IV. CASO DE ESTUDO: A PLANTAÇÃO DE EUCALIPTOS NO
5. Relevância do eucalipto para o concelho
A importância do setor da silvicultura no concelho de Torres Vedras teve especial importância naquela época pela necessidade de produção de lenhas para o caminho-de- ferro, especialmente durante a última grande guerra, pois o comércio destes materiais tinha um especial valor para esta região (IAeF, 1952:157).
O eucalipto era ainda importante fonte de matéria-prima para a serração, para uma destilaria de óleos essenciais de eucalipto, que nesta data funcionava no concelho, e ainda para suprir as necessidades de outros concelhos, como Leiria, na venda de material lenhoso. Esta dinâmica, existente na década de 50, permitiu o desenvolvimento
de outras atividades associadas e a criação de postos de trabalho no concelho de Torres Vedras e concelhos vizinhos.
Os dados de 1952 referem que este concelho produz cerca de 1000 toneladas média ano de madeira (pinheiro) e cerca de 6000 toneladas média ano de lenha (eucalipto). Tendo em consideração a percentagem total de área florestada no concelho em 1952, cerca de 13%, foi apontado um valor de referência de 1,5 toneladas por hectare e por ano. Nesta época a procura de material lenhoso é referida como sendo diminuta para a capacidade de produção dos povoamentos florestais. Apesar de nesta data a área de eucaliptal ser muito inferior à do pinheiro bravo, a primeira já ultrapassava largamente os valores de produção da segunda (pinheiro bravo), consequência da forma como os povoamentos eram explorados (IAeF, 1952:165).
Um eucaliptal, explorado no concelho de Torres Vedras na década de 1950, é referido como tendo os seguintes volumes de produção (para compasso 2 x 2):
Tabela 6 - Volumes de produção de eucalipto em 1952.
1º Corte - (7 a 8 anos) Lenha – 150 t/ ha Rama - 30 a 35 talhas / ha 2º Corte - (7 a 8 anos) Lenha – 120 a 130 t/ ha Rama - 35 a 40 talhas / ha
Corte aos 10 anos
Lenha 300 t/ ha Rama - 35 a 40 talhas / ha
Destilação de óleos essenciais de eucalipto32 E.globulus: 100 kg de rama 0,75 a 1,20 kg de óleo E.rostrata: 100 kg de rama 0,50 0,70 kg de óleo E.polvbractea 100 kg de rama 5 kg de óleo
Fonte: Inquérito Agrícola e Florestal - Concelho de Torres Vedras (1952).
32 Fábrica de Destilaria Lusa-Flora – Fabrica óleos essenciais de eucalipto; localiza-se na Freguesia do
A compra de eucaliptos em 1952 era feita por “árvore em pé” a 250$00/tonelada, sendo que para lenha este era vendida ao m³, cujo preço médio era de 80$00. (IAeF, 1952:171)
Tabela 7 - Distribuição de espécies florestais, concelho de Torres Vedras (2013).
Fonte: Gabinete Florestal Município de Torres Vedras, 200733.
33Disponível em: http://www.cm-
tvedras.pt/assets/upload/paginas/2013/04/22/29mapaocupacaosolotorresvedras/29mapaocupacaosolotorre svedras.jpg
Figura 22 - Mapa dos povoamentos florestais do concelho de Torres Vedras em 2007. Fonte: Gabinete Florestal Município de Torres Vedras, 200734.
De acordo com a entrevista realizada ao município de Torres Vedras foi indicado que as plantações de eucalipto, tal como as culturas agrícolas intensivas, são realizadas corretamente e tendo em consideração todos os aspetos ambientais. É referido ainda que um povoamento florestal de eucalipto, comparativamente com uma área de vinha ou de pomar é mais interessante do ponto de vista ambiental, pois apresenta maior biodiversidade e utiliza menos fitofármacos. Em termos de garantias de preservação da biodiversidade, uma plantação de carvalhos garante a coexistência de maior número de espécies do que uma plantação de eucaliptos, no entanto a primeira apresenta uma reduzida compensação financeira do seu investimento.
34Disponível em: http://www.cm-
tvedras.pt/assets/upload/paginas/2013/04/22/29mapaocupacaosolotorresvedras/29mapaocupacaosolotorre svedras.jpg
A floresta e o aparecimento de novas atividades
Desde o início da década de 90 do século XX que a exploração agrícola neste concelho vem sofrendo alterações. As estufas são uma opção comum usada para a prática da agricultura neste concelho.
Este facto tem-se tornado mais expressivo ao longo dos anos, sendo no entanto mais usual em locais onde tradicionalmente se localizam as estufas mais antigas (Tabela 8). Tabela 8 - Evolução da ocupação no concelho em 1995 e 2012.
