VII – INDIVIDUALIZAÇÃO E ENQUADRAMENTO LEGAL DAS CONDUTAS.
VII. 1 – PAULO ROBERTO COSTA:
VII.3. RENATO DE SOUZA DUQUE
Conforme já descrito acima, RENATO DE SOUZA DUQUE aceitou e recebeu promessas de pagamento de vantagens indevidas pelas empresas contratadas pela Petrobras, tendo sido fundamental para a consecução dos atos ímprobos sua qualidade de Diretor de Serviços da PETROBRAS S/A no período compreendido entre os anos de 2003 e 2012, pois, nessa condição, zelou pelos interesses das empresas cartelizadas em procedimentos licitatórios e contratos no âmbito desta Estatal.
Segundo restou demonstrado, o pagamento de vantagem indevida em favor de RENATO DUQUE ocorreu em inúmeros contratos celebrados com a Diretoria de Serviços, tendo sido paga pelas empresas do Grupo Odebrecht, a título de propina, a quantia equivalente a 2% sobre o valor da contração.
Conforme narrado pelos colaboradores PEDRO BARUSCO e AUGUSTO RIBEIRO DE MENDONÇA NETO, o Diretor de Serviços da PETROBRAS, RENATO DUQUE, agia em defesa dos interesses das empreiteiras, recebendo, em troca, propina paga por tais empresas, incidentes sobre os valores dos contratos firmados entre as empreiteiras participantes do “CLUBE” e a PETROBRAS.
O elemento doloso das condutas ímprobas resta demonstrado a partir das declarações prestadas por PEDRO BARUSCO408, AUGUSTO RIBEIRO DE MENDONÇA409 e pelas transferências realizadas pelas empresas em favor de RENATO DUQUE.
Na medida em que comprovado que a solicitação de propina no âmbito da Diretoria de Serviços ocorria com anuência e ordem de RENATO DUQUE, sendo que, no momento do recebimento da vantagem, era RENATO DUQUE quem auferia a maior parte do valor da propina paga410, não resta dúvida do elemento doloso na conduta de RENATO DUQUE.
408No Termo de Colaboração nº 02, PEDRO JOSÉ BARUSCO revelou, dentre outros fatos,: “QUE durante o período em que trabalhou com RENATO DE SOUZA DUQUE, principalmente as empresas do chamado 'cartel' pagavam propina e o declarante gerenciava o pagamento de tais propinas também em favor de RENATO DUQUE; QUE dentre as empresas do 'cartel'o declarante cita a título exemplificativo a CAMARGO CORREA, a ANDRADE GUTIERREZ, a ODEBRECHT, a OAS, a QUEIROZ GALVÃO, a ENGEVIX, a IESA, a MENDES JUNIOR, a MPE, a SETAL, a SKANSKA, a UTC, a PROMON e a GALVÃO ENGENHARIA; QUE essas empresas comporiam o 'núcleo duro', sendo que havia outras também que eventualmente pagaram propina em contratos firmados com a PETROBRAS (...) QUE nestes processos que envolveram a contratação dos consórcios para obras da RNEST, o declarante entende que houve a atuação do cartel de empresas (…) QUE o pagamento da propina se dava em diversos contratos firmados com a PETROBRAS; QUE organizava isso mediante uma contabilidade, sendo que parte se destinava a RENATO DUQUE, ao declarante e, excepcionalmente, a JORGE LUIZ ZELADA; QUE ao longo dos anos de 2005 a 2010, aproximadamente, o declarante e RENATO DUQUE receberam propinas em mais de 60 (sessenta) contratos firmados entre empresas ou consórcios de empresas e a PETROBRAS; QUE o declarante afirma que quase tudo o que recebeu indevidamente a título de propina está devolvendo, em torno de US$ 97 milhões de dólares (…) QUE na divisão da propina entre o declarante e RENATO DUQUE, no entanto, EM REGRA duque ficava com a maior parte, isto é, 60% , e o declarante com 40%, no entanto, quando havia a participação de um operador, RENATO DUQUE ficava com 40%, o declarante com 30% e o operador com 30%; QUE RENATO DUQUE recebia parte de sua propina por intermédio do declarante ou outras pessoas que não sabe declinar os nomes
409No Termo de Colaboração nº 01, AUGUSTO RIBEIRO DE MENDONÇA NETO asseverou que: “o 'CLUBE' ESTABELECEU UMA RELAÇÃO COM O Diretor de Engenharia da PETROBRAS, RENATO DUQUE, para que as empresas convidadas para cada certame fossem as indicadas pelo 'CLUBE', de maneira que o resultado pudesse ser mais efetivo (…) QUE o 'CLUBE' tinha um articulador e coordenador, que na verdade era quem organizava as reuniões e fazia o contato com RENATO DUQUE, para estabelecer quem seriam os convidados para cada licitação (…) QUE o papel de coordenador, que sempre foi desempenhado por RICARDO PESSOA ao longo do funcionamento do 'CLUBE' era o de organizar as reuniões, era ele quem convocava os reuniões, entregava as listas para RENATO DUQUE e estabelecia contato direto com ele(…) QUE indagado sobre como se sustentava este esquema criminoso no âmbito da PETROBRAS, se havia pagamento de propinas, afirma que existia 'um acerto de comissões' entre as empresas do 'CLUBE' vencedoras das licitações da PETROBRAS, e os diretores PAULO ROBERTO COSTA e RENATO DUQUE(…) QUE existia mais ou menos uma idéia do percentual que os Diretores da PETROBRAS gostariam de receber por cada contrato, sendo que no caso do declarante era de 1% sobre o valor do contrato para a Diretoria de Abastecimento, de PAULO ROBERTO COSTA, e outros 2% para a Diretoria de Engenharia e Serviços, de RENATO DUQUE.
