• Nenhum resultado encontrado

14.4 A ATIVIDADE BANCÁRIA

14.4.1 Responsabilidade pelo Pagamento de Cheque Falso

De conhecimento geral que a responsabilidade civil se origina do descumprimento da lei (aquiliana) ou da vontade das partes (contratual), podendo se operar em virtude da culpa do agente (subjetiva) ou mesmo sem ela (objetiva).

Diante desse quadro, quanto ao tema em exame, vacilam, ainda, doutrina e jurisprudência, ora colocando o problema no âmbito contratual, ora no extracontratual, e ainda sem decidir se no campo da culpa ou no campo do risco da atividade, para se alcançar a solução da lide intentada pelo cliente contra o banco para reaver a quantia sacada de sua conta por meio de cheque com assinatura falsificada, sem que tenha concorrido para o engodo do estelionatário.

Entendendo que, indubitavelmente, a questão se põe no direito dos contratos, Carlos Roberto Gonçalves chama a atenção para que muitos julgados ainda se baseiam na culpa para a solução desses litígios, resumindo a situação jurisprudencial da seguinte maneira: “quando nem o banco nem o cliente têm culpa, a responsabilidade é do primeiro, excluindo se ou mitigando se nos casos de, respectivamente, culpa exclusiva ou concorrente da vítima”.283

O entendimento deu origem à súmula 28 do Supremo Tribunal Federal: >

( %

Como dito, não obstante o entendimento consolidado da Suprema Corte, três são as teorias a respeito do assunto: a da culpa, a contratualista e a do risco profissional.

Ora, pela teoria da culpa, a situação teria o encaminhamento clássico, ou seja, examinar se ia a falta de cautela do banco no pagamento da cártula falsificada, presumindo se sua culpa, que somente seria excluída pela culpa exclusiva da vítima, segundo o verbete da súmula acima transcrita, encampada também no seguinte aresto:

283

Todas as vezes em que o falsário apresenta ao banco um saque com assinatura falsificada, a vítima visada é o banco e não o correntista, cuja assinatura falsificada é apenas um meio para a consecução do fim. Quem recebe o cheque é o banco e não o correntista; quem o examina é o banco; quem pode exigir, ou dispensar provas de identidade, é o banco. O correntista está alheio a tudo; ignora que alguém se apresenta com um cheque em que, aparentemente, figura a sua assinatura. Nenhuma providência pode tomar para evitar o êxito do criminoso. Se a falsidade for descoberta oportunamente, nenhum prejuízo sofrerá o banco; se for bem sucedida, é ele a vítima. A regra da responsabilidade do banco desaparece, ou fica atenuada, se prova que o depositante concorreu com dolo ou culpa para o evento (RT, 169:614).

Pela teoria contratualista, com a adesão de Carlos Roberto Gonçalves, em linhas gerais, o banco seria reconhecido como depositário da quantia sacada pelo falsário e, assim, obrigado à imediata restituição.284

Sérgio Cavalieri Filho faz uma distinção interessante: “em relação aos clientes, a responsabilidade dos bancos é contratual; em relação a terceiros, a responsabilidade é extracontratual”.285 Nestes termos de formulação, então, no caso tratado neste item – o pagamento de cheque falso – o banco responderia segundo o direito negocial, enquanto no item abaixo referente ao envio do nome de terceiros aos cadastros de inadimplentes em virtude de conta aberta por estelionatário utilizando se dos documentos da vítima, esta teria direito à indenização decorrente da responsabilidade aquiliana.

Ainda, Cavalieri Filho resolve o problema da seguinte maneira: “O dinheiro indevidamente entregue ao estelionatário é do banco, a ele cabendo, portanto, suportar o prejuízo, segundo o milenar princípio ”286.

Interessa a este trabalho, especialmente, por óbvio, a teoria do risco profissional, fundando se no pressuposto de que o banco, ao exercer a sua atividade com fim de lucro, assume o risco dos danos que vier a causar, recaindo a responsabilidade sobre aquele que aufere os cômodos (lucros) da atividade, segundo basilar princípio

da teoria objetiva: .287

Já em 1978, Washington de Barros Monteiro apontou como tendência acolhida pelo Supremo Tribunal Federal o risco como lastro da imputação ao banqueiro da

284 * * * * , p. 368. 285 & - * * +* * , p. 385. 286 Ibidem, p. 388. 287

responsabilidade pelo pagamento de cheques falsificados, independentemente de culpa, em aresto transcrito na Revista Forense 96/73.

