espa¸cos compactos cuja topologia ´e a cofinita
Como j´a foi mencionado na Se¸c˜ao 3.1, Kelley apresentou, em 1950, uma prova da asser¸c˜ao TT =⇒ AC que continha um pequeno erro – observado no artigo de 1951 de Lo´s e Ryll-Nardzewski –, que pode ser facilmente corrigido, tal como o fizemos ao provar, com os argumentos de Kelley, que TT implica AC em ZF−. Representando por TTcf o Teorema de Tychonoff restrito aos espa¸cos compactos cuja topologia ´e a cofinita, poder´ıamos concluir, com os argumentos originais de Kelley, que TT =⇒ TTcf =⇒ AC. Contudo, podemos questionar se asser¸c˜ao TTcf =⇒ AC ´e falsa, devido ao fato de um dos argumentos de Kelley estar incorreto. Na presente se¸c˜ao, mostraremos que realmente TTcf n˜ao implica AC. Para este prop´osito, iremos provar, em ZF, a equivalˆencia entre TTcf e a asser¸c˜ao BPI, que ´e estritamente mais fraca que AC, utilizando os mesmos argumentos dados no artigo [Sch06]. Tal como o autor deste artigo, destaquemos que BPI ´e mencionado apenas para “identificar” v´arios princ´ıpios maximais e topol´ogicos que lhe s˜ao equivalentes em ZF – destacando que algumas dessas equivalˆencias est˜ao demonstradas na se¸c˜ao anterior. Concentremos agora a nossa aten¸c˜ao em dois de tais princ´ıpios equivalentes a BPI. S˜ao eles os seguintes princ´ıpios topol´ogicos:
(TT2) Dado um conjunto X, se 2 = {0, 1} estiver munido da topologia discreta, ent˜ao o espa¸co-produto 2X ´e compacto.
(U) Dado um espa¸co topol´ogico X, tem-se que X ´e compacto se, e somente se, toda ultrarrede em X convergir para algum ponto em X.
Como obviamente as topologias discreta e cofinita sobre um mesmo conjunto finito coincidem, tem-se de imediato que TTcf implica TT2 em ZF. Ent˜ao, para verificar a equivalˆencia entre TTcf e BPI, basta provar que U implica TTcf, pois j´a temos que as seguintes implica¸c˜oes s˜ao v´alidas:
Lembrando que estamos admitindo a validade da equivalˆencia entre U e BPI. Agora, para provarmos que U implica TTcf em ZF, comecemos com as seguintes defini¸c˜oes: Defini¸c˜ao 3.3.1. Sejam ∆ um conjunto e 6 uma rela¸c˜ao bin´aria sobre ∆. Diz-se que ∆ ´e direcionado por 6 se h∆, 6i for uma pr´e-ordem satisfazendo a seguinte condi¸c˜ao: para todo subconjunto finito Φ de ∆, existe uma cota superior em ∆ para Φ segundo 6. Agora, sejam X um conjunto e ν : ∆ −→ X uma fun¸c˜ao. Diz-se que ν ´e uma rede em X se ∆ for direcionado por 6.4 Caso ν seja uma rede em X, para cada δ ∈ ∆, denota-se
ν(δ) por xδ. Neste caso, representa-se ν por hxδiδ∈∆. △
Defini¸c˜ao 3.3.2. Sejam X um conjunto, hxδiδ∈∆ uma rede em X e z ∈ X. Se X for um espa¸co topol´ogico, diz-se que hxδiδ∈∆ converge para z, e representa-se por xδ → z, se, para toda vizinhan¸ca aberta V de z em X, existir um δ0 ∈ ∆ tal que, para todo δ > δ0 em ∆, xδ ∈ V . Agora, seja φ(x) uma propriedade que se aplica a cada x ∈ X. Diz-se que hxδiδ∈∆satisfaz residualmente φ(x), ou que φ(xδ) residualmente, se existir um δ0 ∈ ∆ tal que, para todo δ > δ0 em ∆, φ(xδ) vale. Diz-se que hxδiδ∈∆ ´e uma ultrarrede se, para todo A ⊆ X, ou xδ ∈ A residualmente ou xδ ∈ X \ A residualmente.5 Por fim, diz-se que hxδiδ∈∆ ´e residualmente constante se existir um x ∈ X tal que
xδ= x residualmente. △
´
E claro que, para todo conjunto X e toda rede hxδiδ∈∆ em X, se hxδiδ∈∆ for residualmente constante, ent˜ao existe um ´unico x ∈ X tal que xδ = x residualmente. Portanto, se existir um x ∈ X que testemunhe que hxδiδ∈∆ ´e residualmente constante, diremos especificamente que hxδiδ∈∆ ´e residualmente constante de valor x. Agora, prossigamos apresentando o seguinte
Lema 3.3.3 (ZF). Dados um conjunto X e uma ultrarrede hxδiδ∈∆ em X, se existir
um F ⊆ X tal que F ´e finito e xδ ∈ F residualmente, ent˜ao hxδiδ∈∆ ´e residualmente 4Em virtude desta defini¸c˜ao, segue de imediato que toda sequˆencia hx
nin>1 e, para todo ordinal α,
toda α-sequˆencia hxξiξ<α s˜ao redes em seus respectivos contradom´ınios.
