I. A EDIÇÃO DE LIVROS DIDÁTICOS DE MATEMÁTICA (PNLD 1999-PNLD2005)
1.3 Os PNLD 1999, 2002 e 2005
1.3.8 Representação das editoras na compra geral de livros didáticos pelo Governo Federal
No site do FNDE na Internet, encontra-se a notícia intitulada Termina negociação para livro
didático de 200526 (Brasília, 17 de setembro de 2004). Nela, apresentam-se quadros onde são sintetizados dados sobre a tiragem total de livros didáticos, o valor total da tiragem e a participação percentual na compra por editora. Não são mostrados dados por disciplinas, apenas dados gerais. Segundo esses dados, no total, o Governo gastou R$ 463.242.015,19 com a aquisição dos 93.143.113 livros didáticos (PNLD) que iriam beneficiar cerca de 35 milhões de estudantes do Ensino Fundamental. Isso, sem contar com o investimento para o Ensino Médio, de R$ 24.885.238,65 para a aquisição de 2.705.048 livros (PNLEM), beneficiando 1,4 milhão de estudantes, nem com o repasse de R$ 86.079.374,08 para o Estado de São Paulo, que fazia a aquisição descentralizada dos livros.
24As coleções aprovadas são resenhadas no Guia do Livro Didático. Só podem ser escolhidas, pelo professor,
coleções que constem do Guia. A compra pelo Governo, dos títulos aprovados e solicitados, depende do resultado da negociação entre o FNDE/MEC e o detentor do direito autoral.
25Como visto no começo do presente capítulo, os editais relativos aos PNLD estudados evidenciam, em detalhe,
que as exigências respectivas foram se incrementando progressivamente.
A representação das editoras (PNLD 2005) na compra pelo Governo Federal é: QUADRO 3: Representação das editoras na
compra geral pelo Governo Federal (PNLD 2005). Lugar Editora % 1o Ática 21,72 2o FTD 17,68 3o Saraiva 13,28 4o Nova Didática 9,65 5o Scipione 9,48 6o Moderna 8,18 7o Editora do Brasil 6,20 8o IBEP 5,60 9o Nova Geração 5,23 10o Quinteto 1,93 11o Base 0,49 12o Dimensão 0,39
13o Companhia Editora Nacional 0,17 Fonte: FNDE
Esses dados de representação das editoras nas compras pelo Governo já indicam entre quais editoras pode estar havendo forte concorrência pelo mercado de livros didáticos. Decididas a não perder espaço e a expandir-se na medida do possível, certas editoras poderão optar por definir ou redefinir estratégias de edição de livros. Uma dessas estratégias poderia ser a de adequar o currículo veiculado nos livros, a fim de resolver o problema duplo de conseguir a aprovação e maximizar as compras pelo Governo Federal, atualmente responsável nada mais e nada menos que pelo maior programa de livros didáticos do mundo.
1.4 Algumas considerações
No período estudado, uma combinação da diminuição do índice de exclusão de títulos de Matemática (de 47,22% para 21,21% e depois para 20,69%) com o incremento progressivo do número de livros do universo de escolha (de 38 livros para 52 e depois para 92) e a manutenção de altos índices de renovação (51,52% e 51,72%) parece ser reflexo de uma efetiva política do MEC, de intervenção indireta, via campo editorial, no currículo transmitido pelo livro didático. Destaca-se que a relação inversa entre o índice de exclusão, que diminui, e
o universo de escolha, que cresce, em Matemática,27 nem sempre caracteriza a relação homóloga em outras disciplinas.28
Contudo, acreditamos que, para melhor entender a evolução das características editoriais estudadas, seria conveniente analisar dados relativos à solicitação de compra de livros pelas escolas, distribuição final dos livros nas escolas, e compra efetiva realizada pelo Governo às editoras ou grupos editoriais. Tal análise ajudaria a compreender o comportamento das editoras participantes nos PNLD, desde que elas se interessam pela aprovação de suas obras, no atendimento às preferências dos professores e nas aquisições dos livros por parte do Governo, comportamento e interesses que, em conjunto, como veremos ao longo do presente trabalho, não apenas se vêem influenciados pelo Programa e pela avaliação em particular, mas pode exercer influências neles também. Consideremos que as editoras, em geral, vêm se submetendo às regras a elas impostas a cada PNLD, e que tal submissão vem ocorrendo apesar de as exigências terem sido cada vez maiores.29 A relação de dependência econômica das editoras com relação às compras pelo Governo Federal parece ser a principal razão de tal comportamento.30
No entanto, analisar o problema de qualidade dos livros didáticos e discutir o comportamento do currículo veiculado nos livros didáticos propriamente ditos, nos aspectos de seleção e abordagem do conteúdo, poderia nos informar sobre as características qualitativas das coleções que vêm conformando o universo de escolha. Se bem que esse universo se tenha ampliado expressivamente no último dos Programas estudados, por enquanto pouco sabemos sobre o tipo de mudanças que os livros sofreram.
Na realidade, precisamos indagar tanto sobre as mudanças quanto sobre as permanências curriculares nas coleções mas, principalmente, precisamos indagar sobre possíveis
27Observe-se que essa relação, entretanto, não necessariamente descreve uma tendência, pois os índices obtidos
no período entre o PNLD 1999 e o PNLD 2005 poderiam variar posteriormente, isso dependendo, por exemplo, de modificações na regulação do Programa ou na avaliação dos livros.
28Considerando o período PNLD 1999 - PNLD 2002, só em Geografia e História o índice de exclusão e o
universo de escolha tiveram um comportamento similar aos seus homólogos da área de Matemática. A exclusão diminuiu e o universo de escolha aumentou (BATISTA, ROJO & ZÚÑIGA, 2003, 2005).
29Exigências impostas às editoras pelo MEC/FNDE podem ser achadas nos editais respectivos a cada PNLD,
como explicado em páginas anteriores deste capítulo. Por exemplo, com relação à reinscrição de obras anteriormente excluídas, exigiu-se, a partir do PNLD 2002, que as editoras comprovassem, previamente, a correção das faltas que provocaram a exclusão da obra.
explicações que possam subsidiar qualquer estudo focalizado na complexidade do currículo veiculado no livro didático. Tal necessidade nos leva a priorizar o desenvolvimento, no capítulo 2, de uma análise mais aprofundada a respeito da relação entre diversos fatores e agentes que intervêm na definição do currículo no livro didático e da maneira como essas mudanças e permanências são geradas sob influência dessa relação.