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3.3. Representando a comida do Brasil
Nos seus primeiros exemplares, que eram especiais, lançados principalmente no Natal, Claudia Cozinha apresentava um padrão muito comum às revistas de cozinha da época: uma profusão enorme de receitas, pouquíssimas delas com fotos. Uma chamada
31. Para ver mais: ADG Brasil. O Valor do
Design.São Paulo, Editora Senac,
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de capa de setembro de 1967 mostra a impor- tância da quantidade (figura 39): “ Mais 500 re- ceitas para quem quer ter muita alegria e todo o prazer com a cozinha” .
Em uma época em que os conceitos de alt a gast ronomia, sof ist icação e at é a pos- sibilidade de compra de ingredient es im- portados estavam distantes da dona-de-casa de classe média, a quantidade de receitas era um quesito importante. Afinal, a leitora as usava no seu dia-a-dia, ao elaborar pratos para a fa- mília. Nesse paradigma, a revista oferecia vá- rias páginas brancas, apenas com receitas, que- bradas por f ot os (algumas, inclusive, sem legenda ou identificação) ou publicidades de página inteira.
Nota-se que a comida desse período retratada na revista não tinha nenhuma preocupação com alguma identidade regional. Era uma comida quase mundial, mesmo que o editorial da revista proclamasse que buscava o “ ser brasileiro” em todas as suas seções. O que se observa são fotos que registram a década de 60, como matérias sobre canapés, o petisco oficial considerado “ chique” das festas da época (figura 40), com pouco espaço para a cozinha típica do Brasil.
Era muito comum também a confusão entre publicidade e editorial, pouco observada na imprensa brasileira atualmente. Numa edição de setembro de 1967, há cinco publicidades que fornecem receitas, como a do Leite Moça, mostrada na figura 41. Deve-se levar em consideração aqui que essa pretensa “ confusão” não é observada com frequência no Brasil, mas é comum hoje em revistas européias, que utilizam o expediente para manter o veículo com fôlego no mercado - afinal esse é um tipo de anúncio pago.
FFiigguurraa 3399:: Claudia Cozinha, setembro de 1967
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Nas décadas de 1970 e 1980 a revista modificou seu padrão. As páginas passam a termais fotos, mas ainda há grande quantidade de receitas. As imagens das comidas most radas cont inuam dist ant es da represent ação t ípica da comida brasileira, como most ra a f igura 42, em página de Claudia Cozinha do começo da década de 80. O exemplo lembra cenas de filmes norte-americanos, onde os piqueniques ao ar livre são comuns, o que não acontece no Brasil. Afinal, o padrão seguido ainda era o de revistas estrangeiras – se funcionava no exterior, deveria funcionar aqui. É importante lembrar que esse paradigma não mudou muito, porque a mesmice do design gráfico brasileiro t em raízes nesse mesmo pensament o. Prova disso é a massif icação de repetições de revistas como Esquire e Wallpaper, como foi visto no capítulo anterior. Já a mesa de Páscoa (figura 43) destaca personagens de uma festa de família e re- força esse padrão que não é brasileiro. Com o tempo, no final da década de 1980, a revista eliminaria a necessidade de trazer personagens para caracterizar suas matérias, apos- tando apenas nas comidas – numa fase em que o universo ficou restrito às fotos de pratos
FFiigguurraa 4411:: Claudia Cozinha, setembro de 1967, páginas 154 e 155
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FFiigguurraa 4433:: Claudia Cozinha Edição Especial Festas, janeiro de 1980, páginas 32 e 33
FFiigguurraa 4444:: Claudia Cozinha, abril de 1991, páginas 6 e 7
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e que só ganharia novamente personagens, como chefs renomados, no ano de 200, quan- do a revista se tornou independente. Na década de 1990, o foco passou a ser exclusiva- mente a comida, com colunas de dicas de cozinha, lançamentos de novos produtos e re- ceitas para o dia-a-dia e para datas especiais. Chama a atenção nessa época o fato de as receitas não serem precedidas por matérias. O tema é apresentado na manchete e no subtítulo, e seguem-se as receitas, como nas figuras 44 (abril de 1991) e 45 (março de 1996).
