5- O PROCESSO DE HIPOCORIZAÇÃO DE ANTROPÔNIMOS COMPOSTOS
5.2 ANÁLISE VIA OTIMALIDADE
5.2.3 Restrições de acento
a)
*á]
PWd: palavras prosódicas (PWd) terminadas (]) em ‘a’ não podem ser oxítonas. Pela formalização, portanto, a vogal [a] não pode receber acento quando em posição de final de palavra prosódica.b) IAMBO: todos os pés devem ser iâmbicos, ou seja, devem apresentar cabeça à direita. Isso significa que, nesta análise, assim como no processo anterior, o pé não é o troqueu, como no sistema de hipocorização default, analisado por Gonçalves (2005). A exceção que se faz a isso está nas palavras terminadas em –a, que são constituídas por pés trocaicos.
5.2.4 Restrição de alinhamento
a) ALINH Pwd1[
E,
Pwd2[
D: alinhe a sílaba inicial do primeiro nome (PWd1) à esquerda da sílaba inicial do segundo nome (PWd2).A seguir, em (06), a hierarquia proposta leva à redução, visto que a hipocorização é o processo responsável pelo encurtamento de antropônimos, mas garante mínima fidelidade ao nome composto:
(06)
(1) TODO-PÉ (D) ; (2) ANALISE->> (3) ONSET ; (4) CODA-COND [glide] ; (5) *
á]
PWd >> (6) IAMBO >> (7) ALINH Pwd1[
E,
Pwd2[
D >> (8) *COMPLEXComo se sabe, o hipocorístico deve constituir palavra mínima na língua e, por isso, as restrições de tamanho devem dominar a hierarquia. Dessa forma, as restrições TODO-PÉ (D) e ANALISE- atuam em conjunto e dominam a hierarquia de restrições.
A restrição ONSET, dominada por (1) e (2), obriga todos os candidatos a output a preencherem a posição de onset. Sendo assim, o antropônimo ‘André Luís’, por exemplo, apresenta como output ótimo a forma ‘Delú’, posto que a primeira sílaba de ‘Anlú’ não preenche a posição de ataque, como obriga a restrição (3).
Atuando em conjunto com ONSET está a restrição CODA-COND [glide]. A observação de todas as formas ótimas colhidas nos testes revela que, de maneira geral,
nenhum hipocorístico do padrão em estudo neste capítulo admite elementos na posição de coda. O único hipocorístico que permite um elemento na posição de coda é ‘Mabél’, que admite um glide na posição de coda na segunda sílaba. Para dar conta da emergência de ‘Mabél’ como output ótimo, foi necessária a colocação de CODA-COND [glide] no ranking (ver análise de ‘Mabél’ no anexo 4).
Dando seqüência, a restrição de acento (5) proíbe que formas terminadas em –a sejam acentuadas nessa vogal, isto é, não podem ser oxítonas. Dessa maneira, antropônimos como ‘Luís Carlos’ e ‘João Carlos’ produzem formas como ‘Lúca’ e ‘Jóca’, e nunca ‘Lucá’ e ‘Jocá’.
Outra restrição acentual na hierarquia é IAMBO. Viola essa restrição o candidato que não apresentar pés iâmbicos, isto é, pés que apresentem cabeça à direita. Como exemplo, pode-se analisar o antropônimo ‘Carlos Artur’. O hipocorístico correspondente ao antropônimo é ‘Catú’, já que ‘Cátu’ infringiria essa restrição acentual e, pela regra de neutralização, a vogal da segunda forma de base não seria idêntica à especificada no input8. Como se sabe, hipocorísticos terminados em –a não são iâmbicos e, por conta disso, a restrição *
á]
PWd está acima de IAMBO na hierarquia, pois, dessa forma, um candidato como ‘Jocá’, para ‘João Carlos’, é eliminado antes de ser avaliado por IAMBO, já que essa restrição permitiria que o candidato ‘Jocá’, que não é o ideal, permanecesse na disputa.A seguir, em (7), tem-se uma restrição de alinhamento. Segundo essa restrição, a primeira sílaba do primeiro nome deve ser aliada à primeira sílaba do segundo. Pode-se afirmar, então, que, no padrão em questão, há a junção de duas bases que se encurtam, formando o hipocorístico. Dessa maneira, um candidato como ‘Jotís’, para ‘João Batista’,
8
Desse modo, formas não terminadas por –a com acento não-final também violariam IDENT, um restritor que exige estrita identidade de traços entre formas subjacentes e de superfície.
viola essa restrição pelo fato de ter rastreado a segunda sílaba do segundo nome, e não a primeira sílaba, como determina a restrição.
