3. Universo temático e ideológico dos Adagios de Rolland
3.5. Interesses e motivações da vida e do convívio familiar e social
3.5.2. Representações do poder e da hierarquia social
A compilação de Francisco Rolland distingue o estatuto da figura real num cômputo de 36 adágios e, por oposição, na base da escala social, a do «Moço» servidor, com 21. Com alguma expressão, menciona o «Vilaõ» (18 adágios), o «Dono» (16), o «Cavaleiro» (14), os «Alcaides» (11), a condição de «Senhor» (11) e de «Official» (10).
Outras representações dos vários estratos da hierarquia social são constituídas pelos «Criado» (9), «Juiz» (9), «Amo» (7), «Fidalgo» (6), «Mouro» (6), «Escudeiro» (4), «Gallegos» (3), «Rainha» (1) e «Povo» (1). Os substantivos «Lei» (8) e «Senhorio» (2), os verbos «Poder» (10), «Servir» (15) e «Mandar» (10), bem como o adjectivo «Realengo» (1) podem igualmente integrar-se neste capítulo.
Neste caso, a sociedade representa o modelo do Antigo Regime, imóvel e vinculativamente regulamentado, nas alusões a camadas sociais pertencentes ao terceiro estado, a cargos ligados à administração pública, ao grupo da pequena fidalguia, ao genérico Amo/ Dono, ou seja, o proprietário ou aquele que pode ter criadagem, e, no topo da hierarquia, o Rei, representando o poder e a lei.108 Como forma de tratamento, «Senhor» remete igualmente para um grupo social favorecido. O único título nobiliárquico diz respeito a conde, identificado num só adágio. O clero faz-se representar unicamente pelo «Frade» e pelo «Capelaõ»; sem o privilégio de figurar como lema, o «Papa» é nomeado em quatro adágios e o «abbade» em dois únicos, com sentido pouco indulgente. Os desprotegidos encontram-se incluídos nos adágios reunidos em «Pobre» e «Pobreza»; dois adágios aludem ainda aos escravos, outros dois especificam «Ainda que somos negros, gente somos, e alma temos.» (com a variante «Ainda que Negros, gente somos, e alma temos.», incluída em «Negros») e «O mulato sempre parece asno, quer na Cabeça, quer no rabo.». Substancialmente desvalorizadas, as patentes militares estão representadas em «Soldado» (3), «Capitaõ» (1) e no colectivo «Exercito» (2).
Admitindo a grafia «Rey, ou Rei», o compilador torna patente a centralidade de Sua Majestade no texto proverbial, o seu incontestável poder, representado pela simples palavra («Palavra de Rey he escritura.», «Á voz d’ElRey naõ ha cousa fórte.»), muito superior ao do Papa («Rey por natureza, Papa por ventura.»), portanto, apenas homólogo ao de Deus («A Deos, e a ElRey, naõ errarei.»). Somente um adágio admite a sua limitação: «ElRey aonde póde, e naõ aonde quer.». A autoridade régia é extensiva à ordem e à lei que o monarca representa, e ao seu poder bélico, equiparado à força incontrolada de um «Povo alvoroçado», mas obrigatório para a manutenção do Estado («Naõ tem seguro
108 «Les proverbes qui mettent en scène les différents milieux sociaux, le monde des grands et des privilégiés,
la cour, la hiérarchie en général, sont ceux dont on attend qu’ils reflètent le plus directement la situation sociale et l’idéologie de leurs inventeurs et utilisateurs (...). L’évocation craintive et respectueuse du seigneur, ou de la figure mythique et lointaine du roi, fait contraste avec l’image violemment parodique et décriée du vilain (...).». Cf Alain Rey, et alii, Dictionnaire de Proverbes et Expressions, Paris, Le Robert, 1990, p. 551.
seu Estado Rey desarmado.»). Torna-se evidente o respeito que todos devem ao seu Rei, o qual se legitima pelos seus magnânimos gestos de generosidade e pela sua integridade moral, porque «Ao Rey pertence usar de franqueza, pois tem por certo, naõ cahir em pobreza.». O serviço que os súbditos lhe prestam representa tão somente amor ao torrão natal, justificando-se pelo facto de se repercutir positivamente nos interesses individuais, acreditando que «Por teu Rey peleijaste, tua casa guardaste.».
