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Reponderação geral da prova

No documento Data do documento 3 de abril de 2017 (páginas 27-32)

Vejamos o contributo da sentença de divórcio (processo principal, do qual estes autos são apenso).

Provou-se no processo principal, nomeadamente:

«9. No ano de 2010 a Ré recebeu cerca de €25.000,00 provenientes da herança por óbito do seu pai. (al. I) da matéria de facto assente)

10. Por decisão judicial proferida em 14.10.2012 foi atribuída a utilização provisória da casa de morada de família, sita na Rua …, n.º …, …, Vila do Conde, durante a pendência da acção de divórcio, à Ré B…. (al. J) da matéria de facto assente) 15. No ano e meio que antecedeu a entrada em juízo da petição inicial o Autor começou a ser vítima de empurrões e insultos perpetrados pela Ré. (item 1º da base instrutória)

[…]

16. Nos meses que antecederam a entrada em juízo da petição inicial a Ré, por diversas vezes, referiu expressamente ao Autor: “vou-te tirar a tosse”, “quando estiveres a dormir, há-de haver um dia que não acordas mais”. (item 2º da base instrutória)

17. Levando aqueles comportamentos a que o Autor passasse a dormir de porta fechada à chave. (item 3º da base instrutória)

18. Passando a apelidá-lo de “ó aleijadinho”, “não vales nada seu tísico”, “és um deficiente que não serves para nada”, “andas para aí a morrer aos bocados”. (item 4º da base instrutória)

19. Em virtude do circunstancialismo descrito em C) o Autor encontra-se física e psicologicamente debilitado. (item 5º da base instrutória)

20. A Ré passou a deslocar-se à oficina onde o Autor desenvolve a sua actividade e quando aí chega de imediato se dirige ao Autor, gritando e dizendo em voz alta: “tu não estás bom da cabeça”, “tu és maluquinho”, “seu deficiente”. (item 6º da base instrutória)

21. Praticando tais factos mesmo na presença de clientes. (item 7º da base instrutória) […]

34. A Ré exerce a actividade de costureira e modista. (item 48º da base instrutória)

35. Retira dessa actividade um rendimento mensal não concretamente apurado mas de pelo menos o valor de um salário mínimo nacional. (item 51º da base instrutória)

36. No dia 03/05/2011 o Autor foi agredido pela Ré no interior da casa de morada de família, primeiro com uma tesoura na face e nos braços, e posteriormente com um candeeiro no crânio. (item 52º da base instrutória)

37. Daí resultando um golpe profundo no crânio (suturado com 4 pontos), um golpe profundo na face

(suturado com pontos), um golpe profundo no punho direito (suturado com 2 pontos), um golpe profundo no punho esquerdo (suturado com 2 pontos). (item 53º da base instrutória)

[…]

40. Depois de ter sido proferida a decisão mencionada em J) a Ré passou a colocar o veículo automóvel que utiliza a obstruir o acesso à oficina do Autor. (item 58º da base instrutória)

41. Bem como um tanque de lavar roupa a obstruir o portão da dita oficina. (item 59º da base instrutória) 42. Dessa forma dificulta o Autor de exercer a sua actividade profissional. (item 60º da base instrutória) 43. Atirando depois várias peças de roupa do Autor para cima desses excrementos. (item 65º da base instrutória)

[…]

48. O Autor recebeu em Setembro do corrente ano, a comunicação da Segurança Social onde lhe é deferida a pensão de invalidez relativa no montante de €109,59 mensal. (item 71º da base instrutória)

49. Esse valor é o único de que o Autor dispõe para poder sobreviver mensalmente. (item 72º da base instrutória)

50. O Autor dado não poder ir para outro local, está provisoriamente a residir na casa de sua irmã onde residem também para além de sua irmã e cunhado, seus pais e sobrinhos já adultos. (item 73º da base instrutória)

51. Essa casa fica paredes meias com a casa onde vive a Ré. (item 74º da base instrutória)

52. O Autor não pode sequer ir ao quintal ou passar na rua em virtude da ré, quando o vê de imediato o insultar de cagalhão seco, tisico, chulo e ladrão. (item 75º da base instrutória)

53. (..) e de o ameaçar, dizendo-lhe que um dia destes o irmão o vai apanhar sozinho e ele nunca mais se vai levantar. (item 76º da base instrutória)»

Os presentes autos constituem apenso da ação de divórcio (art.º 990/4 do CPC), devendo o tribunal harmonizar a factualidade provada, de forma a que no mesmo contexto processual não se verifiquem disparidades e contradições.

Daí a relevância da factualidade provada no âmbito da sentença de divórcio transitada em julgado.