5E interessante destacar que, dado um conjunto X, a cada rede em X podemos associar um filtro´
sobre X e vice-versa da seguinte maneira: dada uma rede ν = hxδiδ∈∆ em X, considere o conjunto
F (ν) := {A ⊆ X : xδ∈ A residualmente}. Verifica-se que F (ν) ´e um filtro sobre X e que F (ν) ´e um
ultrafiltro se, e somente se, ν for uma ultrarrede. Agora, dado um filtro F sobre X, considere sobre o conjunto ∆ (F) := {hA, xi : A ∈ F e x ∈ A} a rela¸c˜ao bin´aria 6 que ´e definida pela seguinte senten¸ca: para todo hA, xi, hB, yi ∈ ∆ (F), hA, xi 6 hB, yi se, e somente se, B ⊆ A. Mostra-se que ∆ (F) ´e direcionado por 6. Considere ν (F) : ∆ (F) −→ X definida por ν (F) hA, xi = x. Pela constru¸c˜ao, tem-se que ν (F) est´a bem definida, implicando que ν (F) ´e uma rede em X. Al´em disso, verifica-se que, para todo filtro G sobre X, F (ν (G)) = G.
constante.
Demonstra¸c˜ao:
Suponha que exista um F ⊆ X tal que F seja finito e xδ ∈ F residualmente. Ent˜ao, pode-se fixar um δ0 ∈ ∆ tal que, para todo δ > δ0 em ∆, xδ ∈ F . Admita que hxδiδ∈∆ n˜ao seja residualmente constante. Assim sendo, para todo x ∈ F , n˜ao ´e verdade que xδ∈ {x} residualmente. Como hxδiδ∈∆ ´e uma ultrarrede em X, segue ent˜ao que, para todo x ∈ F , xδ ∈ X \ {x} residualmente. Logo, para cada x ∈ F , pode-se fixar um δx ∈ ∆ tal que, para todo δ > δx em ∆, xδ ∈ X \ {x}. Ora, o conjunto ∆F := {δ0} ∪ {δx : x ∈ F } ´e um subconjunto finito de ∆. Ent˜ao, pode-se fixar uma cota superior δF em ∆ para ∆F. Consequentemente, teremos que, para todo δ > δF em ∆, xδ ∈
\
x∈F
X \ {x} = X \ [
x∈F
{x} = X \ F , uma contradi¸c˜ao. Portanto, conclui-se que
hxδiδ∈∆ ´e residualmente constante.
