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Representação social nos Estudos Culturais

2 IDENTIDADE(S), GÊNERO E SEXUALIDADE

3 REPRESENTAÇÃO SOCIAL EM DIÁLOGO COM ESTUDOS CRÍTICOS DO

3.2 Representação social nos Estudos Culturais

Quando abordamos, no segundo capítulo, a questão das identidades sociais, mencionamos a perspectiva dos Estudos Culturais e sua contribuição para a investigação da referida temática. Nesta seção, retomamos essa perspectiva, aprofundando alguns de seus pressupostos teóricos, em especial no que concerne ao tratamento dado ao conceito de representação social.

No âmbito dos Estudos Culturais, as pesquisas sobre representação vêm adquirindo grande destaque, especialmente com relação às identidades sociais. Nessa perspectiva, as representações sociais se constituem como um conceito central na produção da cultura, visto que elas estão intrinsecamente relacionadas com os processos, as práticas e os sistemas simbólicos (tais como a linguagem), através dos quais os significados são produzidos e

circulam (WOODWARD, 2012; WORTMANN, 2001). Segundo afirma Woodward (2012, p. 17-18),

A representação inclui as práticas de significação e os sistemas simbólicos por meio dos quais os significados são produzidos, posicionando-nos como sujeitos. É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. Podemos inclusive sugerir que esses sistemas simbólicos tornam possível aquilo que somos e aquilo no qual podemos nos tornar. [...] Os discursos e os sistemas de representação constroem os lugares a partir dos quais os indivíduos podem se posicionar e a partir dos quais podem falar.

Em outras palavras, é possível compreender que a marcação das posições de sujeito que os indivíduos podem assumir nas suas interações está centralmente relacionada às representações sociais, as quais são (re)produzidas através das práticas de linguagem e moldam as identidades sociais dos indivíduos. Woodward (2012) também considera que as representações sociais estão relacionadas tanto às identidades individuais quanto às coletivas, na medida em que as posições de sujeito ocupadas por um indivíduo particular estão fundamentadas nas possibilidades coletivas. A respeito da relação entre as posições de sujeito nos âmbitos coletivos e particular, a autora destaca que:

Pode parecer que algumas dessas identidades se refiram principalmente a aspectos pessoais da vida, tal como a sexualidade [e o gênero]. Entretanto, a forma como vivemos nossas identidades sexuais é mediada pelos significados culturais sobre a sexualidade que são produzidos por meio de sistemas dominantes de representação (WOODWARD, 2012, p. 33).

Com isso, Woodward (2012) dimensiona as identidades como resultado da influência dos significados (re)produzidos pelas representações: apesar das vivências identitárias serem experienciadas individualmente, elas devem ser compreendidas em diálogo com o cenário mais amplo, o qual inclui os sistemas que veiculam os significados que moldam e atribuem valores às diferentes identidades. As identidades, portanto, estão estreitamente ligadas à representação, porque é através da construção de significados que a identidade e a diferença são marcadas e adquirem status diferenciados. Esse processo, que tem na linguagem sua ferramenta central, é permeado por relações de poder que polarizam as identidades (SILVA, 2012).

Ao enfatizar a questão da identidade e da diferença, essa abordagem considera que a identidade é relacional (dependente de uma oposição entre elementos) e que seria caracterizada por tudo o que um elemento não é: ser brasileiro implica não ser chinês, não ser alemão, não ser espanhol (SILVA, 2012). Segundo argumenta Gomes (2006, p. 1), os Estudos Culturais,

Ao tomarem as representações sociais sob o foco da identidade e da diferença, dos processos de exclusão que lhe são intrínsecos, assumem uma postura política e se voltam para processos reivindicatórios, tanto os praticados no passado quanto aqueles desenvolvidos a partir de uma defesa do direito à manifestação da diferença.

Wortmann (2001, p. 158), fazendo referência à perspectiva dos Estudos Culturais, considera que a problemática do significado e, consequentemente, das representações sociais atua “na construção da identidade e na delimitação da diferença, na produção e no consumo, bem como na regulação das condutas sociais”; além disso, enfatiza que “em todas essas instâncias, em todas essas localizações institucionais, a linguagem é um dos ‘meios’ privilegiados através dos quais é produzido e circula o significado”.

Embora não seja uma autora diretamente vinculada aos Estudos Culturais, retomamos as palavras da estudiosa Guacira Lopes Louro (1997, p. 65) com a finalidade de ilustrar o papel preponderante das práticas de linguagem em constituir os aspectos por elas mesmas descritos:

Dentre os múltiplos espaços e as muitas instâncias onde se pode observar a instituição das distinções e das desigualdades, a linguagem é, seguramente, o campo mais eficaz e persistente — tanto porque ela atravessa e constitui a maioria de nossas práticas, como porque ela nos parece, quase sempre, muito "natural". Seguindo regras definidas por gramáticas e dicionários, sem questionar o uso que fazemos de expressões consagradas, supomos que ela é, apenas, um eficiente veículo de comunicação. No entanto, a linguagem não apenas expressa relações, poderes, lugares, ela os institui; ela não apenas veicula, mas produz e pretende fixar diferenças.