Reitera-se o que já se afirmou, ressalvado todo o respeito devido: a recorrente não apresenta qualquer análise crítica da prova, não confrontando criticamente os depoimentos que invoca, com a fundamentação da decisão ou com os restantes meios de prova.

No entanto, apesar de tal óbice, passamos a apreciar a impugnação, nunca perdendo de vista a decisão proferida no processo principal.

Vejamos a factualidade em questão.

O tribunal considerou provado: 12 - A requerente sempre trabalhou, como se mantém atualmente a trabalhar em casa e a receber clientela que possui e que ali se desloca para efetuarem arranjos de costura, mediante pagamento.

Tal facto já havia sido considerado provado sob os n.ºs 34 e 35 da sentença de divórcio, nos quais o tribunal considerou provado que a requerida: “… exerce a actividade de costureira e modista” e “Retira dessa actividade um rendimento mensal não concretamente apurado mas de pelo menos o valor de um salário mínimo nacional.”.

A prova testemunhal não afasta minimamente a convicção expressa na formulação que se transcreveu.

Refira-se a latere que as testemunhas, de um modo geral, revelaram pouca isenção, mostrando-se envolvidos no conflito que se arrasta entre as partes, nomeadamente devido à relação familiar.

A testemunha I…, irmão da recorrente, revelou parcialidade no seu depoimento.

Afirmou que a irmã deixou de fazer costura porque o cunhado “corria com as pessoas que iam lá”.

Declarou mais tarde, inquirido pela Mª Juíza (27:00) que foi a irmã quem lhe disse que o recorrido corria com as pessoas que utilizavam os serviços da recorrente.

Quanto ao alegado arrendamento do 1.º andar da casa de habitação onde reside a mãe da requerente, prestou um depoimento sui generis face às regras da experiência comum: disse que o arrendatário se chama “E1… qualquer coisa E2…”, que está na Alemanha, mas está a pagar renda à mãe da recorrente (06:00), esclarecendo depois que vem a Portugal “umas quantas vezes”, “várias vezes… esteve antes do Natal e depois veio na Páscoa…”, mas que, ainda assim, paga mensalmente a renda.

Esta testemunha revelou animosidade para com o recorrido, nomeadamente num curioso pormenor:

declarou saber que o ex-cunhado tem uma doença do foro oncológico, mas que ele “bebe e fuma” (24:19).

Quanto ao facto (provado) de a casa pertencer ao recorrido, a sua evasiva foi eloquente: “não sei de quem é a casa… penso que é deles… dela e dele… em minha casa o que é meu é da minha mulher” (sic) – (10:42).

A testemunha N… é irmão da recorrente.

Repetiu a versão do irmão I…, de que a recorrente perdeu as clientes devido à conduta do recorrido.

Quanto à titularidade da casa eclarou: “presumo que seja dos dois” (04:48).

No que respeita às tornas, afirmou que a sua mãe deu “dez a vinte mil euros” a cada um dos filhos, incluindo a recorrente (26:43), não sabendo precisar quanto – se dez ou se vinte mil.

A testemunha D… é mãe da recorrente.

Afirmou que foram feitas partilhas, tendo ela ficado com todos os bens “até fechar os olhos” (10:04), referindo-se aos “barracos que lá tenho” e afirmando que o 1.º andar do prédio onde vive está arrendado

“a um moço que está na Alemanha” (10:40).

Esta testemunha enredou-se em contradições no decurso da contra instância, na sequência das perguntas sobre o alegado contrato de arrendamento, tendo acabado por declarar: “não quero continuar mais”, o que obrigou à intervenção da Mª Juíza. Afirmou depois que na última vez em que o alegado arrendatário veio a Portugal, não lhe pagou porque não tinha dinheiro (40:09).

Mais declarou esta testemunha que após a separação a filha “ainda continuou a trabalhar algum tempo”.

O depoimento enferma de contradições lamentáveis, nomeadamente quanto ao estranho contrato de arrendamento em que alegadamente é arrendatário alguém ausente do país e quanto ao processo de elaboração do contrato, o que fez com que a Mª Juíza determinasse a extração de certidão para procedimento criminal.

A testemunha P… é amiga da recorrente e afirmou que a recorrente “fazia trabalhos para fora”, mas depois deixou de fazer “porque partiu um pé”, e que o rendimento mínimo foi-lhe cortado durante um ano.

Afirmou (04:58) que as coisas começaram a correr mal quando o senhor C… arranjou outra mulher, segundo se falava, mas que o vê sempre na casa dos pais, na varanda a fumar.

Mais tarde, declarou que a recorrente “fazia coisas, lá em casa… alguns arranjos… de bainhas… de pregar botões…” (09:30).

Questionada sobre se a recorrente faz modelos, para batizados e casamentos, respondeu “para mim não faz”. Perante a insistência do ilustre advogado, repetiu ““para mim não faz”.