Lema 3.3.4 (ZF). Dados um conjunto I 6= ∅, uma fam´ılia {Xi : i ∈ I} de conjuntos
e uma rede hxδiδ∈∆ no produto cartesiano Y
i∈I
Xi, se hxδiδ∈∆ for uma ultrarrede, ent˜ao,
para todo i ∈ I, hxδ(i)iδ∈∆ ´e uma ultrarrede em Xi. Demonstra¸c˜ao:
Seja hxδiδ∈∆ uma rede qualquer em Y = Y
i∈I
Xi. Pode-se verificar facilmente que: (**) dada uma fam´ılia {Zi : i ∈ I} de conjuntos tal que, para todo i ∈ I, Zi ⊆ Xi,
se xδ ∈ Y
i∈I
Zi residualmente, ent˜ao, para todo i ∈ I, xδ(i) ∈ Zi residualmente. Agora, suponha que hxδiδ∈∆ seja uma ultrarrede. Fixe arbitrariamente um j ∈ I e um A ⊆ Xj. Ent˜ao, dado um i ∈ I, considere o conjunto
Zi := (
Xi, se i 6= j; A , se i = j. Considere agora o conjunto Z :=Y
i∈I
Zi ⊆ Y . Suponha que n˜ao seja verdade que xδ(j) ∈ A residualmente. Ent˜ao, j´a que Zj = A, segue de (**) que n˜ao ´e verdade que xδ ∈ Z residualmente. Como hxδiδ∈∆ ´e uma ultrarrede em Y , segue ent˜ao que xδ ∈ Y \ Z residualmente. Com isso, pode-se fixar um δ0 ∈ ∆ tal que, para todo δ > δ0 em ∆, xδ ∈ Y \ Z. Logo, para todo δ > δ0 em ∆, existe um k ∈ I tal que xδ(k) 6∈ Zk. Ora, se fosse k 6= j, ter´ıamos que Zk = Xk, uma contradi¸c˜ao. Assim, tem-se que k = j e, por conseguinte, que Zk = A. Consequentemente, para todo δ > δ0 em ∆, xδ(j) 6∈ A. Logo, xδ(j) ∈ Xj\ A residualmente. Ent˜ao, como A ⊆ Xj foi fixado arbitrariamente, segue que
hxδ(j)iδ∈∆ ´e uma ultrarrede em Xj. Portanto, j´a que j ∈ I foi fixado arbitrariamente, conclui-se que, para todo i ∈ I, hxδ(i)iδ∈∆ ´e uma ultrarrede em Xi. Lema 3.3.5 (ZF). Dados um conjunto I 6= ∅, uma fam´ılia {Xi : i ∈ I} de espa¸cos
topol´ogicos, uma rede hxδiδ∈∆ no espa¸co-produto Y = Y
i∈I
Xi e um ponto z ∈ Y , xδ → z
em Y se, e somente se, para todo i ∈ I, xδ(i) → z(i) em Xi. Demonstra¸c˜ao:
Por um lado, suponha que xδ → z em Y . Fixe arbitrariamente um j ∈ I e uma vizinhan¸ca aberta U de z(j) em Xj. Ent˜ao, dado um i ∈ I, considere o conjunto
Vi := (
Xi, se i 6= j; U , se i = j. Pela constru¸c˜ao, ´e ´obvio que o conjunto V :=Y
i∈I
Vi ´e uma vizinhan¸ca aberta de z em Y . Como xδ → z em Y , pode-se ent˜ao fixar um δ0 ∈ ∆ tal que, para todo δ > δ0 em ∆, xδ∈ V . Logo, para todo δ > δ0 em ∆, xδ(j) ∈ U e, por conseguinte, xδ(j) → z(j) em Xj. J´a que j ∈ I foi fixado arbitrariamente, segue ent˜ao que, para todo i ∈ I, xδ(i) → z(i) em Xi.
