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A REPÚBLICA DOS BUGRES OU AS MUITAS FACES DO EMBUSTE

No documento 1. INTRODUÇÃO 1 (páginas 120-140)

A República dos bugres, primeiro romance de Ruy Tapioca,225 pode sem grandes polêmicas inserir-se naquela categoria dos palimpsestos. Se uma leitura mais despreocupada ressalta-lhe a fluência mediante os dotes satíricos e um invejável domínio lingüístico, uma outra demão, mais cuidadosa, permite auferir inúmeras brechas que até então não se supunham.

222 “Ainda assim, prefiro mil vezes voltar às estradas minadas de Calamboloca e Anduro do que passar as tardes ouvindo papo furado nos corredores refrigerados do Congresso Nacional”. Id.

223 ECO, op. cit., p. 63-64.

224 LUKÁCS, op. cit., p. 15.

225 TAPIOCA, Ruy. A República dos bugres. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. Prêmio Guimarães Rosa de 1998, do Governo do Estado de Minas Gerais. As demais citações pertencem a esta edição e serão indicadas pelas iniciais junto à paginação.

Talvez daí a incisiva conclusão do também romancista Antônio Torres ao apresentar o volume. Valendo-se da epígrafe que inaugura o segundo capítulo (o que já se coloca como motivo para questionar: - Por que a chave de leitura serviria apenas ao segundo capítulo?) da autoria de Balzac: “Há duas histórias: a história oficial, mentirosa, que se ensina, a história ad usum Delphini; depois a história secreta, onde estão as verdadeiras causas dos acontecimentos, uma história vergonhosa.” (R.B., p.56), conclui o apresentador:

“Sua opção [a de Tapioca] – ou pretensão – é pela segunda, a secreta, portanto vergonhosa.”

Embora com acento determinante, a dimensão satírica, que corresponde a um dos níveis narrativos, não esgota a leitura do romance. Muito pelo contrário, ela vem se somar a um repertório múltiplo, como depõe a inscrição metalingüística:

Se o trabalho prosperar para um ensaio sério, de cunho filosófico, esquece as brincadeiras: sê exato, metódico, científico, discursivo, busca a precisão da palavra, enche-o de pesquisas e referências bibliográficas de obras de nomeada. Se, por oposição, o trabalho desembocar numa narrativa pícara, muito melhor, porque o assunto, em seus núcleos e periferias, pede essa saborosa forma de narrativa; deverás, então, dar vazão à tua verve satírica, despertando o Lazarillo adormecido dentro de ti. Todavia, se pressentires que o trabalho poderá não só ensinar como também instruir, e ao mesmo tempo proporcionar diletantismo e prazer, terás chegado perto dos grandes, Quincas, quem sabe da narrativa superior, a que ensina, diverte e critica a vida, simultaneamente... Caracha! (R.B., p. 439).

Consideramos que é com esta visada múltipla que se articulam os muitos discursos presentes no plano narrativo. À fragmentação nos níveis narrativos, já objeto de estudo sobre o romance,226 acrescenta-se o confronto com os inúmeros discursos que serviram às nossas elites ao longo de alguns séculos para cercar um conceito de nação brasileira.

Embora a ação narrativa se restrinja apenas ao século XIX, desde a chegada da família real portuguesa até a Proclamação da República, o fio do tempo se conecta habilmente a um passado mais remoto, representado pelos primeiros tempos da colonização, e chega aos nossos dias. A leitura deste passado mais remoto realiza-se a partir de um dos personagens-chave, o bacharel Viegas de Azevedo, que, pressentindo a proximidade da morte, presenteia seu pupilo, o protagonista e futuro Comendador Menezes, com seus escritos (entre ensaio e ficção, como descreve seu próprio autor) sobre a gênese do Brasil e de sua gente. Neles, portugueses, índios e negros não escapam à língua viperina e à tomada cética do autor. Viegas decompõe o modelo colonizador em todos os seus vícios.

Já a relação com o presente é montada através de um recurso narrativo, proporcionado por um narrador em terceira pessoa que apresenta grande mobilidade.

