• Nenhum resultado encontrado

Resgate da memória e direito à verdade no modelo de transição brasileiro

3. O PASSADO EM DISPUTA: ANISTIA, VERDADE, REPARAÇÃO E DIREITO À MEMÓRIA

3.4 Resgate da memória e direito à verdade no modelo de transição brasileiro

A partir do Governo Ernesto Geisel (1974-1979), o Brasil passou a experimentar um incremento dos movimentos em prol da retomada da democracia. Mesmo os setores

746 Folha de S.Paulo, “No Uruguai, Mujica autoriza investigação sobre crimes da ditadura”, caderno Mundo, 7-

06-2011. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/mundo/935627-no-uruguai-mujica-autoriza-investigacao- sobre-crimes-da-ditadura.shtml, acesso em 30-04-2013.

747 Reyes Mate, Justicia de las víctimas, cit., p. 52-53. 748 Idem, ibidem.

189

remanescentes da guerrilha urbana – que no início dos anos 1970 entrara em colapso, com suas principais lideranças assassinadas, exiladas ou obrigadas à clandestinidade – passaram a adotar táticas diferentes de enfrentamento. Foi na década de 1970 que a luta sindical tomou fôlego, com a deflagração de greves – em particular nos anos de 1978/1979 – e a eleição de lideranças novas em sindicatos onde se concentrava a maior parte da classe operária brasileira (como os sindicatos do ABC paulista); a retomada do movimento estudantil, com a reconstrução da União Nacional dos Estudantes (UNE) e demais entidades estudantis; a atuação de movimentos sociais, intelectuais e artistas em prol da “anistia ampla, geral e irrestrita”, a mobilização da OAB e da ABI pela “Assembleia Nacional Constituinte livre, soberana e democrática”, além do surgimento de órgãos da imprensa alternativa que alcançavam expressivos setores da classe média urbana formadores de opinião. O partido de oposição ao regime – MDB – passou a receber a adesão de diferentes setores e se tornou a frente ampla em torno da qual se agregava o anseio pela mudança e pela retomada das liberdades democráticas, a tal ponto que o regime logo estabeleceu estratégias visando sua implosão749. Nesse contexto, a vitória obtida por esse partido nas eleições de 1974750, quando elegeu nada menos que 16 das 22 cadeiras de senador que estavam em disputa, representou uma acachapante derrota para o regime, que, vendo minar sua base de sustentação social, começou a partir de então a adotar o discurso da “abertura” – a “distensão lenta, segura e gradual”. Para isso contribuiu, é verdade, a diminuição do ritmo do crescimento econômico em função da crise do petróleo de 1973, que gerou uma elevação substancial dos preços no mercado interno, o incremento da inflação e uma drástica redução no poder aquisitivo da população. Mas a principal razão para que o regime optasse pela distensão política foi o

749

No seu II Congresso Nacional, em outubro de 1979, a organização de esquerda MR8, que fizera autocrítica da luta armada e atuava nos marcos legais do MDB, assim pontuava: “Para que o povo venha a ocupar a direção da luta contra a ditadura, tem grande importância atualmente o seu comportamento frente à tentativa de cassação do MDB. Não há condições para a organização de um partido operário e legal e não devemos disseminar ilusões a esse respeito. O que é possível agora, legalmente, é a organização de um partido popular que tenha como objetivo central a completa destruição da ditadura e que seja um passo inicial na constituição da Frente Popular. As forças políticas que podem compor esse partido estão hoje em sua maioria no interior do MDB. É, pois, do desenvolvimento da luta interna do MDB que surgirá o partido popular. Interessa, pois, defender o direito do MDB de existir e combater a sua cassação (...) Caso a ditadura consiga cassar o registro do MDB, devemos mesmo assim lutar para mantê-lo organizado, ainda que com outro nome – o mais próximo possível do atual.” (Movimento Revolucionário 8 de Outubro, Resoluções Políticas do II Congresso, Editora Quilombo, 1980, p.14.)

750

“Ainda em 1974, realizaram-se eleições para o Congresso, num momento em que ninguém duvidava de mais uma tranquila vitória do partido do governo, a Arena. O resultado foi o inverso: uma rotunda derrota para o governo. O MDB cresceu de 12% para 30% do Senado, conquistando 16 das 22 cadeiras em disputa e de 28% para 44% na Câmara dos Deputados”. – Bolívar Lamounier, Amorin Neto e J. L. de Matos Dias, “Regime Militar”. Disponível em

http://www.tecsi.fea.usp.br/eventos/Contecsi2004/BrasilEmFoco/port/consnac/orgpol/periodos/regmil/apresent.h tm, acesso em 03-05-2013.

