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3 RESPONSABILIDADE CIVIL APLICADA

3.2 RESPONSABILIDADE CIVIL AMBIENTAL OBJETIVA E A TEORIA DO RISCO

O instituto da Responsabilidade Civil Objetiva à reparação dos danos impõe ao responsável pelo ato danoso a obrigação de fazer e a obrigação de não fazer (deixar de lançar produtos obsoletos, por exemplo), bem como a indenização pelos prejuízos sofridos pelas vítimas em vista do fato gerador do dano (BUHRING, 2018).

Originalmente, a responsabilidade objetiva exige a reparação do dano independentemente de culpa, responsabilizando o agente por todo ato do qual fosse a causa material. Não indaga o porquê do evento danoso, a indenização é devida somente ao fato de existir a atividade da qual adveio o prejuízo, não admitindo excludentes de responsabilidade, como caso fortuito ou força-maior, a ação de terceiros ou da própria vítima, baseado na teoria de que essas são condições do evento (STEIGLEDER, 2004, p.198).

No caso da responsabilidade ambiental, Vieira e Rezende (2015, p. 71-72) explicam:

[...] o sujeito passivo, ou seja a vítima, é a coletividade, e o objeto do prejuízo é o próprio meio ambiente. Por se tratar de um direito difuso, a proteção ao meio ambiente é ampla. Isto porque os bens protegidos vão além dos naturais, pois a tutela contempla o meio ambiente natural, artificial, cultural e do trabalho.

Segundo o artigo 14, §1º, da Lei n. 6.938/1981, em matéria ambiental, e adotando a teoria da responsabilidade civil objetiva, não há o que se falar em culpa: “Art. 14 – [...] § 1º Sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo, é o poluidor obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade.” (BRASIL, 1981).

Como demonstrado, além da Lei n. 6.938/1981, a Constituição Federal de 1988 e o Código Civil de 2002 também completaram a temática ambiental iniciada, bem como respeitaram o compromisso assumido na Convenção de Estocolmo de 1972, de buscar o meio ambiente equilibrado e a harmonização da qualidade de vida com o meio ambiente.

Nesta mesma linha de pensamento, há de se ressaltar que atualmente o Código Civil brasileiro, em seu artigo 927, parágrafo único, prevê que: “Art. 927. [..] Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.” (BRASIL, 2002)

Portanto, a legislação brasileira exige em diversas normas a proteção do meio ambiente e a responsabilização dos agentes por seus atos danosos e degradadores à natureza. Na teoria objetiva, Machado (2000, p. 273) assevera que:

Não se aprecia subjetivamente a conduta do poluidor, mas a ocorrência do resultado é prejudicial ao homem e seu ambiente. A atividade poluente acaba sendo uma apropriação pelo poluidor dos direitos de outrem, pois na realidade a emissão poluente representa um confisco do direito de alguém respirar ar puro, beber água saudável e viver com tranquilidade [...].

Além disso, no que tange à Lei n. 6.938/1981, não há restrição do regime de responsabilidade objetiva às atividades perigosas, portanto, a responsabilidade pelo risco aplica-se tanto aos danos gerados por atividade perigosa como àqueles desencadeados por uma atividade profissional qualquer, partindo-se da premissa de que quem exerce uma atividade econômica deve arcar com todos os custos atinentes à prevenção e à reparação dos danos ambientais (STEIGLEDER, 2004, p. 201).

No âmbito jurídico, o STJ tem adotado um entendimento de reconhecimento da inversão do ônus da prova processual contra o suposto poluidor, para que ele demonstre que sua atividade não causa danos ao meio ambiente, devendo o empreendedor comprovar que o meio ambiente e a coletividade não estão sujeitos a riscos ou a ameaças de dano (WEDY, 2017).

Restando comprovado que a atividade empresarial é lesiva e causadora de danos ao meio ambiente, o STJ adotou a teoria do risco integral na verificação do dano ambiental. Basta a prova do dano e do nexo causal para que esteja presente o dever de indenizar (WEDY, 2017).

Neste preâmbulo, destacam Vieira e Rezende (2015, p. 72):

Cumpre destacar que a responsabilidade oriunda do dano ambiental é objetiva em função do respeito ao meio ambiente se for baseada em princípios sociais, com caráter difuso, e não individual. Sendo assim, como a culpa é pressuposto para a proteção do

indivíduo, não pode ser inserida no contexto de proteção social do meio ambiente, direito e responsabilidade de todos, governo e sociedade.