226 WEINHARDT, Marilene. A República dos Bugres: a Atenas da América ou uma Botocúndia? Mimeo.

Através dele enunciam-se ironicamente pseudo-profecias, porque posteriores à ação narrada, mas que fazem parte do presente do leitor, aproximando-nos daquilo que Agnes Heller denominou como o passado-presente, em oposição à ausência do diálogo que vigora no passado-passado.227

Joaquim Manuel Menezes d´Oliveira, filho bastardo do rei D. João VI, ou simplesmente Quincas, constitui o elo narrativo entre três personagens que respondem a diferentes abordagens sobre a história brasileira: o Padre Perereca, seu antigo professor de gramática latina; o bacharel Viegas de Azevedo, seu mentor, com que estabelece uma relação filial, e o Padre Jacinto Venâncio, amigo desde a infância e seu guia nas primeiras incursões pela terra brasilis.

O personagem migrante Luiz Gonçalves dos Santos, “por antonomásia Padre Perereca”, autor das Memórias para servir à história do Brasil, 1837, personifica no texto uma história oficial do Império, aquela primeira modalidade referida por Balzac na epígrafe citada. Objeto do ódio de Quincas por ter sido aquele antigo lente o responsável direto por sua expulsão do seminário e conseqüente desligamento da carreira eclesiástica, para ele converge a veia sarcástica do texto. Junto ao caráter laudatório que imprime a seus registros, enfocando as procissões e festas de que a realeza participa, denuncia-se também o gosto do clérigo pela coscuvilhice, concluindo o narrador pela futilidade e ineficiência daquela leitura historiográfica.

Já Viegas de Azevedo goza de maior simpatia, ao menos da parte de dois narradores, Quincas e o narrador em terceira pessoa. O discurso do já então idoso bacharel corresponde em linhas gerais ao do nacionalismo crítico. Para ilustrar a tese que descrê do desenvolvimento nacional a partir das suas três raças constituintes, ele escreve a Crônica sobre a colonização do Brasil até sua elevação à categoria de Reino Unido e reflexões sobre o caráter geral dos brasileiros e dos portugueses. Sua análise étnica não se distancia muito das noções empregadas por Sílvio Romero na sua teoria etnográfica hierarquizada, evocada por Roberto Ventura, na qual tem oportunidade de tecer considerações sobre a inferioridade do índio em relação ao negro e a deste em vista dos portugueses, que, por sua vez, colocam-se numa posição rebaixada diante do tipo ariano.228

O amigo Jacinto Venâncio, uma das vozes narrativas do texto, responde ao discurso que tenta compreender as injustiças da colonização no país e pacificar os ânimos contrários à fé cristã. Sua perspectiva é essencialmente humanista. Colega de batina do Padre Perereca, sua visada é contrária à do outro. Toca-lhe o sofrimento humano e sobretudo o sofrimento perpetrado contra a sua raça, a negra.

Quincas, apoplético em seu leito de morte, na cena que inaugura e que também

227 HELLER, Agnes. Uma teoria da história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993. p. 60.

228 VENTURA, Roberto. Estilo tropical: história cultural e polêmicas literárias no Brasil, 1870-1914. São Paulo:

Companhia das Letras, 1991. p. 49.

encerra o romance, dirige-se à entidade denominada por ele de Altíssimo e, através deste recurso narrativo, coloca em diálogo as perspectivas daqueles personagens. Enquanto seu ódio dirige-se ao Padre Perereca, é de Viegas que ele herda a fala demolidora, mas diferindo um pouco deste, pois os resquícios da mesma formação de base do Padre Venâncio contaminam o seu discurso.

Esta dimensão religiosa que transpõe as várias perspectivas de modos diversos assume tal projeção no romance que parece eleger a moral cristã como a sua grande interlocutora. Isto torna-se passível de análise, por exemplo, nos planos a que se dirigem tanto as indagações do Quincas entrevado como as do Padre Jacinto Venâncio, sobretudo aquelas em meio às batalhas da guerra do Paraguai, na qual serve como capelão.

Também a discussão em torno da visão do paraíso recebe um tratamento modelar no romance. Resgatando o olhar dos primeiros viajantes e colonizadores, o romance põe em discussão as várias construções ideológicas a que a terra brasileira serviu de suporte.

Seus personagens dão conta do fácil trânsito entre as noções de céu e inferno que predominaram segundo os objetivos de seus proponentes.