Ocupação em 1995 Ocupação em 2012 Nº
Estufa Estufa 227
Agricultura s/ estufa Estufa 220
Estufa Agricultura 72 Floresta Estufa 42 Pecuária Pecuária 31 Floresta Pecuária 4 Outro Estufa 1 Agricultura Pecuária 1
Fonte: elaboração própria.
O aparecimento de novas estufas revela-se importante para esta investigação, devido ao facto de existirem proprietários no concelho, sobretudo jovens, que deixam de escolher a floresta, habitualmente de eucalipto, para optarem pela instalação de estufas associadas a práticas agrícolas. De acordo com a informação prestada pelo município de Torres Vedras, durante a entrevista realizada, estas estufas são usadas para agricultura, em especial para a produção de morangos. Para determinar o quão expressivo se tornou esta alteração, de floresta para estufas, foi feito um levantamento de todas as estufas existentes com recurso a ortofotomapas de 2012, por fotointerpretação.
É interessante analisar as alterações de uso do solo, nomeadamente, em áreas outrora com eucaliptos, pois conclui-se que atualmente tornaram-se áreas de produção agrícola com recurso a estufas. Este aspeto contrária de alguma forma a ideia de que o eucalipto é a única opção economicamente viável.
Este exercício originou três interessantes mapas apresentados na Figura 23, Figura 24 e Figura 25 que demonstram os locais onde tendencialmente as estufas estão localizadas e que tipo de mutações foi ocorrendo neste território. De facto as estufas merecem destaque neste trabalho, pois os locais onde estas se encontram foram outrora espaços florestais.
Figura 23 – Mapa das mutações registadas de 1995 para 2012. Fonte: elaboração própria.
Figura 24 - Mapa com as mutações registadas de 1995 para 2012. Fonte: elaboração própria.
Figura 25 - Mapa da densidade de estufas em 2012. Fonte: elaboração própria.
CONCLUSÃO
A floresta em Portugal é hoje uma fonte de receita importante para várias áreas de negócio. As políticas a este nível devem garantir a sustentabilidade e a preservação dos recursos bem como o desenvolvimento dos seus territórios.
A tomada de decisões e o desenvolvimento de políticas de proteção da floresta devem ser pensados de acordo com as especificidades do território e da população residente, a proteção dos recursos naturais, mas também com as questões económicas e sociais. Importa por isso perceber quem são os atores intervenientes e quais são as suas visões, projetos e expectativas para o território.
Do ponto vista económico, o grupo de produtos das pastas de celulose e papel tem uma representatividade considerável a nível nacional e internacional. As empresas ligadas às indústrias da cortiça, painéis/aglomerados, pasta de papel e mobiliário procuram a sua matéria-prima a nível interno. Este facto potencia a produção de espécies florestais diretamente pelos proprietários de prédios rústicos ou promovendo o seu arrendamento às empresas de celuloses ou ainda o estímulo do mercado imobiliário de propriedades rústicas. Estes fatores complementam-se e ajudam o setor, com especial enfoque na balança comercial, a promover mais desenvolvimento para os territórios florestados.
O novo RJAAR possibilita o conhecimento das intervenções a nível florestal e torna mais fácil a adoção de políticas mais incisivas e adequadas a nível económico tendo em consideração o território e as suas populações.
A aposta no RJAAR e futuramente na plataforma de submissão de candidaturas on-
line, do ICNF, vai simplificar os procedimentos administrativos relativos às ações de
arborização e rearborização de espécies florestais em território nacional, concedendo aos proprietários interessados maior facilidade na execução daquelas ações.
Os programas de apoio ao investimento florestal têm demonstrado resultados eficazes ao nível da sustentabilidade e diversidade de espécies na floresta portuguesa. Estes tipos de programas são sobretudo utilizados para arborizar com espécies que nos últimos anos têm vindo a perder protagonismo face ao reduzido interesse económico e imediato que têm para os proprietários, como é o caso do sobreiro, do pinheiro-manso
ou, ainda, da azinheira que, por isso, têm sido objeto de mais incentivos pelos programas de apoio à florestação. Mas, apesar destes factos, o eucalipto tem e continuará a ter um papel relevante para os rendimentos dos proprietários florestais e para a economia do país pois fornece matéria-prima indispensável à fileira da pasta de papel.
O novo sistema RJAAR permite monitorizar as ações de arborização e rearborização e em consequência tomar medidas restritivas no caso de forte progressão das manchas de eucalipto. Contudo, é preciso ter em consideração que Portugal ainda importa mais de 50% das madeiras utilizadas nas celuloses, sendo, do ponto de vista económico, favorável o aumento de produção. Todavia, a economia e o ambiente nem sempre têm interesses coincidentes. Mais do que proibir a plantação, importa gerir, de modo sustentável, a utilização do eucalipto, evitando as vastas extensões de monocultura com impactes negativos para as populações locais (escassez de postos de trabalho e despovoamento) e o ambiente (diminuição de biodiversidade, fertilidade dos solos, recursos hídricos e problemas de erosão). O Decreto-Lei n.º 96/2013 que veio simplificar os processos de licenciamento de povoamentos com recurso a espécies florestais é um instrumento legal, na sua generalidade positivo, mas que isoladamente não é suficiente para acautelar algumas questões ambientais.
