Processo
579/11.1TBVCD-E.P1
Data do documento 3 de abril de 2017
Relator
Carlos Querido
TRIBUNAL DA RELAÇÃO DO PORTO | CÍVEL
Acórdão
DESCRITORES
Casa de morada de família > Bem próprio de um dos cônjuges > Arrendamento > Necessidade do proprietário > Junção de documentos > Reapreciação da decisão de facto > Má fé
SUMÁRIO
I - Apesar de o n.º 1 do artigo 1793.º do Código Civil permitir, em caso de divórcio, a constituição por decisão judicial de uma relação de arrendamento da casa de morada de família a favor de um dos ex- cônjuges, quando a mesma seja bem próprio do outro cônjuge, ainda que contra a vontade deste, numa situação em se prova a carência económica de ambas as partes não pode o julgador ficar indiferente ao critério da propriedade da casa em discussão.
II - Sendo a casa de morada de família bem próprio de um dos ex-cônjuges, não deve ser atribuída em arrendamento ao outro, quando o dono dela careça e não tenha meios económicos para encontrar outra habitação.
TEXTO INTEGRAL
Processo n.º 579/11.1TBVCD-E.P1Sumário da decisão:
I. Apesar de o n.º 1 do artigo 1793.º do Código Civil permitir, em caso de divórcio, a constituição por decisão judicial de uma relação de arrendamento da casa de morada de família a favor de um dos ex- cônjuges, quando a mesma seja bem próprio do outro cônjuge, ainda que contra a vontade deste, numa situação em se prova a carência económica de ambas as partes não pode o julgador ficar indiferente ao critério da propriedade da casa em discussão.
II. Sendo a casa de morada de família bem próprio de um dos ex-cônjuges, não deve ser atribuída em arrendamento ao outro, quando o dono dela careça e não tenha meios económicos para encontrar outra
habitação.
Acordam no Tribunal da Relação do Porto I. Relatório
Em 13.11.2013, B… intentou no Tribunal Judicial de Vila do Conde[1], contra C…, ação especial de atribuição de casa de morada de família, ao abrigo do disposto nos artigos 930.º e seguintes do Código de Processo Civil, formulando o seguinte pedido referente ao imóvel identificado na petição: «Deve o Tribunal dar de arrendamento à aqui Requerente a referida casa de morada de família, por ser bem próprio do Requerido, de acordo com as regras de arrendamento para habitação, pelo prazo de um ano, sucessiva e automaticamente renovável, por iguais e sucessivos períodos de um ano, mediante o pagamento de uma retribuição mensal, a título de renda, não superior a €10,00/mês (dez euros / mês), até ao dia 8 do mês a que disser respeito.».
Como fundamento da sua pretensão, alegou em síntese: o requerido recebe uma pensão mensal da Segurança Social no montante de €109,59, auferindo mensalmente, no exercício da sua atividade de mecânico, quantia não inferior a €1.000,00 / mês, fazendo alguns “biscates”, o que lhe permite procurar e arrendar outra habitação; a requerente não dispõe de quaisquer rendimentos para além do montante (€178,15), que recebe mensalmente, através do rendimento social de inserção.
O requerido foi citado, nos termos e para os efeitos do disposto no art.º 990º, n.º 2 do CPC, tendo-se realizado em 29.01.2014 uma tentativa de conciliação na qual não se revelou possível a conciliação das partes.
Na referida diligência, foi o requerido notificado para deduzir oposição, querendo, o que veio a fazer em 6.0.2014, alegando em síntese: a requerente trabalha como costureira e modista numa divisão da casa, aí possuindo todas as máquinas (de costura profissionais) e demais acessórios necessários a tal atividade, para além de arranjos de roupa, confeciona conjuntos completos de saia e casaco, vestidos de noite ou para ocasiões e eventos especiais, camisas e demais vestuário feminino; da sua atividade, a requerente retira elevados rendimentos, possuindo uma vasta clientela que ali se desloca com regularidade; a requerente apenas se inscreveu no centro de emprego em 15/11/2011, na pendência já do pedido provisório de alimentos por esta formulado e do pedido formulado pelo requerido da atribuição temporária da casa de morada de família, somente como forma de tentar justificar necessidade de alimentos, que bem sabe não corresponder à verdade; a requerente possui imóveis destinados a habitação e que foram
“partilhados” a favor de sua mãe, na pendência da ação de divórcio, podendo utilizá-los, quer para residir, quer para aí desempenhar a sua atividade; tais imóveis, num dos quais reside sozinha a sua mãe, é uma vivenda que dista cerca de três ou quatro quilómetros em linha reta da casa de morada de família que pretende ver ser-lhe atribuída, o requerido é doente oncológico e a situação de stress em que se encontra é suscetível de recidivar a sua doença; encontra-se a residir provisoriamente na casa de sua irmã, onde para além desta e de seu cunhado, residem os sus pais e dois sobrinhos adultos, tendo um deste cedido provisoriamente o seu quarto, estando todos em grande dificuldade e constrangimento; é pensionista e não tem condições económicas para arrendar imóvel, ou local para onde ir de forma definitiva, necessitando do seu imóvel, onde (pensa ainda), possuir as suas coisas e poder estar em paz; a sua oficina de chapeiro e
pintura, encontra-se nas traseiras da casa e o acesso é comum, estando impedido de exercer atividade por factos praticados pela requerente, quer com a colocação de veículo que usa a obstruir o acesso à oficina, quer com o corte do fornecimento de energia à dita oficina.
Termina requerendo: que lhe seja atribuída a casa de morada de família; que seja a requerente condenada como litigante de má-fé, em multa condigna ao Tribunal e em indeminização ao requerido em quantia mínima de €2.500,00.
Foi requerida prova pericial, ordenada por despacho de 2.04.2014, encontrando-se o respetivo relatório junto aos autos
Em 14.04.2016 realizou-se a 1.ª sessão da audiência final, com inquirição do perito que elaborou o relatório pericial junto aos autos, e de testemunhas.
Na referida sessão da audiência final, requereu a autora a junção de documentos para prova do artigo 14.º da petição[2], referindo que se trata de correspondência remetida para o arrendatário de D… (mãe da autora), E…, que comprovam que em 18-3-2016 a casa sita na Rua …, n.º …, …, Vila do Conde, continua a ser residência de E….
Tal requerimento foi indeferido através do seguinte despacho proferido em ata:
«A junção dos documentos que agora se requer, conforme o alegado pelo requerente, tem como objectivo a prova de parte da matéria factual inserta, do art.º 14º da P.I..
Tendo em consideração a data constante do selo postal constante dos documentos cuja junção se requer - 18/03/2016 - constata-se que a requerente não poderia ter entregue este meio de prova com o articulado da P.I..
Podia, todavia, ter apresentado os documentos dentro do prazo do n.º 2 do mesmo normativo, o que não o fez, motivo pelo qual se indefere a junção dos documentos agora requeridos.
Acrescenta-se ainda, que no requerimento de junção de prova documental agora apresentado, bem assim como dos depoimentos prestados em sede de audiência de discussão e julgamento, para se fazer-se prova da matéria invocada na pretensão, os documentos em causa e respectiva junção não resultam necessariamente do ocorrido posteriormente aos articulados ou ao prazo do n.º 2, desde logo e porque no referido art.º 14º, já é alegado o arrendamento, não havendo notícia que o arrendatário seja distinto.».
Não se conformou a autora e interpôs recurso de apelação, apresentando alegações, findas as quais formula as seguintes conclusões:
1.º No processo de jurisdição voluntária, como é o caso dos Autos (Atribuição da Casa de Morada de Família), o juiz não está limitado quanto à admissão de prova documental ao disposto no art. 423.º , do C.P.C., conforme resulta do art. 986.º , n.º 2 do C.P.C..
2.º Os documentos (correspondência recebida, remetida para o arrendatário E…), não admitidos pelo Tribunal a qu , e que são os que agora se juntam e que fazem parte integrante do presente recurso, constituem informações para o Tribunal (cfr. art. 986,n.º2, do C.P.C.) e são supervenientes e interessam á boa decisão da causa, comprovando os mesmos que, pelo menos, em 18-3-2016, a Rua …, n.º …, …, Vila do Conde, continua a ser a residência do arrendatário referido supra , sita no 1.º andar do prédio pertencente a D…, que no contrato de arrendamento junto a fls. outorga como arrendatário do referido 1.º andar .
