2. A RESPONSABILIDADE CIVIL NA TERCEIRIZAÇÃO TRABALHISTA
2.1 A responsabilidade civil por danos sofridos pelo executor do serviço
Quando se buscou discorrer sobre a Responsabilidade Civil pelos danos sofridos pelo executor do serviço, referia-se exclusivamente aos danos sofridos pelo trabalhador, ou seja, a pessoa natural que presta seu labor a outrem mediante contrato de trabalho, sem confundir-se com a pessoa jurídica definida como contratada e que (através de seus trabalhadores) executa o serviço para a contratante ou tomadora. Feito tal esclarecimento, o que se perseguiu foi de trazer as alterações feitas pela Reforma Trabalhista de 2017, concretizada pela publicação das leis 13.429/17 e 13.467/17, em relação a terceirização trabalhista relacionando tal tema a responsabilidade civil e a quem seria imputado o dever de reparação, considerando as diferentes possibilidades de ofendidos possíveis.
Assim, num primeiro momento tem-se o trabalhador como alvo do evento danoso e, neste caso, a quem seria imputado o dever de reparação? À empresa empregadora ou a empresa tomadora do serviço? São questionamentos que as citadas leis não respondem de maneira clara e objetiva, perpetuando ainda mais a fragilidade do hipossuficiente, a saber o obreiro.
Inicialmente cumpre destacar que até o advento das leis 13.429/17 e 13.467/17, o que estava positivado para regular juridicamente a terceirização trabalhista no Brasil era a súmula 331 do TST, já citada no capítulo anterior e a lei 6.019/74, a qual versa sobre a contratação de trabalho temporário. A lei 13.429/17 é diploma alterador da lei 6.019/74, e a lei 13.467/17 diploma alterador da CLT, além de fazer (também) novas alterações na (já alterada) 6.019/74.
A nova redação da lei 6.019/74 traz a definição de duas formas de terceirização, sendo uma que já existia anteriormente no corpo do texto legal, e que se refere a terceirização para prestação de trabalho temporário, que foi assim (re)definido:
Art. 2o Trabalho temporário é aquele prestado por pessoa física contratada
por uma empresa de trabalho temporário que a coloca à disposição de uma empresa tomadora de serviços, para atender à necessidade de substituição
transitória de pessoal permanente ou à demanda complementar de serviços.(Redação dada pela Lei nº 13.429, de 2017) (BRASIL, 2017)
Para prestação de tal trabalho faz-se necessário uma Empresa de trabalho Temporário, para a qual a legislação especifica os requisitos necessários para o seu funcionamento no artigo 6º da lei 6.019/74, entre eles registro no Ministério do Trabalho e Emprego, Registro na Junta Comercial e comprovação de um capital social de, no mínimo, R$ 100.000,00, independente do número de funcionários que a empresa tenha.
Nesta modalidade de prática terceirizante a impressão que o texto legal repassa, é de que o trabalhador está melhor protegido, pois expressa o artigo 9º no parágrafo 1º: “É responsabilidade da empresa contratante garantir as condições de
segurança, higiene e salubridade dos trabalhadores, quando o trabalho for realizado em suas dependências ou em local por ela designado.” (Incluído pela Lei nº 13.429,
de 2017) (BRASIL, 2017). Daí se extrai o entendimento de que a empresa contratante (que faz uso da mão de obra terceirizada) deverá fornecer aos trabalhadores os Equipamentos de Proteção Individual (EPI), necessários a realização do trabalho contratado, vez que a Reforma Trabalhista autoriza a terceirização de toda e qualquer atividade, seja ela meio ou fim, como já mencionado anteriormente. Não apenas o fornecimento dos EPIs, bem como manutenção das condições necessárias ao desenvolvimento de um trabalho salubre e com manutenção da higiene.
Já o parágrafo segundo do mesmo artigo expressa que: Art. 9º [...]