Em consonância com a perspectiva mencionada, a respeito da construção de representações através do discurso, parafraseando Foucault, também Livia e Hall (2010) afirmam que os discursos não são como simples elementos significantes que se referem a conteúdos ou a representações, mas sim como práticas que sistematicamente criam o objeto do qual falam. Nesse sentido, as representações, então, seriam formas culturais de referir, mostrar ou nomear um grupo ou um sujeito nas diversas instâncias sociais. Dessa forma, evidencia-se que as práticas linguístico-discursivas atuam na formação das representações não apenas descrevendo relações, mas (re)criando ativamente essas relações e os significados a elas associados. Assim, “é precisamente porque as identidades são construídas dentro e não fora do discurso que nós precisamos compreendê-las como produzidas em locais históricos e institucionais específicos, no interior de formações e práticas discursivas específicas, por estratégias e iniciativas específicas” (HALL, 2012, p. 109).

Conforme vimos argumentando, evidencia-se que essas representações não são meras descrições que "refletem", neutra e distanciadamente, as práticas desses sujeitos; elas são, de fato, descrições que os "constituem", que os "produzem" (LOURO, 1997). Sobre isso, Silva (2012, p. 91) enfatiza que a representação “é um sistema linguístico e cultural: arbitrário, indeterminado e estreitamente ligado a relações de poder” e que as representações contribuem para reforçar, distorcer e atribuir valores positivos ou negativos a determinadas identidades, demonstrando o caráter ideológico que permeia essas construções. O autor afirma que:

Em geral, ao dizer algo sobre certas características identitárias de algum grupo cultural, achamos que estamos simplesmente descrevendo uma situação existente, um “fato” do mundo social. O que esquecemos é que aquilo que dizemos faz parte de uma rede mais ampla de atos linguísticos que, em seu conjunto, contribui para definir ou reforçar a identidade que supostamente apenas estamos descrevendo (SILVA, 2012, p. 93).

Dito de outra maneira, Silva (2012) defende que quando descrevemos algum grupo, ressaltamos suas características, atribuímos pertencimentos identitários aos indivíduos e, em certo sentido, delimitamos, reforçamos e (re)criamos essas identidades. As identidades são, pois, moldadas pelas representações que circulam socialmente através de práticas discursivas e adquirem maior ou menor recorrência, de acordo com o status/poder de que desfrutam (WOODWARD, 2012).

Stuart Hall, refletindo sobre as relações entre os signos linguísticos e as propriedades dos objetos representados, defende que eles são diferentes dos objetos reais, visto que os seus significados são construídos na cultura (apud WORTMANN, 2001, p. 156). Para Hall, as representações não devem ser consideradas como simples reflexos das coisas do mundo, mas esse autor entende que elas participam da própria constituição dessas coisas. Esse estudioso ainda defende que “o significado não é direto, nem transparente e não permanece intacto na passagem pela representação. Trata-se de um cliente escorregadio que muda e se adapta conforme o contexto, o uso e as circunstâncias históricas [...] Está sempre sendo negociado e inflectido, para ressoar em novas situações” (apud WORTMANN, 2001, p. 157). Além disso, mesmo numa mesma cultura e numa mesma época, diferentes (e, muitas vezes, conflituosos) significados circulam e as disputas nesse campo permitem definir o que é “normal” em uma cultura particular e o que é necessário para que os indivíduos façam parte ou sejam excluídos de determinados grupos. Dessa forma:

Os significados são constantemente produzidos e intercambiados nas interações pessoais e sociais das quais participamos. [...] Os significados regulam e organizam nossas condutas e práticas, participando do estabelecimento de regras, normas e convenções através das quais é ordenada e governada a vida social” (WORTMANN, 2001, p. 158).

É importante salientar que esses significados são disseminados através dos meios de comunicação de massa, alcançando um grande número de pessoas. Nesse sentido, consideramos que os livros didáticos funcionam como mídia que atingem as massas, na medida em que (i) alcança um número significativo de pessoas; (ii) é utilizado em um contexto educativo, que objetiva (in)formar os indivíduos; (iii) veicula significados e ideologias que influenciam a opinião e/ou a visão de mundo das pessoas. A fim de ilustrar o alcance dos livros didáticos no cenário brasileiro, consideremos os dados divulgados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) sobre o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD): em 2015, foram distribuídos mais de 144 milhões de exemplares; em 2016, o número de exemplares de livros distribuídos é superior a 128 milhões para as escolas brasileiras de educação básica, contemplando 65 milhões de estudantes nas duas edições mencionadas27. Conforme é possível constatar, trata-se de um número significativo de crianças, adolescentes e jovens que entram em contato cotidianamente com esse material (e com as representações nele veiculadas) em sala de aula.

Concluímos esta seção salientando a importância de refletir sobre as representações sociais, na medida em que “trabalhar com representações [...] implica lidar com a descoberta e a interpretação de entendimentos dos sujeitos sobre o ‘mundo real’, buscando aproximá-los [...] de ‘modelos e padrões’ definidos na cultura (WORTMANN, 2001, p. 156). No tópico a seguir, tratamos sobre como a abordagem dos Estudos Críticos do Discurso consideram as representações sociais.