atividades variadas, voltadas a todos do grupo – ora privilegiando os mais velhos ora os mais novos, mas sempre convidando todos à participação – que permite que Flor de Pequi sobreviva por tanto tempo e continue dando sentido às suas experiências e partilhas coletivas. É a esta permanência que se refere Ferrigno ao apontar a necessidade de suficiente convivência em situações em que ocorre ou se deseja a coeducação.

Neste sentido Memorial dos Ossos se configura como um espaço a mais de encontro destas pessoas; não é e não pode ser visto como situação inaugural ou exclusiva de trocas entre gerações.

O processo de coeducação pode se dar entre iguais, como um grupo de pessoas de determinada faixa etária ou gênero, ou ainda em associações tais quais Alcoólicos Anônimos e Vigilantes do Peso; e também pode ocorrer entre diferentes, como em grupos de variadas idades, etnias ou gênero (Ferrigno, 2010). De forma ampla, o tipo de coeducação que investigamos neste caso – intergeracional – pode ser entendido como um processo educacional que ocorre entre pessoas de diferentes idades, sendo que ambas compartilham saberes, experiências e cultura e se beneficiam disto. Segundo Oliveira (1998), as condições fundamentais para esta situação são a igualdade de direitos e o respeito às diferenças.

Os laços pré-estabelecidos evidenciam-se cruciais para o bom desenvolvimento do processo no curto período de tempo proposto. É imprescindível lembrar: o processo de criação não pode se sobrepor às questões pedagógicas e sociais do grupo. Nenhuma questão artística pode levar ao rompimento do grupo. Aqui arte e educação são duas faces da mesma moeda. A coeducação desta forma se apresentou não apenas ao longo de todo o processo de criação mas também antes e depois dele. A permanência no tempo talvez seja o item mais caro à diretora Daraína, que atribui a si a responsabilidade de não promover nenhum rompimento que possa prejudicar a continuidade das ações do grupo após o fim deste processo de criação.

Ferrigno (op. cit.) pontua condições éticas para o processo de coeducação entre diferentes, sendo a condição básica neste caso a quebra de preconceitos entre as gerações – sobretudo do orientador do encontro em relação aos participantes. A atitude inicial é de aquisição de noções básicas sobre a faixa etária trabalhada. Em segundo lugar, partindo-se do princípio que o preconceito se constrói sempre contra o diferente, o autor conclui que a única forma de combate ao preconceito é proporcionar o convívio entre eles. No entanto, ele ressalta que a convivência não é suficiente, apesar de ser premissa essencial da coeducação. A coexistência de diferentes, quando não orientada, pode inclusive exacerbar a sua oposição; por isso a mediação baseada em conhecimento e observação do outro e também em autoconhecimento e auto-observação constante é desejável. Desta forma, o processo criativo, este ter o que fazer juntos, aparece como uma forma de mediar o encontro entre diferentes. Apesar dos inúmeros conflitos cotidianos que ocorrem na convivência entre gerações ser um desafio a cada um que dela participa, mais desafiador é “voltar-se para os que querem excluí-los de sua posição de gente”. (Oliveira, 2011: 29). Esta afirmação nos leva a ver que mais do que enfatizar aspectos de desenvolvimento físico, motor e cognitivo das diferentes faixas etárias se faz urgente uma reflexão sobre suas inserções sociais:

Crianças e velhos - estes mais do que aquelas, mas também elas - são pessoas não reconhecidas como tais nas representações dominantes da sociedade. Vivem uma opressão social que inclui a imagem da destituição, como se a eles não pertencesse o presente. Neste imaginário prevalecente, o velho foi banido (porque visto como aquele que já foi) e a criança ainda não foi incorporada (porque tida como alguém que ainda não é) (Ibid., p. 30).

A coeducação de gerações supõe da parte dos que estão envolvidos predisposição para aceitar as peculiaridades que a diversidade de tempos sociais imprime na formação de cada qual. Aquiescer a um tal convite é muito mais que tolerância; implica o trabalho de convergir em busca de relações igualitárias, acatando (e nunca abolindo) as diferenças, pois, é por meio delas que se renovam as possibilidades de modificação recíproca dos sujeitos. Em outras palavras, é através da percepção do outro como diferente que posso, numa dada relação, divisar meu inacabamento; quer dizer, enxergar as possibilidades que o outro sugere para minha mudança. (Ibid., p. 335).

Acolhemos o que salienta o autor: situações intergeracionais não são lineares, homogêneas e monolíticas como alguns pretendem que seja um processo educativo. O processo de criação explicita que a educação não se resume à passagem de conhecimento do que sabe ao que não sabe, ou do mais velho ao mais novo. É preciso que se compreenda nesta situação a criança como produtora de conhecimento e cultura tanto quanto o idoso. Por fim, a coeducação exige de quem dela participa mais do que desejo de estar junto ou tolerância em situações de divergência. Ela nos pede abertura ao outro, ao diferente:

3. Tessitura

em camadas

de fragmen-

tos familiares

e intergera-

cionais

Das relações familiares no elenco, destacamos o seu caráter fragmentário e não convencional. Trata-se de uma trama de pedaços de famílias: a senhora viúva cujos filhos vivem longe; outra senhora viúva que cuida do filho acamado; um casal de pais e um só filho (o irmão deste não participou); uma avó, sua filha e sua neta (de vários netos apenas uma participou); quatro irmãs (órfãs de mãe); uma mãe e seus quatro filhos de pais diferentes; participantes que são irmãos por parte de pai. Vemos a fragmentação familiar como uma característica desta teia artística que se junta por vontade e intenção, explicitando a abertura ao mundo e ao outro por parte de cada integrante. Ela é apontada por Ferrigno, em alguns casos, como fator de afastamento da convivência:

Já em outros casos a fragmentação aparece como emancipação:

(...) o objetivo central dos grupos de convivência é a socialização do idoso, ou, como talvez seja mais correto dizer, a sua ressocialização. Isso porque a grande maioria dessas pessoas teve uma vida de relações sociais, empobrecida posteriormente como dissemos por fenômenos como aposentadoria, emancipação dos filhos, viuvez etc. (2010: 87-88).