190

processo de crescente erosão de sua legitimidade política751, que era notório particularmente nos grandes centros urbanos, onde o prestígio do partido de sustentação do regime (Aliança Renovadora Nacional – ARENA) era cada vez menor.

O Governo João Figueiredo (1979-1985), que sucede ao de Geisel, foi marcado pela tentativa de composição de interesses aparentemente colidentes: a abertura política e o aprofundamento da crise econômica752. Na tentativa de minar a força da oposição, o Governo promoveu a reforma partidária extinguindo o bipartidarismo, o que levou à fragmentação do MDB em várias legendas partidárias. Em agosto de 1979, após ser aprovada pelo Congresso Nacional, a Lei de Anistia (Lei n.º 6.683/79) foi promulgada, permitindo o retorno ao país de figuras representativas da oposição como Leonel Brizola, Luís Carlos Prestes, Miguel Arraes, Gregório Bezerra e Francisco Julião. Nesse contexto, a anistia alcançava “todos quantos, no período compreendido entre 02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, cometeram crimes políticos ou conexos com estes” (artigo 1º da lei)753. Como acentuam Moura, Zilli e Ghidalevich, a interpretação da lei que acabou prevalecendo foi ampla, beneficiando todos os agentes do Estado, autores de torturas, homicídios e sequestros. Só algum tempo depois do fim do regime (na década de 1990) é que o país pôde contar com mecanismos alternativos de superação do passado, assumindo particular destaque o trabalho desenvolvido pela Comissão Especial sobre Mortos e de Desaparecidos e pela Comissão da Anistia754.

Dessa forma, o resgate da memória do passado autoritário, no Brasil, se iniciou de forma tardia, e num ritmo bem menos intenso que o dos nossos vizinhos sul-americanos. O primeiro grande passo se deu com a edição da Lei n.º 9.140, de 4 de dezembro de 1995755, que permitiu o reconhecimento, pelo Estado brasileiro, de sua responsabilidade no assassinato de opositores políticos. O trabalho desenvolvido pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos prevista na lei promoveu a análise, investigação e julgamento de casos envolvendo centenas de mortos e desaparecidos, legalizando procedimentos que têm permitido que as famílias das vítimas tomem conhecimento do que efetivamente ocorreu com

751 Ver, sobre o tema, Cristiano Paixão, “A Constituição em disputa: transição ou ruptura?”, p. 13.

752 Moura; Zilli; Ghidalevich, “Brasil – Informe nacional”. In: Kai Ambos; Ezequiel Malarino; Gisela Elsner

(Eds.), Justicia de transición..., cit., p. 179.

753

O § 1º do art. 1º da lei dispõe que “consideram-se conexos, para efeito deste artigo, os crimes de qualquer

natureza relacionados com crimes políticos ou praticados por motivação política”.

754 Moura; Zilli; Ghidalevich, “Brasil – Informe nacional”, cit., p. 184.

755 A Lei n.º 9.140/95 tem a seguinte ementa: “Reconhece como mortas pessoas desaparecidas em razão de

participação, ou acusação de participação, em atividades políticas, no período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979”. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9140.htm, acesso em 02-05-

191

seus familiares. O segundo grande passo se deu em 2002, com a edição da Lei n.º 10.559, que criou a Comissão de Anistia, no âmbito do Ministério da Justiça, com a finalidade de examinar requerimentos de reparação econômica, de caráter indenizatório, aos anistiados que sofreram prejuízos em razão de perseguições políticas. Essa Comissão desempenha, ainda hoje, importante papel na reparação daqueles que tiveram seus direitos violados, tendo julgado, até o momento, mais de 70 mil processos.

Tais iniciativas nos permitem dizer que, no plano da responsabilidade administrativa e civil, muito já foi feito, a demonstrar que o País não se manteve inerte em face das ações repressivas que, de 1964 a 1985, redundaram em quase duas centenas de mortos e desaparecidos, 130 banimentos, 4.862 cassações de mandatos e direitos políticos, 10 mil cidadãos exilados, 6.592 militares punidos, 245 estudantes expulsos da universidade756. Esses números dão bem a dimensão de que é impossível jogar um manto de esquecimento sobre o período da ditadura, como se fosse possível consolidar a democracia sem reconhecer as atrocidades que se deram em nossa história recente, e delas tirar as lições devidas. Mais importante que a reparação de caráter econômico-financeiro que vem sendo desenvolvida por meio da Comissão de Anistia, no âmbito do Ministério da Justiça, adquire especial relevo a reparação de ordem política e moral, com a completa elucidação dos fatos, o esclarecimento das circunstâncias e dos casos de torturas, mortes e desparecimentos forçados, ocultação de cadáveres e identificação das estruturas que envolviam o aparato repressor. Esses são precisamente os objetivos que pautam o trabalho da Comissão Nacional da Verdade (CNV) criada pela Lei n.º 12.528/2011 e instalada em 16 de maio de 2012, conforme se discutirá adiante.

