A Teoria
A análise das representações sociais dos professores será baseada nos pressupostos teóricos da Teoria das Representações Sociais, sistematizada inicialmente por Serge Moscovici (1978) e, posteriormente, desenvolvida por outros autores, com desdobramentos empíricos e teórico-epistemológicos que contribuíram para o aprofundamento da teoria, dentre os quais, Jodelet (1989, 1994, 1999, 2001, 2005), Gilly (1984, 2001), Doise (1990, 1992, 1998), Abric (1994, 2000), Sá (1995, 1996, 1998), Alves-Mazzotti (1994, 1996, 1998, 2001, 2002), Spink (1995), Guareschi e Jovchelovitch (2012).
Desde a sua sistematização, por Serge Moscovici (1978), a Teoria das Representações Sociais tem representado uma inovação frente aos conceitos que constituíram historicamente a Psicologia Social como disciplina. Seu caráter inovador se deve às rupturas e às revisões de alguns conceitos centrais para a Psicologia Social, tal como a questão do individualismo teórico, que marcou historicamente a disciplina no ocidente. Por muito tempo, principalmente na América do Norte, o indivíduo foi tomado como a principal variável para a compreensão das noções como atitude, comportamento e realidade. Tal concepção ainda impera em muitas vertentes teóricas, principalmente aquelas com viés positivista, que polarizam a relação “indivíduo” e “sociedade”, como se as leis que explicam os fenômenos coletivos fossem distintas e não relacionadas aos fenômenos individuais.
Contrastando com a concepção individualista, Moscovici reconheceu a existência e a importância do indivíduo, porém não o tomou como única referência para a compreensão da vida em sociedade, mas considerou a dimensão dialética entre os processos psicológicos individuais e os elementos da vida em sociedade, aquilo que caracteriza o coletivo e o social; nesta perspectiva, o indivíduo, como sujeito social, ao mesmo tempo que modifica a sua realidade, é também produto desta.
Deste modo, a Teoria das Representações Sociais rompeu com as chamadas teorias hegemônicas da Psicologia Social, que ao tentarem explicar a complexidade da vida humana, incorreram em problemas teóricos através de explicações simplistas, individualistas ou demasiadamente sociológicas, ignorando a tensão existente entre indivíduo e sociedade. Dentre tais teorias, existe aquela que defende que a análise de
vidas individuais precisa, necessariamente, ser individualista; ou aquela que afirma a importância de se estudar a história e a sociedade, como forma de garantia contra tendências individualizantes; ou ainda, a teoria que, por considerar indivíduo e sociedade como entes constituintes um do outro, os iguala, como se fossem a mesma coisa. Sobre tais teorias, Guareschi e Jovchelovitch (2012) explicam:
Ora, vidas individuais não são realidades abstraídas de um mundo social; pelo contrário, elas só tomam forma e se constroem em relação a uma realidade social. A história e a sociedade também não podem ser simplesmente utilizadas como variáveis que influenciam a vida humana. Não raro, é assim que as encontramos em muitos dos estudos desenvolvidos pela PSICOLOGIA SOCIAL, que falham ao teorizar o aspecto constitutivo da história e da sociedade nos fenômenos psicossociais. [...] Na base de todos esses entendimentos encontramos um mesmo elemento central: o fracasso em teorizar a dialética entre o sujeito individual e a sua sociedade (p.18).
O processo histórico de individualização da Psicologia Social marcou o movimento de sua expansão na América do Norte. Farr (2012) identifica a Psicologia da gestalt como um movimento que influenciou o processo de individualização da Psicologia Social, anterior, e até mesmo predominante, à onda de generalização dos pressupostos positivistas.
A psicologia da Gestalt foi a causa principal da segunda onda de individualização da PSICOLOGIA SOCIAL. O behaviorismo representa a perspectiva do observador dos outros; a psicologia da Gestalt representa a perspectiva do ator, nas ciências sociais. Ambas as perspectivas são individualistas e incompatíveis entre si (FARR, 2012, p.47).
As rupturas que a Teoria das Representações Sociais propõe recolocam nos espaços constitutivos da teoria e do método em Psicologia Social um lugar para o mundo social e seus imperativos, valorizando a capacidade criativa e transformadora de sujeitos sociais (GUARESCHI; JOVCHELOVITCH, 2012).