Por outro lado, suponha que, para todo i ∈ I, xδ(i) → z(i) em Xi. Tome uma vizinhan¸ca aberta b´asica V qualquer de z em Y . Sendo assim, existe uma fam´ılia {Vi : i ∈ I} de conjuntos tal que, para todo i ∈ I, Vi ´e um aberto em Xi e que satisfaz a condi¸c˜ao de que o conjunto J := {i ∈ I : Vi 6= Xi} ´e finito e V =
Y
i∈I
Vi. Ora, para cada i ∈ I, tem-se que Vi ´e uma vizinhan¸ca aberta de z(i) em Xi e, por hip´otese, que xδ(i) → z(i) em Xi. Ent˜ao, para cada i ∈ J, pode-se fixar um δi ∈ ∆ tal que, para todo δ > δi em ∆, xδ(i) ∈ Vi. Como o conjunto ∆J := {δi : i ∈ J} ´e um subconjunto finito de ∆, pode-se ent˜ao fixar uma cota superior δJ em ∆ para ∆J. Logo, para todo i ∈ J e todo δ > δJ em ∆, xδ(i) ∈ Vi. Al´em disso, ´e ´obvio que, para todo i ∈ I \ J e todo δ ∈ ∆, xδ(i) ∈ Vi. Consequentemente, para todo δ > δJ em ∆, xδ ∈ V . Portanto, como V foi
tomada qualquer, conclui-se que xδ → z em Y .
Mesmo com enunciado e prova muito simples, o resultado a seguir ´e de relevante importˆancia para se estabelecer a equivalˆencia entre TTcf e BPI. Este resultado – devido a Alexey Muranov (cf. [Sch06, Se¸c˜ao 3, p. 287]) – est´a enunciado no seguinte
Lema 3.3.6 ([Sch06], ZF). Dados um conjunto X e uma ultrarrede hxδiδ∈∆ em X,
em X ou hxδiδ∈∆ ´e residualmente constante. Demonstra¸c˜ao:
Suponha que X esteja munido da topologia cofinita. Admita que exista um ponto z ∈ X tal que hxδiδ∈∆ n˜ao convirja para z. Ent˜ao, existe uma vizinhan¸ca aberta V de z em X para a qual n˜ao ´e verdade que xδ ∈ V residualmente. Como hxδiδ∈∆ ´e uma ultrarrede em X, tem-se que xδ ∈ X \ V residualmente. Tem-se tamb´em que X \ V ´e finito, j´a que V ´e um aberto n˜ao vazio da topologia cofinita sobre X. Portanto, segue do
Lema 3.3.3 que hxδiδ∈∆ ´e residualmente constante.
Teorema 3.3.7 ([Sch06], ZF). U implica TTcf. Demonstra¸c˜ao:
Seja F uma fam´ılia qualquer de espa¸cos compactos cuja topologia ´e a cofinita. Fixe ent˜ao uma indexa¸c˜ao {Xi : i ∈ I} de F por algum conjunto I. Com isso, considere o espa¸co-produto Y =Y
i∈I
Xi. Se for Y = ∅, ent˜ao Y ´e compacto, pois a ´unica topologia sobre ∅ ´e o conjunto {∅}. Se for I = ∅, ent˜ao Y = {∅}, que tamb´em ´e compacto, j´a que a ´unica topologia sobre {∅} ´e o conjunto {∅, {∅}}. Logo, podemos supor que Y e I s˜ao ambos n˜ao vazios. Fixe ent˜ao um z ∈ Y . Agora, tome uma ultrarrede qualquer hxδiδ∈∆ em Y . Pelo Lema 3.3.4, tem-se que, para todo i ∈ I, hxδ(i)iδ∈∆ ´e uma ultrarrede em Xi. Ent˜ao, segue do Lema 3.3.6 que, para todo i ∈ I, hxδ(i)iδ∈∆converge para qualquer ponto em Xi ou ´e residualmente constante. Com isso, pode-se definir ζ : I −→
[
i∈I
Xi pondo
ζ(i) := (
z(i) , se hxδ(i)iδ∈∆ convergir para qualquer ponto em Xi; ci, se hxδ(i)iδ∈∆ for residualmente constante de valor ci.
Pela constru¸c˜ao, tem-se claramente que ζ est´a bem definida e que, para todo i ∈ I, xδ(i) → ζ(i) em Xi. Assim, pelo Lema 3.3.5, conclui-se que xδ → ζ. Como hxδiδ∈∆ foi tomada qualquer, tem-se que toda ultrarrede em Y converge para algum ponto em Y . Ent˜ao, supondo-se que o princ´ıpio U valha, pode-se concluir que Y ´e compacto. Portanto,
segue que U implica TTcf.
