• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO IV – APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

4.3 Representações dos professores de espanhol

Visando especular sobre alguma semelhança e/ou diferença entre os professores de espanhol e os professores de outras disciplinas, observou-se que os parâmetros de comparação utilizados pelos alunos recaem nas características pessoais dos professores (seu jeito de ser, estar e agir), na sua maneira de ensinar e no conteúdo de ensino de cada disciplina. São esses, portanto, os aspectos que diferem um professor do outro, segundo os alunos.

Características pessoais

(3) A58: “Todos os professores são diferentes tem uns que são legais, divertidos e ingrasados [sic]”.

A85: “Acho que haveria diferença o professor de matemática português, e geografia são chatos, sempre estão sérios, e o professor [de espanhol] esta sempre sorrindo”.

(4) A88: “Claro que tem diferença, pois os outros professores trabalham um modo diferente de dar aula, a aula de espanhol é mais divertida porque ele não dá muita prova, diferente da de matemática”.

A32: “Olha nunca um professor é igual ao outro, todos tem seus métodos de ensinar os alunos. E penso que não tem comparação”.

Conteúdo instrucional

(5) A317: “Matemática é muito diferente, porque é muito mais chato. Português tem algumas semelhanças porque tem que gravar muitas regrinhas, tem que escrever certo e etc.

A31: “A maioria das pessoas, muito poucas pessoas, gostam de português. E espanhol e português tão lado a lado. É muita regrinha, é muita exceção, então é difícil das pessoas gostarem de espanhol, certo?”.

Quanto às semelhanças, os alunos salientaram que todos os professores, independentemente da disciplina, têm o mesmo objetivo, isto é, promover a aprendizagem dos alunos. Além disso, todos assumem as mesmas funções: explicam, dão provas, trabalhos, pedem silêncio, etc.

Ao compararem o professor de língua espanhola com os professores das outras disciplinas do currículo escolar, os As5 mencionaram o meio de instrução como maior diferença entre eles. Em outras palavras, o espanhol é o meio pelo qual as informações são veiculadas aos alunos, diferentemente das demais disciplinas, que têm o português como língua mediadora.

(6) Pq: E qual a diferença entre os professores de espanhol e os outros professores, tem diferença?

[: Tem

Pq: E qual a diferença? //

G51: A diferença é que eles tão passando outro tipo de matéria, mas eles tão ensinando uma matéria igual aos outros professores.

G52: Só porque depende do professor é chato. Pq: Não existe diferença entre os professores? M51: Existe porque ela ensina em espanhol [.

M52: Tipo se a gente aprende matemática ela vai escrever um problema no quadro, tá escrito em português também.

G52: Se ela passa um problema em espanhol eu não vou entender.

Para os As8, os professores de espanhol são diferentes dos demais professores pelo seu jeito de ser (“legal”, “extrovertido”, “sorridente”, “engraçado”) e pela maneira de dar aula (“passa vídeos”, “aula mais divertida”, “maneira diferente de trabalhar e de dar aula”). Pelo que apontaram os alunos, a representação do professor de espanhol está diretamente ligada à descontração, diversão e à uma forma menos rígida e séria de ser e estar com os alunos.

Com relação aos As3, foi possível observar que a comparação feita pela grande maioria não contemplou diferenças entre o professor de espanhol e os professores das demais disciplinas. As proposições ficaram no âmbito das diferenças gerais entre os professores como, por exemplo, cada professor tem seu modo de dar aulas, seu jeito de ser e agir, etc. Por outro lado, com base em vozes já mencionadas (A317 e A31), no fragmento (5), foi possível perceber que, assim como o Português, o Espanhol é visto como uma disciplina marcada por regras, o que projeta no professor de línguas uma imagem de professor tradicional e “gramatiqueiro”.

Os sentimentos que os As3 desenvolvem na sua relação com os professores parecem ter uma grande influência na imagem que eles constroem desses profissionais nas diversas áreas de conhecimento. O lado afetivo dos alunos é construído a partir de sua percepção do ser, fazer e agir do professor em sala de aula. Isto significa dizer que a representação dos As3 sobre os professores de espanhol nada difere daquela que eles constroem sobre os professores em geral. Para esta representação, tomam como critérios o jeito de ser do professor na interação com os alunos e a sua forma de ensinar.

(7) A37: “Sim, ela [professora de espanhol] consegue ser melhor que a professora de física, embora isso não

seja muito difícil, mas ela é legal”.

A327: “Sim. Por exemplo eu adoro a professora de português de filosofia, de Ed. F. e de História. A diferença das professoras que gosto, e dos outros professores é que elas sabem dar aula de um jeito que prende o aluno à matéria, já os outros...eu tenho pavor da matéria, não pela matéria, mas pelo professor” .