Assim, a Teoria das Representações Sociais apresenta a possibilidade de se “caminhar um passo à frente” das concepções reducionistas na medida em que considera a relação dialética entre indivíduo e sociedade, e recupera o sujeito social que, através de sua atividade e relação com o mundo, constitui tanto a si próprio quanto a realidade social. É exatamente por este viés construtivista que Moscovici se aproximou dos conceitos piagetianos e assim conferiu um aporte dinâmico às representações sociais, no sentido de buscar a gênese das representações, seu processo histórico e subjetivo de construção e, como Piaget, buscou encontrar as mudanças nas representações, situando aí, seu potencial transformador (MOSCOVICI, 2003).
Jovchelovitch (2012) analisou as contribuições da obra piagetiana para a Psicologia Social e, especificamente, para os conceitos da Teoria das Representações
Sociais. A autora aponta o conceito de “descentração” de Piaget como um aspecto fundamental para a compreensão da formação do sujeito social, conforme defendido por Moscovici. Segundo a autora:
A emergência do EU, em oposição ao mundo externo, ocorre em relação estreita (ou mais ainda, como precondição) com as transformações mentais que permitem a representação de coisas e, portanto, o desenvolvimento do pensamento simbólico e da linguagem (JOVCHELOVITCH, 2012, p.64)
Sobre o processo de constituição do sujeito por meio da atividade simbólica, Jodelet (1989) argumenta que o ato da representação supera as divisões rígidas entre o externo e o interno ao mesmo tempo que envolve um elemento ativo de construção mental, de modo que o sujeito pode transformá-la na medida em que se desenvolve. Nesta perspectiva, a autora defende três características essenciais no processo de construção das representações sociais: o aspecto referencial, a atividade de representar envolve sempre alguém em referência a um objeto; o caráter imaginativo e construtivo, o objeto é sempre ressignificado pelo indivíduo a partir de seus saberes e valores sociais, e a natureza social, pois os elementos que estruturam as representações são sempre oriundos de uma cultura comum, de uma história que é compartilhadas pelos indivíduos de um grupo, através da linguagem.
Com forte influência dos pressupostos da Psicologia, numa perspectiva construtivista, Moscovici define a atividade representacional como um trabalho psíquico que pode ocorrer em nível consciente ou inconsciente. Através da sua relação com o mundo, desde o nascimento à morte, o indivíduo constrói um novo mundo de significados, uma nova realidade, distorcida de seu sentido ‘original’, ou melhor, do ponto de vista de outrem. É desta relação social que surgem as representações, as quais passam a operar como mediadoras da relação sujeito-objeto-mundo na medida em que “permitem a existência de símbolos, pedaços de realidade social mobilizados pela atividade criadora dos sujeitos sociais para dar sentido e forma às circunstâncias nas quais eles se encontram” (GUARESCHI; JOVCHELOVITCH, 2012, p. 66).
Não foi apenas nos processos psicológicos que Moscovici embasou sua teoria, o autor conferiu papel não menos relevante aos conceitos sociológicos, influenciado por seu ancestral, Durkheim, que a partir de sua teoria social, ajudou-o a compreender a força do coletivo social e também a questionar a influência do poder do indivíduo nesta realidade. O fato de Moscovici ter se apoiado nos fundamentos sociológicos de Durkheim explica o porquê de sua teoria ser comumente classificada como uma forma sociológica de Psicologia Social.
A noção de representação social surge do conceito de representação coletiva de Durkheim, contudo Moscovici defendia que tal fenômeno deveria ser analisado no âmbito da Psicologia Social, tendo em vista as características das sociedades modernas, marcadas pelo pluralismo, pela fluidez de ideias, mudanças econômicas políticas e culturais. Para Moscovici, a noção de representação coletiva, proposto por Durkheim, poderia ser apropriado para sociedades menos complexas, já que Durkheim estava interessado em explicar fatos sociais em termos de outros fatos sociais, ignorando, em sua análise, a dimensão individual (FARR, 2012).
Durkheim estava preocupado com aquilo que faz com que as sociedades se mantenham coesas, ou seja, centrou-se no estudo das forças e estruturas que mantêm o todo contra qualquer processo de fragmentação; assim, as representações coletivas ganham significado no pensamento de Durkheim, pois estas têm a capacidade de conservar o todo social. Moscovici (1978), por sua vez, não é adepto do conceito estático de representações, mas se interessa pela dinâmica de construção/ desenvolvimento das representações, e pelos processos de mudança nas sociedades modernas. Propõe, portanto, uma compreensão dinâmica das representações sociais, e defende a importância do estudo da gênese do senso comum e da transformação das formas de pensamento.