Finalmente, em virtude do Teorema 3.3.7 e das implica¸c˜oes em (*), podemos encerrar a presente se¸c˜ao com seu principal resultado, o qual se encontra enunciado no seguinte
Espa¸cos (pseudo)m´etricos e
topol´ogicos em ZF
No presente cap´ıtulo, iremos apresentar alguns “horrores” da An´alise Real e da Topologia da Reta no modelo b´asico de Cohen, dez condi¸c˜oes sob as quais N ´e Lindel¨of e alguns resultados sobre: espa¸cos (pseudo)m´etricos e topol´ogicos na ausˆencia de ACω, espa¸cos topol´ogicos SE e SSE na ausˆencia de ACω(R). Al´em disso, apresentaremos alguns resultados resultados de consistˆencia relacionados, por exemplo, `a paracompacidade de ω1 e sobre a n˜ao metrizabilidade de ω1 em ZF.
4.1
Sobre o modelo b´asico de Cohen
No in´ıcio dos anos de 1960, Paul J. Cohen revolucionou a Teoria dos Conjuntos ao criar o m´etodo de “forcing”, que ´e hoje largamente empregado em provas de consistˆencia e de independˆencia. Este m´etodo foi introduzido por Cohen exatamente para provar que a nega¸c˜ao de AC e de CH (a Hip´otese do Cont´ınuo, a qual declara que: “2ℵ0 = ℵ
1”) s˜ao asser¸c˜oes consistentes, respectivamente, com ZF e com ZFC. Com rela¸c˜ao `a nega¸c˜ao de AC, Cohen utilizou o seu m´etodo de “forcing” para construir um modelo de ZF no qual AC ´e falso. Este modelo, denotado a partir de agora por M1, ´e comumente chamado na literatura matem´atica de o “modelo b´asico de Cohen”. Trabalhando em M1, Cohen obteve um resultado que veio a se tornar o primeiro de uma sucess˜ao de “horrores” da An´alise Real e da Topologia da Reta na ausˆencia de AC. Este resultado – de enunciado muito simples, mas de consequˆencias “desastrosas” – est´a expresso no seguinte
Fato 4.1.1. Em M1, existe um subconjunto infinito de R que ´e Dedekind-finito. Fixando ent˜ao um tal subconjunto infinito de R e denotando-o por C, segue imediatamente da Proposi¸c˜ao 1.1.19 que, em M1, todo subconjunto infinito de C ´e n˜ao
enumer´avel (em particular, tem-se que C ´e n˜ao enumer´avel). Mais que isso: em virtude do Teorema 2.2.1, conclui-se do Fato 4.1.1 que ACω ´e falso em M1. Logo, AC ´e, de fato, falso em M1.
Para continuar com o “circo de horrores” no modelo de Cohen, iremos provar alguns fatos que s˜ao consequˆencias do Fato 4.1.1 – muitos deles t˜ao “chocantes” quanto este ´ultimo. S˜ao eles:
Fato 4.1.2. Em M1, R n˜ao pode ser bem ordenado. Prova:
Suponha, por absurdo, que exista uma boa ordem sobre R em M1. Denotando por 6 uma tal boa ordem, tem-se ent˜ao que C est´a bem ordenado por 6. Logo, existe um ´unico isomorfismo de ordem f : C −→ t. o. (C, <). Como C ´e infinito, segue que ω 6 t. o. (C, <), i.e., que ω ⊆ t. o. (C, <). Ent˜ao, por ser f bijetora, tem-se claramente que f−1[ω] ⊆ C ´e equipotente a ω e, por conseguinte, que C possui um subconjunto infinito enumer´avel, uma contradi¸c˜ao. Portanto, tem-se que, em M1, R n˜ao pode ser
bem ordenado.
Fato 4.1.3. Em M1, existem um ponto x ∈ R e um A ⊆ R tais que x ∈ A, mas toda
sequˆencia em A n˜ao converge para x.
Prova:
Iniciamente, afirmamos que:
(*) dado um X ⊆ R, se X for infinito e Dedekind-finito, ent˜ao existe um elemento de X que ´e ponto de acumula¸c˜ao de X.