410
Conforme informado pelo próprio PEDRO BARUSCO em depoimento prestado no Acordo de Colaboração Premiada, a divisão da propina entre o ex-Gerente Executivo de Engenharia e o ex-Diretor de Serviços ocorria na proporção de 40% para PEDRO BARUSCO e os 60% restantes para RENATODUQUE. Entretanto, quando da utilização de serviços oferecidos por operadores para o recebimento dos
Consoante descrito acima, RENATO DUQUE recebeu vantagens indevidas correspondentes a 2% dos contratos de interesse da Diretoria de Serviços firmados pela PETROBRAS com as empresas do Grupo Odebrecht, no valor de ao menos R$ 297.642.592,33 (duzentos e noventa e sente milhões, seiscentos e quarenta e dois mil, quinhentos e noventa e dois reais e trinta e três centavos)
Em suma, o requerido RENATO DE SOUZA DUQUE praticou atos de improbidade administrativa que consubstanciam enriquecimento ilícito (art. 9º da Lei 8.429/92) porque:
a) recebeu vantagem indevida, para si e para terceiros411, decorrente do exercício de Diretor de Serviços da Petrobras, no valor de, ao menos R$ 297.642.592,33 (duzentos e noventa e sente milhões, seiscentos e quarenta e dois mil, quinhentos e noventa e dois reais e trinta e três centavos) (art. 9º, caput e inciso VII, da Lei 8.429/92)412;
b) recebeu tais vantagens do Grupo ODEBRECHT (CONSTRUTORA NORBERTO ODEBRECHT e ODEBRECHT PLANTAS INDUSTRIAIS E PARTICIPAÇÕES S.A), empresas que tinham interesse com ampla potencialidade de ser amparado por ações ou omissões suas (art. 9º, I, da Lei 8.429/92)413;
c) recebeu tais vantagens para omitir-se nos deveres que decorriam de seu ofício, sobretudo o dever de imediatamente informar irregularidades e adotar as providências cabíveis em
BARUSCO e 30% para o respectivo operador
411A locução do artigo 9º, inciso I da Lei 8.429/92 aponta que o enriquecimento ilícito ocorre quando a agente recebe a vantagem indevida, PARA SI OU PARA OUTREM.
412(Lei 8.429/92) “Art. 9° Constitui ato de improbidade administrativa importando enriquecimento ilícito auferir qualquer tipo de vantagem patrimonial indevida em razão do exercício de cargo, mandato, função, emprego ou atividade nas entidades mencionadas no art. 1° desta lei, e notadamente:
[…]
VII - adquirir, para si ou para outrem, no exercício de mandato, cargo, emprego ou função pública, bens de qualquer natureza cujo valor seja desproporcional à evolução do patrimônio ou à renda do agente público;
[...]”
413(Lei 8.429/92) “Art. 9° […]: […]
I - receber, para si ou para outrem, dinheiro, bem móvel ou imóvel, ou qualquer outra vantagem econômica, direta ou indireta, a título de comissão, percentagem, gratificação ou presente de quem tenha interesse, direto ou indireto, que possa ser atingido ou amparado por ação ou omissão decorrente das atribuições do agente público;
seu âmbito de atuação (art. 9º, X, da Lei 8.429/92)414.
As condutas do requerido em auferir vantagens indevidas também caracterizam, por consequência, atos de improbidade administrativa que acarretaram danos ao erário no valor de no mínimo R$ 297.642.592,33 (duzentos e noventa e sente milhões, seiscentos e quarenta e dois mil, quinhentos e noventa e dois reais e trinta e três centavos) (artigo 10 da Lei 8.429/92)415.
Também evidente que as condutas importaram em atos de improbidade por ofensa aos princípios administrativos (art. 11, Lei 8.429/92), notadamente os princípios da legalidade e da moralidade, e os deveres de honestidade, imparcialidade, legalidade e lealdade às instituições.
Destaque-se, nesse sentido, que RENATO DUQUE violou inúmeros princípios éticos do Sistema Petrobras constantes do Código de Ética da empresa, a que todos os funcionários da Petrobras estão sujeitos, quais sejam, o dever de honestidade, de integridade, de lealdade, de legalidade, de impessoalidade, de transparência, bem como se desviou da missão, da visão e dos valores instituídos explicitamente na estratégia corporativa da empresa (itens III, IV, V, VII do Código de Ética). Violou ainda o item 8.8 do referido Código de Ética referido, ao infringir o dever de “recusar quaisquer práticas de corrupção e propina”416.
Nestes termos, restando demonstrado que as condutas praticadas por RENATO DE SOUZA DUQUE se amoldam aos artigos 9º, 10 e 11 da Lei nº 8.429/92, afigura-se cabível a punição de RENATO DE SOUZA DUQUE pela prática de atos de improbidade.