Num momento ulterior do seu depoimento (10:50), questionada sobre se a recorrente continua a fazer

“pequenos arranjos” admitiu a testemunha: “exatamente; com uns pequenos arranjos vai sobrevivendo”, afirmando, no entanto, que lhe empresta dinheiro de vez em quando.

A testemunha J… declarou ser “muito amiga da B…” (recorrente).

Esta testemunha negou a versão apresentada pelos irmãos da recorrente (de que a recorrente deixou de costurar devido ao facto de o recorrido ter ‘corrido com os clientes’), confirmando a versão da testemunha anterior, de que deixou de costurar devido a ter partido um pé, e que entre 2014 e 2015 deixou de receber rendimento mínimo.

Em momento ulterior do depoimento, a testemunha foi muito evasiva. Perante a pergunta do Ilustre Mandatário da recorrente, sobre se a recorrente continuava a fazer trabalhos para fora, mesmo “coisas pequeninas”, a testemunha respondeu: «pode fazer… para mim não faz».

A testemunha revelou animosidade para com o recorrido quando afirmou que o recorrente (a quem foi diagnosticado cancro em 2005) “tem saúde para trabalhar; pode é não querer trabalhar” (09:28), e que o recorrente está bonito e bom… e fuma…” (10:05).

A testemunha M… é pai do recorrido e afirmou que este reside na casa da irmã, onde residem também, para além da irmã e cunhado, os pais do requerido e dois sobrinhos.

Mais afirmou que a recorrente colocava um Mercedes na entrada da oficina, não permitindo o acesso dos clientes do recorrido, que lançava ‘mangueiradas’ de água para o interior da oficina, e que lhe cortava a luz, uma vez que o quadro se encontrava no interior da habitação, impedido, dessa forma, que o requerido pudesse prosseguir normalmente com a sua atividade.

Quanto à atividade da recorrente, afirma que mora ao lado, e que vê com frequência clientes que procuram os serviços da recorrente, tendo alguns já ido ao salão de cabeleireira da filha da testemunha, perguntar onde é a modista (11:12), mais declarando que a recorrente tem inclusive clientes em Vila do Conde (12:50).

Referiu vários comportamentos da recorrente, já constantes do elenco factual provado da sentença de divórcio.

A testemunha F… declarou estar de relações cortadas com a recorrente, afirmou que no 1.º andar do prédio da mãe da recorrente não habita ninguém e que a recorrente continua a trabalhar, sendo considerada uma “boa profissional”.

Afirmou que já viu a recorrente deslocar-se a casa das clientes com sacos de roupa, indicando como suas clientes a Q… e as suas filhas, residentes na freguesia.

A testemunha G…, amigo do requerido, mas que fala com ambas as partes “se me falarem eu falo”.

Afirmou que ajudava o recorrente na oficina devido aos seus problemas de saúde, na altura em que a mesma se encontrava em funcionamento, instalada na garagem da casa de morada de família. Confirmou o depoimento da testemunha M…, afirmando que a recorrente causava muitos problemas ao recorrido, que

o fez abandonar o local: inundava a oficina com água, introduzia objetos na fechadura, cortava a luz.

Na versão desta testemunha, o recorrido não tem condições económicas para arrendar qualquer outro local, uma vez que apenas sobrevive do rendimento proveniente da sua reforma por invalidez.

A testemunha K… é cunhado do recorrido e proprietário da casa onde este habita, afirmou que o seu cunhado tem uma incapacidade que o impede de trabalhar, bem como de obter qualquer rendimento, e que com a ida do recorrido para a sua casa, o filho mais novo da testemunha teve que passar a dormir na sala e que devido às necessidades do requerido em frequentar com mais assiduidade a casa de banho (a casa tem duas) a intimidade familiar foi afetada.

Confirmou o depoimento anterior, nomeadamente no que concerne à conduta da recorrente que inviabilizou a utilização da oficina por parte do recorrido, referindo que o seu cunhado depende economicamente da sua ajuda e da ajuda dos seus sogros.

Afirmou que a recorrente continua a exercer a atividade de costureira, até porque há cerca de um mês, duas pessoas dirigiram-se à sua casa a perguntar onde residia a costureira.

A testemunha L…, vizinha da requerente e requerido e que se encontra de relações cortadas com a requerente, prestou depoimento, corroborando a versão apresentada pelas testemunhas anteriores, no que respeita ao exercício da atividade de costureira por parte da recorrente.

Análise crítica.

Da síntese testemunhal que antecede, concluímos desde já que não merece censura a decisão, na parte em que considerou provada a continuidade do exercício da atividade de costureira por parte da recorrente.

