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6. RESULTADOS E DISCUSSÃO

6.2. RESGATE DE FAUNA

Com relação aos espécimes resgatados, a maioria é de animais de pequeno porte, com baixa mobilidade e/ou hábito arborícola. Dos 533 espécimes resgatados, 62 eram anfíbios, 380 répteis, três aves e 88 mamíferos (Quadro 4, Figura 40). Os

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dados biométricos de alguns dos espécimes resgatados estão apresentados no anexo 9.4.

Quadro 4. Lista dos exemplares da fauna resgatados durante o acompanhamento de supressão vegetal para implantação de área de cultivo na Fazenda Araucária.

Taxa Nome comum espécimes Nº de

resgatados Destino Grau de ameaça (IUCN, 2016) Grau de ameaça (MMA, 2014) S F D E Classe Amphibia Ordem Anura Família Hylidae

Scinax fuscovarius perereca 11 11 NE -

Família Leptodactylidae Physalaemus nattererii 33 29 4 NE - Adenomera hylaedactyla 12 12 LC Leptodactylus fuscus 6 6 LC Classe Reptilia Ordem Squamata Família Gymnophthalmidae

Micrablepharus maximiliani calango-da-cauda-azul 65 60 2 3 NE -

Colobosaura modesta calanguinho 53 49 1 3 NE -

Bachia geralista lagarto 4 1 3 NE

Família Mabuyidae

Copeoglossum nigropunctatum lagarto-liso 16 11 1 4 NE - Família Polychrotidae

Polychrus acustirostris bicho-preguiça 25 24 1 NE - Família Teiidae

Kentropyx calcaratra lagarto 10 8 2 NE -

Ameiva ameiva lagarto-verde 3 1 2 NE

Família Tropiduridae

Tropidurus torquatus lagarto 13 11 1 1 LC -

Família Amphisbaenidae

Amphisbaena sp. cobra-cega 16 8 8 NE -

Amphisbaena alba cobra-cega 1 1 NE -

Amphisbaenia anaemariae cobra-cega 86 46 2 38 NE - Leposternon microcephalum cobra-cega-bico-de-pato 7 3 1 3 NE - Família Colubridae

Chironius exoletus cobra-cipó 2 2 NE

Família Dipsadidae

Imantodes cenchoa cobra-cipó 1 1 NE

Apostolepis longicaudata cobra-fina 21 10 11 NE -

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Taxa Nome comum espécimes Nº de

resgatados Destino Grau de ameaça (IUCN, 2016) Grau de ameaça (MMA, 2014) S F D E

Phalotris nasutus cobra-vermelha 14 7 1 6 NE -

Philodryas olfersii cobra-verde 3 1 2 NE -

Mussurana quimi muçurana 1 1 NE

Oxyrhopus sp. falsa-coral 1 1 NE

Oxyrhopus guibei falsa-coral 18 16 2 NE -

Oxyrhopus petolaris falsa-coral 3 3 NE -

Erythrolampus aesculapii 1 1 NE

Xenodon merremii achatadeira 2 2 NE

Família Viperidae

Bothrops moojeni jararaca 8 6 2 NE

Crotalus durissus cascavel 5 2 3 NE -

Classe Aves

Ordem Strigiformes Família Strigidae

Asio clamator coruja-orelhuda 1 1 NE -

Ordem Caprimulgiforme Família Caprimulgidae

Hydropsalis albicollis curiango 1 1 NE -

Hydropsalis parvula curiango 1 1 NE -

Classe Mammalia Ordem Didelphimorphia Família Didelphidae

Monodelphis domestica 1 1

Didelphis albiventris gambá 4 2 2 LC -

Gracilinanus agilis mucura 44 40 4 LC -

Marmosa murina mucura 27 25 2 LC -

Caluromys lanatus mucura 5 5 LC -

Ordem Cingulata Família Dasypodidae

Euphratus sexcintus tatu-peba 3 3 NE -

Dasypus septemcinctus tatu 1 1

Ordem Rodentia Família Cricetidae

Necromys lasiurus rato-do-mato 2 2 NE -

*Cerradomys scotti rato-do-mato 1 1 NE -

Total 533 417 10 105 1 - -

Legenda. Destino: S = Soltura, F = Fixação, D = Descarte; Grau de ameaça: LC = Pouco preocupante, NE = Não avaliada. * Espécie catalogada pela primeira vez no acompanhamento das atividades de supressão vegetal para implantação de área de cultivo na Fazenda Araucária.

