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e) quase exclusividade de modalidades individuais

Fonte: Elaborado pelo autor (2020).

Apresentados os critérios de caracterização e os elementos que, no nosso entender, permitem uma análise por contraste entre esportes tradicionais e esportes de aventura, na sequência passamos a descrevê-los e discuti-los, visando demonstrar como o mesmo fenômeno esporte orienta-se por (e admite) diferentes formas de organização e desenvolvimento no presente momento da sociedade da cultura administrada.

3.1 REPRESENTAÇÕES SOBRE OS ESPORTES TRADICIONAIS E OS DE AVENTUREA A PARTIR DE SUA IMAGEM PÚBLICA

Numa era altamente publicizada, a imagem pública dos esportes está relacionada às atitudes das instituições e atletas perante a sociedade; por diversos meios, eles divulgam ostensivamente a realidade “vivida” no campo esportivo, de modo que suas atitudes terminam reverberando também nas ações dos aficionados pelo esporte.

Assim, crê-se que os esportes tradicionais são impetrados por rotinas/padrões sólidos e melhor aceitos na sociedade liberal, a qual mantém seus ideários sólidos por perpetuação de práticas culturais. Dessa forma, podemos perceber que os atletas dos esportes tradicionais são reconhecidos socialmente por uma imagem pública das suas rotinas dura de treinos, sua alimentação controlada e seus hábitos saudáveis, condizentes com as exigências de performance atlética. Essa construção identitária moralista do esporte foi inclusive importante, do ponto de vista histórico, para que conseguisse ser aceito e implementado no sistema educacional, como vimos no capítulo anterior.

Figura 11- Atleta Thiagus em treinamento por sua equipe43

Fonte: Instagram (2018).

Figura 12 – Atleta Deonise em preparação física44

Fonte: Instagram (2018).

Figura 13 – Eduarda Amorim em testes físicos no clube45

Fonte: Instagram (2018).

Contrapondo-se a essa imagem projetada dos esportes tradicionais, os esportes de aventura construíram suas identidades na rua, no ambiente natural, na marginalidade dos sistemas sociais. Para muitos, os esportes de aventura eram associados às pessoas que queriam fugir das obrigações sociais da vida cotidiana moralmente aceitas. Assim, passaram a ser reconhecidos como atletas que não necessitariam de treinamento, as suas práticas esportivas seriam realizadas só por prazer, sem fins de alto rendimento. Seus hábitos de vida normalmente

43 Disponível em: https://www.instagram.com/p/Bqj_NlKHbvT/

44 Disponível em: https://www.instagram.com/p/BxPxd7-nYU-/

não são considerados como exemplos a serem seguidos. Por outro lado, essa imagem pública de uma certa liberdade e rebeldia promove a percepção de que eles desfrutam de um certo lifestyle que encanta grupos sociais e etários bem específicos.

Figura 14 – Vittória Lopes treinando ciclismo46

Fonte: Instagram (2018).

Mesmo que, no contemporâneo, com disputas esportivas altamente competitivas e estruturadas, a realidade do cotidiano atlético dos praticantes de esportes de aventura seja muito mais assemelhada à dos atletas dos esportes tradicionais, ainda assim, permanece no senso comum essa imagem pública, até mesmo ainda merecendo certas críticas aos praticantes dessas modalidades, não poucas vezes adjetivados de vagabundos, maconheiros e outros (ARAGÃO, 2013; FERNANDES et al., 2020; FORTES, 2008; GARCEZ, 2014; HONORATO, 2005; UVINHA, 1997).

A diferenciação entre os esportes da modernidade sólida e os da modernidade líquida, no que se refere à sua imagem pública, pode ser observada também nos seus locais de prática, instalações e equipamentos. Sabemos antecipadamente quais são as condições de prática dos esportes tradicionais, independentemente de onde for a competição, porque são espaços artificialmente delimitados, sob rigorosas regras; já os esportes de aventura apresentam maior variação conforme os locais mesmos de sua realização. Enquanto nos esportes tradicionais, as federações internacionais determinam tamanho da quadra, peso de bola, angulação máxima da pista, vento máximo admitido, movimentos obrigatórios, entre outros pontos determinantes para que a disputa aconteça de forma igualitária para todos os atletas - e assim, os resultados não poderem ser questionados, como já vimos -, nos esportes de aventura nem sempre é possível estabelecer uma completa uniformização dos espaços e de equipamentos de competição, porque muitos acontecem no ambiente natural ou mesmo construído, mas não necessariamente para a prática de esportes. As influências dos diferentes fatores de clima, ventos, conformação física

do ambiente de competição e outras variabilidades naturais levam, inclusive, os atletas a fazerem escolhas por equipamentos que se adéquam melhor àquela situação específica, como pranchas, tipo de rodas, cordas etc.

Figura 15 – Diferença entre os locais de competição dos esportes tradicionais e de aventura47

Fonte: Instagram (2018).