Na mesma linha de entendimento da responsabilidade civil objetiva, a teoria do risco integral consolida de forma jurisprudencial a forma de responsabilidade. Compreende que o empreendedor responde por todos os riscos de danos decorrentes de suas atividades, incluindo riscos originados de quaisquer fatos que, sem sua existência, não ocorreriam (MONTENEGRO, 2005, p. 112).

Cunha Júnior (2008, p. 325) afirma:

É a teoria do risco que serve de fundamento para a idéia de responsabilidade objetiva ou sem culpa do Estado. Ela toma por base os seguintes aspectos: (1) o risco que a atividade administrativa potencialmente gera para os administrados e (2) a necessidade de repartir-se, igualmente, tanto os benefícios gerados pela atuação estatal à comunidade como os encargos suportados por alguns, por danos decorrentes dessa atuação. Assim, em suma, e como próprio nome sugere, essa teoria leva em conta o risco que a atividade estatal gera para os administrados e na possibilidade de causar danos a determinados membros da comunidade, impingindo-lhes um ônus não suportado pelos demais. Para compensar essa desigualdade, todos os demais membros da comunidade devem concorrer, através dos recursos públicos, para a reparação dos danos.

A teoria do risco integral preconiza o pagamento pelos danos causados, mesmo tratando- se de atos regulares, intencionais ou não, praticados por agentes no exercício regular de suas funções (CRETELLA, 1972, p. 69).

Em outra vertente, sobre a aplicação da teoria do risco integral na responsabilidade civil por dano ambiental, colhe-se da doutrina de Milaré (2001, p. 428):

A vinculação da responsabilidade objetiva à Teoria do Risco Integral expressa a preocupação da doutrina em estabelecer um sistema de Responsabilidade o mais rigoroso possível, ante o alarmante quadro de degradação que se assiste não só no Brasil, mas em todo o mundo. Segundo essa doutrina do Risco Integral, qualquer fato culposo ou não culposo, impõe ao agente a reparação, desde que cause um dano.

Por outro lado, há doutrinadores, como Ronaldo Brêtas de Carvalho Dias, que rogam severas críticas à admissão da Teoria do Risco Integral no Direito brasileiro, as quais merecem transcrição como se segue:

[…] não se pode considerar correta a afirmação simplista e precipitada de que a teoria do risco administrativo suscita obrigação indenizatória só do ato lesivo e injusto causado à vítima. Bem diversos são os fundamentos dessa teoria. A responsabilidade objetiva pela teoria do risco administrativo exige a ocorrência do nexo de causalidade entre a atividade do Estado e o dano causado como conseqüência. Se não houver esse nexo, exigir-se-á o Estado de qualquer responsabilidade. Porém, na concepção

doutrinária da teoria do risco, jamais se preconizou a responsabilidade do Estado em todo e qualquer caso de dano suportado pelo particular ou se cogitou da impossibilidade de se investigar a causa do evento danoso. Assim, nas situações em que há o fato (ou culpa, como querem alguns doutrinadores) da vítima ou a força maior, reconhecidas pacificamente pela doutrina como causas excludentes da responsabilidade ou situações perturbadoras do liame de causalidade, sob rigor lógico, não foi o Estado quem deu causa ao resultado lesivo, inexistindo liame de causalidade entre a atividade estatal e o dano verificado, portanto, exonerando o Estado do dever indenizatório, sendo estes os fundamentos científicos da moderna responsabilidade objetiva do Estado apoiada na teoria publicista do risco administrativo. (DIAS, 2004, p. 165)

No entanto, apesar das divergências doutrinárias, Vieira e Rezende (2015) esclarecem que está pacificado que aquele que provoca o dano, ou até mesmo contribui para sua existência, deve ser responsabilizado, independentemente de não ter a intenção ou a consciência de que o fato possa ocorrer.

A produção de resíduos sólidos e seu descarte ambientalmente incorreto é um problema atual e relevante. Vive-se em uma sociedade de risco na qual é criada a ficção de um Estado de Direito Ambiental para gerir essa complexidade. Sendo assim, é imprescindível a utilização de mecanismos para responsabilizar os causadores.

Portanto, os danos causados pela obsolescência programada são passíveis de responsabilização ambiental, uma vez que a técnica de programar a diminuição da vida útil do produto gera imensuráveis impactos ao meio ambiente, em função da exploração dos recursos naturais e de toneladas de resíduos produzidas em decorrência do pós-consumo (VIEIRA; REZENDE, 2015).

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