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Religiões no Brasil

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I- AUSÊNCIA DO DIÁLOGO: O ENSINO RELIGIOSO NO BRASIL NO

2.1. Mapa religioso brasileiro

2.1.2. Religiões no Brasil

As religiões indígenas, o catolicismo português e as religiões trazidas pelos negros, matrizes da religiosidade brasileira, misturando-se entre si e com outras religiões que chegaram posteriormente formam o quadro plural das religiões no Brasil. A mistura de religiões no Brasil, como já vimos, se dá desde a colonização no encontro do catolicismo com as religiões indígenas, em seguida com a chegada dos africanos e suas diversas religiões. Outras religiões contribuíram significativamente para essa pluralidade como a chegada de imigrantes e missionários europeus e norte-americanos trazendo o protestantismo e o pentecostalismo. Não podemos esquecer das religiões trazidas por grupos étnicos minoritários a partir de meados do século XIX, como o judaísmo e o islamismo. Encontram-se também as religiões orientais como budismo, xintoísmo, confucionismos, taoísmo e outras confissões trazidas da Ásia com os japoneses, chineses e coreanos como seicho-no-Iê, igrejas messiânicas, hare krishna. O confucionismo, o taoísmo e o xintoísmo são praticados, nos dias de hoje, majoritariamente por famílias japonesas ou chinesas (USARSKI, 2013, p. 260).

Outra religião muito difundida no Brasil é o espiritismo kardecista. O kardecismo chegou ao Brasil no fim do século XIX. Vindo da Europa e fundada por Allan Kardec, sua intenção é a comunicação com os espíritos “superiores”. Para eles os espíritos superiores ajudam os seres humanos a trilharem um caminho de luz. Por esse motivo os kardecistas são considerados como espíritas de “mesa branca”. Consideram-se diferentes de outros espiritismos, como os de origem afros, por exemplo, pois entendem que os espíritos superiores servem para ajudar os seres humanos, enquanto os espíritos da religião afros são advindos dos orixás, portanto, consideram-nos como espíritos inferiores. Os praticantes das religiões afro não aceitam essa conotação negativa pela qual são submetidos (BRANDÃO, 2004, p. 266).

Apesar do esforço da Igreja Católica para se manter como a única religião reconhecida pelo império, mesmo que popularmente existissem em abundância a práticas das religiões indígenas e africanas, o quadro religioso começou a passar por um processo de mudança com a chegada dos imigrantes protestantes em meados do século XIX. Nesse período ganhavam muita força no Brasil ideais de liberdade inspirados na Revolução Francesa, o pensamento liberal de influência positivista e o desejo de modernização da sociedade. O protestantismo de missão, que tinha um discurso politicamente liberal, encontrou no país um terreno fértil para sua ação. A abertura ao protestantismo e, posteriormente, a vinda de imigrantes europeus e asiáticos, possibilitou a diversificação do campo religioso brasileiro. A Igreja Católica passou a conviver com outras maneiras de entender o cristianismo. Com a proclamação da República teve início o processo de separação entre igreja e Estado, quando a Igreja Católica deixou de ser a religião oficial.

O ingresso das igrejas protestantes históricas acentuou a diversidade presente no campo religioso brasileiro e, ao mesmo tempo, atingiu diretamente a Igreja Católica romana na medida em que igrejas cristãs agora passaram a dividir com ela o campo cristão. A diversidade religiosa assim, ganha novos contornos porque insere no interior do cristianismo brasileiro, até então de hegemonia católica. A partir desse momento, a Igreja Católica romana vai perdendo a supremacia no campo religioso brasileiro e a sua capacidade de manter a coesão social (SANCHEZ, 2005, p. 122).

O termo "protestante" ou “evangélico” foi utilizado para especificar as religiões cristãs que tiveram sua origem ou algum vínculo com os princípios da Reforma Protestante Europeia, ou as igrejas cristãs não católicas, com ressalva à Igreja Anglicana, que apesar de estar ligada à Reforma, não se identifica com o termo evangélica. Antônio Gouvêa Mendonça, afirma:

Protestantes seriam aquelas igrejas que se originaram da Reforma ou que, embora surgidas posteriormente, guardam os princípios gerais do movimento. Essas igrejas compõem a grande família da Reforma: luteranas, presbiterianas, metodistas, congregacionais e batistas. Estas últimas, as batistas, também resistem ao conceito de protestantes por razões de ordem histórica, embora mantenham os princípios da Reforma (MENDONÇA, 2005, p. 51).