Contudo, o despotismo também pode fazer-se sentir («Este he Rey, que naõ conhece Lei.»), sendo este o único adágio com conteúdo ligeiramente desfavorável à figura do monarca.
A palavra-lema «Lei» repete quatro destes adágios, embora contemple outro, que poderia figurar entre os 36 de «Rey», e que é «Qual o Rei, tal a Lei; qual a Lei, tal a grei» (com a variação «Qual o Rei, Tal a grei.»). Denuncia a responsabilidade do rei na definição das leis, que, por sua vez, são responsáveis pela configuração social de um reino, ou seja, para o bem e para o mal, a grei é espelho da política régia. Por outro lado, em «Mandar», encontra-se o adágio «Não faltará Rei que nos Mande, nem Papa que nos excommungue.», através do qual se apresentam como autoritárias e injustas ambas as figuras representativas dos poderes terreno e espiritual, logo, pouco favoráveis às causas populares. Do mesmo modo, uma das incontornáveis «Verdades» concebe que «Em almas não ha Rei que mande.»109.
Neste conjunto de parémias, as figuras que servem de contraponto ao rei são o Papa, o prior, Deus e o senhor. Há apenas um caso em que o compilador utiliza a grafia «Rei», distinguindo assim um conceito exclusivo do reino animal, «O Rei das abelhas naõ
109 De facto, existem quatro adágios (porém, não computados no lema «Rey») que acabam por trair o
exclusivo panegírico da figura real, que é naturalmente extenso, encontrando-se noutros pontos da colectânea diferentes parémias alusivas ao Rei. Vem a propósito relembrar as atentas observações de Alfredo da Cunha, sobre a proibição da obra de António Delicado: «(...) 22 adágios foram apontados neste livro por menos ortodoxos em religião e em política, e por isso incursa a obra na sentença de supressão [em 1771]. (...) no capítulo referente ao Rei, os censores alargaram[-se] nas marcações. (...) é certo, porém, que o Vocabulario de Bluteau regista a maior parte, se não todos, os adágios marcados no livro do P.e Delicado (...). O que é facto é que, passado o período da intolerância pombalina, logo em 1780 se publicava a colecção atribuída a Rolland, em que, à excepção do primeiro, os adágios apontados, a que acima aludo, foram reeditados, com
licença da Real Meza Censoria». Cf Ditames e Ditérios, Lisboa, Vol. I, Empresa Nacional de Publicidade,
1929, p. XIII (nota 13).
Devemos esclarecer que esta conclusão do autor não é totalmente acertada, pelo facto de um dos adágios («Nam ha rey sem privado, nem privado sem idolo») que afirma repetir-se em Rolland não ser exactamente o mesmo; aqui, na página 243, pode ler-se «Não ha Rey sem privado; nem privado sem Rey he como o Sol, que quanto vê, alenta.», pois erradamente o editor une dois adágios distintos, a saber, «Não há Rei sem privado, nem privado sem Rei» e «O Rei é como o sol que, quanto vê, alenta».
tem aguilhaõ.». Contudo, em outros pontos da recolha, esta segunda opção gráfica é mantida.
A figura da rainha não adquire qualquer tipo de relevância no adagiário, tal como a do «Povo».
Relativamente a «Servir», as parémias indiciam o erro em não prestar serviço em termos de exclusividade, o que parece ser uma preocupação que aflige quem serve e quem é servido, justificando a quantidade de variações em torno do mesmo conselho: «Quem a dous senhores ha de Servir, a nenhum ha de Servir.», «Quem Serve a dous senhores, a algum delles ha de aggravar.», «Ninguem póde Servir dous senhores.», «Quem Serve ao commum, serve a nenhum.».
A palavra-lema «Povo» faz menção a um inócuo «Tambem vosse he Povo.», não obstante encontrarem-se em outras páginas da colectânea vários adágios que incluem o susbtantivo. De qualquer modo, como exemplos que não deixam antever qualquer tipo de consciência de classe, apenas o representam como uma massa informe e potencialmente arrasadora: «Guarte do alvoroço do povo, e de travar com Doudo.», «Juiz piedoso faz o Povo cruel.», «Nem ante Rei armado, nem ante Povo alvoroçado.», «Em Povo Seguro não ha mister muro.». O raro momento em que ao povo se reconhece alguma sabedoria e influência é «Voz do Povo, voz de Deos.», se bem que sancionada pela divindade e não pelos homens.