3.º Pelo que , é aplicável in casu , o disposto no art. 986º , n.º 2 do C.P.C. e não o disposto no art. 423.º , n.º 2 do C.P.C., como se fez no despacho recorrido, que deve ser revogado e substituído por outro que admita esses documentos, o que se requer.
4.º O despacho recorrido violou o disposto no art. 986.º , n.º 2 do C.P.C. Termos em que,
Deve ser concedido provimento ao presente recurso, julgando-se procedentes as conclusões 1.º a 4.º, substituindo-se o despacho que não admitiu os documentos referidos supra e juntos a seguir por Acórdão que revogue este e admita os mesmos, como é de JUSTIÇA.
Em 22.06.2016 realizou-se a 2.ª sessão da audiência final, com inquirição de testemunhas.
Na referida sessão da audiência final, requereu a autora a junção de documentos (certidão de processo crime) como fundamento de impugnação do depoimento da testemunha F… (art.º 514.º do CPC).
Tal requerimento foi indeferido através do seguinte despacho proferido em ata:
«Face aos fundamentos apresentados pela testemunha, bem com à sua confissão dos factos, os quais que fundamentam a impugnação do depoimento desta testemunha, desde já se determina a inexistência de qualquer necessidade de ser junto aos autos qualquer documento, bem como qualquer meio de prova, susceptível de sustentar o peticionado pelo Ilustre mandatário requerente, encontrando-se este Tribunal desde já de proferir decisão, nos termos do n.º 2 do referido normativo.
Foi invocado o impedimento de depor desta testemunha, por banda da requerente, alegando para o efeito e de forma sumariamente os fundamentos que infra se expõem:
- Ter sido esta testemunha obrigada/condenada, no âmbito de um processo crime, a pagar a quantia de
€150,00, a título de indemnização à requerente B…, e por via de tal facto;
- A testemunha está de relações cortada com a requerente.
Foi dado cumprimento ao n.º 1 do art.º 515º do CPC, tendo a testemunha confessado ambos os factos que lhe são imputados e que fundamentam o agora suscitado.
Estabelece o art.º 495º, n.º 1 do CPC, quais as pessoas que têm capacidade de depor como testemunha.
Constata este Tribunal, e tal não foi alegado no sentido contrário, que a testemunha F…, revela capacidade para depor como testemunha, tendo desde já sido advertida das consequências da quebra do juramento que prestou enquanto testemunha a inquirir, e tendo a mesma dito que as tinha compreendido e estava ciente das mesmas.
Face ao exposto, e porque se entende que inexiste qualquer fundamento para proceder o peticionado pela requerente e ainda porque se entende que esta testemunha revela capacidade para depôr enquanto tal, indefere-se a impugnação apresentada, procedendo de imediato à inquirição da testemunha.
Custas do incidente pela requerente em 2UC`s.».
Não se conformou a autora e interpôs recurso de apelação, apresentando alegações, findas as quais formula as seguintes conclusões:
1.º No processo de jurisdição voluntária, como é o caso dos Autos, o Tribunal não está limitado aos factos alegados pelas partes e pode investigar livremente e considerar para efeitos de decisão, factos que não constem das peças processuais, podendo recolher as informações convenientes, como resulta do art. 986.º , n.º 2 , do C.P.C.
2.º Ou seja, não está limitado aos critérios do art.º 423.º do C.P.C.
3.º Com os documentos (que ora se juntam) e que em 22-6-2016, não se encontravam na posse da Requerente, e que agora fazem parte integrante do presente recurso, e, que o Tribunal a quo não admitiu, 4.º Constituem informação para o Tribunal e interessam á boa decisão da causa
5.º Que em face do depoimento prestado pela Testemunha G… abalam a credibilidade da mesma, quer por afectar a razão da ciência invocada pela Testemunha, quer por diminuir a fé que ela pudesse merecer, Com efeito,
6.º Questionada a cerca das condenações a que o Requerido C… foi sujeito, o mesmo mentiu descaradamente ao Tribunal, negando (apesar de bem saber que era mentira o que afirmava), que o mesmo tinha sido condenado pela prática de um crime de ofensa á integridade física simples, na pessoa da Requerente / Recorrente B…, e pela prática de um crime de injuria , na pessoa desta , e , ainda , numa indemnização a favor desta no montante de €350,00 (trezentos e cinquenta euros) , acrescido de juros desde a notificação até efectivo pagamento,
7.º Permitindo o confronto desta testemunha com esta sentença abalar a credibilidade do seu depoimento, quer por afectar a razão de ciência invocada pela Testemunha, quer por diminuir a fé que ela pudesse merecer.
8.º E, por isso, deve o referido documento (composto por Sentença e Acórdão) ser admitid,
9.º Revogando-se o referido Despacho e substituindo-o por Acórdão que ordene a repetição da prova, e, consequente anulação do julgamento da matéria de facto , por forma a que a referida Testemunha seja confrontada com o referido documento (composto por sentença e Acórdão), nos termos do art. 521.º do C.P.C. , o que se requer.
10.º A sentença recorrida violou e interpretou erroneamente o disposto nos arts. 986.º , n.º 2 e 521.º , todos do C.P.C.
Termos em que,
Deve ser concedido provimento ao presente recurso, julgando-se procedentes as conclusões 1.º a 10.º, inclusive, como é de JUSTIÇA.
Em 30.06.016 foi proferida sentença com o seguinte dispositivo:
«Pelo exposto, nos termos do disposto no art. 991º do CPC, decido:
- Atribuir, definitivamente, ao requerido C…, o direito a usar, utilizar e fruir, em exclusivo, a casa de morada de família determinando-se, após trânsito, que a requerida proceda à imediata desocupação do local, concedendo-se para o efeito, um prazo de 15 dias.
- Condenar a requerente B… como litigante de má-fé na multa processual de 4,5 UCS e ainda a pagar ao Requerido uma indemnização no montante de 2,500.00 euros acrescido do valor que vier a ser fixado a titulo de honorários do Ilustre mandatário do requerido.
Custas pela requerente, fixando-se a taxa de justiça em 2 Ucs.»
Não se conformou a autora e interpôs recurso de apelação, apresentando alegações, findas as quais formula as seguintes conclusões:
1.º Dos recursos retidos, como é o caso dos recursos, respectivamente, referência n.º 22528581 e referência n.º 23133178 datados 29 -4-2016 e de 7-7-2016, declara a Recorrente, que mantém interesse nos mesmos e devem ser apreciados, o que se requer.
2.º Ocorreu a gravação da audiência e a Recorrente, nos termos do art. 640.º, n.º 1 e 2 do C.P.C., indicou supra quais os concretos meios de prova, os pontos de facto que considera incorrectamente julgados constantes do processo e do registo de gravação (indicando com exactidão as passagens da gravação em que se funda o seu recurso) , em que tudo se funda para discordar da decisão recorrida.
Daí que ,
3.º Impugna-se a matéria de facto e invoca-se erro na apreciação da prova, relativamente ás respostas dadas á matéria da alinea A (Factos Provados), itens 12, 14, 16,17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 34, 35 e aos itens 1, 2, 3, 4, 5, 6 e7 dos Factos Não Provados.
4.º Com efeito, estas respostas dadas pelo Tribunal não resultam, na nossa opinião, da mais correcta apreciação da prova produzida: depoimentos do Perito e das testemunhas inquiridas em sede de julgamento.
5.º Assim, indicando-se, a seguir , ao abrigo do art 640. º , n.º 1 e 2 do C.P.C. , com exactidão as passagens das gravações em que se funda , conjugados com os documentos juntos aos presentes Autos a folhas 18, 54,96 e 97 , 118 e 141 , Relatório Pericial , 223, 294 a 311, 380 a 450 , 1369 no processo principal ( divórcio) e pontos 38 e 39 dos Factos Provados na Acção de Divorcio , para prova de que esses pontos de facto estão incorrectamente julgados:
a) Começando por H… (Declarações gravadas do minuto 00.06 ao minuto 07:23) […][3]
b) Por sua vez, I… (correspondente ao registo magnético-CD ) disse: […]
e) J… (correspondente ao registo magnético - CD) disse: […]
e) Por sua vez, no que concerne ás testemunhas do Requerida F…, G… e K… (familiar) e L…, para além de estarem de relações cortadas com a Requerente, os seus depoimentos não têm qualquer força probatória, já que, essas testemunhas, já de si parciais, apresentaram versões idênticas. Muito colada à descrita nas peças processuais do Requerido e referiram todas pormenores idênticos. O que revela combinação prévia.