Programa de Resgate e Afugentamento de Fauna 30 Figura 40. Padrões de abundância e riqueza das

classes zoológicas resgatadas durante o acompanhamento das atividades de supressão

de vegetação na Fazenda Araucária.

Com relação à distribuição de abundância e riqueza ao longo dos meses em que houve atividade de supressão e limpeza vegetal na Fazenda Araucária para implantação de área de cultivo, nota se que nos meses de maio e junho foram

resgatados o maior número de espécimes, 158 e 157, respectivamente (Figura 41).

Nestes meses observou se também a maior riqueza de espécies resgatadas (25 e 27)

Figura 41. Padrões de abundância e riqueza de registros de resgate durante os meses em que

houve atividades de supressão e limpeza vegetal.

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Dos espécimes resgatados, a maior parte (417) foi destinada à soltura em remanescentes florestais próximos à área de supressão vegetal, 105 foram descartados por terem sido encontrados mortos nas áreas de supressão vegetal, 10 foram fixados e serão enviados para coleções zoológicas e um foi enviado para a Secretaria do Meio Ambiente do município de Mineiros/GO por se tratar de um indivíduo juvenil de ave (Figura 42).

Figura 42. Distribuição de espécimes por destinação após resgate.

No que diz respeito ao sucesso do esforço amostral do resgate de fauna durante os 115 dias de campo foram construídas a curva do coletor e uma curva expondo a estimativa de riqueza de Jack-knife 1. A estimativa de riqueza de espécies a partir do índice de Jack-knife 1 foi de 54,8 espécies ao passo que o acumulado por dias foi de 42 espécies ao longo do resgate. Observa-se uma estabilização da curva nos últimos dias de campo (Figura 43).

Programa de Resgate e Afugentamento de Fauna 32 Figura 43. Gráfico quantidade de espécies observadas (curva de acumulação) e

quantidade máxima esperada (Jack-knife 1) para a fauna resgatada durante a supressão vegetal nas áreas da Fazenda Araucária.

O resultado da estimativa de riqueza de Jack-knife 1 justifica-se ao se comparar as espécies do Bioma em relação às espécies do resgate e as que foram afugentadas, ou seja, como a fauna do bioma Cerrado é bastante diversa não foram amostradas todas as espécies até mesmo porque muitas delas são afugentadas durante as atividades de resgate. Esta riqueza reflete a adaptação aos diversos tipos de vegetação encontrados dentro do Bioma. Algumas espécies da fauna terrestre são restritas a determinadas formações vegetais, enquanto que outras têm distribuição mais ampla habitando diversas fisionomias. Deste modo, além da fauna fossorial, existem outros grupos associados à camada de serapilheira; outro à vegetação rasteira e, ainda, outro associado às árvores lenhosas, como observado nos números do resgate ao longo das atividades de supressão da vegetação nas áreas da Fazenda.

Herpetofauna Resgatada

O grupo da herpetofauna é constituído por espécimes de duas classes zoológicas, Amphibia e Reptillia. De acordo com a Sociedade Brasileira de Herpetologia (SBH, 2014), atualmente existem 1026 espécie de anfíbios que ocorrem no Brasil, sendo que 988 delas são anuros, 33 cecílias e cinco salamantas. Com

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relação aos répteis, são conhecidas para o território brasileiro 760 espécies divididas em Testudines (36 spp.), Crocodylia (6 spp.) e Squamata (“Lagartos”, 260 spp. + 8 sspp.; Amphisbaenia, 72 spp.; e Serpentes, 386 spp. + 40 ssp.).