Com efeito: suponha que X ⊂ R seja infinito e Dedekind-finito e admita que qualquer elemento de X seja ponto isolado. Tome a base enumer´avel B = {]a, b[ : a, b ∈ Q e a < b} de R. Note que B ´e infinita, pois, obviamente, o conjunto {]n, n + 1[ : n < ω} ⊂ B ´e infinito. Sendo assim, pode-se fixar uma enumera¸c˜ao {In : n < ω} de B. Como B ´e uma base de R e cada ponto em X ´e suposto isolado, tem-se ent˜ao que, para todo x ∈ X, existe um k < ω tal que Ik ∩ X = {x}. Defina ent˜ao φ : X −→ ω pondo φ(x) := min {k ∈ ω : Ik∩ X = {x}}. Pela constru¸c˜ao, ´e claro que φ est´a bem definida e que ´e injetora, i.e., que X ω. Disso, segue que X ´e enumer´avel (pela Proposi¸c˜ao 1.1.14). Consequentemente, teremos que X ´e um subconjunto infinito enumer´avel de si pr´oprio, contradizendo a Proposi¸c˜ao 1.1.19.
Ent˜ao, pode-se fixar um x0 ∈ C que ´e ponto de acumula¸c˜ao de C. Agora, considere o conjunto A0 := C \ {x0}. Como C ´e Dedekind-finito, ent˜ao A0 tamb´em ´e
Dedekind-finito (pelo Corol´ario 1.1.20). Assim, tem-se que toda sequˆencia em A0 assume um n´umero finito de valores, pois: dado um conjunto Dedekind-finito X, se existisse uma sequˆencia s em X assumindo um n´umero infinito de valores, ent˜ao im(s) seria um subconjunto infinito enumer´avel de X, uma contradi¸c˜ao. Ent˜ao, toda sequˆencia em A0 que converge ´e quase constante. Disso, segue que toda sequˆencia em A0 n˜ao converge para x0, j´a que x0 6∈ A0. Portanto, basta tomar x = x0 e A = A0 para concluir que, em M1, existem um ponto x ∈ R e um A ⊆ R tais que x ∈ A, mas toda sequˆencia em A n˜ao
converge para x.
Fato 4.1.4. Em M1, existe um A ⊆ R tal que toda sequˆencia em A possui uma
subsequˆencia convergente, mas A n˜ao ´e fechado nem limitado em R.
Prova:
Considere o ponto x0 ∈ C que ´e obtido na prova do Fato 4.1.3, juntamente com o conjunto A0 = C \ {x0}. ´E evidente que x0 6∈ A0. Al´em disso, tem-se que x0 ´e um ponto de acumula¸c˜ao de A0, j´a que ´e um ponto de acumula¸c˜ao de C. Logo, x0 ∈ A0 \ A0 e, por conseguinte, A0 n˜ao ´e fechado em R. Agora, note que toda sequˆencia em A0 possui uma subsequˆencia constante (logo convergente), visto que toda sequˆencia em A0 assume um n´umero finito de valores. Se A0 for ilimitado em R, nada mais a fazer. Se A0 for limitado em R, h´a dois casos a considerar: caso x0 seja um ponto de acumula¸c˜ao de A0 `a esquerda, considere f : ]x0− 1, x0[ −→ R definida por f (x) = tan
π
2 (2x − 2x0+ 1)
. Claramente, tem-se que f est´a bem definida e que ´e estritamente crescente. Al´em disso, vˆe-se facilmente que f ´e um homeomorfismo.