6.º Mais, na segunda parte do ponto 16 dos Factos Provados afirma-se que “tem uma incapacidade de 87%
(prova documental)”, que se impugna, e que deve ser considerado não provado, o que se requer, porquanto, Compulsados os Autos inexiste em parte alguma (Processo Principal, Apensos e no presente processo ) qualquer documento que comprova que o Requerido tem uma incapacidade de 87 % ,
Na verdade,
Dos documentos juntos nos Processos (fls. 1025, 1238, 1285, juntos ao Processo de Divorcio e fls. 54 e fls.
169 do presente Apenso de Atribuição de casa de morada de família) em parte alguma destes documentos consta que o Requerido tem 87% de incapacidade).
Pelo que, o aí constante é pura invenção e deve ser considerado Não Provado.
7.º Do exposto resulta, rigorosamente, que deve ser dado como NÃO PROVADOS os factos constantes da alínea A (FACTOS PROVADOS) dos itens 12, 14, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 34 (quando se refere ao Requerido), 35, e PROVADOS os factos constantes dos itens 1, 2, 3, 4, 5 , 6 e 7 (FACTOS NÃO PROVADOS), o que se requer,
8.º Assim, resultando não provados os factos vertidos nos itens 12, 14 , 16, 17, 18, 19, 20,21, 22, 23, 24 , 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 34 (quando se refere ao Requerido) , 35 (alinea A) dos Factos Provados) e Provados os constantes dos itens 1, 2, 3, 4, 5 , 6 e7 ( dos Factos Não Provados ), é forçoso concluir que
deve ser atribuída à Requerente a casa de morada de família , o que se requer ,
9.º Deste facto não advém qualquer prejuízo para o Requerido, já que, conforme depoimento prestado pelo seu pai M… existe uma casa devoluta, pertença deste, pronta a habitar, dispondo o mesmo de proventos suficientes para arrendar casa de habitação e, não querendo arrendar, de uma casa devoluta pronta a habitar, pertença do pai, e, atento os proventos (resultando do depoimento da Testemunha N… que a Requerente recebeu a quantia monetária entre 10 a 20 mil euros, correspondente a uma indemnização recebida da Companhia de seguros por óbito do seu pai que, conforme resulta provado na sentença de Divorcio (pontos 38 e 39 dos Factos Provados), foi pela Requerente utilizado para pagar dividas da oficina e os estudos do filho do casal, bem como as despesas de alojamento, alimentação e vestuário deste. As quantias recebidas a titulo de tornas , conforme Escritura de Partilha , junta a folhas 18 , dos presentes Autos , são as aí referidas e não outras ) e encargos da Requerente e Requerido é aquela quem mais precisa da casa de morada de família ( por todos , veja-se Acórdão do Tribunal da Relação do Porto de 9- 12-2004 , processo n.º 0436649 […].
10.º Da Litigância de má fé:
É sabido que a má - fé representa uma modalidade de dolo ou negligência grave que consiste na utilização maliciosa e abusiva do processo, traduzida, em ultima análise, na violação do dever de probidade imposta ás partes.
E apodar uma parte (no caso a Requerente) que, de boa consciência, carreou para os Autos a sua verdade, de litigante de má-fé é cercear o direito que a lei confere (art. 1793.º, n.º 1, do Código Civil) á casa de morada de família e coarctar o exercício na sua plenitude o direito á habitação, consagrada o direito á habitação, nos arts. 65.º e 66.º da CRP – Resulta do depoimento da Testemunha N… que a Requerente recebeu a quantia monetária entre 10 a 20 mil euros, correspondente a uma indemnização recebida da Companhia de seguros por óbito do seu pai.
Que, conforme resulta provado na sentença de Divorcio (pontos 38 e 39 dos Factos Provados), foi pela Requerente utilizado para pagar dividas da oficina e os estudos do filho do casal, bem como as despesas de alojamento, alimentação e vestuário deste.
As quantias recebidas a titulo de tornas, conforme Escritura de Partilha, junta a folhas 18, dos presentes Autos, são as aí referidas e não outras.
Acresce que, não tem qualquer fundamento o afirmado na douta sentença que “a Requerente, já sabendo que o Requerido tinha solicitado para si a casa de morada de família, não requereu que lhe fosse atribuído / adjudicado qualquer bem móvel onde pudesse residir, sendo certo que tal possibilidade lhe era conferida, e ainda porque tal bem existia, tanto mais que, já em momento posterior á partilha e á atribuição provisoria da casa de morada de família , o primeiro andar do prédio urbano onde reside a sua mãe , foi arrendado.”, por quanto, conforme se comprova com documento junto a fls. 1369 do processo principal ( divorcio ) , foi celebrado pela Requerente , irmãos e mãe , em 18 de Novembro de 2010 , contrato promessa de partilha , cuja genuinidade deste não foi posta em causa pelo Requerido.
Assim, é pura especulação do juiz a quo, sem qualquer fundamento fáctico ou jurídico de que a partilha foi efectuada como única forma de retirar do seu nome imoveis ou partes deles.
O Requerido nunca impugnou a genuinidade da Escritura de Partilha (junta a fls. 18), por falsa, nem provou
que as declarações nela ínsitas são falsas, como lhe competia nos termos do art. 376.º, n.º 1, do Código Civil, incumbindo-lhe o ónus da prova de que as declarações constantes da referida escritura de partilha são inverídicas, o que não alegou, nem logrou provar.
Acresce ainda que a oficina encontra-se encerrada, não por acção da Requerente, mas por ter sido encerrada pelo Ministério do Ambiente (conforme confirmou o pai do Requerido - vide depoimento supra do mesmo).
E ainda que, conforme documento junto a fls. 223 o RSI foi deferido á Requerente por reunir as condições de atribuição legalmente previstas.
Sendo, ademais, certo que só uma lide essencialmente dolosa ou negligentemente gravosa pode justificar uma condenação de uma parte como litigante de má - fé .
Não havendo, in casu, fundamento para aplicar á Requerente, que é uma cidadã no gozo pleno dos seus direitos, o ferrete de “ litigante de má-fé”, que indubitavelmente carrega uma marca estigmatizante.
Nestes termos e nos mais de direito, que não deixarão de ser proficientemente supridos, deve considerar- se que a Requerente no exercício do seu direito á casa de morada de família , agiu de boa -fé com observância dos deveres de cooperação e de probidade , sendo –lhes inaplicáveis as disposições cominatórias do art. 542.º e 543.º do C.P.C. , que deve ser totalmente absolvida , inclusivamente , indemnização , que , sem prescindir , é absurda e manifestamente exagerada.
Aliás, quem deve ser condenado como litigante de má - fé, conforme requerido nos Autos é o Requerido que sempre negou a existência de uma casa, pertença do pai, e que se encontra devoluta e pronta a habitar, o que se requer.
Estando, ademais, a interpretação dada na decisão em recurso ora em recurso ao art. 543.º do C.P.C., ferida de inconstitucionalidade, por violação dos princípios da segurança jurídica e da confiança do cidadão emanada do Estado de Direito Democrático, na vertente do Estado de Direito, consagrado no art. 2.º da C.R.P.
11.º A sentença recorrida não fez a correcta análise e aplicação do normativo aplicável in casu ( art. 1793.º , n.º 1 do Código Civil ) , e, por isso, deve ser revogada e substituída por Acordão, pelo qual seja atribuída á Requerente B… a casa de morada de família ( identificada no art. 11.º da Petição Inicial ) , dando o Tribunal a mesma de arrendamento á Requerente, conforme explicitou no art. 20.º da Petição Inicial.
Termos em que,
Com o douto suprimento de Vossas Excelências, Deve ser concedido provimento ao presente recurso, julgando-se procedentes as Conclusões 1.º a 11.º, como é de JUSTIÇA.
O recorrido respondeu às alegações de recurso, concluindo:
I – Não existem filhos menores ou maiores do dissolvido casal, que com eles residam, facto dado como provado sob o ponto 33 da D. Sentença em recurso.
II - A casa de morada de família é bem próprio do requerido, conforme factos provados sob o ponto 15 da D. Sentença em recurso.
III – O recorrido, tem como única fonte de rendimento a quantia mensal de €109,59 proveniente de pensão que lhe foi deferida pela Segurança Social o que resulta do ponto 11 da D. Sentença em recurso.