(...) temos nos deparado com idosos que somente nessa derradeira fase revolucionaram positivamente sua postura perante o outro e a si mesmo, e que afirmam com convicção estarem vivendo a melhor fase de sua vida. Mais comumente ouve-se isso de mulheres na terceira idade que quando jovens estiveram submissas a seus pais e depois a seus maridos, encontrando na viuvez ou na separação conjugal tardia uma vida mais livre e mais autônoma. (Ibid., p. 83).

Acreditamos que esta visão se aplique às outras faixas etárias. No caso das crianças, por exemplo, um núcleo familiar muito rígido ou muito bem estabelecido pode não permitir a sua participação em ações artísticas, que pedem comprometimento e compromisso com o outro, com o “fora de casa”, com o grupo que não é a família. A família (e as obrigações da escola) pode sugar todas as atenções da criança, segregando-a do convívio com outras gerações e em outros ambientes. Certos laços familiares exigem autorização para o afastamento de seus membros, sobretudo no caso de crianças e mulheres, como salienta Ferrigno. O autor por fim constata o que vemos florescer em

Memorial dos Ossos: “essa ‘abertura ao mundo’,

seja ela um traço da personalidade, seja uma conquista recente, mostra-se decisiva para uma predisposição ao diálogo com outras gerações.” (Ibid., p. 83).

Neste imbricamento de fragmentos de famílias, no abarcamento de indivíduos descolados de qualquer relação familiar com o elenco bem como a relação de acolhida que as ações da Flor de Pequi promovem junto ao público, o que mais nos interessa é que se trata de uma

educação dos afetos, uma sensibilização para o estar junto, pela e para a convivência.

O grupo propõe que este (re)encontro entre gerações seja, além de espontâneo e por vontade de quem ali está, levado a público. A brincadeira é o grande elo entre esses extremos geracionais e também com o público, seja qual for e que idade tenha. Que o repertório das apresentações de Flor de Pequi tenha sido em grande parte levantado em conjunto e diálogo entre os integrantes é um fato, pois trata-se (as brincadeiras, cantos e danças) de matéria de fato comum a todos. No entanto há parte do repertório que as crianças não conheciam antes de serem apresentadas pelos mais velhos. O fato de saberem, lembrarem e compartilharem brincadeiras desconhecidas pelos pequenos motiva a valorização dos mais velhos, necessária a uma memória cultural que não possui muitos outros meios de permanecer viva que não pela prática.

A intervenção de dança desta forma ampliou o processo de educação a todos que dela participaram. Neste caso o contato intergeracional foi promovido e incentivado para além das teias familiares, onde ele talvez ainda aconteça em nossa sociedade com alguma naturalidade ou até mesmo por falta de opção.3 O trabalho desenvolvido permitiu

que crianças e idosos pudessem estar em público e no tempo presente (livres dos famosos “o que você vai ser quando crescer?” ou da conjugação no passado dos idosos – “eu fui”, “eu fiz”, “eu sabia”, “no meu tempo” 4).

Importa-nos também a relação entre os integrantes e os orientadores ou diretores das propostas de criação em dança, justamente por serem todos agentes de uma situação não “natural” e “familiar”, mas pública, forjada, mediada. E a maior mediação se deu pela arte e pelas situações, desafios, indagações por ela proporcionadas. Observa-se que as

oficinas de criação5 foram responsáveis por

trazer todos a um tempo presente. As imagens produzidas ao longo da pesquisa evidenciam que é na dança que se dá o encontro. Excluídas todas as narrativas, todas as memórias, toda a imaginação, é no calor da criação e da

performance que o presente é soberano. Cada

um com o que é hoje, no instante. Cada um com o seu corpo, com sua história, com o seu desejo, com o seu saber. Não foi no passado, não será no futuro. O processo acontece no agora. Está aí uma das contribuições da arte (e de Memorial

dos Ossos) à reflexão sobre intergeracionalidade

– possibilidade de proporcionar a todos o tempo presente.

3 Há diversos estudos que analisam as relações entre

gerações familiares, em especial a relação entre avós e netos. Exemplos podem ser lidos em Oliveira (2011), Ramos (2014) e Schmidt (2007).

4 Sobre esta exclusão social dos velhos e das crianças

Oliveira explicita como violência simbólica, e identifica como barbárie, no eco de Walter Benjamin, o fato do não reconhecimento destes como pessoas, existentes reais e humanos. São os considerados imaturos, não maduros ainda (no caso das crianças) ou já passados da maturidade (os velhos). Assim sustenta-se a imagem da criança cheia de futuro e dos velhos cheios de passado. Não lhes é dado o direito de ter um presente. (2011, pp. 33-35 e 50).

5 O processo de criação se deu por meio de ciclos

de oficinas conduzidos pelas diretoras e artistas convidadas. Para saber detalhes deste processo ver Fernandes (2016) e Fernandes e Godoy (2015).

4.

Abertura ao