Na perspectiva de Durkheim, o comportamento individual é reflexo, ou efeito psíquico da ação coercitiva da consciência coletiva. Assim, as representações coletivas teriam uma existência concreta, marcada pela materialidade que é manifestada no comportamento dos membros de uma sociedade e na estrutura jurídica e organizacional de uma determinada formação social, através dos mecanismos de controle social. As representações coletivas conferem sustentação a uma moral específica, “necessária ao corpo social, materializando-a, objetivando-a e naturalizando-a, desempenhando, assim, o papel de amainar ou até mesmo eliminar a contradição entre o individual e o coletivo, mantendo a ordem e o equilíbrio social” (XAVIER, 2002, p.22).
Durkheim traça, dessa forma, uma linha rígida entre o individual e o coletivo, o psíquico e o social, com clara prevalência do segundo sobre o primeiro, na explicação dos fenômenos e da ação social. A ação de “construção” do sujeito na interação social não é considerada, a não ser em termos de “reprodução”. O plano simbólico é compreendido de forma homogênea na relação entre sujeito e sociedade, em um ponto de vista meramente conceitual, que negligencia a complexidade e o conflito presentes nas relações entre grupos humanos.
Se para Durkheim a relação entre representações individuais e coletivas tomou a forma de oposição radical, para Moscovici, a representação social deve ser tratada como uma “elaboração psicológica e social”, com formação a partir da triangulação “sujeito- outro-objeto” (JODELET, 2009).
Moscovici estava interessado em compreender a relação entre a ciência e o senso comum ou, em outras palavras, entre o universo reificado e o consensual, assim, centrou seus estudos iniciais na forma como uma teoria científica – a psicanálise nos anos 1960 – sai dos círculos acadêmicos e passa a compor o universo das conversações, ou seja, o senso comum, as referências cotidianas da conduta e as diferentes formas de compreensões do mundo. Dessa forma, o autor estava preocupado com os processos de transformação das representações e, assim, atribuiu importância ao modo como os novos conceitos, objetos, ideias e experiências vão sendo incorporados em nossa realidade.
Ao empreender esse vasto estudo, Moscovici (1978) formulou a Teoria das Representações Sociais, explicando que a forma como elaboramos o mundo está referenciada na cultura e é internalizada a partir de um processo ativo. Isto é, o sujeito interpreta a experiência e o mundo a partir das referências da cultura, mas essa interpretação comporta as formas próprias de cada sujeito, a partir de suas experiências. A esse processo de construção de sentidos Moscovici dá o nome de representação social. Ao analisar a representação social da psicanálise, Moscovici considerou não apenas o indivíduo como referência, mas, também, seu contexto e a cultura historicamente produzida, pois, segundo ele, as representações estão presentes tanto nas mentes dos indivíduos como no mundo. Portanto, o estudo acerca das representações sociais implica análise em dois níveis, o psicológico (cognitivo/ afetivo) e o sociológico, o que inclui os meios de comunicação, a linguagem enquanto produto histórico-cultural, entre outros elementos que viabilizam a vida em sociedade e influenciam a elaboração de imagens, modelos, crenças e comportamentos.
Segundo Moscovici (1978), as representações sociais podem ser definidas como formas de interpretação da realidade, relacionadas a um objeto e a um sujeito, em um contexto social de produção, levando à orientação de práticas e comunicações dentro deste contexto. Neste sentido, a linguagem é fundamental, pois opera como uma ferramenta para se interpretar eventos e comportamentos. Além de expressar as significações, o mundo dos conceitos, dos indivíduos e das coletividades, é por meio da linguagem que se revelam as características atribuídas ao conhecido e ao desconhecido, classificam-se indivíduos e acontecimentos. Segundo Moscovici (1984, p.950), “as
representações são resultado de um contínuo burburinho e um diálogo permanente entre indivíduos, um diálogo que é tanto interno quanto externo, e durante o qual as representações individuais ecoam e são complementadas”.