Se Quincas acredita ter atingido o paraíso ao avistar pela primeira vez a Baía da Guanabara é porque tem a esperança de concretizar naquela terra a vida de reinol que lhe era inacessível na metrópole, considerando a sua situação de bastardo do rei. O desejo não se concretiza e na vida de quem é obrigado a lutar para o seu sustento, como a de mestre-escola, a visão do paraíso transforma-se no inferno terreal. Percurso oposto é o desenhado pelo personagem Luís Marrocos. Lugar da primitividade mais abjeta, o Brasil transforma-se a seus olhos no mundo dos sonhos ao cair de amores por uma filha da terra.

Embora nenhum dos discursos encontre respaldo absoluto por parte do autor implícito, é na visão de Viegas, por ser mais refratário a ela, que a crítica à moral cristã encontra sua verbalização:

- Estou cá a comemorar, junto com parentes e amigos, mais um ano de existência nesta terra brasileira, cujos habitantes primitivos não nos pediram que fossem achados nem que os colonizássemos. Mesmo assim, impusemos-lhe, sem direito a contestações nossa moral cristã, nossos valores e doutrinas lusitanas. E que valores foram esses, caros amigos? Diriam os puristas da raça: “Os de nossa civilização européia, aperfeiçoados ao longo de séculos, por seres superiores aos que aqui viviam, e estamos cá ainda a cristianizá-los e a educá-los.”

Pois muito bem, isso realmente se deu, e ainda se dá, aos trancos e barrancos, mas cabe cá a indagar: tais valores “transmigrados” eram, efetivamente, os mais consentâneos com as realidades desta terra? (R.B., p. 381)

Mais adiante, Viegas celebra os valores da colonização de base protestante, em que impera a solidariedade e o trabalho opera na dignificação do indivíduo. Neste ponto, a fala

do bacharel assenta em mais um exemplo de discurso totalizador sobre o Brasil e, por consegüinte, rejeitado pela voz autoral. Ainda que várias chaves de leitura do romance passem pela fala de Viegas, a personagem não escapa ao crivo deste autor implícito. Após o longo discurso a que submete seus convidados bradando contra as mazelas do país, ele e os demais simplesmente continuam a degustar as iguarias do almoço, ao que se segue o ritual do charuto num passeio pelo pomar da chácara. Como a ilustrar que a teoria e a prática dificilmente se casam. Outro exemplo da dificuldade de situar-se fora da impregnação deste pensamento cristão é dado pela sua disposição testamentária.

Funcionando como o próprio carrasco desta ideologia, Viegas dispôs em testamento o desejo de ser sepultado em sua chácara junto à capela em lugar do cemitério, local onde seria obrigado a partilhar a terra com os outros. Tanto o motivo de preterir o cemitério como a escolha do local dentro da chácara evidenciam as dificuldades da superação desta ideologia.

Apresentada como uma tendência atávica dos povos latinos, seu ponto de discussão no romance se dá de forma dominante nas representações do negro na cultura brasileira e nas relações estabelecidas entre ele e o colonizador branco. É aí também que a temática da guerra do Paraguai alcança sua melhor expressão.

2.4.1. Guerra do Paraguai, Abolição da escravatura e Proclamação da República

A guerra do Paraguai aparece no enredo em quatro blocos narrativos. O primeiro, localizado no quarto capítulo, retrata a batalha de Tuiuti, em maio de 1866, tida como a mais mortífera registrada na América do Sul. O segundo, no capítulo seguinte, avança na cronologia para meados de 1869, focando o saque a Peribuí e a batalha de Acosta Ñu, de acordo com algumas descrições, a mais contestada da guerra pela violência das forças aliadas. No sétimo capítulo, registra-se a perseguição final a Solano López, em fevereiro de 1870, enquanto o último bloco, no nono capítulo, narra a polêmica morte do presidente paraguaio e o retorno das tropas brasileiras.

A escolha dos episódios parece pretender incidir sobre os capítulos mais dramáticos da guerra, como, por exemplo, aqueles em que o exército paraguaio se mostra reduzido praticamente a velhos e crianças, de acordo com algumas perspectivas de leitura historiográficas da guerra. A estratégia narrativa funciona bem se considerarmos a ótica humanista de seu narrador. O Padre Jacinto lê na violência perpetrada de lado a lado motivos palpáveis para questionar a sua fé. Outro efeito do enfoque nestes quadros bárbaros é o de proporcionar o contraponto do discurso da civilização nos trópicos, em que as diversas raças e grupos sociais que compõem a sociedade brasileira harmonizam-se entre si, ao mesmo tempo em que prestam total obediência à alegoria imperial.

