Vale lembrar que ao examinarmos as RS do sucesso e fracasso escolar do aluno de física, em separado, poderemos, por comparação, tirar conclusões sobre o efeito da situação escolar do aluno de física sobre as RS do(a)s estudantes universitário(a)s e professores do Ensino Médio sobre o ensinar e aprender física.
5.1.1 Campo comum das RS do sucesso escolar
Espera-se que a análise do campo comum das RS do sucesso escolar do(a) bom aluno(a) em Física permita examinar o efeito da formação acadêmica (graduados e não graduados) e da experiência pedagógica (estudantes e professores) sobre a natureza das RS do ensinar e do aprender Física. A análise das RS destes sujeitos, relativas ao sucesso escolar, realizada com o auxílio do Alceste sobre as respostas dadas às questões abertas (questões 1; 1.2; 3; 5 e 7.a), revelou, na Classificação Hierárquica Descendente (CHD) a presença de dois eixos, cada um deles composto de uma única classe, como por ser observado na Figura 4.
Eixo 1 - relação professor-aluno
O Eixo 1, composto unicamente pela Classe 1, representa 75% da variância total do corpus analisado, e expressa as RS do sucesso em Física a partir da díade professor-aluno. Este eixo condensa particularmente as RS dos participantes mais jovens que não têm formação acadêmica e nem experiência pedagógica, portanto, do(a)s estudantes universitário(a)s de Física. Ao se examinar os sentidos dados à relação professor(a)- aluno(a), constata-se que para os estudantes, professor e aluno são corresponsáveis pelo sucesso escolar do(a)s alunos de Física: “em primeiro lugar este aluno tem que gostar de estudar , estar motivado, ter consciência de que a Física estar presente no seu dia a dia e além disso o professor também tem que gostar daquilo que faz, estar também procurando
se atualizar a cada dia” (fem., faixa etária entre 26 e 35 anos, tem formação acadêmica e experiência pedagógica).
Figura 4 - Classificação Hierárquica Descendente do corpus total sobre o sucesso do bom aluno em Física e as 2 classes geradas
O interesse e a motivação são fatores internos, mas que devem ser gerados pelo(a) professor(a) no aluno, como exemplifica o discurso de um dos participantes, que expressa com clareza a ideia de corresponsabilização do professor, aluno, fatores sociais e até governamentais:
Porque um aluno que tem interesse é um aluno que sinto certo prazer em ensinar, facilitando o processo de formação de conhecimento e de formulação do senso comum; ter tido seu interesse nos fenômenos naturais despertado em algum momento de sua vida: I. Lembrando que o professor pode motivar esse passo; II ter um professor que o motiva e o intriga com um método de ensino divertido no ensino fundamental e médio é interessante para o aluno; III ser participativo e interessado na aula de física; IV infelizmente não é de total faculdade de o professor despertar todo o interesse nos alunos, também depende do Estado (fem., faixa etária entre 17 e 25 anos, sem formação acadêmica, sem experiênciapedagógica).
Como fator mediador da relação professor-aluno, os sujeitos apoiam-se no papel das metodologias de ensino. Entendem que o método de ensino da Física também é relevante
para o sucesso do aluno em Física, sem perder de vista, todavia, o ritmo de cada aluno, ou seja, as potencialidades individuais devem ser respeitadas, as matérias devem seguir uma sequência lógica, a identificação do aluno com a Física a torna mais fácil de ser assimilada, mais prazerosa etc. A fala abaixo expressa esta ideia:
O método de ensino de física é totalmente relevante no sucesso do aluno, desprezando facilidades individuais, com o método correto, obedecendo ao ritmo de cada aluno e, repito, na continuidade da sequência de matérias abordadas, a identificação do aluno com a física é muito mais facilitada e prazerosa, instigando, interessando e aproximando a realidade do dia-a-dia do aluno aos conceitos teóricos expostos em aula (masculino, faixa etária entre 17 e 25 anos, sem formação acadêmica, estudante da Licenciatura em Física, com experiência pedagógica).
Por outro lado, a metodologia também deve ser lúdica para que a aprendizagem ocorra a forma como os conteúdos são apresentados aos alunos pode contribuir para que o aluno tenha sucesso na aprendizagem da Física. Os discursos abaixo representam bem esta relação:
O professor tem o papel fundamental de despertar o interesse nos que não o tem, e deixar a disciplina mais palpável e divertida para todos; facilidade em matemática e curiosidade em ir além da matéria que lhe é passada. Assim, o sucesso do aluno depende muito da forma com que o professor aborda o conteúdo, quanto mais lúdico for o ensino melhor será a aprendizagem, um ensino com a didática correta, clara e objetiva que incentive a prática da disciplina pelo aluno e que, primordialmente, desperte o interesse do aluno pela disciplina, dentre outros (síntese dos discursos do conjunto dos sujeitos).