Moscovici também conferiu importante significado ao senso comum, pois é nos significados socialmente partilhados, circulantes nos processos de comunicação, que estão as representações sociais. Até mesmo os conhecimentos científicos estão referenciados no senso comum, já que o homem comum apreende, interpreta e ressignifica partes dos conhecimentos produzidos pela ciência, a partir de suas referências e necessidades.
Pesquisadora do fenômeno das representações e uma das principais colaboradoras e difusora das ideias de Moscovici, Jodelet (1989, 2001) considera que as representações sociais dizem respeito à maneira como os sujeitos apreendem os acontecimentos da vida cotidiana, as informações de seu contexto, as pessoas, etc., isto é, dizem respeito aos conhecimentos acumulados por meio das experiências, das informações, saberes e modelos de pensamento, transmitidos pela tradição, educação e comunicação social.
Mas, por que são criadas as representações sociais? Jodelet (2001, p. 1) explica:
Sempre necessitamos saber o que temos a ver com o mundo que nos cerca. É necessário ajustar-se, conduzir-se, localizar-se física ou intelectualmente, identificar e resolver problemas que ele põe. Eis o porquê construímos representações.
O fenômeno das representações sociais está ligado aos processos sociais implicados nas diferenças existentes na sociedade, pois quando o sujeito se depara com algo novo, estranho, ou não familiar, tende a buscar referências anteriores em seu quadro de representações para classificá-lo em alguma categoria familiar.
Jodelet (1989) explica o processo de elaboração e dispersão das representações sociais a partir do modo como a sociedade assimilou, no final da década de 1970, a dispersão do conhecimento sobre a AIDS, quando ainda o discurso científico não havia sido explicado suficientemente a todos, a respeito da natureza, das formas de contágio e outras especificidades da doença, sendo, portanto, as informações disponíveis apenas aquelas veiculadas pelos meios de comunicação de massa e das conversas informais. A autora identificou o processo de construção de dois tipos de representações, construídas para acolher o elemento novo, a AIDS, sendo uma de tipo moral e social, e outra de tipo biológico. A primeira considera a doença como uma punição sobre a licenciosidade sexual, isto é, em defesa de uma moral conservadora, os sujeitos acometidos pela doença
passaram a ser excluídos da sociedade por representarem a transgressão, a “decadência moral”. A segunda diz respeito ao medo instalado na sociedade sobre os modos de contaminação; a autora constatou a crença de que a AIDS poderia ser transmitida pelo simples contato corporal. Acerca destes resultados, Jodelet reconheceu que a falta de informações disponíveis sobre a doença pode ter influenciado a elaboração de tais representações, ressalta também seu valor simbólico, “o perigo do contato corporal é, desde a Antiguidade, um tema recorrente no discurso racista que utiliza a referência biológica para fundamentar a exclusão da alteridade” (2001, p.3).
Elaboradas a partir das informações disponíveis, as representações sociais são associadas aos saberes e valores pré-existentes, constituintes da memória social. Com forte valência simbólica, frequentemente, são utilizadas de acordo com os interesses, os fins políticos e sociais do grupo em que se inscrevem. Nas palavras de Jodelet (2001, p.4), “as representações sociais são ligadas a sistemas de pensamento mais amplos, ideológicos ou culturais, a um estado dos conhecimentos científicos, bem como à condição social e à esfera da experiência privada e afetiva do indivíduo”.
"Sua posição mista na encruzilhada de uma série de conceitos sociológicos e de conceitos psicológicos" (MOSCOVICI, 1978, p. 39) demanda que a análise das representações sociais considere tanto os processos presentes na dinâmica social – história, cultura, contexto político e econômico – quanto os processos implicados na dinâmica psíquica, na sua dimensão consciente e inconsciente, tendo em vista que ambos os processos “afetam a gênese, a estrutura e a evolução das representações e são afetados por sua intervenção” (JODELET, 2001, p.8)
Nesta perspectiva, esta pesquisa objetiva analisar as representações sociais dos professores acerca dos alunos com “dificuldades de aprendizagem”, através da articulação de elementos afetivos e sociais, integrando-os - ao lado da cognição, da linguagem e da comunicação - às relações sociais que afetam as representações e sobre a qual elas intervêm.