Quatro também são os personagens que despontam no tratamento da guerra. É por meio da sua análise que se evidencia na ficção o impacto da disputa bélica na condução do Estado monárquico para uma outra ordem, a republicana, e na conclusão, ainda que apenas oficial, da questão servil.

Diogo Bento, filho único do nosso protoganista, acaba por funcionar como um personagem coletivo, expressando os ensejos de sua classe. Militar de formação, Diogo Bento representa bem as reivindicações do “núcleo profissional do Exército”229 para com o governo imperial:

- Sim, padre. Antes desta guerra, o Exército Brasileiro sempre foi considerado a escória das forças militares nacionais. Servir ao Exército representava um castigo, uma desonra; as tropas eram recrutadas entre bêbados, criminosos e vagabundos. Perseguíamos escravos fujões de engenhos e de fazendas, e combatíamos quilombos. A Guarda Nacional sempre teve mais prestígio junto ao Imperador, além de possuir oficialato exclusivamente formado por fazendeiros ricos e nobres da Corte. O próprio Imperador a nós sempre se referiu como “força bruta”, e todas as vezes que o Brasil, antes desta guerra, precisou armar forças de combate para fazer face a guerra, recorreu a mercenários estrangeiros, que até comandavam nossas tropas! (R.B., p. 318).

O desdobramento desta insatisfação é trabalhada no romance através da preparação do golpe militar que vem a ter efeito em novembro de 1889. No enredo, Diogo Bento compõe o grupo articulador ao lado de Benjamim Constant, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Se a questão militar recebe no romance um tratamento bastante próximo àquele fornecido por recentes leituras historiográficas, a questão servil surpreende pela complexidade da elaboração romanesca.

2.4.2. Três vozes negras

Três personagens negras, o Padre Jacinto, que segue para a guerra como capelão do exército, D. Obá II e Zoroastro Meia-Braça, que compõem o destacamento de soldados zuavos da Bahia, dão a tônica de uma rede complexa de relações humanas. Abdicando por completo da perspectiva da vitimização, a narrativa romanesca também não se detém no já agora lugar comum da denúncia do processo de voluntariado para a guerra. Ainda que haja espaço também para a incorporação deste discurso em alguns trechos, ele não sobressai diante dos muitos outros que habitam o espaço romanesco. As três personagens, diferentemente de Diogo Bento, que aponta mais para o tipo, revelam a sua atipicidade;

uma montagem que, apostando na singularidade do indíviduo, desmascara os discursos

229 IZECKSOHN, Vitor. O cerne da discórdia. A Guerra do Paraguai e o núcleo profissional do Exército. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1997.

que tendem à homogeneidade.

De início, temos o Padre Jacinto que, considerando a posição alcançada como clérigo, denuncia uma situação rara senão única para a sociedade brasileira de meados do século XIX. Tendo que dominar a língua portuguesa escrita, além do latim e da cultura geral, Padre Jacinto, filho de escravos, coloca-se num patamar muito acima da grande maioria daqueles de sua raça. Esta marca vai se evidenciar na linguagem. Ao contrário dos outros negros representados, Jacinto Venâncio não traz o estigma da estilização imbecializada.

No entanto, o padre não se acomoda diante das facilidades obtidas com a vida sacerdotal, haja vista sua antiga condição de escravo. Seu grande desejo, aquele que o teria motivado na sua formação, era o de contribuir na melhoria de vida de seu povo. É neste ponto que tem início a perversidade do texto. Que idéia da raça negra tem em mente o Padre Jacinto? Aquela que, de forma paternalista, ele sempre idealizou como sua gente sofrida? Ele, que traz as vestes do homem branco e com a perspectiva da corte brasileira, seria capaz de reconhecê-la?

O embate, que mais tardiamente permite ao padre esta consciência da idealização ingênua que tecera sobre a raça negra, é narrado nas primeiras páginas dedicadas à guerra do Paraguai. Jacinto, o narrador, vê chegar aquele grupo de soldados zuavos baianos pintado, tal qual nas telas de Candido López, sob a tinta do exotismo. Ainda que o padre tente disfarçar o constrangimento ao ser apresentado ao chefe do grupo dos zuavos, D.