Além disso, nos esportes de aventura, os atletas dispõem de maior liberdade de escolha em suas práticas e manobras, por não haver tantas obrigações prévias; assim lhes cabe explorar o espaço e as condições de prática da maneira que melhor lhes aprouver. Como esportes que envolvem um relevante fator de performance estética, muito mais do que de tempo ou força, a sua “coreografia” parece ser construída no instante mesmo da exibição.

O contraponto entre rigidez sólida e flexibilidade líquida desses dois modelos de esporte pode ser observado também no fardamento exigido em cada prática. Nos tradicionais, os atletas utilizam uniformes-padrões, determinados pelas federações e fabricados pelas grandes marcas, visando utilizá-los como mais um componente da sua busca por performance. Por outro lado, atletas dos esportes de aventura utilizam vestimentas que lhe possibilitam maior conforto, têm liberdade para fazer opções que lhes permitam melhor desempenho, conforme as condições de prática. Além de utilizarem sua indumentária esportiva para se diferenciar entre os demais e reforçarem a imagem pública de um determinado lifestyle, de simplicidade e despojamento.

Figura 16 – Liberdade com o uniforme48

Fonte: Instagram (2018).

47 Disponível em: https://www.instagram.com/p/BtSxmg-AsrB/ e https://www.instagram.com/p/BkIjpqEBqDL/.

48 Disponível em: https://www.instagram.com/p/Bq3Yc-LjBXm/ e https://www.instagram.com/p/B5_UY56n3PT/.

Quando falamos em rigidez nos sistemas de controle dos esportes tradicionais, não há como desconsiderar a sua construção histórica. Como já vimos, o esporte surgiu com o objetivo de contribuir no processo civilizador da sociedade moderna, que necessitava reordenar seus modos; dessa forma, ele constitui-se num sistema que arregimentava todos os demais processos. Para que uma competição fosse justa, na perspectiva liberal, todos deveriam ter a mesma chance de vitória para, assim, legitimar a ideia de meritocracia. Para tanto, era necessário impor rígida organização de categorias (por idade, gênero, peso etc.). Desde sempre, esse sistema foi quase inquestionável, ao ponto que nos esportes tradicionais até hoje os atletas só são considerados profissionais, por mais que se destaquem, após completar os 16 anos. Enquanto isso, nos esportes de aventura há atletas competindo com idade bem inferior à exigida aos atletas dos esportes tradicionais nos eventos top das modalidades, com destaque internacional. Numa outra lógica, em que é a performance esportiva que estabelece o nível de inserção dos atletas aos eventos, é comum vermos jovens com idades bem baixas competindo com atletas bem mais velhos, sem que isso seja motivo para obstar ou pôr em dúvida os resultados alcançados. Essa flexibilidade dos esportes de aventura se coadunaria melhor com os tempos líquidos da Modernidade, porque a performance estética dessas práticas é muitas vezes mais relevante do que os resultados em si.

Nessa mesma direção, outra causa dessa diferença pode estar relacionada ao tipo de práticas corporais que caracterizam, predominantemente, os esportes de aventura e os tradicionais. Nesses últimos, na sua maioria, as disputas envolvem certo enfrentamento físico-corporal, nos quais as habilidades técnicas são amplamente apoiadas em valências físicas como força e velocidade. Por isso, a padronização de categorias é relevante - mesmo porque, é bom lembrarmos que o esporte foi criado em um contexto no qual era utilizado para manter os corpos da população fortes, para o trabalho e para as disputas territoriais.

Nos esportes de aventura, busca-se uma melhor exploração das habilidades corporais nos ambientes competitivos, nos quais a performance estética ocorre, normalmente, sem contato corporal com os demais competidores. Ao contrário da sobrepujança corporal sobre o adversário, comum na imagem pública socialmente compartilhada dos esportes tradicionais - até mesmo no uso de linguagem bélica (BITENCOURT et al., 2005), nos de aventura se valorizam os momentos de desempenho em si, na luta do atleta contra as imposições do ambiente natural e as limitações do próprio corpo; por isso, as diferenças físicas são, para efeitos de imagem, menos significativas para o código vitória-derrota.

Todas essas diferenças da organização dos esportes tradicionais e de aventura, ao final, atingem não só aos atletas de rendimento, como também orienta as práticas esportivas como atividade de lazer, cujo conjunto de praticantes constitui grande parte da plateia que admira e acompanha cada um dos tipos de esporte. Os aficionados dos esportes tradicionais, praticantes, espectadores ou telespectadores, foram de maneira geral moldados pela forma como os meios de comunicação tradicionais (rádio, jornal, revista e televisão) apresentaram esses esportes a eles, como um padrão de referência a ser seguido. Nesse modelo, as plateias são normalmente imensas e comungam com os atletas dos mesmos princípios gerais do esporte, que Kunz (1995) apontou: sobrepujança, racionalização e comparações objetivas. Assim, há grande ênfase no binômio vitória-derrota e considera-se muito mais relevante vencer, ficando o “jogar bonito” como mero discurso complementar. Por outro lado, ainda que a ideia de vitória também esteja obviamente presente nos esportes de aventura, o próprio modo de competir e estabelecer performances é diferente, porque estas decorrem de julgamentos mais subjetivos. Assim, a beleza de um gesto esportivo é, no âmbito da audiência, a primeira coisa e talvez a mais importante a ser apreciada nos esportes de aventura, pois não há, via de regra, comparações absolutamente objetivas que permitam antecipar os resultados.