A legislação aprovada facilita a gestão da floresta e pode ser complementada com medidas que favorecem o ambiente, como, por exemplo, a atual política de certificação florestal. Esta é definida como sendo um selo de segurança, para o mercado, indicativo que a exploração florestal é feita de forma sustentável e segundo as normas definidas internacionalmente pela FSC. A obtenção da certificação é necessária para promover o desenvolvimento de vegetação natural ao longo de corredores ecológicos que facilitam a conectividade entre territórios com resultados positivos a nível da biodiversidade e da ecologia e ambiente em geral (FSC, 2012). A certificação, valorizando a madeira, traz benefícios sociais, económicos e ambientais, contribuindo para a melhoria das condições de vida das populações.
A floresta deve ser planeada e estruturada tendo em conta os interesses ambientais e económicos do país, sem legitimar eventuais impactes ambientais criados. Às instituições públicas nacionais compete a apresentação de propostas de Lei que defendam os interesses da floresta e os seus proprietários, para que, o interesse económico, não se sobreponha à preservação do ambiente. O pensamento de que
demasiada autoridade ou intromissão nas vontades e decisões de cada proprietário é um ataque à sua liberdade, parece ser um argumento que não se coaduna com a conservação de espécies, habitats, etc.., e que se distancia do objetivo primordial: a necessidade de uma gestão florestal cooperativa. Do mesmo modo que existem restrições à liberdade de cada um realizar ações estruturantes no seu prédio urbano e de haver áreas non-
aedificandi, devem também existir áreas de especial interesse tais como os corredores
ecológicos que garantem a manutenção da fauna e flora locais, a existência de diferentes espécies florestais e áreas de contenção que protejam a floresta contra os incêndios. O desenvolvimento de um planeamento regional para a floresta pressupõe que os proprietários estejam predispostos a trabalhar conjuntamente para que a floresta seja composta por diferentes espécies, e que, em simultâneo, seja possível ajustar os interesses ambientais com os interesses económicos.
Neste sentido, a legislação tendente a simplificar os processos de licenciamento relativos à arborização e rearborização sem acautelar as questões da diversidade de espécies e a proteção da floresta contra os fogos florestais, rapidamente pode deixar de ser uma medida positiva para se tornar num mecanismo de desordenamento da floresta portuguesa. Merece ainda destaque, pela negativa, a introdução de um mecanismo de aprovação automática sem restrições e controlo, como é a aprovação tácita. Urge, por isso, fazer proposta concretas e complementares ao atual diploma que regulamenta o setor.
Existem ainda questões que, por estarem pouco esclarecidas, podem gerar fortes constrangimentos à floresta e aos seus proprietários. Destacamos o caso da titularidade dos prédios rústicos, consubstanciadas na incapacidade de organização coletiva dos seus titulares, através das zonas de intervenção florestal (ZIF).
A problemática da estrutura da exploração silvícola e da titularidade da propriedade parece ser o aspeto que mais tem servido de controlo ao aumento da espécie eucalipto em Portugal. Acreditamos que a recente Lei n.º 152/2015 de 14 de setembro, que estabelece no direito português o processo de reconhecimento da situação de prédio rústico e misto sem dono conhecido, (que não esteja a ser utilizado para fins agrícolas, florestais ou silvo pastoris) venha introduzir algum encorajamento para que no futuro os prédios rústicos possam estar geograficamente delimitados e registados. Atualmente as manchas de eucalipto são superiores às áreas com aptidão para a espécie o que é demonstrativo da grande preferência que esta tem no território nacional. A solução para
a cultura do eucalipto não passa apenas pelo aumento da área, mas sim pelo aumento do volume de produção por hectare através de uma gestão eficaz da área de exploração florestal. Tal como referido pelo Prof. Eugénio Sequeira, durante a entrevista realizada: “O mal não está em fazer esta cultura ou aquela está em fazer mal ou bem”.
Os decisores públicos diretamente ligados à elaboração de legislação para a floresta devem aceitar a participação ativa de todos os atores, num processo de governança.
Apesar dos condicionalismos encontrados ao longo da investigação, houve a preocupação de disponibilizar um conjunto de dados científicos importantes para o debate do futuro da floresta em Portugal.
A complexidade da problemática aqui apresentada mostra a necessidade de dar continuidade a esta investigação não excluindo novas abordagens ao tema em grau académico superior.
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