Nestes fragmentos de discurso percebemos a preocupação com a metodologia de ensino e também com a interação do(a)s alunos de Física com o(a) professor(a), o que denota uma perspectiva mais interacionista, ideias centradas nas teorias do desenvolvimento e da aprendizagem de Piaget, Vigotsky, Wallon, dentre outros.
Pode-se dizer que a relação professor-aluno utilizada aqui para explicar o sucesso do bom aluno em Física se apoia em três grandes categorias explicativas, a saber: 1. A relação professor-aluno, cabendo ao professor atuar de modo a facilitar o aprendizado e ao aluno se interessar e estudar física; 2. Os fatores externos, tais como o ambiente familiar, a qualidade da escola e das condições materiais colocadas à disposição dos professores e alunos de modo a permitir que o processo ensino-aprendizagem se efetue; 3. O uso de metodologias adequadas ao que se ensina e às caraterísticas individuais do educando.
Eixo 2 - Atributos do bom aluno
O Eixo 2 (classe 2) explica 25% da variância total do corpus analisado pelo Alceste. Este expressa, sobretudo, o pensamento de jovens professores (os quais já têm, portanto, experiência pedagógica a despeito da idade) acerca das qualidades do aluno.
As palavras que expressam o Eixo 2 são: fenômeno físico, perseverança, raciocínio lógico-matemático, capacidade de estudar, capacidade interpretativa, capacidade de resolver exercícios, sabe ler e interpretar os enunciados, criar modelos matemáticos, ter força de vontade para aprender, conforme pode ser verificado no discurso de um dos participantes da pesquisa: “capacidade de compreender, modificar e criar modelos matemáticos que descrevam um sistema, dominar esta faculdade interpretativa é crucial para o desenvolvimento do raciocínio logico e sistêmico inerente à abordagem científica a qualquer objeto de qualquer campo” (masc., faixa etária entre 36 e 45 anos, tem formação acadêmica e experiência pedagógica ).
Os aspectos individuais são muito ressaltados pelos participantes da pesquisa, como por exemplo, dedicação, curiosidade, criatividade e inteligência: “[...] um bom aluno em física é aquele que tem dedicação, disciplina, que questione nas aulas, que este aluno tenha a capacidade de observar e refletir determinado fenômeno físico, para que o aluno tenha sucesso nesta disciplina é preciso ter essa relação (masc., faixa etária entre 26 e 35 anos, não tem formação acadêmica e nem experiência pedagógica).
5.1.2 Variações grupais e ancoragem das RS do sucesso do bom aluno em Física
A despeito do programa Alceste não ter efetuado a Análise Fatorial de Correspondência, provavelmente por ter identificado na CHD apenas duas classes, ainda é possível visualizar, a partir das variáveis típicas de cada uma das classes geradas, a presença das variações nas RS do ensinar e aprender física do sucesso do bom aluno em função das caraterísticas dos sujeitos da representação. De fato, pode-se constatar que quando se trata de explicar o sucesso do bom aluno, há uma tendência dos sujeitos mais jovens, ainda não graduados (sem formação acadêmica) e sem experiência pedagógica (os estudantes), em valorizar, sobretudo a qualidade da interação professor, inserida em um contexto favorável de aprendizagem (bom ambiente familiar dos alunos e uma escola provida de condições materiais adequadas para assegurar o ato pedagógico rico de oportunidades de aprendizado).
Em contrapartida, os jovens professores, independente de serem ou não graduados, focaram com maior ênfase os atributos individuais de cada aluno para explicar o sucesso escolar. Esta ênfase recaiu em qualidades tais como curiosidades, perseverança, interesse, raciocínio lógico, requisitos imprescindíveis, de acordo com os professores, para que o aprendizado da Física se efetive.
Esta forma de se pensar e, portanto, de se representar o ensinar e aprender Física pelos bons alunos de Física ancorou-se, muito provavelmente no momento em que o estudante de Física estava vivenciando, o qual lhe facultou certa facilidade de explicar o sucesso do aluno pautado na relação professor-aluno em consonância com os preceitos teóricos que ele vem examinando nas disciplinas ditas pedagógicas em seu curso de graduação em Física. Em tais disciplinas é corrente se examinar teorias do desenvolvimento e da aprendizagem que sustentam que os processos pedagógicos resultam da qualidade das interações que se dão entre o professor(a) e seus aluno(a)s, assim como todo os processos de desenvolvimento, inclusive da inteligência, que são explicados pelas mediações que se dão nas relações entre sujeitos socialmente situados.