§ 2o A contratante estenderá ao trabalhador da empresa de trabalho
temporário o mesmo atendimento médico, ambulatorial e de refeição destinado aos seus empregados, existente nas dependências da contratante, ou local por ela designado. (Incluído pela Lei nº 13.429, de 2017) (BRASIL, 2017)
Este dispositivo é de fundamental importância para o obreiro, pois estando ele internalizado na empresa tomadora para prestação do seu trabalho, não poderá sofrer nenhum tipo de tratamento diferenciado em relação aos colegas de trabalho
contratados diretamente pela tomadora. Percebe-se esta importância quando se verifica textos como os encontrados no Dossiê Terceirização e Desenvolvimento (2014) declarando que:
Os acidentes e as mortes no trabalho são a outra terrível faceta da terceirização no país, talvez a mais nefasta. São inúmeros os acidentes e mortes entre os trabalhadores terceirizados computados todos os anos. A conclusão é óbvia para trabalhadores, especialistas e profissionais do trabalho: os trabalhadores terceirizados estão mais sujeitos a acidentes e mortes no local de trabalho do que os trabalhadores contratados diretamente. As empresas não investem em medidas preventivas, mesmo que as atividades apresentem situações de maior vulnerabilidade aos trabalhadores. Basta uma rápida pesquisa na internet para verificar os inúmeros casos de acidentes e mortes de trabalhadores terceirizados noticiados todos os dias. (DOSSIÊ TERCEIRIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO, 2014, p. 23)
Ressalta-se que o mesmo Dossiê (2014, p.24) revelou que no ano de 2011 das 79 mortes ocorridas no setor elétrico, 61 foram de trabalhadores de empresas terceirizadas. Desta forma, a nova redação estende ao trabalhador temporário a igualdade de tratamento por parte do contratante, o qual deverá dar condições de trabalho adequadas ao terceirizado, prevenindo possíveis danos decorrentes de acidentes de trabalho. Pode-se ampliar tal entendimento em relação a responsabilidade civil, pois assim como o texto dos incisos IV e V da súmula 331 do TST, o artigo 10 da lei 6.019/74 em seu parágrafo 7º expressa que:
Art. 10 [...]
§ 7o A contratante é subsidiariamente responsável pelas obrigações
trabalhistas referentes ao período em que ocorrer o trabalho temporário, e o recolhimento das contribuições previdenciárias observará o disposto no art. 31 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991.(Incluído pela Lei nº 13.429, de 2017) (BRASIL, 2017)
Destarte, assim como a contratante é responsável subsidiária pelas obrigações trabalhistas, que porventura não sejam adimplidas pelo empregador, analogicamente também o será pela responsabilidade civil que possa emergir da relação.
definição de duas formas de terceirização de trabalhadores, sendo que o que se tratou até aqui diz respeito a terceirização para trabalho temporário, prestada por empresa de trabalho temporário, a qual já ocorria desde a edição original da lei 6.019/74. A novidade é que o diploma alterador traz agora a Empresa de Prestação de Serviço, fazendo menção da mesma já no artigo 1º da Lei:
Art. 1º As relações de trabalho na empresa de trabalho temporário, na
empresa de prestação de serviços e nas respectivas tomadoras de
serviço e contratante regem-se por esta Lei.(Redação dada pela Lei nº 13.429, de 2017) (BRASIL, 2017, grifo nosso)
Vê-se claramente que o legislador estipulou mais uma forma de prestação de serviço terceirizado, e conforme o artigo 4º-A do diploma alterador:
Art. 4o-A. Considera-se prestação de serviços a terceiros a transferência
feita pela contratante da execução de quaisquer de suas atividades,
inclusive sua atividade principal, à pessoa jurídica de direito privado
prestadora de serviços que possua capacidade econômica compatível com a sua execução.(Redação dada pela Lei nº 13.467, de 2017) (BRASIL, Lei 6.019/74, 2017, grifo nosso)
Neste ponto é que se deve chamar a atenção, pois existem diferenças entre a empresa de trabalho temporário e a empresa de prestação de serviços, a começar pelos requisitos para seu funcionamento. Como dito anteriormente um dos requisitos para por em funcionamento uma empresa de trabalho temporário é de ter um capital social de, no mínimo, R$ 100.000,00. Pois bem, para a empresa de prestação de serviço, o capital social dependerá do número de funcionários que a empresa conta, sendo que conforme as alíneas do inciso III do artigo 4º-B, da nova redação da lei 6.019/74, o mínimo é de R$10.000,00, podendo chegar a R$250.000,00 caso e empresa possua mais de 100 empregados. A grande pergunta é se (supostamente) uma empresa que possua 5 empregados e um capital social de R$10.000,00, teria condições de suportar a reparação civil de um dano causado ao empregado, ou à contratante ou a terceiros?
