3 MECANISMOS JURÍDICOS DE RESPONSABILIZAÇÃO CIVIL
3.1 RESPONSABILIDADE CIVIL
3.1.3 Responsabilidade Civil Objetiva
A Responsabilidade Objetiva se destacou dentro da Responsabilidade
Civil, a partir do século XIX, tendo como momento histórico inspirador a Revolução
Industrial; momento de grande desenvolvimento de produção em massa.
A Revolução Industrial processou-se de forma extremamente intensa,
fazendo com que ocorresse o desenvolvimento em diversas áreas, proporcionando,
assim, conforto, bem-estar e melhor qualidade de vida para o homem. Muito
importante também foram as repercussões sociais, pois, com o desenvolvimento, se
obteve a capacitação do atendimento às necessidades humanas, em função do
aumento da produção industrial e agrícola.
Sobre a Revolução Industrial e sobre o surgimento da Responsabilidade
Civil Objetiva, diz Paulo Sérgio Gomes Alonso:
Foi dentro desse contexto que a responsabilidade civil objetiva tomou corpo, quando o homem foi levado a uma situação de permanente perigo, fruto do enorme desenvolvimento tecnológico experimentado com o implemento da Revolução Industrial, sujeitando-se aos infortúnios, decorrentes dos riscos, sem que pudesse obter a reparação merecida, por não serem adequados aos meios legais para obtê-la.151
150
CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de responsabilidade civil. 6. ed. rev. aum. Rio de Janeiro: Malheiros, 2005, p. 64.
151
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Amparado na teoria desenvolvida por Alvino Lima sobre a evolução do
elemento culpa na responsabilidade civil, Anderson Schreiber escreveu que a
responsabilidade civil estava amparada em três elementos: culpa, nexo de
causalidade e dano. Dessa forma, continua o autor, para que houvesse a reparação
do dano, a vítima deveria demonstrar, necessariamente, além do nexo de
causalidade, a culpa do agente, por vezes, prova extremamente difícil.
152Por ser tão difícil a prova da culpa, a doutrina a chamava de prova
diabólica, pois a vítima deveria demonstrar a falta moral cometida pelo agente, seja
na sua conduta anímica ou na previsibilidade dos resultados da sua conduta,
conforme menciona o autor em estudo.
Contudo, com a industrialização, tornou-se ainda mais difícil a prova da
culpa, posto que o grau de culpa é mínimo, quase imperceptível, muitas vezes
confundido com o caso fortuito ou força maior, o que dificilmente conseguiria
demonstrar o trabalhador, para quem o dano traz consequências severas.
Nesse contexto, não havia como conceber a responsabilização baseada
na velha ideia da culpa, oferecendo três tipos de provas: de dano, de culpa e a
relação de causalidade. Por essas razões, a doutrina, procurando achar uma saída
para a responsabilização civil do agente causador do dano, põe em discussão a
teoria do risco e a responsabilidade objetiva.
153Nesse sentido, conforme José de Aguiar Dias:
Se é relativamente fácil provar o prejuízo, o mesmo já não acontece com a demonstração da culpa. É claro que nos referimos à responsabilidade extracontratual. A responsabilidade contratual não dispensa a prova literal, a menos que, pela natureza do contrato, não exista documento em poder do autor, o que ocorre, por exemplo, nos contratos de adesão, como o de transporte, em que no máximo, haverá a passagem ou bilhete. A vítima tem a sua disposição todos os meios de prova, pois não há, em relação à matéria, limitação alguma. Se, porém, fosse obrigada a provar, sempre e sempre, a culpa do responsável, raramente seria bem-sucedida na sua pretensão de obter o ressarcimento.154
152
SCHREIBER, Anderson. Novos paradigmas da Responsabilidade Civil: da erosão dos filtros da reparação à diluição dos danos. São Paulo: Atlas, 2007, p. 16.
153
Id., ibid. 154
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A nova teoria surgiu do anseio de restabelecer o equilíbrio social, que
parecia estar rompido, da necessidade de maior harmonia entre os interesses
conflitantes e da manutenção da paz social.
Neste sentido, Alvino Lima salientou que:
imprescindível se tornara, para a solução do problema da responsabilidade extracontratual, afastar-se do elemento moral, da pesquisa psicológica, do íntimo do agente, ou da possibilidade de previsão ou de diligência, para colocar a questão sob um aspecto até então não encarado devidamente, isto é, sob o ponto de vista exclusivo da repressão do dano. O fim por atingir é exterior, objetivo, de simples reparação, e não interior e subjetivo, como na imposição da pena. Os problemas da responsabilidade são tão somente os problemas de reparação de perdas. O dano e a reparação não devem ser aferidos pela medida de culpabilidade, mas deve emergir do fato causador da lesão de um bem jurídico a fim de se manterem incólumes os interesse em jogo, cujo desequilíbrio é manifesto se ficarmos dentro dos estreitos limites de uma responsabilidade subjetiva.155.
Em palavras que continuam atuais, em sua obra, desta ainda que
O crescente número de vítimas sofrendo as conseqüências das atividades dos homens, dia a dia mais intensas, no afã de conquistar proventos; o desequilíbrio flagrante entre os criadores de risco poderosos e as suas vítimas; os princípios de equidade que se revoltavam contra esta fatalidade jurídica de se impor à vítima inocente, não criadora do fato, o peso excessivo do dano muitas vezes decorrente da atividade exclusiva do agente.156
Isso foi fator decisivo para a construção da teoria da responsabilidade
sem culpa, onde o que se deve ter em vista é a vítima, a quem deve ser assegurado
o direito à reparação do dano sofrido.