Por fim, o restritor *COMPLEX não permite a formação de grupos consonantais na posição de onset. Sendo assim, ‘Carlos André’ tem como hipocorístico ‘Cadé’, e não ‘Cardré’. Como se pode notar, o ataque complexo ‘dré’ foi simplificado, tornando-se ‘dé’.
5.2.5 Análise dos antropônimos
Passa-se, a seguir, à análise otimalista dos antropônimos selecionados: ‘Maria Luíza’, ‘Carlos Artur’, ‘Carlos André’ e ‘Eduardo Carlos’. É importante salientar que, da mesma forma que foi feito na análise do padrão anterior, só serão disponibilizados no tableau, por uma questão de concisão, candidatos dissílabos ou trissílabos, o que torna
desnecessária a colocação de TODO-PÉ (D) e ANALISE-na hierarquia, pois essas restrições reguladoras de tamanho inibem candidatos trissílabos ou polissílabos, que não aparecerão nos tableaux. Contudo, faz-se necessário ressaltar, mais uma vez, que essas restrições são indispensáveis à análise, visto que estão diretamente relacionadas ao fato de os hipocorísticos constituírem palavras mínimas na língua e, portanto, não poderem apresentar mais de um pé.
A seguir, em (07), apresenta-se o tableau com a análise de ‘Maria Luíza’9.
9
No anexo 4 desta dissertação, apresento os tableaux com as análises otimalistas dos demais antropônimos disponibilizados em (01) neste capítulo.
(07)
/Maria Luíza/ ONSET C-C [voc] *
á]
PWd IAMBO ALINH *COMPa. [(ma.lú)]
b. [(má.lu)] *!
c. [(ri.lú)] *!
d. [(ma.zá)] *! *
e. [(lú.ma)] *! *
Como se pode verificar no tableau, nenhum candidato viola ONSET e CODA-COND [vocálica], pois os cinco apresentam a posição de ataque silábico preenchida e não possuem coda. O primeiro candidato a deixar a disputa é ‘mazá’, pelo fato de infringir a restrição que proíbe palavras oxítonas terminadas em –a. A restrição IAMBO elimina ‘málu’ e ‘lúma’, já que estes candidatos apresentam cabeça à esquerda, sendo, portanto, pés trocaicos, e não iâmbicos. O último candidato a deixar a disputa é ‘rilú’, que descartou a primeira sílaba com onset do primeiro nome, violando, dessa forma, ALINH10. Além de ‘rilú’, os candidatos ‘mazá’ e ‘lúma’ também transgridem ALINH. Nesse momento da análise, ‘Malú’ já emerge como output ótimo, em virtude de todos os demais candidatos já terem sido eliminados. Nenhum candidato infringe a restrição *COMPLEX, pois nenhum deles apresenta onset complexo.
Abaixo, em (08), disponibiliza-se a análise do antropônimo ‘Carlos Artur’.
10
Esse candidato também deixaria um tepe na posição de início de palavra prosódica, o que não corresponde aos padrões fonotáticos da língua.
(08)
/Carlos Artur/ ONSET C-C [voc] *
á]
PWd IAMBO ALINH *COMPa. [(ca.tú)]
*b. [(car.túr)] *!* *
c. [(cá.tu)] *! *
d. [(ca.rár)] *!
e. [(ca.ár)] *! *
Como se nota na análise acima, o candidato ‘caár’ é o primeiro a deixar a disputa pelo fato de não apresentar a posição de ataque preenchida na segunda sílaba, infringindo, dessa forma, ONSET. Além disso, esse candidato viola, ainda, CODA-COND [glide], pois apresenta, na segunda sílaba, um elemento que não é semivogal na posição de coda, apesar de satisfazer ALINH, ranqueada mais abaixo.
Em CODA-COND [glide], mais dois candidatos são eliminados da disputa: ‘cartúr’, que apresenta duas codas que não são glides, e ‘carár’, que apresenta uma coda que também não é semivogal. O candidato ‘carár’ não infringe ALINH, assim como ‘caár’, mas a restrição de alinhamento é dominada pelas restrições de marcação (silábicas).