Ao chegar ao Brasil o protestantismo não contribuiu para a valorização da religiosidade local, pelo contrário, sua posição foi a de atacar as religiões aqui encontradas. Rejeitaram o cristianismo da igreja católica por aceitarem, em parte, ou se misturarem com o “paganismo” advindos de outras religiões. Segundo Bittencourt Filho, os protestantes que vieram dos Estados Unidos tinham em mente que o povo brasileiro necessitava do cristianismo de fato, o qual pertencia somente à cultura norte-americana, cabendo então aos americanos o papel de propagar a civilização cristã, a qual Deus os designava (BITTENCOURT FILHO, 2004, p. 88). Pensamento parecido tinham os missionários católicos que chegaram ao continente

no período da colonização, porém, deixaram-se influenciar e misturar por outras culturas religiosas.

O protestantismo missionário chega ao Brasil com uma proposta religiosa importada assim como o catolicismo, mas, diferentemente deste, não logrou deitar raízes na cultura (deixando assim de integrar a Matriz Religiosa Brasileira) em virtude de sua atitude de rejeição das peculiaridades culturais brasileiras, tida na conta de pagãs (BITTENCOURT FILHO, 2004, p. 89).

Essa rejeição à religiosidade brasileira, os impasses da cultura importada norte-americana e algumas rejeições doutrinárias protestantes causaram algumas divisões abrindo espaço ao pentecostalismo e neo-pentecostalismo, ao qual, também rejeitam as práticas da religiosidade católica, espíritas, afros e indígenas, mas adaptaram-se com mais facilidade e tiveram maior receptividade à cultura brasileira, por aderir traços dessa religiosidade.

O pentecostalismo teve uma expansão acelerada no Brasil. A sua instalação deu-se a partir das Congregação Cristã do Brasil e Assembleia de Deus. Seu crescimento está associado a vários motivos, entre eles a boa identificação com a cultura brasileira, linguagem simples utilizada na pregação e no ensino das doutrinas, a valorização da ação dos leigos, inserção inicial entre as camadas mais pobres da sociedade. Um fato que ajudou na expansão do pentecostalismo foi a crise econômica na indústria de extração e importação de borracha. Trabalhadores nordestinos que foram trabalhar nos seringais do norte e converteram ao pentecostalismo e, desempregados, voltaram para sua região fundando novas igrejas (SIEPIERSKI, 2002, p. 575-578).

O pentecostalismo também ajudou a diversificar o campo religioso brasileiro, pois, apesar de seu caráter proselitista e fundamentalista, intensificou o direito à liberdade religiosa e a reivindicação de seu espaço. O caráter proselitista do pentecostalismo fecha muitas possibilidades de diálogo com outras religiões, principalmente as religiões afro, espiritismos e a própria Igreja Católica.

Entre as demais religiões que se destacam no Brasil não podemos esquecer das Igrejas cristãs ortodoxas trazidas principalmente por imigrantes gregos, russos e de outras nacionalidades da Europa oriental. Encontram-se também as religiões com vertentes cristãs que não se consideram evangélicas mas também não pertencem ao catolicismo como testemunhas de Jeová e mórmons (BRANDÃO, 2004, p. 268). Há também novas religiões de vertentes indígenas, surgidas nas periferias das cidades, como Santo Daime e União do Vegetal, com a utilização de plantas como componente religioso (PISSOLATO, 2013, p. 246).

Carlos Alberto Steil, em seu texto Oferta simbólica e mercado religioso na sociedade global, afirma que o contexto religioso pluralista da sociedade contemporânea, abre espaços para novas perspectivas da religiosidade, dando lugar a uma cultura cada vez mais tolerante, onde as grandes instituições religiosas vão perdendo espaços e o controle sobre o simbolismo religioso absoluto. Essa abertura para a diversidade tende a criar o que ele denomina "comunidades e famílias plurirreligiosas" (STEIL, 2008, p. 7).

Diante dessa nova realidade, Steil afirma que há duas possibilidades que podem ocorrer para as religiões se afirmarem. A primeira está embasada no exclusivismo religioso, ou seja, a negação de qualquer possibilidade de contato ou aceitação com outras maneiras de viver a religião, mantendo os adeptos em um círculo fechado e restrito. A segunda possibilidade diz respeito à tolerância, que ele define como a abertura a novas manifestações religiosas, incorporando elementos de outras religiões e do mundo globalizado (STEIL, 2008, p. 8). Mesmo aceitando essas duas possibilidades apontadas por Steil, é importante lembrar que a incorporação de elementos de outras religiões não significa necessariamente tolerância. Algumas igrejas neopentecostais, por exemplo, incorporam em seus discursos e em suas liturgias elementos do candomblé e da umbanda, no entanto, as demoniza.

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