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Destacamos alguns excertos das entrevistas, dividindo-os em tópicos que nos parecem significativos para ilustrar as demarcações do masculino e do feminino traçadas pelos entrevistados:

“Cada um tem seu papel”

[...] mulher não é mulher? Homem não é homem? Eu não posso ser mulher, eu posso ser mulher? Não posso ser mulher. A vida diferencia isto. [Hóracio7 - Auxiliar de serviços gerais] (sic) [...] Desde pequeno a gente nota na criança a diferença entre meninos e meninas. [Tamires - Diretora] (sic)

[...] Ah! Porque os homens fazem isto, a mulher também vai. Nada disso! Mulher tem que fazer papel de mulher e o homem papel dele, de homem. Cada um tem o seu papel. [Tamires - Di- retora] (sic)

Como se pode perceber pelos exertos acima, há uma clara demarcação (ima- ginária) das fronteiras de gênero, isto é, através dos discursos dos entrevistados percebemos identidades de gênero nitidamente demarcadas, funcionando como estruturantes de posições de sujeito no mundo. Há uma tendência por parte dos entrevistados a se pautar em uma visão essencialista, geralmente embasada

pela Biologia dos corpos, que concebe o masculino e o feminino como opostos: São diferentes no biológico [referindo-se a homens e mulheres], eles são diferentes. Nas brincadeiras que eles têm...entre outras coi- sas. [Sabrina - Educadora]

É interessante salientar aqui como a identidade também é marcada pela diferença. Como coloca Silva (2001, p. 76):

(...) identidade e diferença são mutuamente determinadas. (...) seria preciso considerar a diferença não simplesmente como re- sultado de um processo, mas como o processo pelo qual tanto a identidade como a diferença (compreendida aqui como resulta- do) são produzidas.

A identidade de gênero é construída por meio de oposições binárias: ser mulher é não ser homem. Essas oposições acabam por determinar hierarqui- zações, uma vez que “a relação entre dois termos de uma oposição binária envolve um desequilíbrio necessário de poder entre eles”. (DERRIDA apud WOODWARD, 2001, p. 50). Ou seja, aprendemos a pensar dentro de uma lógica dicotômica, concebendo masculino e feminino como polos opostos; diferença sempre marcada pela superioridade de um dos elementos em relação ao outro.

“Pelo amor de Deus, isto é coisa de moleque!”

Uma das mais clássicas demarcações entre estes polos é a que associa a mulher a um “ser”de sentimento e o homem a um “ser”de razão. Como afirma Birman (2001, p. 56): “a cartografia moral da diferença sexual reside entre os polos da natureza e da civilização”.

E isso pareceu-nos tão mais verdadeiro quando escutamos de uma de nossas participantes da pesquisa a seguinte explicação acerca das diferenças entre homens e mulheres:

[...] Pode ver que a maioria de coisa de matemática, computa- dor, videogame... o homem... eu acho que ele é mais rápido que mulher em relação a isto. Mulher é mais delicada, né? [Renata - Educadora] (sic)

Sendo a mulher situada no polo da natureza e do sentimento, há uma ten- dência a situá-la como sensível, frágil e doce, como podemos perceber, algumas vezes, nos discursos dos entrevistados:

Ah, sei lá. Mulher é mais delicada né? Geralmente homem é mais grosseiro. Mas queira ou não, o mundo deixa esta imagem pra gente: que mulher é mais delicada e o homem mais gros- seiro. A menina que gosta de falar, né? Menina que fala muito palavrão? Pelo amor de Deus! Isto é coisa de moleque!. [ Renata - Educadora ] (sic)

Os meninos são um pouco mais agressivos, eu acho, nas brinca- deiras.[Fábia -Educadora] (sic)

Paradoxalmente, por outro lado, paralelo à ideia de fragilidade e sensibilida- de da mulher, percebemos, de maneira enfática, a tendência em situá-la como mais forte emocionalmente:

O sexo [Eleva a voz], né? No sexo é diferente, na força é diferen- te. Na força que eu falo é na força física. Mas na força da dor, a mulher é muito mais forte, né? Ela aguenta muito mais. Eu acredito que são diferentes mesmo. Mais diferentes nisso... Mas nos direitos, pra mim são iguais”. [Vânia - Diretora] (sic) É a mulher quem segura a barra.[Fábia - Educadora] (sic) Tem que enfrentar todos os problemas, até os do marido. Então, haja cérebro! Haja mente! Haja tudo. [Joana - Educadora] (sic) Você compara uma mulher quando fica doente com um homem quando fica doente... a mesma coisa [a mesma doença]: o homem se entrega. A mulher não! [Fábia – Educadora]. (sic)

A ideia da mulher como sendo mais forte emocionalmente, talvez se vincule ao ideal de maternidade proposto para a mulher. É o que desenvolveremos no próximo item.

Mãe do pai, mãe do marido, mãe do filho

Tomar a mulher por suas características biológicas fornece elementos para associações que, em geral, remetem à ideia da maternidade e adjetivos a ela

relacionados. Encarnada nesta ideia de maternidade, novamente encontramos como características do ser mulher a primazia dos afetos sobre a racionalidade (BIRMAN, 2001). Não é surpresa, portanto, nos depararmos com afirmações como estas:

Já nasce, é uma obra de Deus, desde que foi a vez de Maria e tudo (referindo-se ao instinto materno). E é aqui... é mesmo ter instinto materno”. [Silvana - Educadora] (sic)

Tanto que uma boneca elas cuidam como se fosse uma criança. Menina com a boneca já põe o peito. É umas brincadeiras bem assim mesmo. Eu concordo com essa afirmação. A mulher já nasce com o instinto materno. [Fábia - Educadora] (sic) Por que se a mulher não nasceu com este instinto materno, vai virar o quê? Não vou nem falar que é bicho, porque bicho tem mais instintos ainda que o ser humano. [Joana - Educadora] (sic) Ah, eu acho que tem [refere-se ao instinto materno]. A mulher... porque eu vejo as meninas ali, de quatro anos, às vezes elas pegam as bonecas delas e colocam no peito como se estivesse dando de mamar pra uma criança. Então, a gente vê que ali, ela é muito pequenininha sabe? O menino fica assim... às vezes até olham a criança, mas não é da mesma forma que a mulher, sabe? Eu acho que já tem ali, desde pequenininho, já tem assim aquela vocação pra ser mãe, sabe? É a impressão que eu tenho. [Amanda - Educadora] (sic)

No entanto, a maternidade, no relato da maioria das entre-