2 A RESPONSABILIDADE SOCIAL DAS EMPRESAS
2.2 RESPONSABILIDADE SOCIAL DAS EMPRESAS EM SOCIEDADES
2.2.1 Responsabilidade e responsabilização: a accountability
O sentido mais rigoroso do termo responsabilidade, segundo Gomes (2004), está relacionado à competência em expor os motivos, apresentar as razões de um argumento, de uma atitude. De tal modo, o grau de responsabilidade de uma pessoa ou instituição deve ser proporcional ao poder e influência que exerçam sobre outros.
Segundo Oliveira (2005), a noção de responsabilidade está fundamentada em dois princípios, a violação de uma obrigação e o prejuízo decorrente desta violação. A partir destes princípios, a autora considera três diferentes divisões do conceito de responsabilidade: civil e penal, contratual e extracontratual, subjetiva e objetiva.
A primeira divisão diz respeito à violação das normas de direito civil e penal. Assim, a responsabilidade civil envolve o ato ilícito que violar uma norma civil, e a responsabilidade penal diz respeito ao ato ilícito que violar uma norma penal. Ambas envolvem sanções, sendo que a civil caracteriza-se pela obrigação jurídica de reparação por meio de indenização, visando à restauração do equilíbrio na sociedade.
A segunda divisão, segundo o autor, pressupõe a existência ou não de contratos firmados entre as partes envolvidas na violação das normas. Logo, o dever de cumprir as obrigações decorre, respectivamente, ou do contrato ou apenas do preceito legal, sem que exista, neste último caso, qualquer relação entre as partes.
Já a terceira divisão está relacionada à necessidade de comprovação de culpa por parte do agente violador. A responsabilidade será subjetiva, quando a obrigação de reparar o dano depende da comprovação da culpa para responsabilizar o agente causador. A responsabilidade será objetiva se o agente se submeter ao risco de causar o dano, e neste caso, comprovando-se o dano, a culpa é presumida.
A responsabilidade define qual é a conduta própria de um agente na sociedade. No que tange à responsabilidade social, é possível identificar uma estreita relação desta com a questão da cobrança por posturas éticas. Nesse sentido, o termo responsabilização parece ser o mais adequado para representar as formas de garantir o cumprimento das premissas inerentes ao termo responsabilidade social.
Em um estado democrático, é fundamental o desenvolvimento da consciência popular. A falta de organização da sociedade civil e de transparência nas organizações democráticas do governo dificulta o controle do público sobre o poder. O termo accountability surgiu relacionado aos mecanismos de responsabilização do setor público perante suas obrigações, que pode ser expresso de forma tangível no ato do voto (CARNEIRO e COSTA, 2001).
Oliveira et al (2005) afirmam que, historicamente, o conceito de accountability emergiu no âmbito político-administrativo dos países anglo-saxônicos e que encontrou eco no Brasil a partir da definição dos direitos e deveres do cidadão, da sociedade, do Estado, do mercado e das formas de regulação social. Promulgadas na Constituição Federal em 1988, estas questões foram demarcadas pelo viés da responsabilidade social, da democracia e da solidariedade social.
Os autores ressaltam que esta Constituição também previu o controle social ou público em relação ao Estado e ao mercado por parte da sociedade visando resguardar o interesse coletivo e o bem comum. Foi este contexto que favoreceu o uso no Brasil do princípio político denominado accountability, termo do inglês, que pode ser traduzido como o ato de “contar”, “conferir” ou “prestar contas” (OLIVEIRA
Carneiro e Costa (2001) afirmam que o tema da accountability permeia o debate acerca da qualidade das democracias e de seu desempenho, seja do ponto de vista da legitimidade, seja do ponto de vista da eficiência da ação governamental, determinando a qualidade das relações entre governo e cidadão.
Schedler (1999) define duas conotações básicas que o termo accountability suscita: a capacidade de resposta (answerability) dos governos, ou seja, a obrigação que os ocupantes de cargos têm de informar e explicar seus atos e a capacidade das agências de accountability de aplicar punições (enforcement) aos que violam estas obrigações através de sansões como a perda do poder. Assim, para o autor, o processo de accountability pode ser entendido da seguinte maneira: A é responsivo (accountable) a B quando A é obrigado a informar B quanto às ações e decisões de
A (passadas e futuras), a justificá-las e a sofrer punições no caso de eventuais
falhas de conduta.