Obá, o mesmo não ocorre com Diogo Bento, o comandante daquele pelotão estacionado:

“Mais espantado ainda ficou o capitão ao levantar os olhos dos papéis e deparar com o gigante de ébano que à sua frente se postou, saído de trás de um buritizeiro, onde acabara de mijar, ainda a abotoar as calças e a ajeitar a espada à ilharga, batendo-lhe, à inglesa, vigorosa continência.” (R.B., p.151). A circunstância do encontro colabora ainda mais para acirrar a diferença que o romance se propõe a construir.

No entanto, o personagem que serve como o efetivo contraponto de Jacinto Venâncio e aquele por meio do qual se busca desmascarar a pretensa solidariedade do padre aos da sua raça é Zoroastro Meia-Braça, chefe espiritual do grupo de zuavos:

A figura do negro chamava a atenção pela pequena estatura e pelo grotesco da aparência: a cabeçorra, desproporcional ao corpo miúdo, batia na altura da ilharga do alferes dos zuavos [D. Obá]; a cara, medonha, era toda ataviada de intumescências na pele, feitas à guisa de enfeites, provavelmente por tenazes em brasa, o que lhe emprestava estranha semelhança com um bolo confeitado de chocolate; ramos de arruda presos às orelhas, gargalhadeira de dentes de javali, embornal de pele de jaguatirica a tiracolo, chocalhos e guizos pendurados no cinturão, penas de galinhas presas na fita do gorro completavam-lhe a exótica estampa.

(R.B., p.152-153).

Além da apresentação grotesca da criatura, “aquele homem-bicho” (R.B., p. 222) nas palavras de Jacinto, sua fala é entremeada de expressões numa estranha língua, incompreensível para aqueles ouvintes, o yorubá. Suas práticas culturais são ainda mais estapafúrdias que a língua materna, o mais primitivo que possa existir, como demonstra as consultas prestadas aos soldados enfermos:

- Quêqui ti afrige? - perguntou ao seguinte, que tinha os botins seguros à mão e os pés inchados, com os dedos purulentos. O soldado respondeu que sofria de unheiro e panarício.

Zoroastro repetiu o ritual de feitiçaria do cliente anterior e prescreveu a receita:

- Tu tem qui metê o dedo no cu dum galo e adispôs dá três pulim e arrepetí li olóri àjisammi mais treis veis; adispôs tu mija, todas veis qui ti dé vuntádis, pur cima dus dedo dus pé, durânti um dia intero: as dô dus pé adisaparéci nu otro dia, i as inframação tumém, juviu?

O soldado, também atrapalhado, indagou:

- Iça! Abókulò, adonde qui o nego vai arrumá a merda dum galo, nu meio dessa brigaiada, pra módi metê o dedo nu cu dele?

O feiticeiro não se deu por vencido:

- Aho! Sérvi cu di gênti, qui esse tu tamém tem; iscuita: o fio vai ficá adicócoris, nas macega alta, óia bem e si acuida cum os inimi atoicaiádis, e adispôs infia teu dedo tudim no cu teu.

Mais óia: tem di sê o fura-bolo, si mi fais u favô, sinão num afunciona, juviu? (R.B., p.162-163).

A situação se torna mais caricata quando lembramos que o mesmo texto assinala o padre Venâncio como autor da famosíssima Farmacopéia dos Catimbós, obra que escreveu para libertar os negros das práticas condenáveis da feitiçaria (R.B., p. 166). Para se ter um idéia do nível de rejeição em que se coloca Zoroastro na narrativa é preciso lembrar que suas práticas curandeiras são recusadas até mesmo pelo líder zuavo, D. Obá, que prefere tratar seu ferimento de guerra junto aos médicos militares, o que causa mágoa a Zoroastro (R.B., p. 169).

Lembrando, entretanto, uma imagem célebre de Montaigne,230 quando, nas suas reflexões, inverte a relação entre civilizador e civilizado, é Zoroastro, o homem-bicho, que consegue aplacar com certeiras cacetadas a total selvageria dos soldados brasileiros do Conde d'Eu diante dos restantes habitantes da Vila de Peribebuí (R.B., p. 222).

Esta jogada ambígüa do texto vai prevalecer a todo instante, não só quanto a Zoroastro, mas também em relação a maior parte dos outros personagens. Se a prescrição

Esta jogada ambígüa do texto vai prevalecer a todo instante, não só quanto a Zoroastro, mas também em relação a maior parte dos outros personagens. Se a prescrição

No documento 1. INTRODUÇÃO 1 (páginas 120-140)