Silvana Batini
Art. 128. O Ministério Público abrange: (...)
§ 5º Leis complementares da União e dos Estados, cuja iniciativa é facultada aos respectivos Procuradores-Gerais, estabelecerão a organização, as atribuições e o estatuto de cada Ministério Público, observadas, relativamente a seus membros:
II - as seguintes vedações:
a) receber, a qualquer título e sob qualquer pretexto, honorários, per- centagens ou custas processuais;
b) exercer a advocacia;
c) participar de sociedade comercial, na forma da lei;
d) exercer, ainda que em disponibilidade, qualquer outra função públi- ca, salvo uma de magistério;
e) exercer atividade político-partidária, salvo exceções previstas na lei. e) exercer atividade político-partidária; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004.)
f) receber, a qualquer título ou pretexto, auxílios ou contribuições de pessoas físicas, entidades públicas ou privadas, ressalvadas as exceções previstas em lei. (Incluída pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004.).
A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CFRB/1988), em seu texto original, proibiu a atividade político-partidária a membros do Ministério Público (MP), dentre outras vedações. Ainda assim, admitiu, na alínea “e” do inciso II do § 5º do art. 128, que a lei infraconstitucional es- tabelecesse exceções à vedação desta atividade. A lei regulamentadora nunca veio, mas os limites do envolvimento destes atores na vida política permaneceram em discussão. Prova é que as diversas vedações aos mem- bros do MP já foram alvo de oito Propostas de Emenda à Constituição (PECs) distintas,1 com cinco destas tratando especificamente, desde sua origem, da atividade político-partidária.
A primeira destas propostas é a PEC nº 96/1992, apresentada em março de 1992 pelo Deputado Hélio Bicudo (PT/SP). Ela foi a única, até o momento,
1 PEC nº 96/1992; PEC nº 306/1996; PEC nº 365/1996; PEC nº 374/1996; PEC nº 389/2001; PEC nº 392/2014; PEC nº 82/2015; PEC nº 322/2017. As PECs nº 57/2015 e 69/2015, propostas pelo mesmo autor da PEC nº 82/2015, versam sobre o mesmo tema desta, tendo sido devolvidas ao autor por não conterem o número mínimo de assinaturas.
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PROMOTORES DE JUSTIÇA E PROCURADORES DA REPÚBLICA DEVEM PODER SE ENVOLVER EM POLÍTICA?
que evoluiu para ser efetivamente convertida em Emenda Constitucional (EC) nº 45/2004). Em vigor até hoje, o texto alterado passou a vedar de forma ab- soluta o exercício da atividade político-partidária por membros do MP, exclu- ída a possibilidade de ressalvas na lei. Hoje, via de regra, quando promotores e procuradores decidem disputar cargos políticos, exoneram-se antes.
Ao contrário das demais propostas aqui mencionadas, a PEC nº 96/1992 nasceu com um objetivo mais amplo e diverso. Propunha-se a reformar o Poder Judiciário “desde as pequenas comarcas do interior até o Supremo Tribunal Federal”, conforme declarado pelo autor da proposta. De fato, a PEC nº 96/1992 evoluiu para se transformar em uma emenda que significou profunda reforma do Poder Judiciário e com reflexos relevantes também para o MP.
Da proposta original para o dispositivo aqui analisado (art. 128, § 5º, II) pouco restou. Originalmente, consistia na simples sugestão de in- clusão de uma alínea “f”, vedando aos membros do MP a representação dos interesses próprios da União, em juízo ou fora dele. O texto original da PEC não tem qualquer correspondência com a mudança efetivamente promovida pela EC nº 45 que, além da já mencionada vedação absoluta do exercício de atividade política, vedou também o recebimento, pelos membros do MP, de auxílios ou contribuições de pessoas físicas, entida- des públicas ou privadas.
Ao longo dos 30 anos de vigência da Constituição, outras três PECs2 foram favoráveis à vedação total ao exercício de atividade político-partidária, apresentando, como fundamento principal, a necessidade de imparcialidade dos promotores e procuradores no exercício de suas funções institucionais, que poderiam ser prejudicadas por seu envolvimento com a política. As pro- postas ainda indicavam a necessidade de equiparação com a carreira da ma- gistratura, cujos membros tampouco podem ter atuação política.