IV. Provado mostra-se também que a recorrente, trabalha, auferindo rendimento da sua actividade que
embora não concretamente apurada é de pelo menos equivalente a um salário mínimo nacional, facto que havia já sido provado da decisão que indeferiu o pedido de alimentos provisórios e do facto dado como provado sob o ponto 35 da D. Sentença que decretou o Divórcio.
V. O recorrido é doente oncológico, seguido no Instituto Português de Oncologia do Porto, conforme documentos juntos aos presentes autos com o requerimento ref. 18947837 datado de 02/03/2015, bem como os factos assentes constantes da ata de Audiência Preliminar junto à acção de Divórcio com a ref.
4651970 de 10/02/2012 e possui incapacidade de 87%, conforme declaração da testemunha K… […].
VI. A situação de stress profundo a que está constantemente sujeito é susceptível de recidiva no seu estado de saúde e como tal capaz de colocar em risco ainda maior a vida do recorrido do que a que já existe, facto vastamente documentado nos autos de Divórcio e ainda do documento junto pelo requerido com o requerimento com a ref. 18947837 de 02/03/2015.
VII. Importa ainda referir que o recorrido estava e está sujeito a constantes insultos por parte da recorrente, apodando esta o recorrido de “aleijadinho”, “não vales nada seu tisico”, “andas para ai a morrer aos bocadinhos”, cagalhão seco”, “tisico”, “chulo” e “ladrão e ainda ameaças referindo “vou-te tirar a tosse” e referindo que um dia destes o irmão o apanhava sozinho e nunca mais se ia levantar, factos que foram também dados como provados e cujo transito ocorreu relativamente á D. Sentença que decretou o divórcio sob os pontos 16, 18, 52 e 53.
VIII. Tais factos não cessaram, antes persistindo, quer relativamente ao recorrido, quer relativamente aos pais deste, pessoas de idades avançadas e que cada vez que a recorrente os encontra no passeio ou os vê no quintal traseiro das moradias, de imediato os insulta e apelida de “velhos caquécticos” e ao pai do requerido ainda de “múmia velha”.
IX. A ora recorrente foi já condenada como litigante de má-fé, em multa ao Tribunal e no pagamento dos honorários á parte contrária, no incidente de alimentos provisórios.
X. Foi efectuada na pendência da acção de divórcio e da atribuição temporária da casa de morada de família, uma “partilha” que atribuiu á mãe da requerente, todos os imóveis que constituíam património da herança do falecido pai da recorrente.
XI. O objectivo da dita partilha foi apenas e tão só fazer crer ao Tribunal que não possuía bens imóveis para onde fosse residir, facto que sempre foi desvalorizado, em virtude dos imóveis em causa serem na prática bens que permitiam e permitem que ali a requerente possa residir, tanto mais que a sua mãe reside sozinha em imóvel sito no rés-do-chão, perfeitamente independente do primeiro andar, possuindo o dito rés-do-chão, uma sala, uma cozinha, três quartos, um WC, um banho e um arrumo e no 1.º andar existe uma cozinha, dois quartos, uma sala e um banho, possuindo ainda o imóvel no exterior duas garagens, um arrumo para ferramentas e outro arrumo para objectos diversos.
XII. A que acresce existir outro imóvel (moradia), que ficaria habitável logo que reparado o telhado e colocados/substituídos alguns caixilhos, o que a recorrente poderia ter feito com pouco valor tendo por referência o que recebeu na indeminização e da “partilha” que está já provado nos autos ter recebido em 2010.
XIII. Nunca o tendo feito, porque pretende apenas uma situação de clara afronta e litigio com o recorrido e familiares deste, mormente seus pais, dado que a casa onde este se encontra a residir provisoriamente é
paredes meias com a que a recorrente se encontra a residir provisoriamente, o que resulta também dos factos provados na Sentença de Divórcio sob os pontos 50 e 51.
XIV. Os imóveis referidos supra e identificados no relatório de peritagem, distam cerca de 4.350m do local onde se situa a casa que está a ser usada pela recorrente e que é bem próprio do recorrido.
XV. Entre recorrente e recorrido é impossível qualquer contacto, tendo este já em 2011 sido alvo de agressão física perpetrada pela recorrente, que lhe provocou um golpe profundo no crânio do recorrido (suturado com 4 pontos), golpe profundo na face (suturado com pontos), um golpe profundo no punho, direito (suturado com 2 pontos), um golpe profundo no punho esquerdo (suturado com 2 pontos), conforme facto já provado na Sentença de Divórcio sob o ponto 37, tendo a recorrente sito condenada, numa pena de seis meses de prisão, substituída por cento e oitenta dias de multa, à taxa diária de €6,00, no montante de €1.080,00 e tal decisão sido confirmada pelo Tribunal da Relação do Porto no Ac. proferido no Proc.
396/11GAVCD.P1 de 03/11/2014, transitada em julgado.
XVI. Fruto das agressões e insultos constantes, o recorrido viu-se obrigado a sair de casa e dado que sentia receio fundado pela sua vida, intentou pedido de atribuição temporária da casa de morada de família, tendo-lhe sido negada dado que então entendeu o Tribunal que o recorrido auferia um rendimento da sua actividade de empresário superior ao da mulher, facto que pese embora mal decidido, não foi possível ser alterada decisão, dado que o Tribunal da Relação entendeu que tal incidente não era passível de recurso.
XVII. Após a data de atribuição temporária da casa de morada de família e porque o recorrido possuía a sua oficina nas traseiras da casa e cujo acesso é feito por um local comum ao acesso à casa, a recorrente passou a deixar o veículo que utiliza estacionado no dito acesso, obstruindo o acesso à oficina, bem como a colocar um tanque de lavar a roupa a obstruir o portão da dita oficina, conforme pontos 40 e 41 já dados como provados na D. Sentença que decretou o Divórcio.
XVIII. Após ter alterado o contador da luz para seu nome, a recorrente, solicitou a alteração da rede eléctrica do interior da casa, privando/cortando o fornecimento de energia eléctrica à garagem e à referida oficina, factos também já dados como provados no ponto 47 da D. Sentença que decretou o Divórcio, tendo contratado um contador com potência trifásica (como se mantém actualmente), conforme Docs. de fls 709 do processo principal, dado que de outra forma não pode trabalhar com as máquinas de costura de elevada potência.
XIX. Os factos praticados pela recorrente resultaram no encerramento da oficina e impossibilitam o recorrido de poder exercer a sua actividade por si – quando o seu estado o permite – ou por interposta pessoa que este mediante supervisão ali pudesse trabalhar.
XX. Após sair de casa, foi residir de forma provisória e em condições precárias na casa de sua irmã, onde também residem seus pais e dois sobrinhos, tendo um destes disponibilizado o seu quarto ao tio e estando a dormir no sofá da sala.
XXI. O recorrido logrou demonstrar e provar que a recorrente, se mantém actualmente a trabalhar, como sempre fez razão pela qual contratou e assim mantém com contador de luz trifásico para que as máquinas de costura que utiliza possam funcionar, auferindo rendimentos da sua actividade de costureira e modista, dado que se assim não fosse, não poderia proceder ao pagamento das despesas que possui mensais e bem assim deslocar-se diariamente no veículo de utiliza de marca Mercedes e frequentar semanalmente
cabeleireira.
XXII. Na atribuição da casa de morada de família a um dos cônjuges, ou do direito ao arrendamento, haverá o Tribunal de atender em primeira linha, às necessidades de cada um dos cônjuges e ao interesse dos filhos do casal e não existindo filhos menores ou que ali residam, poderá o tribunal, existindo dúvidas, atender a outras circunstâncias secundárias, devendo todavia dar especial relevo à propriedade da casa, pois se ela pertencer a um ex. cônjuge só no caso de este não ficar em situação económica que não lhe permita encontrar habitação é que será de estabelecer a relação de arrendamento a favor do outro ex.
cônjuge.
XXIII. Aqui resulta de forma clara que o recorrido possui uma necessidade, vista como interesse manifestamente superior, pela utilização da casa de morada de família, atentas as condições provisórias em que se encontra na casa de seu cunhado e dada a composição da mesma, a que acresce a possibilidade de poder exercer uma profissão, por si ou intermédio de terceiros, na sua oficina que se encontra encerrada e cujo exercício de qualquer actividade é impedido pela recorrente, bem como de possuir um rendimento exíguo, fruto do acima descrito e um estado de saúde que obriga a possuir condições de poder livremente usar WC e bem assim estar em ambiente e espaço condigno com a sua situação, inexistindo filhos menores e a casa de morada de família ser bem próprio dele.