Os répteis ocorrem em praticamente todos os ecossistemas brasileiros e, por serem ectotérmicos, são especialmente diversos e abundantes nas regiões mais quentes do país, como do bioma Cerrado. Esse grupo inclui diversas linhagens (lagartos, serpentes, anfisbenas, quelônios e jacarés), embora algumas delas sejam pouco aparentadas entre si (MACHADO et al., 2008).

Nas áreas suprimidas para implantação de lavouras na Fazenda Araucária foram resgatados 442 espécimes da herpetofauna, sendo 380 répteis de 26 espécies

distribuídos em nove famílias e 62 anfíbios de quatro espécies das famílias

Leptodactylidae e Hylidae (Quadro 2). Dentre as famílias da herpetofauna a que apresentou maior abundância foi a Gymnophthalmidae com 23% de representatividade, seguido da família Amphisbaenidae com 20% e Dipsadidae com 13% (Figura 44).

O resultado para a família Gymnophthalmidae está relacionadas as espécies

de lagartos: Micrablepharus maximiliani e Colobosaura modesta que apresentaram,

juntos 97% de representatividade dentro da família. No Plano de Manejo do Parque Nacional das Emas (IBAMA, 2004), próximo ao empreendimento, também foram registradas tais espécies, confirmando a presença destas na região do resgate.

As cobras-de-duas-cabeças são répteis da família Amphisbaenidae. Estes répteis possuem corpo cilíndrico e alongado, com cauda curta e arredondada. Como suas duas extremidades são semelhantes, e seus olhos bem pequenos, estes indivíduos são conhecidos popularmente como cobra-de-duas cabeças. Em geral se alimentam de minhocas, vermes, larvas e pequenos artrópodes. Algumas espécies,

como a Amphisbaena alba, possuem comportamento bastante agressivo, quando são

manipuladas. Apesar de não possuírem veneno, a mordedura destes animais é muito forte. A grande abundância da família está relacionada principalmente à presença da

espécie Amphisbaena anaemariae que foi a mais abundante no período, esta espécie

de cobra-de-duas-cabeças é endêmica do Brasil, tendo sido registrada nos estados de Goiás, Minas Gerais e no Distrito Federal (VANZOLINI, 1997) (Figura 44)..

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Já a família Dipsadidae apresentou maior riqueza com onze espécies catalogadas, isto porque esta família é uma das mais numerosas famílias de serpentes, sendo que só no Brasil já foram registradas quase 240 espécies (VIDAL et al., 2010) (Figura 44). A espécie mais representativa na família foi a coral-falsa (Oxyrhopus guibei) com 18 indivíduos resgatados. É uma serpente terrícola que ocorre em áreas abertas e/ou florestais (SAZlMA e HADDAD 1992). Nas atividades de resgate a maior parte dos espécimes catalogados foi registrada em ambiente de

Cerradão. No Parque Nacional das Emas (IBAMA, 2004), próximo ao

empreendimento, também foi registrado a espécie, confirmando a presença desta na região do resgate.

O endemismo da herpetofauna do Cerrado é considerável: 53% das anfisbenas

são endêmicas (Amphisbaena anaemariae, A. miringoera, A. neglecta, A.

sanctaeritae, A. silvestrii, A. talisiae, Bronia kraoh, Cercolophia sp.), 26% dos

lagartos (Anolis meridionalis, Tropidurus torquatus, T. montanus, Coleodactylus

brachystoma, Kentropyx paulensis, K. vanzoi, Bachia bresslaui, B. scolecoides, Bachia sp. nov. e Micrablepharus atticolus), e 28% dos anfíbios (Phyllomedusa centralis, Scinax canastrensis, S. centralis, S. machadoi, S. maracaya, Barycholos savagei, Leptodactylus camaquara, L. cunicularis, L. jolyi, L. tapiti, Odontophrynus moratoi, O.