A lentidão com que o resgate do passado autoritário vem se dando não deve obliterar as conquistas obtidas, as quais, em que pesem as peculiaridades que caracterizaram o modelo de transição brasileiro, encontram seu exemplo mais eloquente no processo constituinte de 1987-1988. Como observa Leonardo Barbosa, a Assembleia Nacional Constituinte representou uma profunda ruptura na tradição jurídica brasileira e atingiu diretamente os pilares do autoritarismo constitucional, apostando num processo em tudo oposto ao trabalho de elaboração de atos institucionais e constituições do período ditatorial757. Na “batalha

756 Os dados, originários da pesquisa realizada pelo projeto “Brasil Nunca Mais” em 707 processos políticos

formados pela Justiça Militar, constam do livro-relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Direito à verdade e à memória, Brasília, Secretaria Especial de Direitos Humanos, 2007, p. 30.

757 Leonardo Barbosa, Mudança constitucional, autoritarismo e democracia no Brasil pós-64. Tese (Doutorado

192

inconclusa em torno da memória do processo constituinte”, Barbosa critica a tentativa de apagar ou diminuir o significado da intensa interferência da sociedade civil durante esse momento histórico, assim como a narrativa oficial que se mostrou, desde o ato convocatório, preocupada em afirmar a Constituinte como o espaço da governabilidade, e não da participação ativa da cidadania758. Nessa grade de leitura, é possível considerar que a anistia, o processo constituinte e as iniciativas que levaram à instalação da Comissão Nacional da Verdade, mesmo que tenham percorrido um demorado e tortuoso processo de amadurecimento, representam eventos que permitiram que o país vivencie, há quase três décadas, o mais bem sucedido período de estabilidade e vigor democrático de sua história.

A preocupação com a memória, no Brasil dos nossos dias, frequenta o debate público através de temas como anistia, reparação, reconciliação, punibilidade, esquecimento. Trata-se de um debate ainda tímido, em grande medida restrito ao ambiente institucional e acadêmico, que não alcançou amplos setores da opinião pública. É inegável, entretanto, que o tema voltou à agenda política, em particular a partir do trabalho desenvolvido pela Comissão de Anistia, das inúmeras ações judiciais que ora tramitam buscando informações sobre os fatos que envolvem os mortos e desaparecidos no enfrentamento com o regime militar e, principalmente, em razão das atividades da Comissão da Verdade, que alcançaram, nos últimos meses, maior destaque e repercussão.

A maioria das ações judiciais impetradas busca não a responsabilização penal dos agentes de Estado responsáveis pelos crimes cometidos, mas o reconhecimento das ofensas aos direitos humanos. É o caso das ações cíveis declaratórias movidas contra o ex- comandante do DOI-CODI em São Paulo na década de 70, coronel Brilhante Ustra759, pela família Teles e pela família de Luiz Eduardo Merlino, em que se pede que a Justiça reconheça que o homem que comandou a Operação Bandeirantes e o DOI-CODI paulista era um torturador. Ainda que as ações em andamento não requeiram a prisão de Ustra, esse reconhecimento abre caminho para que o Estado brasileiro exija que o acusado revele tudo o que sabe sobre os mortos e desaparecidos daquele período. Nas ações de natureza penal que tramitam na Justiça Federal, o Ministério Público, para não confrontar o entendimento do STF sobre a Lei de Anistia, adotou a estratégia de que os crimes praticados seriam crimes permanentes, e nesse sentido reivindica que, nos casos de desaparecimentos, a ação criminosa

758

Idem, p. 211.

759 Conforme o próprio Brilhante Ustra afirma em seu livro A verdade sufocada, ele comandou o DOI/CODI

193

que começou no regime militar ainda não se exauriu. Logo, o crime ainda estaria sendo praticado.

Para Todorov, num país democrático, trava alguma deve existir para a investigação do passado760. Nenhuma instância estatal deve poder proclamar que os indivíduos não podem, por si mesmos, buscar a verdade, ou que os que não aceitam a versão oficial serão punidos. Disso depende a própria definição de democracia: tanto os indivíduos como os grupos têm direito de saber por si mesmos – e de fazer conhecer – sua própria história, naquilo que Todorov designa como “autonomia de juízo”. Quando os acontecimentos vividos pelo indivíduo ou pelo grupo são de natureza excepcional ou trágica, esse direito se converte em um dever: o de recordar e dar testemunho.