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Universidade Federal de Santa Catarina, Centro Tecnológico, Programa de Pós-Graduação em

Arquitetura e Urbanismo.

Resumo

Essa pesquisa aborda questionamentos importante em relação ao aumento da segregação socioespacial, que é um dos fenômenos urbanos mais expressivos da atualidade. Os estudos que tratam desse fenômeno possuem grande complexidade teórica e metodológica, portanto, refletir sobre suas consequências a partir das interpretações espaciais do cotidiano significa enfrentar esses desafios no intuito de clarificar as dinâmicas socioespaciais. O intuito deste artigo é o de propor uma reflexão teórica sobre a noção e o tratamento do espaço em estudos que exploram e desvendam as consequências da segregação socioespacial, visto que esses estudos têm, via de regra, adotado descrições simplórias e/ou incompletas do espaço, considerando-o ora meros artifícios para agrupar quantidades, nos estudos quantitativos, ora como palco para o desenrolar de vidas e trajetórias, nas abordagens qualitativas.

Palavras-chave

Segregação Socioespacial, Espaço do Cotidiano, Consequências da Segregação Socioespacial. Abstract

This research addresses important questions regarding the increase in socio-spatial segregation, which is one of the most significant urban phenomena today. The studies that deal with this phenomenon have great theoretical and methodological complexity, so reflecting on their consequences from the spatial interpretations of daily life means confronting these challenges in order to clarify the socio-spatial dynamics. The purpose of this article is to propose a theoretical reflection on the notion and treatment of space in studies that explore and uncover the consequences of socio - spatial segregation, since these studies have, as a rule, adopted simple and / or incomplete descriptions of space, considering it to be mere artifice to group quantities, in quantitative studies, sometimes as a stage for the unfolding of lives and trajectories, in the qualitative approaches.

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Keywords

Socio-Spatial Segregation, Space of Daily Life, Consequences of Socio-Spatial Segregation.

Introdução

A segregação socioespacial, considerada como parte integrante e fundamental para compreensão da produção do espaço urbano (Vasconcelos, 2013; Carlos, 2017), tem sido objeto crescente de pesquisas de diversas áreas das ciências sociais. A relevância desse fenômeno, que se manifesta pela falta de acesso a serviços essenciais e políticas públicas (Camargo et al, 1976; Kowarick, 1979; Bichir, 2005), a partir do processo de formação das áreas periféricas(Santos & Bronstein, 1978; Santos, 1979), assim como pela concentração espacial de certos grupos sociais (Villaça, 2001; Marques & Torres; 2005), está longe de ser esgotada.

Ao abordar alguns conceitos e análises sobre segregação socioespacial, Negri (2008) comenta que alguns estudos priorizam os aspectos metodológicos enquanto outros se preocupam em medir a segregação nas cidades, outros se preocupam em identificar o grau de controle e de produção do espaço urbano pela classe dominante, e até as possíveis consequências desse fenômeno em famílias de baixa renda.

O estudo de Corrêa (2013), por exemplo, apresenta três modelos criados para ilustrar a segregação, indicando o modelo criado pelo geógrafo alemão J. G. Kohl em 1841, o modelo de E. W. Burgess, em 1925, e o de H. Hoyt, em 1939. No modelo de Kohl, a cidade era dividida entre a classe alta, que vivia no centro, e a classe mais baixa, que morava nas periferias. Seguindo caminho inverso de Kohl, no modelo concêntrico criado por Burgess as classes de rendas mais altas eram as que viviam em áreas periféricas, à procura de maior qualidade de vida e segurança. Em contrapartida, as classes mais pobres eram as que migraram para as áreas mais centrais. Já no modelo de Hoyt, contrariando o modelo de Burgess, a segregação ocorria ao longo de setores e não mais em zonas concêntricas. No entanto, o autor destaca que esses modelos, ilustrados na Figura 1, foram elaborados em momentos distintos.

Figura 1. Modelo espacial da teoria de Kohl, Burgess e Hoyt Cunha (2015) adaptado pelos autores

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Esses padrões, segundo Maria Inês Sugai (Sarmento & Cortizo, 2016), buscavam uma abordagem positivista, ao criar modelos teóricos de urbanização a partir da combinação de conceitos predeterminados com metódicas observações de campo. Seguindo a temática, mas contrariando o pensamento da Escola de Chicago, a partir da década de 1970, os estudos sobre segregação socioespacial passaram a ter inensa influência do pensamento marxista e os trabalhos de Jean Lojkine (1997), Manuel Castells (1983) e Henri Lefebvre (1991) são os pioneiros desse pensamento. As discussões desse fenômeno nesses estudos estavam nas causas da segregação e o modo como o espaço urbano era produzido, e não apenas nas formas espaciais que assumidas em determinado momento e lugar como algo comum e natural (Vieira & Melazzo, 2003; Negri, 2008).