Assim como os As3, P3 também acredita que o jeito de ser do professor e a sua forma de se relacionar com os alunos podem influenciar na imagem que os estudantes têm dos professores, podendo facilitar ou não o gosto ou a motivação pela matéria.

(8) P3: Eu vejo assim oh, tem aluno que tem dificuldade com alguma matéria, por exemplo, eu detesto matemática e se o professor for gente boa comigo, é uma chance a mais que ele tem. Eu não gosto da matéria, mas pelo menos eu gosto do professor, eu vou aceitar aquela matéria com muito mais facilidade e com menos defesa. Então, eu sendo legal com os meus alunos, eu tenho muito mais facilidade de conquistá-los pra matéria, porque se ele já não gosta da tua cara ele já vai dizer eu não gosto de espanhol. Pode ver, as experiências que eu tive de matemática, eu não gostava do professor, nenhum professor de matemática ou quase nenhum professor de matemática eu gostava e também não gostava da disciplina, eu acho que tem a ver.

P8 também compartilha esta visão, ressaltando que os professores em geral são diferenciados pelo afeto que os alunos demonstram sobre eles, construído na relação mútua. Para este professor, o conteúdo disciplinar é o que diferencia o professor de espanhol dos demais professores, afirmando que aprender esta língua é mais fácil (“um pouco mais acessível”) do que a Matemática, que requer uma “certa potencialidade” do aprendente. P8 parece sugerir que aprender uma LE envolve processos cognitivos menos complexos em comparação àqueles utilizados para a matemática. Embora não possamos mensurar ou comparar processos tão distintos, cabe salientar que a complexidade na aprendizagem de uma LE vai depender da concepção do professor sobre linguagem, pois considerá-la um sistema articulado entre itens lingüísticos é reduzir a complexidade do processo de aquisição/aprendizagem de línguas e o seu papel na comunicação entre os indivíduos.

(9) Pq: Na sua opinião, qual é a imagem que os alunos têm do professor de espanhol?

P8: Sobre o professor em geral, eu tenho uma / eu acho que os alunos têm uma imagem muito boa, dentro da afetividade de cada um, da identificação, eles tem uma imagem boa. E de espanhol eu acho que eles têm uma boa imagem, eu acho que eles se identificam muito comigo e a relação é muito boa, muito afetiva, enfim, eu acho que eu me vejo assim, muito querido pelos alunos. Pq: E o professor de espanhol teria traços diferentes de outros professores ou ele seria igual aos outros professores?

P8: Não, eu acho que cada professor tem sua própria característica, né?. Eu acho que tá na própria assimilação dos conteúdos, eu acho essa é a diferença básica, porque a matemática nem todo mundo tem uma certa potencialidade, já o espanhol /acho que é um pouco mais acessível.

Ainda a respeito das diferenças e semelhanças entre professores de espanhol e de outras disciplinas, percebeu-se nas entrevistas com P5 e P3 que, para elas, os alunos vêem os professores de espanhol a partir do valor e da importância que dão à matéria, ou seja, as aulas de espanhol são vistas como as menos importantes, tida como diversão ou quase uma matéria extra- curricular.

(10) 3: Eu não sei, eu não sei como eles me vêem. Eu acredito que a princípio, assim, quando tu chega numa aula, assim, no primeiro momento da aula, “chegou o professor de espanhol”. É a aula onde tu pode fugir mais da rotina, sabe, aula de Ed. Física, Artes e Espanhol. Não é tão respeitada. [...] Eles já acham que no espanhol pode tudo, até tu conquistar. Que o professor de espanhol pode tudo, pode brincar, pode fazer gozação, é a aula da gozação, sabe? Eu acho que confunde um pouco a disciplina com o professor.

P5: [...] Pela fala dos alunos, talvez tenha alguma coisa a ver, entendeu? Que a / Língua Espanhola ou qualquer língua não é tão interessante quanto seria Português, Matemática, Ciências, entendeu? Só que eu faço pra eles ver que não é bem por aí, é uma disciplina também que faz parte do conhecimento sim e que é a nossa realidade. Agora não é só uma nem duas línguas, nós tamos numa época da globalização e aí eles precisam saber tudo e eu digo: se vocês acharem que sabem, porque a grande maioria que acha que sabe o espanhol e vai falando besteira {

Na tentativa de delinear o perfil dos professores de espanhol, os alunos foram solicitados a especificar certos quesitos como sexo, idade, aparência e jeito de ser, se fossem contratar os serviços deste profissional.