Afirmamos que o conjunto B := fA0∩ ]x0− 1, x0[ ´e infinito e Dedekind-finito. Com efeito: j´a que x0 ´e um ponto de acumula¸c˜ao de A0 `a esquerda, tem-se ent˜ao que o conjunto A0 ∩ ]x0− 1, x0[ ´e infinito. Disso, e de f ser injetora, segue que B ´e infinito. Suponha, por absurdo, que B seja Dedekind-infinito. Sendo assim, existe um conjunto B0 que ´e subconjunto infinito enumer´avel de B (pela Proposi¸c˜ao 1.1.19). Como f ´e uma bije¸c˜ao, tem-se que o conjunto f−1[B
0] ⊆ A0 ∩ ]x0− 1, x0[ ´e infinito enumer´avel. Ora, j´a que A0 ´e Dedekind-finito, ent˜ao A0∩ ]x0− 1, x0[ tamb´em ´e Dedekind-finito (pelo Corol´ario 1.1.20). Consequentemente, teremos um conjunto Dedekind-finito que possui um subconjunto infinito enumer´avel, contradizendo a Proposi¸c˜ao 1.1.19. Afirmamos agora que B ´e ilimitado em R. De fato: tome um c ∈ R arbitr´ario. J´a que f ´e sobrejetora, ent˜ao existe um b ∈ ]x0− 1, x0[ tal que c = f (b). Como x0 ´e um ponto de acumula¸c˜ao de A0 `a esquerda, tem-se que A0 ∩ ]b, x0[ 6= ∅. Fixe ent˜ao um a0 ∈ A0 ∩ ]b, x0[. Assim, tem-se que a0 ∈ A0 ∩ ]x0− 1, x0[ e que b < a0. Como f ´e estritamente crescente, segue que f (b) < f (a0), i.e., que c < f (a0). Logo, existe um y ∈ B tal que c < y. Ent˜ao, j´a que c ∈ R foi tomado arbitr´ario, conclui-se que B ´e ilimitado superiormente.
Agora, j´a que A0∩ ]x0− 1, x0[ ´e infinito e Dedekind-finito, pode-se fixar, por (*), um z0 ∈ A0 ∩ ]x0− 1, x0[ que ´e um ponto de acumula¸c˜ao deste conjunto em R e, por conseguinte, em ]x0− 1, x0[. Como f ´e cont´ınua e injetora, segue da Proposi¸c˜ao 1.2.21 que f (z0) ∈ B ´e um ponto de acumula¸c˜ao de B. Tome ent˜ao o conjunto A1 := B \{f (z0)}. Ora, ´e claro que B = A1∪ {f (z0)}. Assim, tem-se que A1 ´e ilimitado em R, j´a que o ´e B. Al´em disso, com os mesmos argumentos dados para A0, conclui-se que A1 n˜ao ´e fechado em R e que toda sequˆencia em A1 possui uma subsequˆencia convergente.
Finalmente, caso x0 seja um ponto de acumula¸c˜ao de A0 `a direita, considere g : ]x0, x0 + 1[ −→ R definida por g(x) = tan
π
2(2x − 2x0 − 1)
. Tal como f , tem-se claramente que g est´a bem definida e que ´e estritamente, al´em de ser um homeomorfismo. Ent˜ao, com argumentos an´alogos aos que foram dados para f , obt´em-se um conjunto A1 que satisfaz o que ´e desejado. Portanto, basta tomar A = A0, se A0 for ilimitado em R, ou A = A1, se for o contr´ario, para concluir que, em M1, existe um A ⊆ R tal que toda sequˆencia em A possui uma subsequˆencia convergente, mas A n˜ao ´e fechado nem limitado
em R.
Fato 4.1.5. Em M1, existem um ponto x ∈ R e uma fun¸c˜ao f : R −→ R tais que f ´e
sequencialmente cont´ınua em x, mas f n˜ao ´e cont´ınua em x.
Prova:
Novamente, considere o ponto x0 ∈ C que ´e obtido na prova do Fato 4.1.3, juntamente com o conjunto A0 = C \ {x0}. Seja ent˜ao χ : R −→ R a fun¸c˜ao-caracter´ıstica de A0, i.e., a fun¸c˜ao tal que, para todo x ∈ R,
χ(x) := (
1 , se x ∈ A0; 0 , se x 6∈ A0.