Existem pesquisadores brasileiros que também contribuem com a abordagem e com o tratamento conceitual desse fenômeno. A exemplo de Villaça (2001, p. 142) analisou a segregação por uma vertente econômica, e fez uma associação entre classes sociais e moradia. Segundo o autor, a segregação é parte de um processo em que “... diferentes classes ou camadas sociais tendem a se concentrar cada vez mais em diferentes regiões ou conjuntos de bairros da metrópole”. No entanto, a distribuição das classes sociais no espaço admite a presença da classe mais alta na periferia e da classe mais baixa no centro, o que ele denomina de centro nas periferias e periferias no centro.

Outra referência importante no Brasil sobre essa temática, é o trabalho de Caldeira (2000) que estudou os enclaves fortificados e considera que o novo padrão de segregação socioespacial tem marcado as cidades brasileiras através da proximidade física e do distanciamento social, pois, mesmo em casos de proximidades geográficas, as adjacências não se traduzem em interação ou coesão social entre os diferentes grupos. É nesse sentido que se observa atualmente aspectos segregacionistas residenciais tanto da população de baixa renda, como da população das rendas mais altas, pois os enclaves fortificados em áreas periféricas inseriram novos conteúdos socioeconômicos que o entendimento tradicional de segregação socioespacial, estabelecida pela relação centro-periferia, já não traduz mais. Nesse sentido, Rosemback et al (2009) ilustram um contraponto ao padrão da segregação socioepacial centro versus periferia para o que os autores chamam de favela versus condomínios fechados, conforme ilustra a Figura 2.

Figura 2. Padrão de segregação socioespacial centro versus periferia. Rosemback et al (2009)

Quando a segregação socioespacial acontecia quase que exclusivamente pela relação centro versus periferia, e as famílias de diferentes faixas de rendas se localizavam distantes umas das outras, essa distância colaborava para manter também a distância social. A implantação periférica de condomínios fechados destinados à alta renda tem aproximado fisicamente famílias de diferentes rendas e constituído regiões mais heterogêneas do ponto de vista socioeconômico, nas quais a população de renda mais baixa está segregada do ponto de vista social, mas não necessariamente do ponto de vista espacial. Regiões mais homogêneas, por outro lado, são aquelas constituídas

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por bairros destinados à mesma faixa de renda, e nesse caso a população de baixa renda é segregada tanto do ponto de vista social como espacial.

Essa proximidade física entre populações socioeconomicamente distantes já foi analisada pelas ciências sociais com resultados contraditórias em relação as consequências desse fenômeno. A pesquisa de Kaztman (2001), por exemplo, apresenta efeitos positivos dessa proximidade, como o aumento das perspectivas de renda e educação e, em contrapartida, a pesquisa de Simmel (1983) encontrou conflitos provocados por essa aproximação.

Nas regiões mais heterogêneas, por mais que a população de baixa renda ainda permaneça segregada socialmente, essas famílias passam morar próximas de oportunidades para superar a pobreza e, assim, coloca como pano de fundo dimensões que interferem na manutenção da pobreza como redes de sociabilidade, acesso à serviços locais e infraestrutura. Nesse sentido, Cunha (2010) destaca que famílias com a mesma faixa de renda, irão responder de maneiras distintas aos riscos sociais e econômicos estando em lugares diferentes das cidades.

De maneira geral, essas pesquisas têm como base a leitura de unidades de análise espaciais desarticuladas, tratadas em grande parte a partir da relação centro versus periferia e Villaça (2011), propõe também uma descrição do espaço por grandes regiões da cidade. Gonçalves (2012), ao tratar sobre as periferias segregadas, comenta que as abordagens recentes desse fenômeno têm colocado em debate questões de ordem teórico- metodológicas, e defende a importância da consideração de diversas escalas para melhor compreensão da segregação nas cidades.

No mesmo sentido, Flores (2006) destacou que alguns desafios metodológicos precisam ser superados no intuito de distinguir os efeitos da segregação na escala do bairro, pois as metodologias existentes não resgatam o caráter subjetivo com que cada citadino percebe o espaço em que mora, em decorrências de aspectos mais estruturais do dia a dia. Assim, a pesquisa busca propor uma reflexão acerca de dimensões que possam fornecer informações importantes sobre a percepção e o reconhecimento das disponibilidades, que é um dos fatores mais importantes para explicar a relação entre a realidade e resultados individuais.

No documento MetaCity: ways of thinking and making city (páginas 72-75)