DA CONDENAÇÃO COMO LITIGANTE DE MÁ-FÉ:
XXIV. A condenação como litigante de má-fé da recorrente é adequada, justa e devidamente efectuada, não só porque a conduta processual da requerida é manifestamente contrária aos princípios da boa-fé, alterando factos e omitindo outros, como pratica actos em juízo que apenas visam entorpecer a acção da justiça e dos tribunais.
XXV. A D. Sentença nessa parte é também clara e devidamente fundamentada no que concerne aos actos e factos que a recorrente ao longo dos anos e dos presentes autos se permite ir fazendo.
XXVI. Invocando arrendamentos de imóveis que nunca estiveram arrendados, pese embora isso pretendendo provar com a junção de um denominado contrato de arrendamento sem que alguma vez tal contrato tenha sido sujeito ao pagamento do imposto de selo, dado que se o tivessem apresentado para pagamento de tal imposto, iria verificar-se que a data do mesmo não tem, ou alguma vez terá correspondência com a realidade, tendo apenas sido elaborado como mera tentativa de ocultar locais onde possa residir, não obstante a sua mãe com 78 anos de idade, com quem tem bom relacionamento, residir sozinha em casa com anexos e garagem, estando a habitação desta do rés-do-chão, dotada de três quartos.
XXVII. Ocultou de forma deliberada rendimentos que aufere da sua actividade como costureira e modista, dado que de outra forma nem sequer poderia com € 178,15 mensais de RSI efectuar o pagamento de água, luz (contador trifásico, gás, calçado, alimentação e ainda abastecer um veiculo de marca Mercedes que utiliza de forma diária, nem podendo frequentar cabeleireira semanalmente).
XXVIII. Ocultou, ou assim tentou, a existência de local onde poderia residir, tanto mais que existem bens imóveis com tipologia para tal, que de forma oportunista foram adjudicados à mãe da recorrente, mediante uma “partilha” que nem sequer faz sentido dadas as boas relações que entre todos os irmãos e mãe da
recorrente existe.
XXIX. Ocultou o recebimento de quantias elevadas de tornas (facto provado sob o ponto 9 da Sentença que decretou o Divórcio) e procedeu ao levantamento de uma quantia de €18.000,00 da conta do casal (facto provado sob o ponto 8 da Sentença que decretou o Divórcio), não se coibindo de ocultar esse facto na P.I. e nas demais peças que apresentou.
XXX. Conjugado o depoimento prestado pela mãe da recorrente no dia 14/04/2016, de onde aliás resultou um pedido pelo Tribunal de extracção de certidão para efeitos de falsas declarações, dado o teor do mesmo, e, em tal depoimento a mãe da requerente ter referido a final que, todos os documentos e contratos, desde sempre saiam do escritório do mandatário da requerente, se afere que o contrato promessa de partilha, efectuado entre mãe e irmãos da requerente cujo relacionamento é bom, facto confirmado por todos eles, não se percebendo o porquê de tal contrato promessa, excepto se visou uma tentativa de justificar a colocação de uma data (poucos meses antes da escritura) que visava apenas afastar a presunção de que a escritura havia sido efectuada na pendência do pedido de atribuição temporária da casa de morada de família, somente como forma de afastar a alegação do requerido, que a mesma possuía bens imóveis em seu nome, embora em comum e sem determinação de parte ou de direito.
XXXI. Não se bastando com tudo o que ao longo dos anos vem fazendo, a requerente nos presentes apensos permitiu-se em 20/03/2014 mediante o requerimento com a ref. 16302542 juntar um documento denominado “contrato de arrendamento”, que impugnado, se veio a verificar mais uma vez, um estratagema que se não consegue sequer perceber.
XXXII. Com efeito, peticionado ao competente serviço de finanças que informasse se tal “contrato” havia sido sujeito ao pagamento do imposto de selo, por forma a aferir a data em que havia sido celebrado, foi verificado que nunca tal pagamento havia ocorrido, nem tão pouco nos anos anteriores – contrário aos que as testemunhas da requerente haviam proferido nos demais processos – existia nas declarações de rendimentos da mãe da requerente qualquer menção de existirem rendimentos a título de renda.
XXXIII. Nunca tal imóvel esteve arrendado, muito menos à pessoa que ali consta, sendo este alguém das relações de trabalho como empregado e já do falecido pai da requerente e com quem os seus irmãos se dão bem, fazendo tal pessoa trabalhos para o irmão da requerente como trolha conforme confessa a outra testemunha e também irmão da requerente N… ao minuto 40:45 ao minuto 42:40 do dia 14/04/2016 bem como a mãe desta ao minuto 43:10 ao minuto 44:00 e minuto 51:00 ao 54:00 do mesmo dia.
XXXIV. Das informações solicitadas ao Serviço de Finanças (AT) relativamente ao dito “inquilino” resulta claro que a morada deste sempre foi em local diverso da que consta do contrato e inexiste contador de água e luz separado do rés-do-chão, ou seja a versão da requerente era a de que, existe um inquilino que paga €200,00 mensais de renda por um andar moradia composto por uma cozinha, dois quartos, uma sala e um banho e nesse valor se mostra incluído o valor de água e luz é absolutamente falsa e mais não é do que outro expediente usado pela requerente para tentar justificar que não existe local para onde ir residir.
Assim, compulsados os autos na sua totalidade, bem decidiu o Tribunal A Quo pela condenação da recorrente na entrega do imóvel ao recorrido e bem assim atenta e sua postura nos autos, a condenação como litigante de má-fé não violando a Sentença em causa quaisquer disposições legais, quer do Código
Civil, do Código de Processo Civil e muito menos normativos constitucionais, como se prepara a recorrida já para alegar e protelar a entrega do imóvel, mostrando-se devidamente fundamentada e ancorada na prova produzida, não sendo merecedora de reparo.
Nestes termos e nos melhores de Direito aqui aplicáveis e, sempre com o Mui Douto Suprimento de V.
Exas, deve o recurso interposto pela requerente e também requerida improceder totalmente, mantendo-se a D. decisão proferida.
Assim se fazendo, inteira justiça que há muito busca o recorrido.
II. Do mérito dos recursos
1. Definição do objeto dos recursos
O objeto dos recursos delimitado pelo recorrente nas conclusões das suas alegações (artigos 635.º, n.º 3 e 4 e 639.º, nºs 1 e 3, ambos do Código de Processo Civil), salvo questões do conhecimento oficioso (artigo 3.º, n.º 3, do diploma legal citado), consubstancia-se nas seguintes questões:
i) apreciação do recurso interposto sobre o despacho de 14.04.2016, que não admitiu a junção de documentos para prova do artigo 14.º da petição;
ii) apreciação do recurso interposto sobre o despacho de 22.06.2016, que não admitiu a junção de documentos (certidão de processo crime) como fundamento de impugnação do depoimento da testemunha F…;
iii) apreciação do recurso sobre a sentença final:
a) apreciação da impugnação da decisão da matéria de facto;
b) reponderação do mérito jurídico da sentença, com base na factualidade definitivamente fixada;
c) apreciação do recurso sobre a condenação por litigância de má fé.
2. Apreciação do 1.º recurso
Na sessão de 14.04.2016, da audiência final, requereu a autora a junção de documentos para prova do artigo 14.º da petição[4], referindo que se trata de correspondência remetida para o arrendatário de D…
(mãe da autora), E…, que comprovam que em 18-3-2016 a casa sita na Rua …, n.º …, …, Vila do Conde, continua a ser residência de E….
Tal requerimento foi indeferido através do seguinte despacho proferido em ata:
«A junção dos documentos que agora se requer, conforme o alegado pelo requerente, tem como objectivo a prova de parte da matéria factual inserta, do art.º 14º da P.I..
Tendo em consideração a data constante do selo postal constante dos documentos cuja junção se requer - 18/03/2016 - constata-se que a requerente não poderia ter entregue este meio de prova com o articulado da P.I..
Podia, todavia, ter apresentado os documentos dentro do prazo do n.º 2 do mesmo normativo, o que não o fez, motivo pelo qual se indefere a junção dos documentos agora requeridos.
