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4. Aspectos Linguísticos 1 Ortografia

4.2.3. Substantivos e adjectivos

4.2.3.4. Substantivos próprios

a) Toponímia

O adagiário permite identificar algumas localidades, pelo facto de serem mais populares e mais conhecidas, em termos nacionais, assumindo-se como pontos de referência de um percurso do domínio comum. Por conseguinte, esses adágios testemunham o saber popular e os lugares-comuns criados em torno de uma região, vila ou cidade (num total de dez), essencialmente localizadas na proximidade da capital Lisboa (Almada, Sacavém, Santarém, Abrantes); para além de Évora-Monte, Portalegre e Coimbra, de Valença e de Lamego, no norte, e do Alentejo, não há registo de outras regiões destacadas pelo texto proverbial. O interesse pelo levantamento sistemático, registo e divulgação de provérbios locais e regionais teria de esperar pelos séculos XIX e XX.

Nesta colectânea, registam-se, então, os seguintes adágios que identificam vilas e cidade portuguesas:

«Ei-lo Vai, ei-lo vem de Lisboa a Santarem.»,

«Partilha de Lisboa com Almada, huma leva tudo, outra nada.», «Vede-la Vai, e vede-la vem, como barco de Santarem.», «Quem Tolo vai a Santarem, tolo vem.»,

«Vede-la vai, vede-la vem, como Barco de Sacavem.» («Sacavem» constitui palavra-lema, e o adágio é repetido três vezes),

«Antes que jantes, naõ passes de Abrantes.», «Aonde hís? a Evora Monte, fazer Barris.», «Aldeã he a Gallinha, e come-a o de Coimbra.»,

«Consciencia do gato de Portalegre, que ficou com o dinheiro, e tornou a pelle.» («Portalegre» é palavra-lema),

«O Queijo do Alentejo, o vinho de Lamego.» (com a repetição «O queijo do Alem-Tejo, e o Vinho de Lamego.»; encontra-se ainda uma referência aos alentejanos no esclarecimento «dizem os Alem-Tejões dos que naõ querem emprestar dinheiro.»),

«Medicos de Valença, grandes fraldas, pouca Sciencia.».

O editor inclui ainda uma construção que não se identifica com a estrutura do provérbio, mas que recuperou do dicionário do P.e Rafael Bluteau, na qual se referem festas religiosas celebradas em diferentes localidades: «Corpo de Deos de Lisboa, Santo Espirito de Alenquer, Ladainhas de Coimbra, Trindade de Evora, Surreiçaõ de Béja, Ramos D’Alhos Vedros, saõ Festas, que em Portugal se celebraõ com singular solemnidade.».

Algumas circunstâncias adversas relacionam-se com a especificidade nacional: «O máo Anno em Portugal entra nadando.», «Ribeiras de Portugal, poucas, e Más de passar.», «Em Portugal entra a fome Nadando, (as grandes chuvas saõ causa da esterilidade da Terra.)».

Outras localidades geograficamente mais distantes remetem para duas cidades europeias e para outro ponto distante do Império ultramarino, identificado pela Índia. No que diz respeito ao país vizinho, Espanha, três cidades enunciadas não são representadas de modo particularmente auspicioso:

«Quem he Máo na sua Villa, peor será em Sevilha.», «Muito paõ tem Castella, mas quem o naõ tem lazera.»119,

«Salamanca a huns sára, a outros manca.» («Salamanca» constitui palavra-lema), «Em huma Hora naõ se ganhou Çamora.»

Representando o papado e a Igreja, Roma figura nos oito adágios da palavra- lema: «Naõ irei pela pedencia a Roma.», «Aonde está o Papa, ahi he Roma.», «Roma naõ se fez n’hum dia.», «Caminho de Roma, nem mula manca, nem bolsa vasia.», «Bem está S. Pedro em Roma.», «Huma figa ha em Roma, para quem lhe daõ, e naõ toma.», «Dizem em Roma, que a Mulher fie, e coma.» e «Quem tem boca vai a Roma.».

Fazem parte de topoi bíblicos o «Paraiso» e o «Inferno», referidos em cinco parémias.

Embora conhecendo os topónimos, a partir do uso comum dos adágios que os enunciam, a maioria da população não teria visitado as localidades estrangeiras evocadas pelo texto proverbial. Por outro lado, da passagem pelas longínquas paragens do Império não faltariam testemunhos orais daqueles que haviam embarcado (e regressado ou mandado notícia) e os registos da literatura de cordel sobre relatos de naufrágios. Como a sorte não favorecia estes viajantes, cujos sonhos tantas vezes naufragavam, sabia-se que «Fazenda da India naõ luz.». Algumas ideias relativas à Índia encontram-se enunciadas nesse conjunto de afirmações que «Os Portuguezes praticos e experimentados disseraõ (...)» sobre estas paragens.

b) Antroponímia

Alguns nomes masculinos e femininos passaram a integrar o conhecimento geral, por terem ficado intemporalmente associados ao adagiário português, adquirindo um valor representativo – por conseguinte, metonímico – dos indivíduos com determinado traço de carácter, com determinada atitude, definidor do homem ou da mulher. Por esta razão, «o nome próprio não veicula qualquer conteúdo descritivo, sendo assim intencionalmente nulo ou vazio e cumprindo apenas a função de referir um objecto singular» ou «a identificação de um referente único»120.

Na colectânea de Francisco Rolland, são mencionados os nomes portugueses «Ambrósio», «Miguel», «Pedro», «Joaõ Grande», «Diogo», «Joaõ Vaz», «Joaõ Affonso», «Vicente», «Paio», «Pedro Botelho», «Gaspar», «Gonçalo», «Joaõ Gomes», «Joaõ Topete», «Ambrosio», «Martinho», «Pedreannes», «Paio», «Braz»; no feminino, são apenas «Martha», «Maria», «Magdalena», «Tareja» e «Maria parda».

Não fazendo parte dos antropónimos portugueses, encontramos «Avicena» e «Galeno».

A estes nomes há que acrescentar os numerosos santos e santas da devoção popular, evocados no quotidiano como pontos de referência do calendário. A título

120 Ana Cristina Macário Lopes, Texto Proverbial Português. Elementos para uma Análise Semântica e Pragmática, Dissertação de Doutoramento em Linguística Portuguesa apresentada à Faculdade de Letras da

exemplificativo, relembramos «S. Joaõ», «S. Vicente», «S. Miguel», «S. Martinho», «S. Matheus», «Santa Catharina», «Santa Luzia», «Santa Marinha», «S. Serejo», «S. Nicolau».

Outras figuras bíblicas mencionadas são «Adaõ» e «Eva» (duas e uma ocorrências, respectivamente), «Christo», «Sansaõ» e «Judas»; regista-se ainda um adágio que evoca «Mafoma» («Disse de vós o que naõ disse Mafoma do Toucinho.»). No capítulo onde são enunciadas as «Verdades Ethicas, Politicas, e Economicas, extrahidas de varios Authores Portuguezes», bem como nas sentenças dirigidas aos príncipes, responsáveis pela governação do reino (nas páginas 308 a 327 da obra), faz-se menção a «Filippe de Macedonia», «Salamaõ», «Pilatos», «Absalaõ», «Josué», «Jehu» e «Jesabel».

4.2.4. Pronomes