Figura 44. Gráfico de riqueza e abundância das famílias mais representativas da herpetofauna registradas durante as

Programa de Resgate e Afugentamento de Fauna 35 salvatori, Physalaemus deimaticus, P. evangelistai, Proceratophrys cururu, P. goyana, Pseudopaludicola mineira, Chiasmocleis centralis) são também endêmicos (COLLI, 2007). Nas áreas de resgate foram confirmadas as seguintes espécies endêmicas:

Amphisbaena anaemariae e Tropidurus torquatus.

Quanto aos critérios de ameaça de extinção, nenhuma espécie da herpetofauna registrada durante o resgate nas áreas de supressão da Fazenda Araucária está catalogada sob algum grau de ameaça nas listas da IUCN (2016) e MMA (2014).

Abaixo estão apresentados alguns dos espécimes da herpetofauna registrada no período:

Figura 45. Espécime de rã (Physalaemus nattererii) resgatada em área de supressão

vegetal.

Figura 46. Espécime de perereca (Scinax fuscovarius) resgatado durante acompanhamento de supressão.

Figura 47. Espécime de lagarto (Ameiva ameiva) resgatado durante supressão

vegetal.

Figura 48. Espécime de lagarto-da-cauda-azul (Micrablepharus maximiliani) resgatado.

Programa de Resgate e Afugentamento de Fauna 36 Figura 49. Espécime de lagarto-liso

(Copeoglossum nigropunctatum) resgatado.

Figura 50. Espécime de lagarto (Polychrus acutirostris) resgatado em frente de

supressão de vegetação.

Figura 51. Espécime de lagarto (Tropidurus torquatus) resgatado.

Figura 52. Espécime de calanguinho (Colobosaura modesta) encontrado durante

supressão vegetal.

Figura 53. Espécime de lagarto-de-falsas-patas (Bachia geralista) resgatado.

Figura 54. Espécime de cobra-fina (Apostolepis longicaudata) resgatada em

Programa de Resgate e Afugentamento de Fauna 37 Figura 55. Espécime de cobra-cega

(Amphisbaenia alba) resgatado.

Figura 56. Espécime de cobra-cipó (Imantodes cenchoa) resgatado.

Figura 57. Espécime de cobra (Dipsas catesbyi) resgatado durante supressão de

vegetação.

Figura 58. Espécime de cobra-cipó (Chironius exoletus) resgatado.

Figura 59. Espécime de falsa-coral (Phalotris

Programa de Resgate e Afugentamento de Fauna 38

Avifauna

O bioma Cerrado é o terceiro em diversidade de aves, totalizando 837 espécies (SILVA, 1995). Estudos recentes ampliaram este valor para 856 espécies (SILVA e SANTOS, 2005) e, mais recentemente, PINHEIRO e DORNAS (2009) acrescentam oito espécies, totalizando 864 espécies de aves para o Cerrado, onde 90,7% reproduzem-se no bioma; destas, 51,8% são dependentes de ambiente de floresta; 27,4% dependentes de áreas abertas e 20,8% vivem tanto em áreas florestais como em áreas abertas; do restante, 3,1% são visitantes da América do Norte e 12,5% visitantes do sul da América do Sul.

Durante todo o período de acompanhamento das atividades de supressão

vegetal apenas três aves foram resgatadas, uma coruja-orelhuda (Asio clamator) e

dois curiangos (Figura 63 a Figura 65). Estás espécies são comuns e não estão

catalogadas na lista da IUCN (2016) e do MMA (2014). O pequeno número de

espécimes resgatados (3) está de acordo com o esperado, pois geralmente em atividades de supressão vegetal este é o grupo menos representativo dentre os vertebrados terrestres, uma vez que a maioria das espécies tem boa capacidade de locomoção (voo), assim o mecanismo das atividades de desmatamento facilita a fuga e afugentamento das aves.

Figura 61. Espécime de jararaca (Bothrops moojeni) resgatado.

