2.3 Responsabilidade civil
2.3.2 Responsabilidade civil objetiva
A Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, a qual instituiu a Política Nacional do Meio Ambiente, foi o grande marco legislativo em matéria ambiental na década de 80, instituindo essa espécie de responsabilidade civil em matéria ambiental em seu artigo 14º, parágrafo 1º (DALL’AGNOL, 2005).
Anteriormente aplicava-se a responsabilidade civil subjetiva por danos ambientais, fundada no artigo 159 do Código Civil de 1916, pelo que era necessário demonstrar a ilicitude ou atividade. Ainda, caso vislumbrava-se a ocorrência de mau uso da propriedade com a produção de danos anormais, podia-se invocar a proteção dos direitos de vizinhança (STEIGLEDER, 2004, p. 152).
Essa responsabilidade se funda no risco, no fato de o agente ter causado um prejuízo à vítima ou a seus bens, sendo irrelevante o fato de se estar diante de uma conduta dolosa ou culposa, uma vez que, para sua ocorrência, bastará a existência do nexo causal entre o prejuízo e a ação do agente para que surja o dever de indenizar (DINIZ, 2009, p. 130).
Tem como pressuposto a existência de uma atividade que implique riscos para a saúde e para o meio ambiente, impondo-se ao empreendedor a obrigação de prevenir tais riscos (princípio da prevenção1) e de internizá-los em seu processo produtivo (princípio do poluidor- pagador2) (STEIGLEDER, 2004, p. 196).
Esse tipo de responsabilidade civil teve por principal razão de surgimento a Revolução Industrial, uma vez que, após essa ocorrência, houve exacerbado aumento do número de acidentes, com consequente dificuldade de reparação devido à necessidade de demonstração do trinômio dano, culpa e nexo de causalidade (FIORILLO, 2009, p. 42).
Ela veio a lume em virtude da insatisfação evidenciada com a teoria subjetiva, que era incompatível com o impulso desenvolvimentista de nosso tempo, buscando técnicas hábeis
1 Por este princípio procura-se evitar que o dano ambiental ocorra, através de mecanismos extrajudiciais e
judiciais. É, portanto, a atuação antecipada para evitar danos, que, em regra, são irreversíveis.
2 Por este princípio o poluidor deve responder pelo prejuízo que causa ao meio ambiente. E a sua
responsabilização se dá em forma de pagamento que, por sua vez, pode consistir em uma prestação em dinheiro mesmo, ou em atos do poluidor.
para o desempenho de uma mais ampla cobertura para a reparação dos danos ambientais, surgindo, assim, a teoria objetiva (FIORILLO, 2009, p. 43).
Luiz Júnior (2005) diferencia dois tipos de responsabilidade civil objetiva, a pura e a impura. Para o autor, a reponsabilidade civil objetiva pura é aquela que resulta de ato lícito ou de fato jurídico, assim:
[...] Que resulta de ato lícito ou de fato jurídico, como alguém que age licitamente e, mesmo assim, deve indenizar o prejuízo decorrente de sua ação. Neste caso, a lei deve dizer, expressamente, que o indenizador deve indenizar independentemente de culpa, como nos danos ambientais (art. 14, §1º, da Lei nº 6.938/81), nos danos nucleares (art. 40, da Lei nº 6.453/77) e em algumas hipóteses do Código do Consumidor.
A impura, por sua vez, é conceituada por Luiz Júnior (2005) como sendo a que:
Existe quando alguém indeniza, por culpa de outrem, como no caso do empregador que, mesmo não tendo culpa, responde pelo ato ilícito de seu empregado (art. 1521, III, do Código Civil, e Súmula 341 do Supremo Tribunal Federal).
Ainda segundo Fiorillo (2009, p. 44), sobre a Lei da Política Nacional do Meio Ambiente, cita-se o seguinte:
[...] Anteriormente à Constituição Federal de 1988, a Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº 6.938/81) já previa a responsabilidade objetiva do poluidor em seu art. 14, §1º. Com a promulgação da Lei Maior, tal norma infraconstitucional foi recepcionada, tendo como fundamento de validade o art. 225, §3º, porquanto este não estabeleceu qualquer critério ou elemento vinculado à culpa como determinante para o dever de reparar o dano causado ao meio ambiente. Consagrou-se, portanto, a responsabilidade objetiva em relação aos danos ambientais.