O autor afirma que o exercício da accountability só tem sentido se remete ao espaço público, à existência de poder, e à consequente necessidade de controlar este poder. Apesar de enfatizar que o poder não pode ser totalmente controlado, Schedler (1999) identifica três formas de prevenir o abuso do poder: informação, justificação e punição.
A informação – obrigar que o poder seja exercido de forma transparente – e a justificação – forçar que os atos dos governantes sejam justificados – estão ligadas ao conceito de answerability. Já a punição – sujeitar o poder ao exercício das sanções – remete à capacidade de enforcement. Estas três dimensões podem ou
não estar juntas para que existam atos de accountability.
Há ainda, a classificação da accountability quanto aos seus diferentes alvos. A accountability vertical é aquela exercida pela sociedade, dos governados em direção aos governantes. Um exemplo são as eleições periódicas, quando a população tem o poder escolher em quem votar e assim “punir” políticos irresponsáveis, não votando neles. Já a accountability horizontal é exercida entre iguais – os poderes judiciário, legislativo e executivo – e pressupõe a existência de agências independentes capacitadas para controlar e punir as irregularidades através de ações que vão desde a supervisão de rotina a sanções legais ou até mesmo o impeachment (O´DONNEL, 1998).
A existência da accountability é uma conquista da democracia e representa a possibilidade de controle da sociedade sobre as ações de seus governantes. O
conceito de accountability relaciona-se com o conceito de responsabilidade, uma vez que este define qual é a conduta esperada de uma pessoa ou instituição e aquele engloba os mecanismos de controle para garantir que essa conduta seja cumprida.
É possível aplicar esta noção de responsabilização à temática da responsabilidade social das empresas, atribuindo a estas a possibilidade de serem passíveis de accountability, assim como os governos. Desta forma, serão apresentados a seguir dois dos principais agentes que podem fazer uso de mecanismos para garantir a responsabilização das empresas em uma sociedade democrática: os cidadãos organizados e a mídia, sendo que a última será desenvolvida no item 2.3.
2.2.1.1 Accountability das empresas por parte da sociedade
Segundo o relatório da ANDI (2007), toda política pública, em um regime democrático, implica demonstração de algum grau de accountability por parte dos seus responsáveis. Sendo assim, esta demonstração será mais provável na medida em que os atores responsáveis por exercer este controle estejam externos ao processo.
O relatório alerta que é dever da sociedade e especialmente da mídia, acompanhar o desenvolvimento oficial de projetos, sua continuidade, idoneidade e resultados. Da mesma forma que a sociedade e a mídia são apontadas como agentes ativos da accountability dos governos, também podem ser considerados agentes ativos da accountability das empresas. Assim, ao se relacionar a temática da responsabilidade social das empresas ao conceito de accountability, amplia-se este, entendendo-o não só como a forma de responsabilizar o governo pelos seus atos, mas também as empresas.
No que concerne o papel da sociedade como agende de accountability das empresas, Gobbi (2008) acredita que há uma aparente desinformação nacional sobre a questão da responsabilidade social empresarial. É verdade que muitas pessoas reconhecem a importância do tema, mas a autora afirma que poucas sabem de forma exata o significado do termo. Também são poucas as que podem apontar o que as empresas de fato estão fazendo nesse sentido. Todavia, o público
também tem responsabilidades perante as questões sociais.
Gobbi (2008) alega que a população, de forma geral, precisa se engajar nestas questões para então cobrar os compromissos de responsabilidade assumidos pelas empresas e veiculados pela mídia. Baldissera e Sólio (2008) acreditam que cabe à sociedade a vigilância constante sobre a conduta das organizações e suas consequências, pois enquanto o público se eximir deste papel estará sendo ele mesmo antiético e cúmplice das possíveis irresponsabilidades das empresas. O papel do cidadão como agente de accountability das empresas torna-se, então, central para a garantia da responsabilidade social destas.
Sobre a questão do cidadão contemporâneo, Wolton (2006) acredita que dois fenômenos concomitantes devem ser considerados: o primeiro diz respeito ao grande volume de informações trocadas entre indivíduos cada vez mais informados em sociedades cada vez mais democráticas. O segundo fenômeno é que nestas sociedades democráticas o cidadão é também um consumidor confrontado com escolhas cada vez mais numerosas.
Neste cenário, os indivíduos são hiperestimulados a agirem como consumidores e hipoestimulados a agirem como cidadãos, dificultando o engajamento da sociedade no debate público da temática da responsabilização. Diante disso, surgem os questionamentos sobre como as pessoas podem assumir o papel de agentes da sociedade, o que remete ao conceito de esfera pública, abordado a seguir.