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0 respeito dos media pelo embargo de documentos

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A divulga,ao do relat6rio Hutton foi feita com recurso a um metodo comum: o embargo. Ou seja, os media assinaram um acordo de confidencialidade e comprometeram-se a divulgar o documento numa determinada data, todos ao mesmo tempo. Segundo o Publico Online (28/Janeiro/04), pela primeira vez, os jornalistas que receberam o relat6rio tiveram que fornecer uma lista com os names de todas as pessoas, com quern pretendiam discutir o assunto, e essas pessoas foram avisadas de que n.io deveriam transmitir essa informa<;8o a ninguem. Mesmo assim, o Sun conseguiu ter acesso ao relat6rio, antes de ele ter sido tornado publico. Enquanto Blair se mostrava enfurecido pelo facto de o jornal ter 'furado' a informa�iio do relat6rio, a oposi<;.io acusava o pr6prio Governo de ser o responsavel pela fuga, uma vez que o documento era favora­ vel a imagem de Blair.

0 jornalista do Sun que teve acesso as informa,oes, Kavanagh, citado no

Guardian (28/Janeiro/04), disse que niio teve acesso antecipado ao documento

masque alguem - uma fonte antiga em quern confiava e que tinha como com­ pletamente imparcial- lhe leu parte das conclusi'ies ao telefone. Acusado de ter uma agenda contra a BBC, o Sun defendeu-se dizendo que, se o relat6rio fosse desfavoravel ao primeiro-ministro e niio a BBC, tambem o teria divulgado r antecipadamente. Kavanagh disse que a cobertura do sen jornal a prop6sito das conclusi'ies do relat6rio Hutton foi justa e correcta.

Perante a publica,iio de um resumo do relat6rio antes de o mesmo ter sido tornado publico, o juiz Hutton anunciou que pretendia processar o tabl6ide

Sun. Apesar de o sen Governo ter sido acusado de ser o responsavel pela fuga

de informa,ao, Blair negou tal acusa,ao e apoiou o apuramento de responsa­ bilidades em rela,iio ao assunto.

Questiies

para

o futuro

0 posicionamento da BBC face ao Governo britiinico e a forma como este pretende continuar, ou nao, a interferir na politica editorial da esta,iio publica parecem ser as grandes duvidas para o futuro, lan,adas na imprensa na sequen­ cia do relat6rio Hutton e de todas as demissi'ies causadas pelo caso Kelly. Para Trevor Philips, produtor de televisao e presidente da Comissiio para a Igualdade Racial, as questoes que se colocam siio, numa primeira fase, tres: '1) o Governo tern de deixar a BBC em paz; 2) os administradores da BBC devem ser justos mas devem ter a coragem para (educadamente) dizer aos governantes para se meterem nos seus pr6prios assuntos; 3) os governadores [da BBC] tern de reconstruir a rela,iio entre a esta,iio e a na,ao' (Guardian, 2/Fevereiro/04).

Para Philips, a questiio tern sobretudo a ver com a BBC, argumentando que,

se as pessoas confiarem na BBC, os politicos nao poderao tocar na estac;ao

publica.

No entanto, para Paddy Scannell, a BBC pode correr riscos, uma vez que depende do Governo e que o sector das comunica,6es esta prestes a sofrer remodela,6es legislativas. Para este professor, 'os governos que tern mas rela­ ,oes com a BBC arranjam forma de se vingar' (Publico, 25/Julho/03).

Para a Federa,iio Internacional de Jornalistas, niio e s6 a BBC que esta em causa. Esta Federa,iio considera que 'os efeitos do Relat6rio Hutton podem minar os esfor,os de cria,iio de sistemas de servi,o publico genuinos em outros paises europeus' (DN, 3/Fevereiro/04 ). Assim sendo, mais uma vez toda a pole­ mica do caso Kelly pode ter repercuss6es fora das fronteiras inglesas. Quanta

mais nao seja, este epis6dio deveria servir para que, noutros paises, o assunto

tambem fosse debatido.

Num artigo de apoio a Greg Dyke, a produtora da BBC, Melvyn Bragg, ques­ tionou-se, no Observer (l/Fevereiro/04), sabre como e que o Governo vai poder ter rela,6es transparentes com a BBC e, par outro !ado, coma e que a esta,iio publica vai conseguir voltar a mostrar a sua independencia. Mas, para

esta produtora, a questao essencial e ainda uma outra: 'O que vai acontecer

no nosso pais a insatisfeita, corrosiva e ate destrutiva relac;ao entre os media modernos e a democracia moderna?' Esta

e

uma quest3o de £undo que vai mais longe do que o relacionamento entre um governo e uma estai;iio de televi­ sao em concrete. Poder:i ate, eventualmente, alargar-se a outros paises.

Numa abordagem mais alargada, Martin Kettle conclui que todo este epis6- dio da hist6ria dos media no Reino Unido revela problemas do exercicio do jornalismo que, sendo verdade no caso da BBC e no caso ingles, facilmente se

transportam para outros 6rg3.os de comunica�ao social e para outros pafses

democraticos. Eis o que diz Kettle, num artigo publicado no Guardian (3/ Fevereiro/04): 'Tenda lido o Relat6rio Hutton e quase tudo o que se escreveu

a prop6sito dele, cheguei els seguintes conclus6es, nao judiciais: primeiro, o

epis6dio ilustra uma crise mais profunda no jornalismo britanico do que o tumulto na BBC; segundo, demasiados jornalistas estiio num processo de nega­

�ao dessa crise profunda; terceiro, os jornalistas precisam de ser os primeiros a tentar rectificar essa crise; quarto, o mais certo

e

que tal nao aconte�a.' Kettle conclui: 'A amea�a ao jornalismo moderno e real, mas tern origem, nao s6 no exterior, como tambem no interior. Nao deriva s6 de manipula�Oes,

favoritismos e meias-verdades da desacreditada e parcialmente abandonada cultura spin dos trabalhistas, mas tambem do pr6prio desrespeito dos media pelos factos, do evitavel falhan,o em ser justo, na necessidade de explica,6es

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