É o que se conclui, não só dos depoimentos das testemunhas apresentadas pelo recorrido, mas também das testemunhas apresentadas pela recorrente (nomeadamente pelas suas evasivas).

Veja-se que a testemunha P…, amiga da recorrente, começou por afirmar que a recorrente “fazia trabalhos para fora”, mas depois deixou de fazer “porque partiu um pé”, “fazia coisas, lá em casa… alguns arranjos…

de bainhas… de pregar botões…” (09:30), e depois, questionada sobre se a recorrente faz modelos, para batizados e casamentos, respondeu “para mim não faz”. Perante a insistência do ilustre advogado, repetiu

“para mim não faz”, afirmando depois (10:50), quando questionada sobre se a recorrente continua a fazer

“pequenos arranjos”: “exatamente; com uns pequenos arranjos vai sobrevivendo”.

Também a testemunha J…, que declarou ser “muito amiga da B…” (recorrente), se revelou evasiva, e, perante a pergunta do Ilustre Mandatário da recorrente, sobre se a recorrente continuava a fazer trabalhos para fora, mesmo “coisas pequeninas”, respondeu: «pode fazer… para mim não faz».

Face ao exposto, consideramos que não se verifica erro de julgamento quanto ao facto 12: A requerente sempre trabalhou, como se mantém atualmente a trabalhar em casa e a receber clientela que possui e que ali se desloca para efetuarem arranjos de costura, mediante pagamento.

No que respeita ao invocado arrendamento, salvo todo o respeito devido, é por demais evidente a contradição, face às regras da experiência comum: arrendamento a um emigrante na Alemanha, que apenas vem a Portugal “de vez em quando” e que na última vez em que cá esteve nem sequer pagou a renda “por falta de dinheiro” (afirmação da mãe da recorrente), mantendo-se como não provado o facto 5 do respetivo elenco: 5- A casa de habitação inscrita no art.º 632.º da matriz urbana de … (pertença de D…) encontra-se uma parte arrendada por esta, já que necessita de obter rendimentos para prover à sua

subsistência.

Quanto ao facto 17, há que proceder à sua alteração.

Com efeito, os documentos juntos a fls. 55 a 57 (despesas de farmácia referentes a novembro de 2013 e a janeiro de 2014) não permitem suportar a resposta do Tribunal, que deverá ter uma redação mais restritiva: 17- O requerido devido ao seu estado de saúde tem de farmácia não apuradas, a que acrescem despesas com consultas e exames médicos, carecendo da ajuda dos seus pais.

Quanto ao facto 19, deverá manter-se, face ao que consta da sentença de divórcio, confirmada por prova testemunhal produzida na audiência final: 19- O requerido após a grave agressão de que foi alvo em 03/05/2011, perpetrada pela requerente, viu-se obrigado a sair de casa pois estava em risco a sua vida.

Vejam-se. a esse propósito, os factos 36 e 37 da sentença de divórcio: 36. No dia 03/05/2011 o Autor foi agredido pela Ré no interior da casa de morada de família, primeiro com uma tesoura na face e nos braços, e posteriormente com um candeeiro no crânio; 37. Daí resultando um golpe profundo no crânio (suturado com 4 pontos), um golpe profundo na face (suturado com pontos), um golpe profundo no punho direito (suturado com 2 pontos), um golpe profundo no punho esquerdo (suturado com 2 pontos).

No que concerne aos factos 24, 26 e 27 a 31, vejam-se os factos provados na sentença de divórcio, n.º 16 a 21, 52 e 53, corroborados pelos depoimentos das testemunhas do recorrido.

Deverão manter-se tais factos.

Quanto ao facto 32, foi o irmão da recorrente – N… - quem o afirmou, tendo declarado que a sua mãe deu

“dez a vinte mil euros” a cada um dos filhos, incluindo a recorrente (26:43), não sabendo precisar quanto – se dez ou se vinte mil.

Quanto aos factos 18 a 22, afiguram-se-nos provados, face à sentença de divórcio (factos 48 a 50), e às declarações das testemunhas M…, F…, G…, K….

Quanto ao facto 34 - requerente e requerido não têm qualquer outro imóvel, para além da casa de morada de família (que é pertença do requerente), não restam dúvidas ao Tribunal, não havendo divergência nessa matéria por parte das testemunhas ouvidas.

No que concerne ao facto 35, considerando globalmente a prova produzida, concluímos que o tribunal não deverá ir além do que se consignou no facto 12, restringindo a resposta nestes termos: 35- A requerente efetua arranjos de costura, mediante pagamento.

No que concerne à factualidade não provada, salvo o devido respeito, entendemos que não foi produzida prova firme que permita uma resposta positiva.

No documento Data do documento 3 de abril de 2017 (páginas 27-32)