Afirmamos que χ n˜ao ´e cont´ınua em x0. Com efeito: j´a que x0 ∈ A0 e, para todo δ > 0, ]x0− δ, x0+ δ[ ´e uma vizinhan¸ca aberta de x0 em R, segue ent˜ao que existe um x ∈ ]x0− δ, x0+ δ[ ∩ A0. Al´em disso, tem-se que x0 6∈ A0. Logo, fixando um ε > 0 tal que ε 6 1, conclui-se que, para todo δ > 0, existe um x ∈ A0 de forma que |x − x0| < δ e |χ(x) − χ(x0)| = |1 − 0| = 1 > ε.1
Agora, tomando uma sequˆencia qualquer hxnin>1 em R que converge para x0, considere o conjunto M := {n ∈ ω \ 1 : xn∈ A}. Note que M ´e finito, pois: se M fosse infinito, ir´ıamos concluir que existe uma sequˆencia em A0 convergindo para x0 (pelo 1Cabe aqui destacar que, em ZF, prova-se facilmente o seguinte fato mais geral: “dados espa¸cos
topol´ogicos X e Y , uma fun¸c˜ao f : X −→ Y e um ponto x0 ∈ X, se Y for T1 e existir um ponto
z∈ Y \ {f (x0)} que pertence a imagem por f de qualquer vizinhan¸ca aberta de x0 em X, ent˜ao f n˜ao ´e
Teorema 2.1.6), contradizendo o fato de que toda sequˆencia em A0 n˜ao converge para x0. Logo, se for M = ∅, teremos que, para todo n ∈ ω \ 1, xn 6∈ A0. Se for M 6= ∅, ent˜ao M ter´a elemento m´aximo. Com isso, tome
k (M ) := (
0 , se M = ∅; max (M ) , se M 6= ∅.
Pela constru¸c˜ao, ´e claro que k (M ) est´a bem definido. Al´em disso, ´e f´acil ver que, para todo natural n > k (M ), xn 6∈ A0. Ent˜ao, para todo natural n > k (M ), χ(xn) = 0. Disso, ´e imediato concluir que, para toda vizinhan¸ca aberta V de 0 em R, o conjunto {n ∈ ω \ 1 : χ(xn) 6∈ V } ´e finito, i.e., que χ(xn) → 0. J´a que χ(x0) = 0, tem-se ent˜ao que χ(xn) → χ(x0). Como a sequˆencia s foi tomada qualquer, segue que χ ´e sequencialmente cont´ınua em x0. Portanto, basta tomar x = x0 e f = χ para concluir que, em M1, existem um ponto x ∈ R e uma fun¸c˜ao f : R −→ R tais que f ´e sequencialmente cont´ınua
em x, mas f n˜ao ´e cont´ınua em x.
Fato 4.1.6. Em M1, existe um espa¸co m´etrico que tem base enumer´avel, mas n˜ao ´e
separ´avel.
Prova:
Considere, em M1, o conjunto C munido da topologia de subespa¸co de R. Tome a base enumer´avel B = {]a, b[ : a, b ∈ Q e a < b} de R. Assim, tem-se que o conjunto BC := {C ∩ I : I ∈ B} ´e uma base de C e que ´e enumer´avel, pois est´a indexado por um conjunto enumer´avel (veja Proposi¸c˜ao 1.1.14). Al´em disso, note que C n˜ao possui subconjunto enumer´avel denso algum, pois: se existisse um tal subconjunto enumer´avel de C, este seria infinito (j´a que C ´e um subespa¸co infinito de R), uma contradi¸c˜ao. Portanto, tem-se que, em M1, C ´e um subespa¸co de R que tem base enumer´avel, mas
n˜ao ´e separ´avel.
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E interessante aqui observar que o Fato 4.1.6 implica a nega¸c˜ao do item (6) do Teorema 4.2.1 da se¸c˜ao a seguir. Como consequˆencia disso, tem-se que, em M1, o espa¸co m´etrico discreto enumer´avel N n˜ao ´e Lindel¨of. Contudo, N ´e separ´avel, pois, obviamente, ´e um subconjunto enumer´avel denso de si pr´oprio. Pelo Teorema 2.1.7, tem-se ent˜ao que Ntem base enumer´avel. Portanto, segue do Fato 4.1.6 o seguinte