Os resultados mostraram que os alunos preferem professoras mulheres e mais jovens, na faixa etária de 22 a 26 anos, tendo ainda a seguinte aparência: morena clara, olhos claros, estatura mediana, magra, com boa aparência, vestindo roupas leves sem atrair a atenção dos alunos, como calça jeans, camiseta e tênis. Quanto ao jeito de ser em sala de aula, foram salientadas características como: ser “simpática”, “divertida”, “alegre”, “descontraída”, “calma”, “compreensiva”, “paciente”, “brincalhona” e “gentil”. Outras exigências também foram destacadas como: “ensinar bem”, “que saiba reconhecer seus erros”, “gostar do que faz”, “ser muito amiga do pessoal”, “que ensine as pessoas a falar espanhol”, “letra legível”, “ser brava quando os alunos não obedecem”.

A descrição da professora de espanhol imaginada pelos alunos ratifica mais uma vez a condição feminina para o trabalho docente, porém deve ser jovem, sugerindo a idéia de alguém menos rígida e, portanto, mais maleável na relação com os alunos, podendo assim favorecer maior descontração em sala de aula. A idade da professora, neste caso, pode representar o seu jeito de se relacionar com os alunos, ou seja, professores mais velhos seriam mais sérios e fechados em comparação aos professores mais jovens.

A aparência da professora retratada pelos alunos mostra, em parte, o padrão de beleza cultuado pela mídia, como pele branca, “magra” e de “boa aparência”. Por outro lado, a vestimenta deve ser comedida e informal, no estilo jovem: “camiseta”, “calça jeans” e “tênis”, aproximando-se das vestimentas dos alunos.

A professora de espanhol que se deseja deve ainda reunir competência didática, isto é, explicar bem a matéria e ter domínio sobre o conteúdo e, principalmente, habilidades pedagógicas favoráveis (ser “legal”, “dinâmico”, “saber prender a atenção dos alunos”). Para resumir, os alunos criam uma imagem de professora bonita, competente e amiga, fundamentada na civilidade (“gentil”, “educada”), descontração (“divertida”, engraçada”) e compreensão (“ter paciência”, “calma”).

Cabe ressaltar que, em nenhum momento, os alunos mencionaram a proficiência oral do(a) professor(a) na língua espanhola como exigência para a

sua contratação, talvez por acreditarem que esta seja uma característica inerente a ele/ela. Além disso, nada foi mencionado sobre se o professor seria ou não falante nativo do espanhol.

Sobre esta última questão, os alunos foram questionados se aprenderiam mais com professores nativos em comparação aos professores brasileiros de espanhol. Os dados dos questionários mostraram que, a maioria dos As5 acredita que aprende-se mais com professores nativos. Este posicionamento parece alinhar-se ao pensamento de P5, que é professora nativa desta língua.

(11) Pq: E o fato de ser nativa da língua, atrapalha, aproxima, como é que é isso?

P5: Pra eles é interessante que seja nativa da outra língua, né? Que a professora sabe tudo, entendeu? {{{ Pq: Então eles não dão tanto crédito ao professor brasileiro?

P5: Isso, por exemplo, teve uma professora que lecionou o ano passado aqui, aquela tansa nem falar sabia, entendeu?

Pq: Como?

P5: Eles falaram pra mim: aquela tansa nem falar sabia! Pq: E por que era brasileira?

P5: Sim.

Pq: Você acha que os alunos preferem professores que não sejam brasileiros? [

P5: Isso, que sejam falantes nativos da segunda língua. Foi o que eles disseram pra mim.

No trecho acima, P5 explica que o desempenho oral precário de uma professora brasileira de espanhol colocou-a em descrédito perante os As5, mostrando não ter domínio da língua que ensina. Segundo P5, isso não aconteceria se o professor fosse nativo da língua espanhola, por ser ele melhor preparado (“[ele] sabe tudo”). Sua percepção sobre a representação que os As5 têm sobre o professor nativo de espanhol mostra que, por ser nativo, isso já lhe confere saber lingüístico e habilidades comunicativas na língua-alvo (L-alvo), em relação ao professor não nativo.

Na entrevista com alguns As5, entretanto, foi possível identificar o contrário, ou seja, que a qualidade da aprendizagem não depende do professor ser ou não nativo da língua.

(12) Pq: Vocês sabem que a professora de vocês nasceu num país que fala espanhol. Vocês acham melhor um professor que nasceu num país que fala espanhol ou um professor brasileiro?

M51: Nada a ver porque se ele quiser mesmo dar aulas de espanhol ele vai aprender até mais que ela. Se ele pensa mesmo em dar aula, ele vai aprender até bem melhor que ela, é só querer.

Pq: Então não tem diferença entre o professor brasileiro e o professor que nasceu num país que fala espanhol? [ : Não

M51: Acho que esses que são daqui que aprendem espanhol aprendem bem mais ainda que quem nasceu lá.