Pode se afirmar, bem acompanhado por Caio Mário da Silva Pereira, que a tendência de nossos Tribunais, no caso em exame, é agravar a responsabilidade dos bancos, impondo, seja pela teoria da culpa pura, pela teoria da culpa presumida ou pela teoria do risco profissional, o dever indenizatório à instituição financeira.288

Desde o início da década de 1980, a jurisprudência já caminha, cada vez em passos mais largos, ao reconhecimento da responsabilidade aquiliana objetiva em virtude da atividade profissional de risco:

Os bancos respondem pelo risco profissional assumido, só elidindo tal responsabilidade a prova, pela instituição financeira, de culpa grave do cliente ou de caso fortuito ou força maior (1º TACSP, 7ª C., Ap. Rel. Luiz de Azevedo, j. 22.11.83, RT, 589/143).

Não provada a culpa do correntista, mas a do banco, é deste a responsabilidade pelo pagamento de cheque falso, uma vez que é o estabelecimento bancário quem assume o risco e a obrigação de vigilância, garantia e segurança sobre o objeto do contrato (1º TACSP – 3ª C. – Ap. – Rel. Souza Lima – j. 13.06.84 – RT, 596/136).

E assim é até os dias de hoje:

DIREITO CIVIL – INSTITUIÇÃO BANCÁRIA – LEI Nº 8.078/90 – RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA – CEF – TALÃO DE CHEQUE ENTREGUE A TERCEIROS – DANO AO CORRENTISTA – NEXO DE CAUSALIDADE – DANO MORAL CONFIGURADO – DIREITO À INDENIZAÇÃO – 1. A Lei nº 8.078/90 Código de Defesa do Consumidor , inclui a atividade bancária no conceito de serviço (art. 3º, § 2º), estabelecendo como objetiva a responsabilidade contratual do banco (art. 14), que se funda na teoria do risco do empreendimento, segundo a qual todo aquele que se dispõe a exercer alguma atividade no campo do fornecimento de bens e serviços, tem o dever de responder pelos fatos e vícios resultantes do empreendimento, independentemente de culpa. 2. 6

, do conjunto probatório constante dos autos, verifica se que realmente um talão de cheques do Autor foi entregue ao correntista ORLANDO TADEU DE ALCÂNTARA, o qual declarou que, "por volta do ano de 1997, ao requisitar um talão de cheques perante a Caixa Econômica Federal, agência 620, em Belo Horizonte, me foi entregue um talonário do Sr. MARCELO PAES MENEZES, também cliente daquela agência e que o equívoco só foi desfeito após terem sido utilizados aproximadamente 10 (dez) folhas do referido talonário. Constatado o erro, compareci naquela agência, devolvi o talão parcialmente utilizado, onde recebi a informação de que a situação já estava regularizada e que os valores dos cheques indevidamente utilizados, tinham sido debitados na minha conte corrente". 3. Infere se dos autos, também, que o cheque do Banco Real pertencente à parte autora não foi aceito em estabelecimento comercial, em virtude de seu nome constar em "Lista Negra" de devedores. 4. Se os riscos do negócio

288

correm por conta do empreendedor e resta configurado na espécie o nexo de causalidade entre a conduta negligente da CEF e o dano provocado ao Autor, correta a condenação ao pagamento de indenização por danos morais, cujo direito à reparação foi expressamente reconhecido na Constituição Federal de 1988 (art. 5º, V e X), que além de ínsito à dignidade humana, é reconhecido como fundamento da República Federativa do Brasil (art. 1º, III). 5. Segundo critérios sugeridos pela doutrina e jurisprudência, os quais prevêem que a fixação do valor indenizatório pelo dano moral deve levar em conta as circunstâncias da causa, bem como a condição sócio econômica do ofendido e do ofensor, de modo que o valor a ser pago não constitua enriquecimento sem causa da vítima, e sirva também para coibir que as atitudes negligentes e lesivas não venham a se repetir, merece ser mantida a quantia de R$ 4.000,00 (quatro mil reais), a ser paga pela CEF. 6. Nos termos da sentença, o fato de o Autor ocupar o cargo de Juiz Federal do Trabalho não torna o seu constrangimento maior ou menor do que o de qualquer outro cidadão, sobretudo porque não está o fato ligado a sua atuação funcional, razão pela qual merece ser improvida a pretensão recursal de majoração da indenização por dano moral. 7. Apelações conhecidas e improvidas. (TRF 2ª R. – AC 2001.51.03.000505 1 – RJ – Rel. Juiz Guilherme Calmon – DJU 04.10.2006 – p. 181).

Vê se, assim, a introdução cada dia maior da responsabilidade pela atividade de risco no âmbito da reparação civil decorrente do pagamento de cheque sem a devida provisão de fundos na conta do correntista.