O tema retornou em duas outras PECs mais recentes,3 com viés to- talmente diverso: propõem a revogação completa da vedação, restauran- do-se o texto constitucional original, para permitir que membros do MP exerçam atividade política na forma da lei. A PEC nº 82/2015, de autoria
2 PEC 306/1996; PEC 374/1996; PEC 389/2001. 3 PEC 392/2014; PEC 82/2015.
do Deputado Veneziano Vital do Rêgo (PMDB/PB), vai um pouco além: propõe a regulação da atividade político-partidária dos membros do MP no próprio texto constitucional, com a inclusão dos §§ 7º a 12 ao art. 128.
Estas novas propostas partem da ideia de que a proibição absoluta tra- zida pela EC nº 45/2004, além de não garantir a independência, configura su- pressão inconstitucional de direitos fundamentais dos membros do MP, sendo sua revogação necessária para lhes devolver sua cidadania plena, materializa- da no direito à participação no processo político. Além disso, sustentam que promotores e procuradores são, em sua maioria, cidadãos desejáveis para a ocupação de cargos eletivos, seja por sua vocação para velar pela ordem de- mocrática, seja por toda a experiência adquirida na atividade funcional.
A mesma ideia está presente na justificativa da PEC nº 322/2017 (Deputa- do Assis Carvalho, PT/PI), que pretende permitir que, além do magistério, pro- motores e procuradores possam atuar também como secretários de capitais, secretários de estado ou ministros de estado, em pastas compatíveis com as finalidades da instituição e desde que haja afastamento do cargo no MP.
O tema jamais se pacificou. O significado da expressão “atividade po- lítico-partidária” permaneceu controvertido. No seu limite máximo, confi- gurou desde sempre a inelegibilidade do membro e a restrição absoluta à filiação partidária. Mas, no seu substrato mínimo, ainda gera dúvidas.
A vedação constitucional interfere na liberdade de um promotor ou pro- curador manifestar apoio individual a candidaturas, engajar-se em campanhas políticas não eleitorais, manifestar preferências pessoais em redes sociais ou mesmo aceitar nomeação para cargos executivos como os de secretários ou ministros de Estado? Em 2006, o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) expediu a Resolução nº 005, restringindo a vedação constitucional apenas aos que ingressaram na instituição após a vigência da EC nº 45/2004 e proibindo o exercício de cargos ou funções públicas diversas aos membros do MP. Porém, mesmo dentro do CNMP, o tema oscilou ao longo do tempo.4
Outras carreiras jurídicas não sofreram a mesma vedação e, em especial, a polícia se organizou e conseguiu, ao longo das três décadas, eleger banca- das de parlamentares oriundos da categoria, entre delegados e agentes, com
4 A Resolução nº 005 já sofreu duas alterações relevantes: a primeira pela Resolução nº 72/2011 e a segunda pela Resolução nº 144/2016, que restaurou o texto original da Resolução nº 005 e suas vedações.
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reflexo na condução legislativa de temas corporativos e institucionais, como segurança pública, processo penal e outros, com interesses comuns ao MP.5
A busca por conferir uma interpretação menos radical ao disposto no art. 128, § 5º, II, enquanto nova Emenda não é aprovada, inspirou a Associa- ção Nacional dos Procuradores da República a propor, em 2018, Ação Dire- ta de Inconstitucionalidade (ADI nº 5985/DF – Relator Ministro Marco Auré- lio Mello), sustentando a inconstitucionalidade da alteração promovida pela EC nº 45/2004, e alegando que o disposto no art. 128, § 5º, inciso II, alínea “e”, da CRFB/1988, deve ser interpretado como vedação apenas ao exercí- cio simultâneo da atividade político-partidária com a atuação funcional. A ADI não teve liminar, sob o fundamento de que a questão deve ser julgada diretamente pelo Plenário, com discussão do mérito, em rito abreviado.6
5 Para ficar apenas com uma iniciativa emblemática, cito aqui a PEC nº 37/2011, que pretendia restringir a atividade investigatória do Ministério Público, tornando-a exclusiva da autoridade policial. A PEC acabou sendo rejeitada no calor das manifestações populares de 2013.
6 MACEDO, Fausto. Procuradores questionam no Supremo impedimento político-partidário. Estadão, São Paulo, 10 set. 2018. Disponível em: <https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/procuradores- questionam-no-supremo-impedimento-politico-partidario/>. Acesso em: 19 set. 2018.
PROMOTORES DE JUSTIÇA E PROCURADORES DA REPÚBLICA DEVEM PODER SE ENVOLVER EM POLÍTICA?