É possível sugerir que, para alguns alunos, a experiência de aprender mal vivida com professores despreparados, por exemplo, nativos ou não da LE, pode afetar a construção da representação do professor.

Os As8, por sua vez, mostraram-se indecisos em relação à superioridade do professor nativo sobre o professor brasileiro de espanhol. Já os As3 disseram não acreditar que um aluno aprenderia mais com um professor nativo. Na entrevista, quando indagados sobre esta questão, os As3 assim se posicionaram:

(13) Pq: Vocês acham que professores de espanhol ditos nativos, ou seja, que têm origem em um país de fala hispânica são melhores do que professores brasileiros de espanhol?

M32: Seria mais complicado porque a gente não ia entender mais nada mesmo. Porque ia viver falando espanhol.

G31: Eu já tive nas aulas de inglês da Inglaterra. Por um lado é bom por outro não. Ele forçava a gente falar em inglês, isso era bom, ou a gente falava inglês ou não falava e não conseguia se comunicar com ele [

M33: E ele não entendia português?

G31: Isso, por outro lado, a gente queria tirar uma dúvida e era muito difícil tirar essa dúvida. Mas a gente achou um inglês muito forçado, assim, ficou bom.

Para esses alunos, o professor nativo de espanhol é aquele que se comunica com os alunos nessa língua durante toda a aula e que os força a se expressar na língua estrangeira. Essa imagem parece ser retratada positivamente por eles, sugerindo que tal procedimento traz ganhos para a sua

aprendizagem. Entretanto, eles sugerem que o professor nativo de língua estrangeira deveria dominar a língua materna de seus alunos, para assim conseguir fazer comparações, analogias, diferenças entre as línguas e poder explicá-las, facilitando ou favorecendo a aprendizagem.

Também foi possível verificar que a maioria dos As5, As8 e As3 acredita que os professores de espanhol devem falar mais a língua estrangeira em sala de aula, mostrando a necessidade de esses profissionais reinterpretarem a sua abordagem de ensinar. Por outro lado, a maior parte dos alunos pesquisados afirmou que os professores com forte sotaque estrangeiro podem dificultar a compreensão da matéria.

Os As8 e As3 discordaram da idéia de que um bom professor de espanhol é aquele que já viajou para um país de língua espanhola. Como já sinalizado anteriormente, esses alunos avaliam os professores na sua forma de ser, fazer e agir com os estudantes. Portanto, viajar para um país de língua espanhola não beneficia necessariamente esses aspectos. Diferentemente, os As5 acreditam ser este um fator importante para um bom professor de espanhol, visto que favorece o seu conhecimento lingüístico-cultural. Esta visão parece coerente com a representação que esses alunos fazem sobre o professor em geral, cuja imagem está vinculada aos seus aspectos pedagógicos.

Surpreendentemente, a maioria dos alunos pesquisados concorda que para ser professor de espanhol basta falar bem o idioma, mesmo sem ter formação específica para exercer tal profissão. Isso significa dizer que, para esses alunos, a proficiência oral é requisito fundamental para um professor de língua espanhola. Quanto a essa questão, P3 ressaltou seu descontentamento com a supervalorização dada pelos alunos aos professores nativos.

(14) Pq: Você acha que influencia o professor ser nativo da língua ou não na relação com os alunos?

P3: Eu acho que sim, com certeza. Os alunos têm muito mais respeito por um professor nativo, mesmo que ele não tenha habilitação em espanhol, mesmo que ele não tenha / não tenha nem curso superior. Ele morou na Argentina cinco anos, tem todo sotaque argentino, chega dentro de sala de aula “ah, o cara é fera, ele sabe tudo”, muito mais respeito.

Para concluir, os alunos pesquisados vêem o professor de espanhol como qualquer outro professor, todos com o seu jeito específico de ser e ensinar. Entretanto, há indícios de que a sua imagem está associada a alguém que propicia oportunidades de descontração e, ao mesmo tempo, momentos sérios para a explicação de regras gramaticais. É aquele que também se caracteriza por falar uma outra língua e utilizar diferentes recursos didáticos, principalmente áudio-visuais (através de atividades com músicas, filmes, danças).

Quanto ao seu perfil, a representação do professor de espanhol é de uma jovem mulher, bonita, cabelo escuro, pele clara, vestindo roupas joviais e comedidas. Sobre seus conhecimentos, a maioria dos alunos a vê como alguém fluente oralmente na L-alvo, sem ter necessariamente formação universitária na área, podendo ser nativa ou não, tendo viajado ou não para países de língua espanhola. Deve se comunicar com os alunos na LE e evitar o forte sotaque ao interagir com a classe em português, caso seja nativa.