3 MECANISMOS JURÍDICOS DE RESPONSABILIZAÇÃO CIVIL
3.3 RESPONSABILIDADE DA EMPRESA POR DANOS OCASIONADOS
3.4.2 Responsabilidade Civil da Empresa Decorrente do Acidente de
Trabalho
Com efeito, explorando, a indústria Cobrac, atividade de risco à saúde do
trabalhador, o que implicou no ajuizamento de várias ações, que serão analisadas
no capítulo específico, a ela incumbia implementar meios de reduzir os riscos de
acidente do trabalho, propiciando que seus empregados trabalhassem em condições
dignas, saudáveis e seguras. No entanto, não agiu dessa forma, sendo, ao contrário,
totalmente negligente no tocante às medidas mitigadoras do impacto ambiental no
meio ambiente laboral, não tendo sido adotado nenhum procedimento eficaz para
reduzir os riscos da atividade.
Dúvida não resta, acerca do prejuízo sofrido pelos trabalhadores em
decorrência da contaminação por chumbo; desta forma, resta perquirir a
responsabilização dos causadores do dano e a solução jurídica a ser adotada, e
este é o objetivo do presente tópico.
A CF/88 prevê no art. 7º, inciso XXVIII, a responsabilidade do
empregador, fundada no dolo ou culpa, quando assim dispõe:
Art. 7º. São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:
[...]
XXVIII – seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregador, sem excluir a indenização a que este está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa.
Pelo que se depreende do texto acima, a responsabilidade do
empregador é subjetiva, ou seja, depende da prova da culpa, entretanto, esse ponto
de vista não é pacífico, posto que boa parte da doutrina e jurisprudência firmaram
entendimento diferente, conforme será demonstrado a seguir.
Claudio Brandão, afirma:
Por esse motivo, não é lógico, justo ou juridicamente aceitável que seja imputado ao empregado o dever de realizar a prova da existência da culpa, quando, em se tratando de reparação dos
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prejuízos ambientais puros e na condição de mero cidadão, bastaria a demonstração do nexo causal.218
A pergunta que fica, ao se analisar o artigo 7º, XXVIII, da CF\88, é a
seguinte: Será que o legislador constituinte, estabeleceu a responsabilidade civil do
empregador fundada no dolo ou culpa, porque este faz o custeio do Seguro de
Acidente do Trabalho (SAT), cujo percentual varia de 1% a 3% do salário do
empregado?
José Affonso Dellagrave Neto, analisando essa questão diz:
Conforme prevê a legislação em vigor, a contribuição do SAT pela empresa, destinada ao financiamento da aposentadoria especial e dos beneficiários, observa os seguintes percentuais: 1%, 2% ou 3% para a empresa em cuja atividade preponderante o risco de acidente do trabalho seja respectivamente leve, médio ou grave. Estas alíquotas são aumentadas quando a atividade exercida pelo segurado implica na concessão de aposentadoria especial.219
Afirmando ainda que:
Aliás, observa-se, reparações infortunísticas pagas pelo INSS são tarifadas não ressarcidas integralmente o dano emergente e o lucro cessante avindo do acidente; elas buscam somente reparar o prejuízo salarial que se origina da redução da capacidade laborativa, sua incapacidade ou morte. São, pois, soluções que observa um teto laborativo, com vistas e remuneração do trabalhador que, devido ao acidente, diminuiu ou desapareceu.220
O benefício previdenciário decorrente do SAT cobre apenas o prejuízo
mínimo de subsistência da vítima em razão da incapacidade laboral provocada pelo
acidente, enquanto a indenização civil alcança reparação integral (restitutio in
integrum) de todos os prejuízos causados pelo empregador.
221Invoca, o autor citado, em defesa da teoria da responsabilidade objetiva
do empregador, em caso de doença ocupacional ou acidente do trabalho, a súmula
nº 42 da I Jornada de Direito do Trabalho promovida pela Associação Nacional dos
218
BRANDÃO. Acidente do Trabalho e Responsabilidade Civil do empregador. São Paulo: LTr, 2006, p. 397.
219
Responsabilidade Civil no Direito do Trabalho. 3. ed. São Paulo: LTr, 2008, p. 231. 220
Responsabilidade Civil no Direito do Trabalho..., cit., p. 232. 221
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Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra) em parceria com o Tribunal Superior
do Trabalho (TST), que assim dispõe:
Enunciado n. 48: A indenização decorrente de acidente do trabalho ou doença ocupacional, fixada por pensionamento ou arbitrada para ser paga de uma só vez, não pode ser compensada com qualquer benefício pago pela Previdência Social.
Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho, dizem que:
De fato, não há como negar que, como regra geral, indubitavelmente a responsabilidade civil do empregador, por danos decorrentes de acidente do trabalho é subjetiva, devendo ser provada alguma conduta culposa de sua parte, em alguma das modalidades possíveis, incidindo de forma independente do seguro acidentário.222
Os autores sustentam que a regra geral é da responsabilidade subjetiva,
entretanto, tecem considerações acerca dos casos excepcionais, ou seja, aqueles
enquadrados na regra do artigo 927, § único do CC/2002, ou seja quando a
atividade do empregador, por sua própria natureza, implicar em risco a terceiro,
então será aplicada a regra da responsabilidade objetiva, confira-se.
Toda via não podemos descurar da nova regra da parte final do parágrafo único do art. 927 do CC-02, que estabelece uma responsabilidade civil objetiva, quando a atividade normalmente devolvida pelo autor do dano implicar por sua natureza, risco para os direitos de outrem.
A regra parece ser feita sob medida para relação empregatícia, pois, como já exposto é o empregador que deve assumir os ricos da atividade econômica.223
Abordando a questão do acidente do trabalho destacam Gagliano e
Pamplona Filho que, na IV Jornada de Direito Civil da Justiça Federal foi editado o
Enunciado n. 377, com a seguinte redação: “A art. 7º, inc. XXVIII, da Constituição
Federal não é impedimento para a aplicação do disposto no art. 927, parágrafo
único, do Código civil, quando se tratar de atividade de risco”
224.
222
Novo Curso de Direito Civil..., cit., p. 287 223
Novo Curso de Direito Civil..., cit., p. 285. 224
111
Portanto, conclui-se que, nesses casos, ou seja, em atividade de risco,
aplica-se a responsabilidade objetiva, bastando que haja o dano e o nexo de causa,
não havendo que se falar no elemento culpa.
Aplicando esta teoria ao caso COBRAC, em estudo, poder-se-á concluir
que a indústria, portanto, tem a obrigação de reparar todo o dano provocado e,
ainda, o lucro cessante do prejuízo que o empregado venha a ter sofrido, decorrente
do evento danoso. Assim, é possível, então, a indenização em caso de danos
morais e materiais se o acidente provocou para o trabalhador, no caso, a vítima,
prejuízos econômicos e imateriais, que é o caso presente. O que importa é que a
reparação do dano deve ser a mais ampla possível, buscando restituir ao máximo a
situação anterior dos trabalhadores.
No que se refere ao dano material, a indenização decorrente poderá
consistir em um montante fixo ou em uma renda mensal devida até a sobrevida
média de cada trabalhador vitimado pela atividade poluidora da indústria. É o que
resta explícito no art. 602, do Código de Processo Civil (CPC), que prevê: “Toda vez
que a indenização por ato ilícito incluir prestação de alimentos, o juiz, quanto a esta
parte, condenará o devedor a constituir um capital, cuja renda assegure o seu cabal
cumprimento”
225.
Vale esclarecer que cada caso deverá ser apreciado individualmente a fim
de que seja fixada a indenização, verificando-se o montante do prejuízo material
sofrido pelo trabalhador vitimado.
Quanto aos danos morais, sua indenização não representa uma
reparação, pois os bens não materiais não são passíveis de uma valorização
econômica. Contudo, a indenização deve ter o intuito de diminuir a dor sofrida pelo
operário, concedendo-lhe um bem material que lhe proporcione conforto, esperança,
que seja capaz de proporcionar sobrevida, etc. Logo, a condenação em indenização
por danos morais deve ser suficiente para provocar no trabalhador a sensação de
compensação pelo dano sofrido e, para a sucessora da Cobrac, atual Plumbum, o
intuito de punição, a fim de evitar reincidências.
Logo, o dano à pessoa deve caminhar, de forma harmoniosa, ao lado dos
direitos humanos e dos direitos da responsabilidade que têm como fundamento o
225
BRASIL. Lei no 5.869, de 11 de janeiro de 1973. Institui o Código de Processo Civil. DOU, 17 jan. 1973.