Acrescenta-se ainda, que no requerimento de junção de prova documental agora apresentado, bem assim como dos depoimentos prestados em sede de audiência de discussão e julgamento, para se fazer-se prova da matéria invocada na pretensão, os documentos em causa e respectiva junção não resultam
necessariamente do ocorrido posteriormente aos articulados ou ao prazo do n.º 2, desde logo e porque no referido art.º 14º, já é alegado o arrendamento, não havendo notícia que o arrendatário seja distinto.».
Não se conformou a autora e interpôs recurso de apelação, apresentando alegações, findas as quais formula as seguintes conclusões:
1.º No processo de jurisdição voluntária, como é o caso dos Autos (Atribuição da Casa de Morada de Família), o juiz não está limitado quanto à admissão de prova documental ao disposto no art. 423.º , do C.P.C., conforme resulta do art. 986.º , n.º 2 do C.P.C..
2.º Os documentos (correspondência recebida, remetida para o arrendatário E…), não admitidos pelo Tribunal a que são os que agora se juntam e que fazem parte integrante do presente recurso, constituem informações para o Tribunal (cfr. art. 986,n.º2, do C.P.C.) e são supervenientes e interessam á boa decisão da causa, comprovando os mesmos que, pelo menos, em 18-3-2016, a Rua …, n.º …, …, Vila do Conde, continua a ser a residência do arrendatário referido supra , sita no … andar do prédio pertencente a D…, que no contrato de arrendamento junto a fls. outorga como arrendatário do referido 1.º andar.
3.º Pelo que, é aplicável in casu , o disposto no art. 986º , n.º 2 do C.P.C. e não o disposto no art. 423.º , n.º 2 do C.P.C., como se fez no despacho recorrido, que deve ser revogado e substituído por outro que admita esses documentos, o que se requer.
4.º O despacho recorrido violou o disposto no art. 986.º , n.º 2 do C.P.C. Termos em que ,
Deve ser concedido provimento ao presente recurso, julgando-se procedentes as conclusões 1.º a 4.º, substituindo-se o despacho que não admitiu os documentos referidos supra e juntos a seguir por Acórdão que revogue este e admita os mesmos, como é de JUSTIÇA.
Cumpre decidir.
A recorrente suporta a sua pretensão no facto de o presente processo ter natureza de jurisdição voluntária.
O regime processual dos processos de jurisdição voluntária encontra-se previsto nos artigos 986.º, 987.º e 988.º do Código de Processo Civil, sintetizado pelo Professor Manuel Domingos de Andrade[5] pela prevalência de quatro princípios: a) princípio do inquisitório (1409.º, n.º 2); b) predomínio da equidade sobre a legalidade (659.º, n.º 2, in fine); c) livre modificabilidade das decisões ou providências (1411.º, n.º 1); d) inadmissibilidade de recurso para o Supremo (1411.º, n.º 2).
Como já ensinava o Professor José Alberto dos Reis[6], no exercício da jurisdição voluntária, o tribunal pode livremente investigar os factos, coligir as provas e recolher as informações que julgar convenientes para uma boa resolução (…). O material de facto sobre que há-de assentar a resolução, é não só o que os interessados ofereçam, mas também o que o juiz conseguir trazer para o processo pela sua própria actividade (…). O juiz dispõe de largo poder de iniciativa, o mesmo sucedendo quanto aos meios de prova e de informação (…)».
Refere ainda o Professor citado, para ilustrar a menor rigidez de procedimentos nesta jurisdição:
«Dispensa-se a forma articulada, quer para a dedução dos fundamentos do pedido, quer para a dos fundamentos da impugnação ou resposta».
Por sua vez, o Professor Antunes Varela[7] traça a distinção entre jurisdição voluntária e contenciosa, através de um critério de grande objectividade e clareza: «Nos processos de jurisdição contenciosa, há um conflito de interesse entre as partes (…), que ao tribunal incumbe dirimir, de acordo com os critérios
estabelecidos no direito substantivo. Nos processos de jurisdição voluntária há um interesse fundamental tutelado pelo direito (…) que ao juiz cumpre regular nos termos mais convenientes».
Definidas as regras da jurisdição voluntária, concluímos que a tramitação dos processos desta natureza, é campo privilegiado da aplicação do princípio do inquisitório, de acordo com o ensinamento do Professor Antunes Varela[8]: «Em vez da obediência a regras normativas rígidas (…) vigora a liberdade de opção casuística pelas soluções de conveniência e de oportunidade mais adequadas a cada situação concreta.
Prevalência por conseguinte, da equidade sobre a legalidade estrita».
No entanto, da natureza do regime processual que se definiu, não se conclui, sem mais, que o Tribunal deve aceitar todos os meios de prova propostos, mas apenas aqueles que possam ser relevantes para a descoberta da verdade.
Acontece que a recorrente acabou por juntar aos autos (fls. 279 e 282) as fotocópias que pretendia, de envelopes, dirigidos a E…, à morada referida, com data de carimbo ilegível, um proveniente do que nos parece ser “Prioritário” e outro de “O…, Lda”.
Terão alguma relevância estas fotocópias?
É mais fácil, neste momento, no confronto dos meios probatórios, concluir pela relevância, ou não e consequente indispensabilidade, ou não da junção dos documentos aludidos.
Tal raciocínio assume-se como absolutamente necessário, considerando as consequências da eventual anulação do julgamento, face ao disposto no artigo 130.º do CPC, que expressamente proíbe toda a prática de atos processuais inúteis.
Ora, a testemunha N…, a quem foi colocada a questão do arrendamento pelo Ilustre Mandatário da ora recorrente, respondeu assim (08:30):
- «Está alugada a quem?
- A um E…?»
- Este E… está atualmente a habitar ou não?»
- Quer dizer, ele agora está na Alemanha mas quando regressa vai para lá e ele paga as rendas».
Foi solicitada informação sobre a residência fiscal do referido E…, a qual consta de fls. 179, prestada em 14.05.2015 pela Autoridade Tributária e Aduaneira, nestes termos: «Consultada a base de dados de registo de contribuintes, na presente data, tem como residência fiscal a Rua …, n.º …, ….-… …».
Mais consta que «o sujeito passivo esteve colectado na actividade de “outros prestadores de serviços – CIRS”, entre 2011-03-01 a 2014-12-31».
Em suma, a morada não corresponde àquela que alega a recorrente.
Face ao exposto, não merece censura o despacho recorrido, na medida em que a documentação que se pretendia juntar (o que a recorrente acabou por fazer) em momento extemporâneo não justificava a aplicação do regime especial de aquisição de prova previsto para os processos de jurisdição voluntária.
Decorre do exposto a improcedência do recurso.
2. Apreciação do 2.º recurso
Na sessão de 22.06.2016, da audiência final, requereu a autora a junção de documentos (certidão de
processo crime) como fundamento de impugnação do depoimento da testemunha F… (art.º 514.º do CPC).
Alegou em síntese, que a referida testemunha foi condenada a pagar uma indemnização (€150,00) à recorrente, estando de relações cortadas com esta, pelo que deveria ser impedida de depor.
Tal requerimento foi indeferido através do seguinte despacho proferido em ata:
«Face aos fundamentos apresentados pela testemunha, bem com à sua confissão dos factos, os quais que fundamentam a impugnação do depoimento desta testemunha, desde já se determina a inexistência de qualquer necessidade de ser junto aos autos qualquer documento, bem como qualquer meio de prova, susceptível de sustentar o peticionado pelo Ilustre mandatário requerente, encontrando-se este Tribunal desde já de proferir decisão, nos termos do n.º 2 do referido normativo.
Foi invocado o impedimento de depor desta testemunha, por banda da requerente, alegando para o efeito e de forma sumariamente os fundamentos que infra se expõem:
- Ter sido esta testemunha obrigada/condenada, no âmbito de um processo crime, a pagar a quantia de
€150,00, a título de indemnização à requerente B…, e por via de tal facto;
- A testemunha está de relações cortada com a requerente.
Foi dado cumprimento ao n.º 1 do art.º 515º do CPC, tendo a testemunha confessado ambos os factos que lhe são imputados e que fundamentam o agora suscitado.
Estabelece o art.º 495º, n.º 1 do CPC, quais as pessoas que têm capacidade de depor como testemunha.
Constata este Tribunal, e tal não foi alegado no sentido contrário, que a testemunha F…, revela capacidade para depor como testemunha, tendo desde já sido advertida das consequências da quebra do juramento que prestou enquanto testemunha a inquirir, e tendo a mesma dito que as tinha compreendido e estava ciente das mesmas.