O candidato ‘cátu’, por apresentar cabeça à esquerda, viola IAMBO e, por esse motivo, deixa a disputa. Nesse ponto da análise, emerge como output ótimo, portanto, ‘Catú’, forma considerada como hipocorístico de ‘Carlos Artur’. Da mesma forma como na análise em (07), nenhum candidato infringe *COMPLEX.
(09)
/Carlos André/ ONSET C-C [voc] *
á]
PWd IAMBO ALINH *COMPa. [(ca.dé)]
*b. [(ca.dré)] * *!
c. [(car.dé)] *! *
d. [(ca.rân)] *!
e. [(ca.ân)] *! *
Na análise em (09), o primeiro candidato a deixar a competição é ‘caân’, já que, como a segunda sílaba não apresenta ataque, viola ONSET. Além de ONSET, ‘caân’ infringe também CODA-COND [glide], pois apresenta uma nasal em coda. Como se vê, a perfeita satisfação a ALINH leva à violação de restritores mais bem cotados.
Os candidatos ‘cardé’ e ‘carân’ saem da disputa em CODA-COND [glide], pois os dois apresentam elementos que não são glides na posição de coda. A partir desse momento da análise, apenas permanecem na disputa os candidatos ‘cadé’ e ‘cadré’. O candidato vencedor só vem à tona após a avaliação pela última restrição do ranking, *COMPLEX, uma vez que ambos violam o alinhamento para satisfazer as condições de boa formação silábica. Como *COMPLEX proíbe grupos consonantais na posição de ataque silábico e ‘cadré’ apresenta um encontro consonantal na sílaba ‘dré’, o candidato apontado em (b) no tableau viola essa restrição, e ‘Cadé’ vem à superfície como output ótimo, ou seja, como
hipocorístico de ‘Carlos André’.
(10)
/Eduardo Carlos/ ONSET C-C [voc] *
á]
PWd IAMBO ALINH *COMPa. [(dú.ca)]
* *b. [(du.cá)] *! *
c. [(du.cár)] *! *
d. [(ê.ca)] *! *
e. [(dú.los)] *! * **
Como se pode verificar em (10), a restrição ONSET é a responsável pela eliminação do candidato ‘êca’, o único que atende o alinhamento, já que este não apresenta a posição de ataque preenchida na primeira sílaba. Esse candidato também infringe IAMBO, por apresentar cabeça à esquerda.
Na seqüência, os candidatos ‘ducár’ e ‘dúlos’ deixam a competição por violarem CODA-COND [glide], visto que os dois possuem, na segunda sílaba, um segmento que não é semivogal em coda. O candidato ‘dúlos’, além dessa violação fatal, ainda transgride IAMBO e ALINH. Sendo assim, a partir desse momento da análise, apenas dois candidatos permanecem na disputa: ‘dúca’ e ‘ducá’.
A restrição acentual *
á]
PWd é responsável pela eliminação de ‘ducá’, pelo fato de esse candidato ser um oxítono terminado em –a. Nesse momento, portanto, emerge como vitorioso o candidato ‘Dúca’, mesmo violando IAMBO, pois IAMBO está abaixo de *á]
PWd na hierarquia. É interessante observar o funcionamento do ranking, pois, para que‘Dúca’ viesse à tona como output ótimo de ‘Eduardo Carlos’, foi necessário que a restrição *
á]
PWd estivesse mais bem cotada que IAMBO na hierarquia.Uma comparação das análises morfoprosódica e otimalista do padrão de hipocorização de antropônimos compostos evidencia a superioridade da OT em questão de concisão. A análise via Teoria da Otimalidade é bem menos custosa que a análise derivacional via Morfologia Prosódica, apesar de a análise morfoprosódica ser bastante refinada e elegante. Como se pode perceber, a análise através da Morfologia Prosódica é feita em estratos derivacionais ordenados, sendo chamada, por conseguinte, de serialista. No processo em questão, são necessários três estágios, além da formulação de uma regra de acento, no final da derivação. A análise otimalista é paralelista, o que significa dizer que a análise é feita sem necessidade de estratos ou ciclos e, no caso do padrão de hipocorização em estudo neste capítulo, um conjunto de apenas seis restrições consegue acolher todos os dados rastreados.