As representações sociais dos professores podem revelar a forma como o grupo classifica e nomeia as características de seus alunos, de forma a viabilizar a comunicação intergrupal. Esta é uma grande contribuição da Teoria das Representações Sociais, pois seu estudo possibilita a compreensão das diferentes formas de criação e interpretação da realidade, de acordo com os valores, com as práticas culturais e com a história de cada sociedade.
Jodelet (2001) define representações sociais como “uma forma de conhecimento, socialmente elaborado e compartilhado, que tem um objetivo prático e concorre para a construção de uma realidade comum a um conjunto social (p. 36). Portanto, nesta pesquisa, parte-se do pressuposto que a realidade não existe de forma absoluta, mas é construída a partir dos processos de apreensão humana, isto quer dizer que aquilo que se denomina realidade é sempre uma realidade distorcida, determinada pelas formas de apreensão dos indivíduos, pelas possibilidades de conhecimento dessa realidade e pela experiência concreta.
Quando se toma como objeto de estudo as representações sociais dos professores, é preciso considerar que a realidade vivida por estes sujeitos é uma realidade produzida a partir dos valores, dos interesses e da cultura, historicamente construídos pelos grupos sociais a que pertencem, assim como é também produzida e modificada pela ação dos sujeitos, por intermédio dos processos de elaboração psicológica e social da realidade. Com implicações afetivas e normativas, este processo envolve a interiorização das experiências concretas, das práticas dos modelos de conduta e de pensamento, que são socialmente difundidos, ou transmitidos pelos meios de comunicação social (JODELET, 2001).
Sobre a função das representações sociais, Moscovici complementa:
Um sistema de valores, ideias e práticas, com uma dupla função: primeiro, estabelecer uma ordem que possibilitará às pessoas orientar-se em seu mundo material e social e controlá-lo; e, em segundo lugar, possibilitar que a comunicação seja possível entre os membros de uma comunidade, fornecendo- lhes um código para nomear e classificar, sem ambiguidade, os vários aspectos de seu mundo e da sua história individual e social (1978, p.13).
Moscovici afirma que as representações sociais surgem para permitir a comunicação, assim, os processos comunicativos são possíveis porque os grupos e sociedade partilham sentidos e representações que permitem, de forma econômica, a comunicação entre seus membros.
Jovchelovitch (2012) aponta a comunicação como processo de mediação social:
Comunicação é mediação entre um mundo de perspectivas diferentes, trabalho é mediação entre necessidades humanas e o material bruto da natureza, ritos, mitos e símbolos são mediações entre a alteridade de um mundo frequentemente misterioso e o mundo da intersubjetividade humana: todos revelam num ou noutra medida a procura de sentido e significado que a marca a existência humano no mundo (p.68)
As representações são geradas pelas mediações sociais em suas mais diversas formas, e é por isso que são “sociais”, tanto em sua origem quanto em sua estrutura, e passam a atuar, elas mesmas, como mediadoras sociais. Trata-se, pois da expressão da
‘luta’ do sujeito na sua relação com a alteridade, em sua tentativa de interpretar, compreender e construir a realidade. “As representações sociais são uma estratégia desenvolvida por atores sociais para enfrentar a diversidade e a mobilidade de um mundo que, embora pertença a todos, transcende a cada um, individualmente” (GUARESCHI; JOVCHELOVITCH, 2012, p.69).
Quanto à utilidade atribuída à representação, Jodelet (1990) afirma a importância da estrutura imaginante, característica das representações sociais, na medida em que esta opera como um filtro de interpretação da realidade, o qual permite generalizar, estabelecer referências e padrões de conduta sociais. Nesta direção, Alves-Mazzotti (2008) explica que o sistema de interpretação, presente nas representações sociais, tem uma função de mediação entre o indivíduo e seu meio e entre os membros de um mesmo grupo, de forma a afirmar a identidade grupal e o sentimento de pertencimento do indivíduo. “Ele se torna um código comum que permite classificar pessoas e acontecimentos, comunicar-se usando a mesma linguagem e, portanto, influenciar” (ALVES-MAZZOTTI, 2008, p.30). De acordo com Moscovici (1978), a elaboração de uma representação social está associada a três fatores operantes no comportamento de um grupo em relação a determinado objeto, os quais: dispersão da informação, focalização e pressão à inferência. A dispersão da informação é decorrente da grande disponibilidade de informações dispersas e difusas, a que os grupos sociais estão expostos, que precisam ser integradas e