Ainda no que se refere à imagem pública, podemos destacar as representações sociais referentes a características específicas dos públicos aficionados das duas manifestações de esporte que estamos considerando no presente estudo. Nesse sentido, talvez o principal contraste que se pode ressaltar é a heterogeneidade do conjunto dos aficionados dos esportes tradicionais e uma maior homogeneidade nos grupos dos espectadores dos de aventura, no que tange a fatores sociodemográficos, como faixa etária, gênero, classe social, raça/origem.

Os esportes tradicionais, por toda uma tradição histórica que se encontra consolidada na sociedade ocidental, têm plateia e consumidores em praticamente todas as faixas etárias. Muitas modalidades do campo esportivo da Modernidade sólida são praticadas desde as idades mais tenras, em categorias acertadamente denominadas “fraldinha” ou “dente de leite”, até os com idades bem avançadas, chamadas “masters”, em algumas modalidades. Isso faz com esses praticantes se tornem fãs da modalidade, dos atletas e dos clubes por grande parte de suas vidas e, pelo fato de ingressarem cedo na carreira esportiva, mesmo que por lazer, e a estenderem bastante, podemos afirmar que os esportes tradicionais tem aficionados talvez até para além “dos 8 aos 80” anos, como diz o ditado.

Também no que diz respeito ao gênero, embora ainda haja modalidades com maior tradição de prática entre homens ou entre mulheres, os seus fãs estão, em geral, razoavelmente representados tanto em públicos masculino quanto feminino. A mesma coisa podemos dizer

quanto à classe social dos consumidores dos esportes tradicionais em geral. As torcidas dessas modalidades, com algumas exceções, não se caracterizam por pertencer a classes sociais muito restritas, ainda que as condições de acesso e consumo do mesmo espetáculo esportivo seja bastante diverso entre os torcedores (reproduzindo, aliás, as desigualdades sociais da própria sociedade). O mesmo pode ser percebido no que se refere às questões raciais, no sentido lato, dos torcedores, com diferenças que decorrem muito mais dos estratos de classes sociais do que de outros fatores. Aficionados de diferentes raças, etnias ou origens regionais podem ser observados irmanados nas arquibancadas ou frente aos seus televisores para vibrar pelos seus clubes/atletas preferidos comuns.

Por sua vez, nos esportes de aventura a imagem pública dos seus espectadores parece ser bem mais restrita, revelando uma homogeneidade bem maior, em grupos formados com maior semelhança nos aspectos sociodemográficos. Por serem esportes praticados por atletas mais concentrados numa faixa etária jovem, é também nesse grupo etário que se encontram os seus aficionados, formando um nicho de consumo bem mais específico. Isso porque, também, não são tão comuns nem tão disseminadas, por assim dizer, escolinhas de esportes de aventura, salvo projetos muito localizados e que dependem de iniciativas bastante particulares. Da mesma forma, por ainda não terem uma tradição histórica muito longa, dificilmente encontramos pessoas da chamada terceira idade entre os consumidores de esportes de aventura.

Quanto à questão de classe social, por serem esportes mais caros, seus praticantes precisam despender maiores valores para suprir despesas com equipamentos, deslocamentos, duração das competições etc., o que induz a certa concentração em classes sociais mais privilegiadas. Da mesma forma ocorre com os aficionados que, para conseguirem consumir esses eventos esportivos in loco, precisam contar com fontes financeiras que lhes permitam deslocar-se em vários lugares do mundo, muitos deles caros por conta da sua condição turística; ou ainda dispor de meios tecnológicos de custo mais elevado, como equipamentos e pacotes de serviço de internet, para acompanhar por meio de mídias menos populares, como sistemas on demand ou streaming (trataremos mais disso à frente). Aqui também a concentração dos públicos conforme o fator racial ou de origem geográfica, que pode ser observado enquanto imagem social, decorre diretamente da desigualdade social que associa, na população do nosso país, ricos à raça branca e às regiões sul/sudeste.

Por fim, parece que os esportes de aventura, por representarem a faixa etária jovem e ter esta como seus grupos principais, não apresentam uma concentração muito desigual de público no que diz respeito a gênero, da mesma forma como vimos em relação aos esportes tradicionais,

havendo aficionados de ambos os sexos em proporções que, diferente dos acima referidos, não apresentam uma maior homogeneidade.

3.2 COMO ESPORTES TRADICIONAIS E DE AVENTURA FINANCIAM O SEU