Figura 62. Espécime de cascavel (Crotalus durissus) resgatado.

Programa de Resgate e Afugentamento de Fauna 39 Figura 63. Foto do curiango (Hydropsalis

albicollis) resgatado durante atividades das frentes de corte.

Figura 64. Espécime de coruja-orelhuda (Asio clamator) resgatado em frente de

supressão vegetal.

Figura 65. Espécime de curiango (Hydropsalis parvula) resgatado durante

atividades supressão e limpeza de áreas

O curiango (Hydropsalis sp.) é uma ave Caprimulgiforme da família

Caprimulgidae, conhecido também como bacurau. Comum em bordas de florestas, capoeiras abertas, campos com árvores isoladas, cerrados, capões de mata podendo também ser encontrado em matas secundárias e em processo de reflorestamento. Vive no chão e possui hábito noturno, sendo visto durante o dia somente se espantado. São excelentes voadores e extremamente ágeis quando estão em vôo. Alimenta-se de numerosas espécies de insetos, como besouros, mariposas, borboletas, abelhas, vespas, e formigas que são capturados em voos curtos para o ar a partir do solo, ou em voos curtos a partir de poleiros (WIKIAVES, 2016).

A coruja-orelhuda (Asio clamator) é localmente comum em áreas abertas,

Programa de Resgate e Afugentamento de Fauna 40

espécie noturna que te torna ativa após crepúsculo, as vezes ao entardecer. Encontrada em todo o território brasileiro, Venezuela, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai. Por se tratar do resgate de um espécime juvenil desta espécie, este foi encaminhado para Secretaria de Meio Ambiente de Mineiros/GO para completar seu

desenvolvimento em cativeiro e posteriormente será destinado (Anexo 9.5).

As comunidades de aves respondem às alterações da cobertura vegetal (p. ex., desmatamento, clareiras naturais) (BAGNO e ABREU, 2001) ou de outros componentes da paisagem, sendo que algumas espécies desaparecem das áreas modificadas, enquanto outras são dependentes destas, como por exemplo, aves que necessitam de margem de rios florestados para sua sobrevivência ou espécies que vivem predominantemente em áreas abertas e que são beneficiadas pelo desmatamento e podem “invadir” áreas que originalmente não eram de sua ocorrência (LAPS et al., 2003). No caso da das atividades de resgate nas áreas da Fazenda observa-se que as aves responderam as alterações do ambiente.

Quanto ao status de ocorrência das espécies (CBRO, 2014), quatro são

endêmicas do Cerrado: gralha-cancã (Cyanocorax cyanopogon), bico-de-pimenta

(Saltatricula atricollis), choca-do-planalto (Thamnophilus pelzelni) e

rapazinho-dos-velhos (Nystalus maculatus). Não houve espécies endêmicas para este estudo.

A maioria das espécies de aves catalogadas encontra-se listada na IUCN na categoria LC. Este fato não merece atenção especial e deve ser analisado com parcimônia, pois geralmente nesta categoria estão inseridos os taxa com ampla distribuição geográfica e não correm risco de extinção (IUCN, 2016). Não houve espécies de aves ameaçadas no resgate das atividades de supressão vegetal.

Mastofauna

A mastofauna do Cerrado é a terceira mais rica do país, com 194 espécies de mamíferos terrestres, 30 famílias e nove ordens. Os quirópteros são o grupo mais diverso, com 81 espécies. Estima-se que 41% das espécies do Cerrado pertençam à ordem Chiroptera (AGUIAR et al., 2004), seguido pelos roedores, com 51 espécies.

Programa de Resgate e Afugentamento de Fauna 41

Um total de 45 espécies podem ser consideradas de médio ou grande porte (peso superior a 1 Kg).

