A saúde e a segurança da pessoa (incolumidade físico-psíquica) são as maiores preocupações do CDC. A Seção I deste diploma legal cuida da proteção à saúde e também da segurança do consumidor. A preocupação que se revela é com o lançamento de produtos e serviços no mercado que não ofereçam riscos ao consumidor. Os riscos aqui devem ser considerados os imediatos (diretos) e os mediatos (via transversa), como, por exemplo, danos ao meio ambiente (arts. 37, par. 2º e 51, XIV, ambos da esfera ambiental).
Assim, o Código impõe ao fornecedor (i) o dever de diligência – consistente em não colocar produtos no mercado que tragam riscos à saúde ou insegurança para os consumidores – e (ii) o dever de informação concernente às condições do produto antes e depois de sua colocação no mercado, independentemente de qualquer vínculo contratual.
A seção II do CDC trata da responsabilidade do fabricante pelo fato do produto e do serviço. No art. 12 está disciplinado que:
O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o importador respondem, independentemente de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação, apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos.
No parágrafo 1º o legislador fixou alguns critérios para aferir os defeitos dos produtos (cláusula geral) ao dispor que:
O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele legitimamente se espera, levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais: I – sua apresentação; II – o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam; III – a época em que foi colocado em circulação.
Dessas disposições infere-se que os defeitos apresentados pelos produtos podem ser agrupados em três categorias principais: a) defeitos provenientes da fase de fabricação do produto e que atingem apenas alguns exemplares de determinada série; b) defeitos oriundos da concepção técnica do produto e que afetam toda a série de produção; e c) defeitos decorrentes da falta de informação ou instrução adequada sobre os riscos oferecidos por certo produto.
O artigo 14 desta mesma seção prescreve que:
O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores pelos defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.
Da mesma forma, o parágrafo primeiro deste artigo traz subsídios para aferir defeitos nos serviços:
O serviço é defeituoso quando não fornece a segurança que o consumidor dele pode esperar, levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais: I – o modo do seu fornecimento; II – o resultado e os riscos que razoavelmente dele se esperam; III a época em que foi fornecido.
Nesse contexto, pode-se afirmar que responsabilidade pelo fato do produto ou do serviço (vício de qualidade por insegurança) é a derivada dos acidentes de consumo (danos extrapatrimoniais do consumidor) e para que ela incida é necessária a presença de três elementos básicos: (i) o fato ou o defeito do produto; (ii) o dano emergente ou iminente (que pode ser patrimonial ou moral ou os dois) e (iii) o nexo causal ou a relação de causalidade entre o defeito e o evento danoso.
A diferença entre os artigos 12 e 14 do Código de Defesa do Consumidor reside no fato de que na responsabilidade pelo fato do produto o legislador especificou os responsáveis (fabricante, produtor, construtor e o incorporador), na responsabilidade pelo fato do serviço usou a expressão fornecedor, que inclui todos os responsáveis (solidariedade) da cadeia produtiva.
Roberto Senise Lisboa, a respeito, ensina que:
Responsabilidade pelo fato do produto e serviço (produção do bem ou prestação do serviço170) é aquela que advém de um acidente de
consumo, ou seja, de um evento que acarreta, ao menos, danos morais ao consumidor. No acidente de consumo, o produto ou o serviço apresenta um vício exógeno ou extrínseco, isto é, um defeito que extrapola a própria substância do bem e ofende a vida, a saúde (higidez física e psíquica) ou a segurança do consumidor (art. 6º, da Lei 8.078/90) [grifos no original].171
A expressão “fato do produto” já era conhecida e pode ser entendida como dano causado por defeito apto a ensejar responsabilidade ao fornecedor (Código Civil). O fato do serviço não se confunde com o defeito e seu dano172, não há fato do produto, apenas vício. Além disso, é preciso que este dano seja decorrente do defeito do produto. É oportuno, no entanto, lembrar que a expressão “fato do serviço” foi introduzida no ordenamento pátrio pelo próprio diploma consumerista.
170 Definição de MAZZILLI, Hugo Nigro. A defesa dos interesses difusos em juízo. 20. ed. São Paulo:
Saraiva, 2007, p. 567.
171 LISBOA, Roberto Senise. Responsabilidade civil nas relações de consumo, p. 272.
172 Por dano deve-se entender os patrimoniais, extrapatrimoniais (morais), danos emergentes e lucros
A propósito, pontuou James Marins:
[...] fato do produto é a manifestação danosa dos defeitos juridicamente relevantes, que podem ser de criação, produção ou informação (defeito), atingindo (nexo causal) a incolumidade patrimonial, física ou psíquica do consumidor (dano), ensejando a
responsabilidade delitual, extracontratual, do fornecedor,
independentemente da apuração da culpa (responsabilidade objetiva) [grifos no original].173
Importante repisar que nesse contexto, a responsabilidade é objetiva, isto é, estando presentes os pressupostos acima mencionados, o fornecedor será responsabilizado pelo simples fato de ter colocado o produto no mercado, independentemente de ter agido ou não com culpa ou dolo.
Na responsabilidade pelo fato do serviço a ressalva que deve ser feita é quanto aos profissionais liberais, os quais, segundo o artigo 14, parágrafo 4º, têm a sua responsabilidade pessoal apurada mediante a verificação de culpa (responsabilidade subjetiva).
O profissional liberal, para ser beneficiado por esta norma, deve ser aquele escolhido pelo consumidor (intuitu personae), com base na confiança e na capacidade. Caso este profissional liberal integre uma pessoa jurídica ou preste serviços a pessoas jurídicas a sua responsabilidade (que deixa de ser pessoal) é objetiva.
Quadra também, neste tema, distinguir as obrigações de meio e de resultado quando a tarefa é aferir a responsabilidade do profissional liberal. Assim, quando ele for escolhido pelo consumidor (intuitu personae) e sua obrigação for de resultado, a sua responsabilidade é objetiva; quando se tratar de obrigação de meio aplica-se a regra do artigo 14, parágrafo 4º do CDC (verificação de culpa).
A responsabilidade do comerciante, caracterizando uma hierarquia, é sucessiva (ou subsidiária como entende parte da doutrina). O comerciante só será
173 MARINS, James. Responsabilidade da empresa pelo fato do produto. vol. 5. São Paulo: Instituto
Brasileiro de Política e Direito do Consumidor, Biblioteca do Direito do Consumidor, Revista dos Tribunais, 1993.
responsabilizado pela reparação quando: 1) o fabricante, o construtor, o produtor ou o importador não puder ser identificado; 2) o produto não oferecer uma identificação clara do fabricante, do construtor, do produtor ou do importador; 3) quando o comerciante não conservar corretamente os produtos perecíveis.174
O Código de Defesa do Consumidor também criou expressamente, por meio do artigo 7º, parágrafo único, o princípio geral da solidariedade entre os causadores do dano (que deve decorrer de lei ou da vontade das partes, segundo o Código Civil). Por esta regra, o consumidor poderá exigir de qualquer um dos causadores do dano a indenização devida, não estando sujeito a discussão interna sobre a repartição da responsabilidade, resguardado o direito de regresso (art. 13, parágrafo único).