Em relação à comida brasileira, muito esporadicamente a revista traz uma matéria específica, como na edição de novembro de 1992. Nessa edição, há uma reportagem especial de capa sobre os doces tradicionais de Minas Gerais (figura 46 e 47).
Na dupla de páginas de abertura, a reportagem traz uma cena típica de uma fazenda de Minas Gerais, mostrando vários doces guardados nas prateleiras e outros que acabaram de ser feitos, ainda destampados. A composição é muito eficiente, pois represent a bem a opulência de cores e sabores t ípicos da cozinha mineira. E muit o semelhante às imagens narrativas que Gilberto Freyre cria no seu livro Açúcar. Nessas
FFiigguurraa 4466:: Claudia Cozinha, novembro de 1992, páginas 14 e 15
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imagens é fácil identificar as descrições do trabalho das doceiras típicas do Brasil feitas pelo autor. A matéria continua com um especial sobre biscoitos, que também tem a foto, de página inteira, de um prato de biscoitos típicos. Na continuação, broas de fubá, bolo e café, compondo uma mesa tipicamente mineira, que corresponde ao imaginário de uma cozinha que têm nas
“ quitandas”32uma de suas grandes tradições (figura 48).
Out ro dest aque dessa década na represent ação da comida brasileira é uma edição especial de Claudia Cozinha, lançada em 1995. Com 128 páginas e dividida por regiões do País, trata-se de um produto bem acabado, com textos introdutórios que explicam a origem de cada cozinha regional. As fotos ocupam páginas inteiras e re- tratam com fidelidade as comidas típicas de cada região do Brasil (figuras 49 e 50).
As fotos são bem ambientadas, com a participação de séries culturais que fazem
32. Quitandas, segundo a tradição oral de Minas, são
os doces e pães mineiros, preparados para o lanche da tarde. São iguarias delicadas e
perfeitas para serem servi- das com café.
FFiigguurraa 4488:: Claudia Cozinha, novembro de 1992, páginas 18 e 19
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esse trabalho, como louças, utensílios de cozinha, enfeites, toalhas de mesa. O que chama a atenção também é o bom acabamento do texto, que não teria mais espaço no jornalismo feito nos dias de hoje, quando as redações pagam salários baixíssimos e acabam contratando jornalistas inexperientes para esse tipo de trabalho. São mostras de que o paradigma da época em que o especial foi feito mudou radicalmente.
A part ir do ano 2000, a revist a passou a ser um veículo independent e e bi- mestral. O projeto gráfico foi radicalmente alterado, contendo maior número de fotos e de det alhes, como boxes de inf ormações complement ares. Já o projet o edit orial t rouxe a novidade, já t radicional em Gula, do t ext o int rodut ório às receit as. Um exemplo desse novo momento é a edição de junho/julho de 2001, onde duas matérias versam sobre a comida brasileira: a primeira sobre o milho nas festas juninas e a outra sobre a comida do Vale do Rio Paraíba, em São Paulo.
A reportagem sobre comida de tropeiro (figuras 51 e 52) ganha o recurso da ilustração, que mostra o caminho desses bandeirantes que desbravaram o interior de São Paulo, deixando padrões de sua alimentação que proporcionaram o surgimento de pratos como Feijão-Tropeiro e a Vaca Atolada. As fotos ganham também detalhes de utensílios típicos, como a toalha xadrez.
Essa mudança mostra a necessidade que a revista sentiu de levar mais informação so-bre a área de gastronomia para o leitor. Como afirmou antes a diretora de redação de
Menu33, Solange Souza, mais do que receitas, o público “ quer informação na área” . Assim,
Claudia Cozinha se aproximou do paradigma das outras revistas e passou a disputar espaço
no mercado diretamente com elas, mas sem abandonar seu público. Veremos agora como as mudanças no título se processaram nos três anos de análise de corpus desta pesquisa, entre 2002 e 2005.