Pelo tipo de vegetação encontrada na área de trabalho, e pela grande movimentação antrópica, a probabilidade de encontro com mamíferos, seja pequenos, médios ou grandes, se torna mais difícil, porém não descartada. Além disto, estes animais têm maior capacidade de dispersão e se afugentam com mais facilidade. Ainda assim foram resgatados na área de influência direta do desmatamento na fazenda Araucária, 88 espécimes de mamíferos de nove espécies pertencentes a três famílias, todos de pequeno e médio porte e hábito arborícola, semi arborícola ou fossorial (Quadro 4). A família Didelphidae da ordem Didelphimorphia foi a mais rica e abundante sendo que 81 espécimes de cinco espécies desta família foram resgatados (Figura 66), com destaque para a espécie de

mucura Gracilinanus agilis e Marmosa murina que tiveram 44 e 27 espécimes

resgatados, respectivamente.

Figura 66. Gráfico de riqueza e abundância das famílias mais representativas da mastofauna registradas durante as atividades de resgate.

A família Didelphidae é constituída por mucuras e gambás, normalmente de pequeno a médio porte corporal, com caudas longas e por vezes preênseis. A maior parte dos integrantes desta família possui dieta onívora. A característica mais marcante da família está relacionada com a reprodução, pois os filhotes nascem após

Programa de Resgate e Afugentamento de Fauna 42

um período curto de gestação e ficam presos às mamas das fêmeas até completarem seu desenvolvimento, algumas espécies possuem marsúpio (REIS et al., 2011).

A espécie de mucura (Gracilinanus agilis) foi a que apresentou maior número

de mamíferos resgatados (N=44), é uma espécie de pequeno porte que habita preferencialmente os estratos arbóreos e ocasionalmente o sub-bosque ou solo. Está amplamente distribuída pelas regiões sudeste, centro-oeste e nordeste, estando presente preferencialmente nas áreas de Cerrado e Caatinga (REIS et al., 2011).

A espécie de mucura (Marmosa murina) foi a segunda maior abundância dentre

os mamíferos resgatados (N=13), é uma espécie de marsupial de pequeno porte que habita preferencialmente o sub-bosque ou solo cuja dieta é baseada no consumo de invertebrados, frutos, flores e néctar. Está amplamente distribuída pelas regiões da Amazônia e Mata Atlântica, ocorrendo também nas fisionomias florestais do Cerrado em parte dos estados do Piauí, Maranhão, Tocantins, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul (REIS et al., 2011).

Abaixo estão alguns dos representantes da mastofauna amostrada no período (Figura 69 a Figura 73).

Figura 68. Espécime de gambá (Didelphis albiventris) resgatado durante atividade de

supressão vegetal.

Figura 67. Espécime de rato silvestre (Necromys lasiurus) resgatado em área de

Programa de Resgate e Afugentamento de Fauna 43 Figura 70. Espécime de mucura (Marmosa

murina) resgatado em área diretamente impactada pela supressão.

Figura 71. Espécime de rato-do-mato (Cerradomys scotti) resgatado.

Figura 72. Espécime de tatu (Euphractus

sexcinctus) resgatado. Figura 73. Espécime de mucura (Gracilinanus agilis) resgatado.

Figura 68. Espécime de mucura (Gracilinanus

agilis) resgatado. Figura 69. Espécime de mucura (Caluromys lanatus) resgatado em área de supressão.

Programa de Resgate e Afugentamento de Fauna 44

No bioma Cerrado são encontradas 19 espécies de mamíferos endêmicos, valor relativamente baixo quando comparado a outros grupos. O reduzido número de endemismos deve-se ao fato de que o Cerrado partilha a maioria de suas espécies com os biomas adjacentes (MARINHO-FILHO, 2007). Neste contexto, as matas de galeria exercem um papel muito importante, permitindo a movimentação da mastofauna dentro e entre os biomas adjacentes. Em uma perspectiva biogeográfica, CARMIGNOTTO (2004) sugeriu um padrão de distribuição de pequenos mamíferos em cinco regiões faunísticas. Outra peculiaridade da mastofauna está relacionada à distribuição de sua riqueza, sendo maior em áreas abertas do Cerrado (MACHADO et al., 2008).

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