Face ao exposto, e porque se entende que inexiste qualquer fundamento para proceder o peticionado pela requerente e ainda porque se entende que esta testemunha revela capacidade para depôr enquanto tal, indefere-se a impugnação apresentada, procedendo de imediato à inquirição da testemunha.
Custas do incidente pela requerente em 2UC`s.».
Não se conformou a autora e interpôs recurso de apelação, apresentando alegações (com as quais aproveitou para juntar o documento rejeitado no despacho recorrido – fls. 380 a 450), formulando as seguintes conclusões:
1.º No processo de jurisdição voluntária, como é o caso dos Autos, o Tribunal não está limitado aos factos alegados pelas partes e pode investigar livremente e considerar para efeitos de decisão, factos que não constem das peças processuais, podendo recolher as informações convenientes, como resulta do art. 986.º , n.º 2 , do C.P.C.
2.º Ou seja, não está limitado aos critérios do art.º 423.º do C.P.C.
3.º Com os documentos (que ora se juntam) e que em 22-6-2016, não se encontravam na posse da Requerente, e que agora fazem parte integrante do presente recurso, e, que o Tribunal a quo não admitiu, 4.º Constituem informação para o Tribunal e interessam á boa decisão da causa
5.º Que em face do depoimento prestado pela Testemunha G… abalam a credibilidade da mesma, quer por afectar a razão da ciência invocada pela Testemunha, quer por diminuir a fé que ela pudesse merecer, Com efeito,
6.º Questionada a cerca das condenações a que o Requerido C… foi sujeito, o mesmo mentiu descaradamente ao Tribunal, negando (apesar de bem saber que era mentira o que afirmava), que o mesmo tinha sido condenado pela prática de um crime de ofensa á integridade física simples, na pessoa da Requerente / Recorrente B…, e pela prática de um crime de injuria , na pessoa desta , e , ainda , numa indemnização a favor desta no montante de €350,00 (trezentos e cinquenta euros) , acrescido de juros desde a notificação até efectivo pagamento,
7.º Permitindo o confronto desta testemunha com esta sentença abalar a credibilidade do seu depoimento, quer por afectar a razão de ciência invocada pela Testemunha, quer por diminuir a fé que ela pudesse merecer.
8.º E, por isso, deve o referido documento (composto por Sentença e Acórdão) ser admitid,
9.º Revogando-se o referido Despacho e substituindo-o por Acórdão que ordene a repetição da prova, e, consequente anulação do julgamento da matéria de facto, por forma a que a referida Testemunha seja confrontada com o referido documento (composto por sentença e Acórdão), nos termos do art. 521.º do C.P.C., o que se requer.
10.º A sentença recorrida violou e interpretou erroneamente o disposto nos arts. 986.º, n.º 2 e 521.º, todos do C.P.C..
Termos em que,
Deve ser concedido provimento ao presente recurso, julgando-se procedentes as conclusões 1.º a 10.º, inclusive, como é de JUSTIÇA.
Ouvimos o depoimento da testemunha, que confessou sem reservas o facto alegado, declarando: que foi testemunha do recorrido noutro processo; que a recorrente a insultou por essa razão; que ela (testemunha), em resposta, também insultou a recorrente; que pagou a referida indemnização em três tranches de €50,00[9].
Face ao exposto, não podemos deixar de concordar com a decisão da Mª Juíza, nada impedindo a testemunha de depor (nem sequer o facto de estar de relações cortadas com a recorrente) sem prejuízo de tal facto dever ser levado em conta na ponderação da credibilidade do depoimento.
Decorre do exposto a manifesta improcedência do recurso.
4. Recurso da matéria de facto
4.1. Definição da factualidade sobre a qual incide a divergência Alega o recorrente, quanto à delimitação da decisão da matéria de facto:
«3.º Impugna-se a matéria de facto e invoca-se erro na apreciação da prova, relativamente ás respostas dadas á matéria da alínea A (Factos Provados), itens 12, 14, 16,17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 34, 35 e aos itens 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7 dos Factos Não Provados.».
Salvo todo o respeito devido, a recorrente segue uma prática, infelizmente muito habitual nos nossos tribunais: discorda da quase totalidade da decisão da matéria de facto, argumenta com a invocação deste ou daquele depoimento, e não faz qualquer análise crítica da prova, fazendo absoluta tabua rasa da motivação do Tribunal.
Ou seja, para a recorrentes, a motivação aduzida pela Mª Juíza não merece, sequer, confronto crítico, como
se não existisse, como se a impugnação da decisão pudesse prescindir dessa análise lógica baseada no confronto de argumentos.
Ora, como se refere no acórdão do STJ, de 22.10.2015 (processo n.º 212/06.3TBSBG.C2.S1, acessível no site da DGSI), a impugnação da decisão da matéria de facto não visa propriamente um novo julgamento global da causa, mas apenas uma reapreciação do julgamento proferido pelo tribunal a quo com vista a corrigir eventuais erros da decisão recorrida.
Vejamos a factualidade objeto da divergência:
Facto provados:
12 - A requerente sempre trabalhou, como se mantém atualmente a trabalhar em casa e a receber clientela que possui e que ali se desloca para efetuarem arranjos de costura, mediante pagamento.
14- O imóvel em que reside sozinha a sua mãe, é uma vivenda que dista cerca de três ou quatro quilómetros em linha reta da casa de morada de família que pretende ver ser-lhe atribuída, composto por dois andares independentes entre si e em casa da sua mãe, existem quartos disponíveis e todas as condições de habitabilidade.
16- O requerido padeceu de doença oncológica e tem uma incapacidade de 87%.
17-O requerido tem como despesas e só de farmácia, uma média mensal de €60,00 (prova documental), a que acrescem consultas e exames médicos (prova documental), sem prejuízo das demais despesas necessárias ao mínimo da sua subsistência, estando a ser ajudado por seus pais.
18- O requerido não tem outro local para residir senão a casa de morada de família, dado que o local onde se encontra provisoriamente a residir e para onde teve que se refugiar, não possui condições para o receber de forma permanente, ou por mais tempo.
19- O requerido após a grave agressão de que foi alvo em 03/05/2011, perpetrada pela requerente, viu-se obrigado a ter que sair de casa pois estava em risco a sua vida (facto já dado como provado na Sentença de Divórcio sob o ponto 36) e constante da prova fotográfica junta na Audiência de partes do incidente da atribuição da casa de morada de família).
20- O único sitio para onde pôde ir provisoriamente residir foi a casa de sua irmã que é contigua e paredes meias á sua casa de morada de família.
21- Na casa de sua irmã, onde o requerido reside, residem para além da irmã e cunhado, os pais do requerido e dois sobrinhos já adultos.
22- A casa não dispõe de número de quartos suficientes para acolher o requerido, de forma permanente, razão pela qual um dos sobrinhos, atenta a situação do tio, lhe “emprestou” provisoriamente o seu quarto estando a dormir num sofá.
23- O requerido, é doente oncológico e toda esta situação está a agravar o seu estado psicológico. “…dado haver exposição permanente a um stress ambiental crónico e ainda sem resolução à vista. De acordo com o estado da arte atual e em termos científicos, está provado haver um risco não negligenciável de recidiva da sua doença oncológica mercê de um estado emocional permanentemente alterado,…” “Á data da última consulta estava medicado … com doses crescentes e ainda sem melhoria clinica significativa”), conforme resulta do relatório médico junto aos autos com a ref. 10589314 de 29/06/2012).
24- A requerente sempre que vê o requerido na rua ou no quintal da casa de sua irmã, continua a dirigir-
lhe epítetos, os quais em concreto não foram possíveis de concretizar, dizendo-lhe, designadamente,
“nunca mais morres”, ou “cagalhão seco”.
26- Mesmo antes, mas de forma total após ter sido atribuída provisoriamente à requerida a casa de morada de família, esta passou a colocar o veículo automóvel que utiliza em exclusivo, no acesso à oficina do requerido.
27- Impedindo o acesso de veículos e a perda de clientela por parte deste.
28- Bem como passou a colocar o tanque de lavar a roupa em frente ao portão da oficina o que impedia também a entrada e saída de veículos.
29- A requerente cortou a energia elétrica para a oficina e cujo quadro se encontra dentro da casa impedindo assim de forma cabal, que este pudesse mais ali laborar.