Percebe-se que essa teoria se amolda perfeitamente ao caso da
COBRAC, pois houve exploração dos recursos ambientais, a consequente
degradação do meio ambiente e ofensa à saúde da população santamarense.
Vale acrescentar que, no Brasil, o Decreto nº 2.681, de 7 de dezembro de
1912
157, previa a responsabilidade objetiva das companhias exploradoras de
estradas de ferro, sendo que sua culpa seria presumida, somente excepcionando as
155
LIMA. Culpa e risco..., cit., p. 115-116. 156
Id., ibid.,p. 116. 157
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hipóteses de caso fortuito ou força maior e de culpa do viajante, sem concorrência
do agente explorador da estrada de ferro
158.
O Código Civil de 1916 estabelecia, no artigo 159
159, a regra geral da
responsabilidade subjetiva, pela qual se fazia necessária a comprovação da culpa
para que fosse gerada a responsabilidade pela reparação do prejuízo. Entretanto,
em 1919, surge lei específica para disciplinar o acidente do trabalho que, por
intermédio do art. 1º, considerava acidentes no trabalho:
a) o produzido por uma causa súbita, violenta, externa e involuntária no exercício do trabalho, determinando lesões corporais ou perturbações funcionais, que constituam a causa única da morte ou perda total, ou parcial, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho;
b) a moléstia contraída exclusivamente pelo exercício do trabalho, quando este for de natureza a só por si causá-la, e desde que determine a morte do operário, ou perda total, ou parcial, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho. ( o texto foi transcrito na íntegra, porém com adaptações à gramática atual).160
O artigo 2º do Decreto em comento, afirmava:
acidente, nas condições do artigo anterior, quando ocorrido
pelo fato do trabalho ou durante este, obriga o patrão a pagar
uma indenização ao operário ou à sua família, excetuados
apenas os casos de força maior ou dolo da própria vitima ou de
estranhos” (preservado o texto original, com adaptações à
gramática atual)
.161Na lei citada não havia o requisito da culpa por parte do empregador,
bastando que ocorresse o acidente do trabalho ou doença profissional para que
houvesse o dever de indenizar, adotando, portanto, a teoria do risco profissional.
Portanto, percebe-se que desde os idos de 1912/1919, já haviam leis
prevendo a modalidade de responsabilidade objetiva, desvinculando a obrigação de
reparar o dano sofrido da ideia de culpa, baseando-se na teoria do risco.
158
Art. 17, do Decreto citado. 159
“Art. 159. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência, ou imprudência, violar direito, ou causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano.
A verificação da culpa e a avaliação da responsabilidade regulam-se pelo disposto neste Código, arts. 1.518 a 1.532 e 1.537 a 1.553. (Redação dada pelo Decreto do Poder Legislativo nº 3.725, de 15.1.1919)”. BRASIL. Código Civil. Lei n. 3.071..., cit.
160
BRASIL. Senado Federal. Subsecretaria de Informações. Decreto n. 3.724, de 15 de janeiro de 1919. Regula as obrigações resultantes dos accidentes no trabalho.
161
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A vida moderna evidenciou que a ideia de culpa, pura e simplesmente, é
insuficiente para legitimar o dever de indenizar por danos que não resultem de atos
ilícitos. De acordo com a responsabilidade civil objetiva, o agente arca com a
responsabilidade de sua atividade, independentemente da existência do elemento
subjetivo culpa.
Leciona Cavalieri Filho:
Importa, isso, admitir que também na responsabilidade objetiva teremos uma conduta ilícita, o dano e o nexo causal. Só não será necessário o elemento culpa, razão pela qual fala-se em responsabilidade independente de culpa. Esta pode ou não existir, mas será sempre irrelevante para a configuração do dever de indenizar. Indispensável será a relação de causalidade porque, mesmo em sede de responsabilidade objetiva, não se pode responsabilizar a quem não tenha dado causa ao evento.162
Segundo a Teoria do Risco, toda pessoa que exerce determinada
atividade que cria um risco de dano para terceiros deve ser obrigada a repará-lo,
ainda que sua conduta seja isenta de culpa. Assim, qualquer fato, culposo ou não,
impõe ao agente a reparação, bastando apenas que se tenha causado um dano.
Não cogita indagar como ou porque ocorreu o dano, basta apurar se houve o dano,
vinculado a um fato qualquer, para que a vítima faça jus a uma indenização.
De acordo com Maria Helena Diniz
163, basta que o agente desenvolva a
atividade que possa gerar prejuízo para outrem, mesmo sendo lícita a atividade,
para que ele deva responder pelo risco, exonerando-se o lesado da prova da culpa
do agente, cabendo-lhe tão somente demonstrar o nexo causal.
A Responsabilidade Civil, no Código Civil de 2002, foi concebida não mais
apenas no elemento subjetivo, em que pese este seja a regra geral, mas também
no objetivo. O artigo 927, parágrafo único do mencionado Código reza que “haverá
obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados
em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano
implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem”.
162
CAVALIERI FILHO. Programa de Responsabilidade Civil..., cit., p. 126. 163
DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro. 21. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2007. v. 7: Responsabilidade Civil, p. 51.