Esse é o entendimento compartilhado por Dall’Agnol (2005):
[...] A própria Constituição Federal de 1988 incorporou a responsabilidade objetiva ambiental proclamada pela legislação ordinária ao mencionar no parágrafo 3º do seu artigo 225 que as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os degradadores a reparar os danos causados, não fazendo qualquer menção da existência de culpa na atuação do agente degradador.
Essa responsabilidade tem como fundamento o princípio da equidade, oriundo do Direito Romano, o qual prevê que aquele que lucra com uma atividade deve responder pelo
risco ou pelas desvantagens dela resultantes, assumindo o agente, assim, todos os riscos, com consequente fim da prática inadmissível da socialização do prejuízo e privatização do lucro (DALL’AGNOL, 2005).
A responsabilidade pelo risco tem uma incidência ampla, pois se aplica tanto aos danos gerados por atividades perigosas como àqueles desencadeados por atividades profissionais quaisquer, pois parte da premissa de que quem exerce uma atividade econômica deve arcar com todos os custos, incluindo os de prevenção e reparação a danos ambientais (STEIGLEDER, 2004, p. 201).
Ela identifica-se entre os juristas nacionais e internacionais como sendo uma tendência manifesta pela adoção da responsabilidade objetiva fundada na teoria do risco integral, que a invocam com fundamento nos princípios do Direito Ambiental, argumentando no sentido de que não deve haver margens de tolerância, dada a natureza metaindividual dos interesses em jogo e sua tutela constitucional, apresentando maior grau de efetividade nos mecanismos de proteção do meio ambiente (MONTENEGRO, 2005, p. 116).
Quanto à adoção da teoria do risco integral na seara ambiental, relata Steigleder (2004, p. 199):
[...] Não é, todavia pacífica, sendo contraposta pela teoria do risco criado, cujo diferencial mais evidente é a admissibilidade das excludentes de responsabilidade civil-culpa exclusiva da vítima, fatos de terceiros e força maior – posto que tais fatos têm o condão de romper o curso causal, constituindo por si mesmos, as causas adequadas do evento lesivo. Essa teoria, alinhada com a teoria da causalidade adequada tem no elemento perigo a sua noção central.
Assim sendo, uma vez constatada qualquer lesão ao meio ambiente natural, torna-se indispensável que se estabeleça uma relação de causa e efeito entre o comportamento do agente e o dano ocorrido, sendo que, no entanto, não é indispensável que seja evidenciada a prática de um ilícito, bastando à demonstração da existência do dano para o qual exercício de uma atividade perigosa exerceu influência causal decisiva (LUIZ JÚNIOR, 2005).
Finalizado o estudo das responsabilidades pertinentes aos crimes ambientais, vou abordar alguns meios de defesa que o direito ambiental disponibiliza quando ocorre o dano ao meio ambiente.
3 INSTRUMENTOS JURISDICIONAIS DE PROTEÇÃO DO MEIO AMBIENTE
Diante da ameaça ou da efetivação de um dano ambiental o Direito Processual Ambiental oferecerá mecanismos de tutela, para a efetiva proteção do meio ambiente. Os instrumentos processuais de proteção ambiental estão divididos nesse trabalho em duas esferas jurisdicionais, a de natureza civil e natureza penal. Não será realizada a análise do processo administrativo punitivo em função de infrações administrativo-ambientais. Os instrumentos de natureza civil a serem abordados nesse trabalho, serão a Ação Civil Pública e Ação Popular, e na esfera penal analisaremos a Ação Penal Pública. Mas existem outras ações que podem ser utilizadas em defesa do meio ambiente como a Tutela Inibitória e Assecuratória, Mandado de Segurança Individual; Mandado de Segurança Coletivo; Mandado de Injunção; Ação Direta de Inconstitucionalidade, Ação Declaratória de Constitucionalidade, além de medidas alternativas ao processo penal em razão de crimes ambientais.