30- O requerido está privado de poder manter a oficina e atividade que possuía por factos praticados pela requerente.
31- A requerente continua a ameaçar o requerido, dizendo que lhe vai tirar a tosse.
32- A requerente recebeu tornas das partilhas efetuadas, no valor de cerca de 10 ou 20 mil euros.
34- Requerente e requerido não têm qualquer outro imóvel, para além da casa de morada de família.
35- A requerente, para além de arranjos de roupa, confeciona conjuntos completos de saia e casaco, vestidos de noite ou para ocasiões e eventos especiais, camisas e demais vestuário feminino, sendo por toda a freguesia e freguesias limítrofes, tida como boa profissional e de elevado requinte técnico nas peças que confeciona.
Factos não provados:
1- A Requerente encontra-se, atualmente, numa situação de grave carência económica, não conseguindo, pelos seus próprios meios, ser garantida a satisfação das suas necessidades básicas.
2- O valor do RSI que é o único rendimento que, atualmente, dispõe, estando a passar fome, por isso.
3- Não exerce qualquer atividade remunerada, já que, por falta de clientela, em virtude da crise económica no nosso país, deixou de fazer trabalhos de costura.
4- A casa de habitação inscrita no artº. 373.º da matriz urbana de … (pertença de D…), está em ruinas e totalmente inabitável.
5- A casa de habitação inscrita no art.º 632.º da matriz urbana de … (pertença de D…) , encontra-se uma parte arrendada por esta, já que necessita de obter rendimentos para prover à sua subsistência.
6- O único rendimento de que, atualmente, a requerente dispõe é o de €178,15 / mês, proveniente da prestação social de inserção.
7- O requerido aufere mensalmente, no exercício da sua atividade de mecânico, quantia não inferior a
€1.000,00 / mês (mil euros/mês), fazendo alguns trabalhos, designados por “biscates”.
4.2. A fundamentação do Tribunal
A Mª Juíza fundamentou a sua convicção, da forma exaustiva e bem sistematizada que se transcreve parcialmente:
«A factualidade apurada, resulta da análise conjugada dos diversos meios de prova carreados para os autos, quer documental, e que foram sendo referidos supra, na factualidade considerada provada, quer
testemunhal.
As testemunhas arroladas pelas partes e inquiridas em sede de audiência de discussão e julgamento, tiveram um papel preponderante na decisão a proferir, na medida em que esclareceram a factualidade alegada pelas partes e que constitui objeto destes autos.
Assim, a testemunha H…, manteve tudo o que consta do relatório pericial por si apresentado a fls. 119, esclarecendo que quando efetuou a visita ao imóvel referido em 3 do seu relatório (casa habitada no rés do chão pela testemunha D…, mãe da autora), existiam indícios do local estar habitado, quer o r/ch, quer o primeiro andar, existindo neste ultimo fruta em cima da mesa. Referiu que nos arrumos e garagens havia ferramentas.
As testemunhas I… e N…, ambos irmãos da requerente B… prestaram depoimentos que o tribunal não reputou de totalmente isentos, na medida em que a versão factual apresentada por ambos era notoriamente no sentido esforçado de sustentar a versão apresentada pela requerente de que a sua situação financeira era débil, dependendo a sua sobrevivência, apenas de um montante que recebe mensalmente proveniente do RSI e que era com esse montante de menos de 180 euros que a requerente fazia face a todas as despesas, designadamente com a manutenção da casa de morada de família que provisoriamente lhe tinha sido atribuída, com os gastos do seu veículo automóvel, bem como com os seus normais gastos pessoais.
Todavia, como aliás costuma acontecer em depoimentos de natureza análoga aos supra descritos, as testemunhas inquiridas foram apresentando no discurso, algumas fragilidades e contradições, às quais o tribunal não pode deixar de atentar e das mesmas retirar as devidas e necessária ilações, conducentes à formação da decisão a proferir.
Ambas as testemunhas afirmaram que a requerente deixou de exercer a sua atividade de costureira devido às atitudes do requerido, o qual «enxotava» as clientes, não tendo, contudo, conseguido indicar, cada uma das testemunhas, mais do que um caso do seu conhecimento pessoal, sendo que um desses casos era a própria cunhada do requerido.
Ambas as testemunhas, afirmaram, no entanto, que a habitação da mãe da requerente, a testemunha D…, era composta por três quartos, sendo que apenas um deles era utilizado pela referida mãe e que, apesar desta tipologia, devido às várias coisas/objectos que a mesma guarda, a irmã não teria condições para lá viver, sendo certo que quando directamente instado para esse efeito, a testemunha N… referiu que chegou a viver durante bastante tempo-até casar, na companhia do seu pai e da sua mãe.
De especial importância para a decisão a proferir, estas testemunhas acabaram por relatar que quando foi efectuada a partilha dos bens por morte do progenitor da requerente B…, foi adjudicada à mãe todos os bens móveis, em concreto os constantes do auto de perícia, e que todos os filhos receberam tornas, ao que pensa «entre 10 a 20 mil euros cada um».
Desta feita, de notar dois pontos importantes que resultaram desta parte do depoimento destas testemunhas:
- em primeiro lugar, a escritura de partilha por óbito do pai da requerente realizada em 17 de Junho de 2011, ocorreu em momento imediatamente anterior à prolacção da decisão que decretou a atribuição provisória da casa de morada de família à requerente (30 de Setembro de 2011) e em data posterior à
entrada em juízo do pedido apresentado pelo agora requerido de atribuição provisória da casa de morada de família (28 de Abril de 2011).
Ora, tendo em consideração o depoimento destas testemunhas, resulta evidente que a requerente, já sabendo que o requerido tinha solicitado para si a casa de morada de família, não requereu que lhe fosse atribuído/adjudicado qualquer bem móvel onde pudesse residir, sendo certo que tal possibilidade lhe era conferida, e ainda porque tal bem existia, tanto mais que, já em momento posterior à partilha e à atribuição provisória da casa de morada de família, o primeiro andar do prédio urbano onde reside a sua mãe, foi arrendado.
- em segundo lugar, resultou deste depoimento, que a requerente, tal como os seus irmãos, receberam da sua mãe e a titulo de tornas, uma quantia monetária, cujo montante exacto não foi possível apurar, mas que se sabe, seria entre 10 a 20 mil euros, o que possibilitava à requerente a organização da sua vida, podendo arrendaruma casa e deixar liberta a casa de morada de família, a qual é bem próprio do requerido.
Todavia não o fez.
Igualmente, não referiu esta importante circunstância na oposição apresentada ao pedido de atribuição da casa de morada de família, por parte do requerido, assim como não referiu essa circunstância no pedido, agora apresentado, de atribuição de casa de morada de família.
A respeito do que acaba de se referir, não se pode deixar de sublinhar que na sentença de atribuição provisória da casa de morada de família à requerente B…, não lhe foi fixado qualquer quantitativo mensal a titulo de renda, precisamente porque apenas ficou provado que a requerente auferia baixos rendimentos, não obstante exercer a profissão de costureira, da qual recebia rendimento em montante não concretamente apurado.
Estas testemunhas referiram que o requerido se encontra a residir numa casa ao lado da casa de morada de família com os seus dois pai, irmã, cunhado e dois sobrinhos, sendo que apesar de não terem conseguido indicar o numero de quartos dessa casa afirmaram que seria de tipologia semelhante à da casa de morada de família e que esta tinha 3 quartos.
A testemunha D…, mãe da requerente, não obstante ter prestado juramento, nos termos legais, em nosso entender prestou depoimento desconforme ao juramento prestado, motivo pelo qual, foi ordenada a extracção de certidão das suas declarações e o consequente o envio da mesma para o Ministério Público, para efeito de apuramento da existência de índicos de eventual responsabilidade criminal, designadamente do crime de falsidade de testemunho.
Face ao exposto, nem nos iremos debruçar sobre o conteúdo do depoimento desta testemunha, o qual não foi valorado positivamente por este tribunal.
A testemunha P…, referiu que conhece a requerente, desde que esta veio do Canadá e foi viver para a casa onde actualmente ainda reside.
Referiu que a requerente vive apenas do montante que recebe de rendimento mínimo, uma vez que não desenvolve qualquer outra actividade profissional, referindo que chegou a emprestar dinheiro à requerente para que esta pudesse sobreviver, o que aconteceu num período- há mais de 1 ano-, em que a requerente deixou de receber o RSI.