Outro ponto que chama a atenção é que as empresas de prestação de serviço não precisam ter registro no Ministério do trabalho e Emprego, a exemplo da Empresa de Trabalho Temporário, bastando ter Cadastro Nacional de Pessoa
Jurídica (CNPJ) e registro na junta comercial, dando a impressão de se ter maiores facilidades para iniciar o funcionamento de uma empresa de prestação de serviço em relação a uma empresa de trabalho temporário. Mesmo porque, a empresa de trabalho temporário não pode fornecer força de trabalho terceirizado apenas pela vontade ou gestão da tomadora, mas deve ter presente o requisito da substituição transitória de pessoal permanente ou para atender demanda complementar de serviços, o que não se verifica para colocação de força de trabalho para prestação de serviço, deixando livre a terceirização sem controle.
Quanto as condições de trabalho dos empregados de uma empresa prestadora de serviço, o novo texto legal é dubio, pois ao passo que o artigo 4º-C expressa que:
Art. 4o-C. São asseguradas aos empregados da empresa prestadora de
serviços a que se refere o art. 4o-A desta Lei, quando e enquanto os
serviços, que podem ser de qualquer uma das atividades da contratante, forem executados nas dependências da tomadora, as mesmas condições: (Incluído pela Lei nº 13.467, de 2017) (BRASIL, Lei 6.019/74, 2017, grifo nosso)
E o inciso I e alíneas, do referido artigo, relata da alimentação, da utilização dos serviços de transporte, do atendimento médico ou ambulatorial existente e de treinamento adequado. O inciso II refere-se às condições sanitárias e das medidas de proteção a saúde dos trabalhadores, além de segurança o trabalho e instalações adequadas à prestação do serviço, aparentemente conferindo ao terceirizado as mesma condições que possui o contratado direto.
No entanto, os parágrafos 3º e 4º do artigo 5º-A expressam que:
Art. 5º-A [...]
§ 3o É responsabilidade da contratante garantir as condições de segurança,
higiene e salubridade dos trabalhadores, quando o trabalho for realizado em suas dependências ou local previamente convencionado em contrato. (Incluído pela Lei nº 13.429, de 2017)
§ 4o A contratante poderá estender ao trabalhador da empresa de prestação
de serviços o mesmo atendimento médico, ambulatorial e de refeição destinado aos seus empregados, existente nas dependências da contratante, ou local por ela designado. (Incluído pela Lei nº 13.429, de 2017) (BRASIL, Lei 6.019/74, 2017, grifo nosso).
Assim, não ficou clara a intenção do legislador, pois ora refere que são assegurados aos terceirizados prestadores de serviço as mesmas condições que os contratados diretos, e ora refere que poderá a contratante estender ao terceirizado as mesmas condições.
Já quanto a responsabilidade pelas obrigações trabalhistas assevera o parágrafo 5º do artigo 5º-A:
Art. 5º-A [...]
§ 5o A empresa contratante é subsidiariamente responsável pelas
obrigações trabalhistas referentes ao período em que ocorrer a prestação de serviços, e o recolhimento das contribuições previdenciárias observará o disposto no art. 31 da Lei no 8.212, de 24 de julho de 1991. (Incluído pela
Lei nº 13.429, de 2017) (BRASIL, Lei 6.019/74, 2017, grifo nosso).
Desta maneira, vê-se que o legislador manteve o mesmo tratamento para o terceirizado contratado por uma empresa prestadora de serviço, que havia dado ao terceirizado contratado por uma empresa de trabalho temporário, deixando com responsabilidade subsidiária a empresa tomadora da força de trabalho. Importante é destacar o que referem Capuzzi e Bezerra (2017, p. 29) quando afirmam:
Frisamos que qualquer ilegalidade poderá ser interpretada como fraude, gerando-se vínculo, obedecidos os requisitos, diretamente com a empresa tomadora. E, ainda, que em caso de ausência de pagamento dos valores cabíveis aos trabalhadores haverá a responsabilidade solidária da empresa tomadora (artigo 942, caput, do CC). (CAPUZZI; BEZERRA, 2017, p. 29, grifos nosso).
Assim, pode-se evidenciar no texto legal a responsabilidade subsidiária do
tomador, que, quando estabelecida, impõe ao trabalhador esgotar todas as
possibilidades para depois chama-lo a figurar no polo passivo da lide. Também é possível combinar a legislação especial ao Código Civil e alcançar a
responsabilidade solidária do tomador, neste caso possibilitando ao autor da lide inclui-lo no polo passivo em consequência da solidariedade. Entretanto é fundamental mencionar que ao falar em responsabilidade subsidiária ou solidária, a primeira parte que figurará no polo passivo é a empresa empregadora.